Reflexões sobre a “escola” chamada Maçonaria
Introdução
Discorrer sobre Educação Maçónica é, sem dúvida, uma missão hercúlea. E as dificuldades são de origens variadas. Podemos começar citando a própria definição de Maçonaria.
Pesquisa realizada, no Brasil, em 2018 pela CMI (Confederação Maçónica Interamericana), apontou que 95% dos maçons regulares não sabem definir o que é Maçonaria.
Em RIGOLI (2020) temos:
“A Maçonaria é uma espécie de universidade onde os seus membros aprendem a ser líderes e a praticar virtudes mais nobres que um homem pode e deve vivenciar. (pg. 34)”
Já Albert Pike, na sua obra “Moral e Dogma”, define a Maçonaria como
“um belo sistema de moralidade, velado em alegorias e ilustrado por símbolos.”
A Grande Loja Unida de Inglaterra declara, na sua página na Internet, que…
“A associação é aberta a pessoas de todas as origens e o objectivo da organização é capacitar os membros para que sejam o melhor que podem ser. O objectivo é construir carácter, apoiar os membros como indivíduos e ajudá-los a fazer uma contribuição positiva para a sociedade.” (grifo nosso)
A Grande Loja Maçónica do Estado de São Paulo, no Item VI do seu preâmbulo, declara:
| VI – a Maçonaria, além de combater a ignorância, constitui-se em uma escola, impondo-se o seguinte programa: obedecer às leis democráticas do País; atender aos ditames da honra; agir dentro dos princípios da justiça; amar fraternalmente o próximo; trabalhar pelo aprimoramento moral do homem.
e dentre os seus princípios: VI – exigir dos seus membros boa reputação moral, cívica, social e familiar. (…) IX – combater o fanatismo, as paixões, o obscurantismo e os vícios. (grifo nosso) |
Deste enunciado, infere-se que o legislador estabelece um programa com alguns itens bastante ambiciosos, mas interessa-nos, especialmente para os objectivos deste trabalho, uma menção: “trabalhar pelo aprimoramento moral do homem”
Costuma-se também ouvir que a Maçonaria torna homens bons ainda melhores, que estes concorrem para a melhoria do meio em que vivem. Sabe-se, porém, que a caminhada para que estas metas sejam satisfatoriamente atendidas demanda muitas ramificações.
Em tese um candidato ao ingresso nas fileiras da Fraternidade Maçónica já deve possuir uma série de atributos mínimos que vão desde a crença num princípio criador até a exigência de ser “livre e de bons costumes”. São critérios basilares para legitimar um profano a receber a simbólica Luz.
O facto de ser livre contempla não só a liberdade corporal (resquícios de uma época onde as práticas escravistas ainda eram uma realidade), mas, hodiernamente e fundamentalmente, a liberdade de consciência. E o que seria isso? Bem, se entendemos que mente livre é aquela que se distancia dos preconceitos, do fanatismo e da ignorância, logo temos que assumir que uma mente livre é dotada de conhecimentos suficientes para ter um juízo de valor cristalino sobre o mundo. Certamente uma condição idealizada, considerando-se o impacto da nossa educação e vivências sobre as perspectivas que desenvolvemos.
O Grande Oriente do Brasil, no seu Regulamento Geral da Federação, exige outros requisitos, no seu Art. 1º, que o candidato à admissão na Ordem:
- seja de bons costumes e de reputação ilibada;
- possua, no mínimo, instrução de ensino fundamental completo ou equivalente e que seja capaz de compreender, aplicar e difundir os ideais da instituição;(grifo nosso)
No entanto, apenas a base cognitiva não parece ser suficiente para a garantia de um juízo aceitável sob os aspectos éticos e humanos. Se assim fosse a sociedade não teria casos de assassinos em série extremamente inteligentes e cultos.
Liberdade e Bons Costumes precisam actuar em conjunto, em harmonia. Duas asas saudáveis para um voo perfeito. O conhecimento irá gerar bons frutos a partir do momento em que a Ética, a Temperança, a Empatia, a Razoabilidade e tantas outras virtudes fertilizarem o seu solo.
Ou seja, os “Bons Costumes” parecem não se limitar à observância das práticas sociais de uma cultura ou época. Lembremo-nos que já foi prática aceita socialmente a escravização de pessoas, a submissão da mulher, a selectividade do direito a voto por critérios financeiros e tantas outras situações que, hoje, são obsoletas ou totalmente execráveis.
