Regularidade! Regularidade! Fraternidade! Fraternidade!
Já estamos em Setembro e é hora de voltar às Lojas. Alguns questionam-se e pensam em suspender a sua frequência. Um pouco de cansaço, preocupações pessoais, mudanças na vida. A motivação está a esmorecer. É preciso dizer que o clima geral é bastante desorientador, para onde quer que se olhe, tanto de perto como de longe. Nestas circunstâncias, pode-se ter a tendência de se fechar em si mesmo. É preciso reagir.
Em primeiro lugar, a prática regular da Maçonaria continua a ser um poderoso antídoto contra a tristeza e um bom tratamento complementar para as melancolias mais profundas.
Refiro-me a uma prática regular, não no sentido das obediências que se arrogariam o reconhecimento exclusivo da regularidade, mas no sentido de uma prática que segue fielmente o seu calendário.
A regularidade remete, certamente, para a constância que se coloca na pesquisa e na aplicação das regras que se pretende seguir. Trata-se de uma disciplina saudável do espírito, mesmo que nem sempre se perceba, no momento, um alcance concreto possível, especialmente quando se atravessa, pessoalmente ou no seu ambiente, períodos conturbados, ou seja, quando se sente um pouco desamparado diante dos acontecimentos que se vive. No entanto, este trabalho contínuo sobre si mesmo ajuda a não afundar ainda mais e a manter uma consciência mais adequada às situações que somos chamados a viver e, se possível, a transformar.
Por fim, a regularidade engloba e coroa as duas aceitações anteriores quando se trata de qualificar essa paciência que às vezes chamamos de equanimidade, ou mesmo de reviver em si mesmo esse fundo de sabedoria que as tradições imemoriais nunca deixaram de ensinar aos homens, com, como sabemos, um sucesso muito modesto. E é por esta razão que não se pode conceder à barbárie, à estupidez e à cegueira o lamentável abandono de um ideal que conseguiram conservar, apesar de tudo, seres sobre os quais se abateram imensas calamidades. É aí, aliás, que se estabelece a ligação com a fraternidade.
A fraternidade resulta, em primeiro lugar, dessa solidariedade original sem a qual a espécie humana não teria podido aprender nem progredir, forjando e aperfeiçoando ferramentas ao longo dos séculos e de vários milénios.
É assim, aliás, em segundo lugar, que não se pode restringir essa fraternidade apenas aos laços de parentesco natural ou de amizade íntima que unem pessoas que se conhecem, mas que, além disso, gostaríamos de ver reinar entre tribos e povos numa aspiração comum à justiça e à paz – até ao sonho que nos habita intimamente de sermos capazes de amar todos os homens ou, pelo menos, de aceitar que isso seja possível, independentemente das culturas, crenças e convicções, sabendo que, de forma irredutível, o outro é nosso semelhante nos aspectos fundamentais da sua vida.
É por isso que, em terceiro lugar, não podemos empregar melhor a nossa inteligência do que cultivar as condições de entendimento e harmonia, ou seja, respeitar-nos mutuamente e viver juntos num mundo por natureza diverso, mas num espírito de clemência e concórdia. Será ingénuo empenhar-nos nisso incansavelmente, tanto mais que não esquecemos – cruel evidência – que a obra da civilização, em todas as épocas e sob todos os céus, nunca deixou de ser acompanhada por guerras?
Para terminar, devo-vos uma confidência sobre a minha inspiração de hoje: um dos primeiros irmãos, já experiente, com quem eu tinha feito amizade alguns meses antes da minha iniciação, há mais de quarenta anos, afirmou com gravidade que havia três regras na maçonaria: «regularidade, regularidade e regularidade! », convidando-me a reflectir sobre isso ao longo da minha trajectória. Quando, vinte e cinco anos depois, aos setenta e seis anos, ainda atravessava Paris inteira de metro para ir para a Loja, lembrei a este querido Robert D. a sua frase ternária, fingiu-se surpreendido e cantarolou como se fosse um refrão, suavizando a voz::
“Hoje, eu diria: fraternidade, fraternidade e fraternidade!”
Dedico esta crónica à sua memória porque, além de lhe ser devedor, as suas palavras simples, que marcaram um quarto de século, continuam a me guiar.
Christian Roblin
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