Entendemos os “Bons Costumes” como a prática das Virtudes que posicionam o indivíduo num lugar de prestígio na sua colectividade. Não necessariamente prestígio financeiro ou de poder, mas um lugar onde os seus pares o admirem e identifiquem nele muito mais qualidades que vícios, de acordo com os ditames morais de cada específico contexto histórico, cultural, geográfico etc.
Isto posto, se um candidato possui liberdade cognitiva e virtudes suficientes para fazê-lo merecedor de ingresso nas nossas fileiras, o que será que ele espera aprender num dito “sistema de moralidade”? O que essa pretensa escola tem a agregar num carácter já forjado para o bem?
Ora, se partimos da premissa de que os escolhidos para iniciação já possuem características de valor, essa só pode ser uma caminhada de aperfeiçoamento! De lapidação! E eis que entra em cena a simbologia da Pedra Bruta, que pode ser imperfeita, mas que já passou por um processo de escolha!! Ela não é uma pedra qualquer! E já traz em si a Pedra Polida! Esta já existe em potência dentro daquela, bastando que os excessos, as asperezas, as lascas sejam removidas.
Tomamos pois a liberdade de afirmar que a Maçonaria não é um reformatório! Esta Fraternidade não tem a menor obrigação de converter maus caracteres em homens dignos ou tornar iletrados em expoentes de conhecimento.
Ela é, sim, uma oficina de escultura moral. Não se presta a transformar Pedras mal seleccionadas, mas produzir uma obra de arte com base numa matéria-prima já selecta. Por isso o processo de escolha pede zelo extremo! Não apenas do Proponente, mas da Oficina que receberá esta pedra.
A nossa Fraternidade apresenta também muitas frentes de trabalho disponíveis aos diversos perfis, inclinações, habilidades e gostos dos seus membros. Saliente-se que o nível de formação educacional dos Maçons é consideravelmente alto. Uma pesquisa realizada pela Grande Loja Maçónica do Estado de São Paulo (GLESP, 2019), com mais de 15.000 Irmãos activos, indicou o seguinte quadro relativo aos graus de escolaridade dos Irmãos:
- Ensino Fundamental: 1%
- Ensino Médio: 16%
- Ensino Superior: 46%
- Pós/Mestrado: 34%
- Doutorado: 3%
Outra informação a considerar, ao pensarmos em Educação Maçónica, é o panorama etário dos nossos quadros. Esta mesma pesquisa nos apresenta o seguinte:
Idade dos Irmãos (anos)
- 21 a 29 – 1,6 %
- 30 a 39 – 14,2 %
- 40 a 49 – 24,1 %
- 50 a 59 – 27,0 %
- 60 a 69 – 2,6 %
- 70 a 79 – 9,2 %
- >80 – 1,3 %
Considerados estes dados, e com base na classificação de DIMOCK (2019), temos uma nítida divisão de gerações na Maçonaria Brasileira: uma considerável parcela, composta maioritariamente pela geração Baby Boomer (55 a 73 anos) e outra composta pelas gerações X e Y (Millennials). O primeiro grupo naturalmente ocupa as posições de maior hierarquia na Fraternidade e a realidade mostra um conflito entre estas gerações em face das suas características, valores e interesses.
Isso posto, voltamos para a questão focal: qual seria a “grade curricular” ideal para um processo de formação educacional maçónico? Ou, em termos mais directos, o que ensina ou deve ensinar a Maçonaria?
Não é trivial, numa instituição que, apesar de se proclamar universal, é tão diversa ao redor do globo, estabelecer-se um padrão de objectivos. E, certamente, um conjunto de conhecimentos só pode ser considerado ideal ou apropriado quando conhecemos de forma clara estes objectivos. Parafraseando Lewis Carroll: “quando não se sabe o destino, qualquer caminho serve” [1]. Ou seja, gira o mundo e acabamos sempre retornando à raiz de quase todos os males: a falta de um planeamento.
Natural que a resposta à nossa questão-chave seja tanto mais precisa quanto menor o universo analisado, partindo-se da Maçonaria Universal para abranger cada nação, cultura, região, passando pelas Obediências e chegando às Lojas. E, nestas, ainda há um trabalho monumental a ser desenvolvido, pois cada Oficina apresenta um perfil peculiar e é composta por corações e mentes com as mais variadas visões, opiniões, níveis culturais, inclinações etc.
A Maçonaria tem princípios gerais. As diversas Obediências possuem as suas constituições, leis, normas e até mesmo regras não escritas mas reconhecidas e observadas pela tradição. E, por fim, as Lojas também possuem os seus regimentos internos e a sua “personalidade”, construída através do tempo e do convívio entre os seus membros.
E uma Loja Maçónica que, além destas peculiaridades comuns às demais, trabalhe sob a bússola de um Planeamento de longo prazo, bem elaborado e incorporado ao ideário dos seus membros, certamente terá, entre os tópicos deste planejamento, um módulo exclusivamente voltado para a Educação Maçónica do seu quadro, desde o momento da escolha dos candidatos até o pós-veneralato. Enfim, as questões em epígrafe não possuem respostas uniformes. A Maçonaria não dispõe da uniformidade necessária para estabelecer uma grade curricular universal. Ou seja, a resposta sempre dependerá do objectivo do planeamento pactuado entre os Obreiros de cada Oficina.
Mas isso não nos impede de tentar colaborar e, para tanto, apresentamos uma proposta, a qual detalharemos doravante.
Quem ensina? Quem aprende?
Antes de respondermos a estas questões convém reflectir sobre algumas características dos integrantes das gerações que formam os nossos quadros. Segundo SILVA (2022), podemos sintetizá-las da seguinte forma:
Geração Baby Boomer: Mais adaptados a relacionamentos hierárquicos, ponderados, perseverantes, dedicados e leais às organizações em que actuam. Por terem nascido no pós-guerra têm forte sentimento nacionalista e ideias relacionados à reconstrução.
Geração X: Mais flexíveis a mudanças, buscam ambiente mais informal e hierarquicamente menos rígido. Tendem a buscar melhor formação académica visto que muitos destes iniciaram as suas carreiras sem educação formal de nível superior.
Geração Y: Individualistas, ambiciosas, instáveis, interessadas com o meio ambiente e práticas sustentáveis, com o colectivo e com os direitos humanos. São multitarefas e possuem habilidade de lidar com novas tecnologias. Possuem dificuldades em lidar com hierarquias, disciplina e compromissos com horários e prazos, em contrapartida, possuem velocidade de resposta a estímulos, criatividade em busca de novas formas de fazer as coisas e são questionadores.
Obviamente que este é um quadro genérico e, sem dúvida, encontraremos membros de uma geração com características de outra, mas é importante que se mantenha esta perspectiva do todo.
Não raro nos deparamos, seja na nossa Loja, em outras Lojas ou em inúmeros relatos de Irmãos com os quais nos relacionamos ao longo da caminhada maçónica, com situações onde os neófitos nem sempre encontram um ambiente preparado (sob vários aspectos) para recebê-los. E, sendo uma geração naturalmente mais questionadora, também não é raro percebermos conflitos entre a expectativa anterior à iniciação e a realidade após a aceitação nos nossos quadros.
Facto é que há excepções, mas nem todo iniciado encontra uma estrutura andragógica [2] pronta para indicar-lhe minimamente o caminho a seguir diante do universo de conhecimento e possibilidades que se descortinam à sua frente, possibilidades que, por desconhecimento e falta de orientação, muitas delas sequer são imaginadas.
Ao se deparar com a estrutura dos três graus simbólicos constituídos de Aprendizes, Companheiros e Mestres, é absolutamente natural deduzir-se que estes últimos são os condutores dos demais e isso é expressamente afirmado não só em inúmeros Rituais Maçónicos, como na estrutura administrativa e na legislação, que reserva determinadas atribuições exclusivamente a Mestres e outras apenas aos Mestres Instalados (ou ex-Veneráveis como é usual em alguns Ritos). Mas esse protagonismo na Formação Maçónica não é lugar-comum entre os Mestres.
Em determinados Ritos e Obediências Maçónicas o interstício [3] mínimo entre Aprendiz e Companheiro é de 07 (sete) meses e entre Companheiro e Mestre, de 05 (cinco) meses. Então podemos ter a situação de um Maçom que, em cerca de um ano após iniciado, chega ao mais alto grau da Maçonaria Simbólica, recebe a alcunha de Mestre e, em tese, está capacitado para orientar os demais Irmãos, desempenhar cargos em Loja e outras atribuições e funções inerentes ao trabalho maçónico. Ou seja, um Mestre que é forjado num quarto do tempo que se leva para muitos cursos de graduação. Obviamente que não se pode esquecer da condição simbólica destes graus. Da mesma forma que não se pode cobrar maestria de um Irmão em tão pouco tempo, não se pode menosprezar a formação dos Aprendizes. Mas muitos Mestres esquecem desta simbologia.
Considerando-se as condições para iniciação já mencionadas, é fácil perceber que muitos dos neófitos já possuem considerável bagagem cultural, vivencial, profissional; enfim não podem ser subestimados ou desrespeitados nas suas capacidades cognitivas. A “novidade” nas suas vidas é o conhecimento Maçónico e, ainda assim, alguns são iniciados sabendo muito mais de Maçonaria que muitos Irmãos com bom tempo de Fraternidade. Se não sobre a nossa estrutura e detalhes ritualísticos, pelo menos no que tange à história da nossa Fraternidade.
Isto posto, dois grandes eixos de trabalho se mostram adiante: um deles é o processo de admissão, que pode e deve ser muito aprimorado, e o outro é a reforma do nosso Templo Interior, literalmente! A nossa estrutura precisa ser lapidada e adaptada aos perfis destas novas Gerações pois elas nos trazem novas demandas. Há que se reduzir ao máximo o grande degrau entre expectativa e realidade pós iniciação dos nossos novos Irmãos, pois isso é uma garantia de permanência e redução de Evasão.
Em alguns Ritos os Vigilantes recebem a atribuição (além das que a legislação já lhes imputa) de conduzir a aprendizagem dos Irmãos das suas colunas, mas temos sinceras dúvidas sobre a eficácia deste modelo. Diversas questões podem ser levantadas: um Irmão eleito para o cargo de Vigilante estará automaticamente pronto para esta missão educativa? Terá disponibilidade e interesse em realizá-la? Terá sequer a noção da responsabilidade que está assumindo? Terá (importantíssimo) preparo para bem conduzir os seus orientandos?
A convicção primeira é que os Mestres são os responsáveis natos por este trabalho, mas nem todos estarão aptos, inclinados e principalmente dispostos a assumir a responsabilidade de conduzir os Irmãos. Faz-se necessário que, preferencialmente direccionados por um diligente planeamento, encontrem, como boas e polidas pedras, o seu lugar na Grande Obra. Todos temos os nossos talentos e temos muito a oferecer das nossas capacidades e habilidades neste processo de melhoria interna da nossa Fraternidade e desenho do caminho a ser seguido pelos Aprendizes não até o Mestrado, mas por toda a vida Maçónica. A condição de Mestres não nos exime do constante aperfeiçoamento pessoal.
A multiplicidade de frentes laborais na Maçonaria exige igual multiplicidade de capacidades e, neste trabalho, nos concentraremos naquelas ligadas directa ou indirectamente à Educação Maçónica. Nem todo Mestre tem gosto, habilidade, capacidade ou inclinação para a docência ou para o trabalho de Mentoria [4]. E isso é absolutamente natural numa Loja que reúne múltiplas formações e perfis. Cabe, assim, à Administração da Oficina monitorar os talentos dos Irmãos, designando-os, de forma adequada, para as diversas tarefas, cargos e funções existentes para o bom funcionamento da Loja. A identificação eficaz de Irmãos preparados para a docência/mentoria ou desejosos de obter esta capacitação, é o alicerce, a fundação, da Educação Maçónica.
Como ensinar?
O público de educandos num ambiente maçónico é totalmente diverso do que encontramos nos bancos do ensino médio ou superior.
Se no ambiente académico tradicional investe-se na Pedagogia, no campo maçónico o trabalho de construir conhecimento pode e deve ter outra denominação: Andragogia.
Andragogia é a arte e a ciência de orientar ou facilitar a aprendizagem dos adultos. O termo foi popularizado pelo educador americano Malcolm Knowles (1913-1997), considerado o “pai da andragogia”, em diferenciação à pedagogia (arte e ciência de ensinar crianças). Segundo TEIXEIRA (2025),
A andragogia faz as seguintes suposições sobre o modelo de aprendizagem:
- Adultos precisam saber porque têm de aprender algo;
- Adultos precisam aprender experimentalmente;
- Adultos abordam a aprendizagem como resolução de problemas e
- Adultos aprendem melhor quando o tópico é de valor imediato.
E ele prossegue enumerando as premissas pedagógicas da andragogia, a saber:
- Necessidade de conhecer. Aprendizes adultos sabem, mais do que ninguém, da sua necessidade de conhecimento e para eles o como colocar em prática tal conhecimento no seu dia a dia é factor determinante para o seu comprometimento com os eventos educacionais.
- Autoconceito de aprendiz. O adulto, além de ter consciência da sua necessidade de conhecimento, é capaz de suprir essa carência de forma independente. Ele tem capacidade plena de se autodesenvolver.
- O papel da experiência. A experiência do aprendiz adulto tem importância central como base de aprendizagem. É a partir dela que ele se dispõe, ou se nega a participar de algum programa de desenvolvimento. O conhecimento do professor, o livro didáctico, os recursos audiovisuais, etc., são fontes que, por si mesmas, não garantem influenciar o indivíduo adulto para a aprendizagem. Estas fontes, portanto, devem ser vistas como referenciais opcionais colocados à disposição para livre escolha do aprendiz.
- Prontidão para aprender. O adulto está pronto para aprender o que decide aprender. A sua selecção de aprendizagem é natural e realista. Em contrapartida, ele se nega a aprender o que outros lhe impõe como a sua necessidade de aprendizagem.
- Orientação para aprendizagem. A aprendizagem para a pessoa adulta é algo que tem significado para o seu dia a dia e não apenas retenção de conteúdos para futuras aplicações. Como consequência, o conteúdo não precisa, necessariamente, ser organizado pela lógica programática, mas sim pela bagagem de experiências acumuladas pelo aprendiz.
- Motivação. A motivação do adulto para aprendizagem está na sua própria vontade de crescimento, o que alguns autores denominam de “motivação interna” e não em estímulos externos vindo de outras pessoas, como notas de professores, avaliação escolar, promoção hierárquica, opiniões de “superiores”, pressão de comandos, etc.
Isto posto, uma proposta de Educação Maçónica não pode prescindir da observação destas peculiaridades se realmente visar uma formação de qualidade nos conteúdos entendidos como necessários a uma caminhada Maçónica Justa e Perfeita.
O Educador Maçónico deve deixar claro aos seus orientandos o valor empírico dos conhecimentos que irão buscar e o seu alinhamento com os objectivos da Fraternidade. Deve promover no seu orientando a iniciativa e a busca pela auto-suficiência intelectual nesta caminhada, estabelecendo uma relação mais horizontal e fraterna que uma vertical e hierárquica. Deve, também, ter a sensibilidade necessária e/ou ter ferramentas de prospecção das inclinações e vivência do seu orientando. A partir desta base, é preciso que se predisponha a adequar a sua orientação, aproveitando esta experiência e harmonizando-a com as propostas de aprendizagem, indicações literárias, artísticas ou culturais ligadas directa ou indirectamente aos objectivos da formação Maçónica.
Além disso, a Educação Maçónica precisa ser motivadora, persuasiva e significativa. Não estamos lidando com crianças e, lembremos sempre, o Grau de Aprendiz é simbólico! Os nossos neófitos trazem consigo, via de regra, um cabedal de informações e conhecimento que pode surpreender e superar em muito o dos seus Mestres. A harmonização entre este valioso conteúdo de vida e os conhecimentos genuinamente Maçónicos, se realizada de forma eficiente, irá gerar valiosos frutos tanto para a vida Maçónica do neófito quanto para a sua vida profana. O homem melhora, e o seu meio, o seu entorno, o seu círculo de relacionamentos é, em maior ou menor grau, alavancado por esta melhoria.
Uma prática que, no nosso entendimento, pode ser citada como potencialmente eficaz é a chamada Mentoria Maçónica e, sobre isso, não podemos deixar de citar a criação, pela Grande Loja do Estado de São Paulo, de uma Secretaria exclusivamente dedicada à Educação Maçónica que, dentre outras acções, promove a formação de Mentores nas Lojas, com cursos de formação EAD, vídeo aulas e guias específicos para determinadas situações sensíveis ao processo educacional Maçónico, tais como a escolha de candidatos e a formação e aperfeiçoamento continuado dos seus Aprendizes, Companheiros e Mestres.
Até o momento, este autor desconhece iniciativas semelhantes em outras Potências, mas entendemos que o compartilhamento desta iniciativa no âmbito da CMSB só traria benefícios para as demais Grandes Lojas desta Confederação, bem como, na existência de iniciativas semelhantes, a troca de experiências e conhecimentos seria igualmente benéfica. Quantas iniciativas brilhantes estarão circunscritas a universos fechados de Lojas ou Obediências? Compartilhar ideias naturalmente voltadas para o que é bom, belo e justo representa fraternidade, integração e o caminhar para a unidade, para uma comunhão construtiva em direcção à Grande Obra.
Facto é que o trabalho de implementação sistemática e aperfeiçoamento da Educação Maçónica é uma tarefa bastante complexa, pois além das peculiaridades inerentes e já citadas sobre o trabalho andragógico, é imperioso que os Irmãos e Lojas sejam sensibilizados da sua importância para o desenvolvimento do trabalho Maçónico.
E então nos vêm a questão: qual o melhor sentido do “vector conscientização”? Dos Irmãos para a Potência ou desta para o seu quadro? Ou ambos são viáveis?
Questões como estas estão na base de um planeamento que se pretenda eficaz, mas entendemos que um factor muito importante em todo este processo é a existência de uma Grande Secretaria de Educação actuante e apoiada por sua respectiva grande Loja.
Em paralelo sobrevém o estudo e definição dos conteúdos a serem disponibilizados ao Maçom ao longo da sua trajectória e sobre isso discorreremos em seguida.
O que ensinar?
Esta questão está visceralmente ligada ao planeamento de cada célula desse imenso organismo chamado Maçonaria.
No detalhe, no acabamento e objectivo de uma chamada “grade curricular” de Educação Maçónica residem os frutos de um estudo personalíssimo e harmonizado aos objectivos pactuados por cada Oficina.
Mas, mesmo que a Loja ainda não tenha claros estes objectivos e o detalhamento das acções para atingi-los, ainda assim há, como sugerimos, alguns eixos directores para este programa. E, para isso, podemos lançar mão da estrutura mais basilar que conhecemos: os três graus simbólicos.
Reiteramos! Trata-se aqui de sugestões meramente baseadas na nossa vivência, observação e reflexões. Nem de longe nos ocorre impor nenhuma prática como receita de sucesso. As acções abaixo sugeridas implicam ponderação de pertinência à realidade de cada Oficina, além de revisões e ajustes periódicos necessários à correcção de caminhos e reforço positivo das acções bem-sucedidas.
Uma descrição mais detalhada e com potencial de sucesso deve ser decorrente de um planeamento a ser construído colectivamente pelos Obreiros das Lojas [5].
Grau de Aprendiz Maçom
- A primeira medida sugerida é que no dia da iniciação conste em Acta a designação de um Mentor para o neófito. Este Mentor pode ser um Irmão formalmente capacitado ou um Mestre cuidadosamente escolhido pelo Venerável Mestre. Independente da atribuição supervisora dos Vigilantes estabelecida em alguns Ritos, é necessário que o neófito saiba claramente a quem deve recorrer prioritariamente para sanar todas as suas dúvidas [6];
- Sempre que possível, e desde a primeira sessão após a iniciação, sugere-se que o neófito chegue com boa antecedência às sessões para participar da ornamentação do Templo, ocasião em que o seu Padrinho, Mentor ou Mestre designado para tal mister o orientam sobre os itens desta ornamentação. Aqui se trata de uma instrução eminentemente prática, sem necessariamente incursões na simbologia de cada item;
- No início da caminhada entendemos mais produtivo que o neófito tome contacto com a História da Maçonaria no mundo, no Brasil, na sua Potência e na sua Loja. Mas estes conteúdos não cabem em reuniões semanais ou (muito menos) quinzenais. Faz-se necessário que algum Mestre do quadro auxilie este novo Irmão com indicações literárias ou de fontes de pesquisa e estudo. É uma actividade extra-Loja e, na verdade, são saberes que se estenderão por toda a vida Maçónica do novo Irmão. Estuda-se a História da nossa Fraternidade há décadas e a todo o momento novas informações enriquecem este conhecimento;
- O estudo atento do respectivo Ritual e detalhes ritualísticos também é de suma importância. Chegado o momento de passagem ao grau seguinte, não é admissível que o Aprendiz ainda tenha dúvidas sobre os conhecimentos ritualísticos do seu grau. Logo, para que tal não ocorra, deve ser exigido dele que empreenda esforços continuados no estudo da simbologia do seu grau e das origens histórico-filosóficas dos símbolos e alegorias;
- Como complemento importante da formação do Aprendiz, e apesar de tratar-se de assunto que muitos, classificam como administrativo, julgamos importante a apresentação, ao neófito, do Código Penal Maçónico da Potência. Partindo do princípio de que o desconhecimento da legislação não exime a culpabilidade do infractor, é mister que o novo iniciado tenha plena ciência dos delitos maçónicos relacionados no Código Penal a fim de não incorrer neles por desinformação. É impressionante constatarmos Irmãos, alguns até Mestres Instalados, que nunca tomaram contacto ou sequer sabem da existência do Código Penal Maçónico ou Código de Processo Penal Maçónico. Conhecimento é autonomia, é auto-suficiência, é independência intelectual. Certamente os Irmãos Oradores verdadeiramente dedicados às suas funções são uma fonte preciosa de orientação, mas tomar contacto, uma vez que seja, com os textos legais, é algo que tem grande valor para qualquer cidadão, máxime um Maçom.
- A leitura da Constituição e Regulamento Geral da Potência, Regimento Interno da Loja e demais normas é desejável;
- A CMSB disponibiliza uma série de cursos online que, sem dúvida, enriquecem o preparo dos Irmãos. Sugerimos os seguintes cursos ao Irmão Aprendiz:
- Introdução à Maçonaria https://cmsb.org.br/produto/introducao-a-maconaria/
- História da Maçonaria no Brasil https://cmsb.org.br/produto/historia-da-maconaria-no-brasil/
- Simbologia https://cmsb.org.br/produto/simbologia/
Grau de Companheiro Maçom
- Neste grau o conhecimento das raízes históricas e filosóficas da simbologia pode ser aprofundado por um estudo mais sistematizado de História, Mitologias e/ou História da Filosofia. O conhecimento das práticas ritualísticas (SS:., TT:., PPal:. e até a caminhada ritualística) são basilares para que o Companheiro faça por merecer a sua passagem ao grau de Mestre;
- Em alguns Ritos é permitido ao Companheiro o desempenho de cargos em Loja, mas, mesmo que assim não seja, ele pode, por designação da administração da Loja, acompanhar o trabalho dos oficiais, tomando contacto com as rotinas e boas práticas de cada função como uma preparação para o Mestrado Maçónico;
- Um aprofundamento na leitura da Constituição e Regulamento Geral da Potência, Regimento Interno da Loja e demais normas é altamente recomendável;
- Nesta etapa a realização de cursos preparatórios é um diferencial valioso para o Companheiro e, do acervo CMSB, sugerimos os seguintes:
- Introdução às Sete Artes Liberais https://cmsb.org.br/produto/introducao-as-7-artes-liberais/
- Conhecendo a CMSB https://cmsb.org.br/produto/conhecendo-a-cmsb/
- Curso de Oratória https://cmsb.org.br/produto/curso-de-oratoria-maconica/
- Relações Exteriores https://cmsb.org.br/produto/relacoes-exteriores/
Grau de Mestre Maçom
- Exaltado a Mestre, é esperado que o Irmão tenha domínio sobre a Ritualística dos graus de Aprendiz e Companheiro pois será um exemplo aos Irmãos menos experientes.
- Ao atingir o último grau da Maçonaria Simbólica, o Mestre será demandado a auxiliar também na administração da Loja e a sua vivência nos cargos irá conferir ao Irmão uma bagagem valiosa de preparação ao momento em que eventualmente venha a ocupar a direcção da Oficina.
- A nossa Ordem, não raro, é dita como formadora de lideranças e é desejável a um líder que tenha mínima ciência das atribuições dos cargos que estão sob a sua gestão. A experiência nos cargos de maior peso administrativo (Tesoureiro e Secretário) conferem ao futuro Venerável uma visão muito mais ampla da sua Loja e das perspectivas de realização desejadas.
- Novamente voltamos a salientar a importância de um Planeamento Estratégico de Loja que, se adequadamente construído, norteará as acções do Venerável durante a sua gestão. Uma Loja que tenha um plano de longo prazo facilitará em muito o trabalho do seu Venerável e a sua administração. Por este motivo incluímos esta temática nas sugestões abaixo.
- Nesta etapa sugerimos os seguintes cursos complementares à aprendizagem:
- Maçonaria Executiva https://cmsb.org.br/produto/maconaria-executiva/
- Gestão de Projectos https://cmsb.org.br/produto/gestao-de-projetos/
- Gestão Financeira https://cmsb.org.br/produto/gestao-financeira/
- Gestão de Reunião Maçónica https://cmsb.org.br/produto/gestao-de-reuniao-maconica/
- Planeamento Estratégico
- https://cmsb.org.br/produto/planejamento-estrategico-para-lojas/
- Gestão de Conflitos https://cmsb.org.br/produto/gestao-de-conflitos-com-enfoque-maconico-copia/
- Preparatório para Venerável Mestre https://cmsb.org.br/produto/preparatorio-para-v%e2%88%b4m%e2%88%b4/
Considerações finais
Finalizando, deixo bastante claro que as sugestões acima passam muito longe de uma estrutura óptima de formação Maçónica. Muito se pode lapidar esta pedra. E isso dependerá fundamentalmente daquela que Kant considerava a mais valorosa das virtudes: a Boa Vontade.
Os gregos chamavam o processo de formação do homem de Paideia. E no seu livro de mesmo nome, Werner Jaeger, afirma:
Todo povo que atinge um certo grau de desenvolvimento sente-se naturalmente inclinado à prática da educação.(…) A história da Educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada sociedade.
(JAEGER, 2013)
Na nossa Fraternidade é de se esperar que se dê fenómeno semelhante. Os conteúdos educacionais devem render tributos ao passado, mas, com os olhos no futuro, manifestar o espírito do seu tempo. Indo mais além, estes conteúdos precisam reflectir os objectivos específicos de cada Loja ou Potência e, se estes não existem, não há como torná-los parte dos corações e mentes. Seria necessário, portanto, dar alguns passos atrás e voltar a atenção para a construção pactuada de um planeamento.
Dizem que a Maçonaria não faz e nunca fez nada, e sim os Maçons. E não poderia ser de outra forma. Sabemos que em qualquer colectividade há os que participam e os que se comprometem. Há os que ouvem a sinfonia tocar e os que carregam o piano.
Apesar dos esforços de muitos em aperfeiçoarem os processos de admissão ou mesmo de lapidarem o ambiente interno (principalmente os nossos Mestres) para a recepção dos profanos, somos humanos, demasiado humanos! [7] Continuaremos, eventualmente, escolhendo mal, acolhendo e ensinando de forma amadora ou negligente.
Mas para os que carregam o piano só podemos ofertar gratidão, admiração e a promessa de tomá-los como exemplos e tentar nos dedicarmos a fazer jus a todo o trabalho realizado por nossos Irmãos até aqui.
Sim, há um caminho que foi, a muito custo, pavimentado com amor e trabalho. Jogar a toalha seria uma indignidade, uma ingratidão para com a memória dos que, apaixonadamente, acreditaram nos maçons do futuro. E, para eles, nós somos estes maçons!
Mario Vasconcelos
Fonte
Notas
[1] Do romance “Alice no País das Maravilhas”
[2] A teoria de andragogia de Knowles é uma tentativa para desenvolver uma teoria específica para a aprendizagem relacionada a pessoas adultas. (TEIXEIRA, 2025).
[3] Intervalo mínimo a ser observado até à passagem ao próximo grau.
[4] A Mentoria Maçónica é uma prática adoptada por algumas Potências ou Lojas que consiste num acompanhamento estruturado da formação do Maçom nos três graus simbólicos, geralmente realizado por um Mestre capacitado para tal função.
[5] Aqui sequer vamos abordar eventual planeamento para Potências.
[6] É natural que se pense prioritariamente na figura do Padrinho (ou Garante), mas a realidade e experiência nos tem mostrado que nem sempre este apoio existe. Em alguns casos o Padrinho deixou a Oficina, em outros, não é frequente ou mesmo não se dedica a este suporte. As medidas para correcção desta postura não integram o escopo deste trabalho.
[17] Alusão ao título da obra de Friedrich Nietzsche Menschliches, Allzumenschliches (1878–1880), traduzida em português como Humano, Demasiado Humano.
Bibliografia
- BORTOLUZZI, F. R.; BACK, G. D.; OLEA, P. M. Aprendizagem e geração X e Y: uma revisão sistemática da literatura. Revista Inteligência Competitiva, São Paulo, v. 6, n. 3, p. 64-89, jul./set. 2016.
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