Freemason

Que vindes aqui fazer?

✍️ Desconhecido 📅 26/09/2021 👁️ 9 Leituras

gold symbol

Meus irmãos, este trabalho é dedicado principalmente aos irmãos aprendizes, que iniciados recentemente nos nossos augustos mistérios, estão frequentando as sessões e ficam sem entender o que está acontecendo. Muitos frustram-se nas primeiras sessões, achando que aqui ele não está vendo nada de interessante. São muitos homens de “bem”, vestidos a rigor, batendo martelos e com uma conversa que não faz muito sentido.

Desde há muitos séculos existiram as fraternidades que transmitiram os seus conhecimentos herméticos a poucos escolhidos. A palavra “esotérico” tem raiz grega e foi criada por Sócrates, quando dava instruções filosóficas na sua casa, reservadas a um grupo selecto e restrito de amigos que tinham a capacidade de compreender e entender os seus propósitos metafísicos. Por isso “esotérico” tem o sentido de hermético, fechado, escondido e reservado e estes também serão os da nossa ordem maçónica. Ou seja, são poucos os escolhidos dentro da nossa sociedade, homens aparentemente livres e de bons costumes, que poderão ao longo do tempo desvendar e apreender o nosso simbolismo.

O símbolo e a alegoria surgiram com o ser humano, que também não passa de um símbolo do universo. Toda a história da humanidade, com todo o seu progresso é-nos mostrada através de alegorias e símbolos, entre os quais o homem sempre viveu.

Logicamente não serão os ícones, os símbolos, as alegorias ou o ritual que mudarão a nossa personalidade, mas sim, a interpretação e a compreensão das suas verdades e a posterior prática das virtudes neles incorporadas.

Agora que se tornaram maçons, participantes desta nobre instituição que há muitos anos vêm tentando mudar e melhorar o carácter do ser humano, para que tenhamos uma sociedade mais justa, mais fraterna e solidária, vocês terão alguns símbolos e palavras que os identificarão como maçons, assim quando chegarem numa loja maçónica de qualquer potência e em qualquer lugar do mundo ser-lhes-á exigida a sua identificação como maçons.

E de entre outras coisas ser-lhe-á perguntado:

“Que vindes aqui fazer?”

Ao que o irmão responde:

“Vencer as minhas paixões, submeter a minha vontade e fazer novos progressos na Maçonaria…”

Meus irmãos, tudo na vida é baseado em símbolos, alegorias, signos, emblemas e rituais. A escrita é um símbolo. A comunicação entre pessoas é feita através da associação da fala aos símbolos que a pessoa associa para lembrar o que é, expressando ideias e emoções para si mesmo ou para outros. Mesmo na conversação metafísica existe um simbolismo por associação. A nossa rotina diária, o nosso quotidiano, também é um ritual, cheio de símbolos e alegorias. Na Maçonaria também temos os nossos símbolos, signos, emblemas e as nossas alegorias a serem entendidos e o nosso ritual que deve ser seguido. Dentro do próprio ritual existem vários símbolos filosóficos que ao longo do tempo passarão a identificar e entendê-los plenamente.

Quando das vossas iniciações, vocês pediram a Luz, e foi-vos dada a Luz. Foi-lhes dada a luz física. Ou seja, estavam vendados e viram a Luz.

Mas o que buscamos na Maçonaria é a Luz verdadeira, a Luz espiritual que é a compreensão do mundo à nossa volta e dos seus antigos mistérios. Mistérios estes, herdados dos nossos antepassados que hoje tentamos decifrar. As chaves destes enigmas foram perdidas no tempo, na época da tradição e transmissão oral, quando não era registado o conhecimento senão através de ícones, gravuras, alegorias e símbolos.

Buscamos ver através e além da Luz. Buscamos ver adiante das coisas. É olhar um símbolo e ver além dele o que os nossos antepassados nos quiseram transmitir, é o tirar o véu para que se veja claramente o que está atrás do véu.

O que lhes pedimos é paciência, persistência e que estejam com o coração e mente abertos para que, ao começarem a decodificar estes símbolos eles possam mudar para melhor as suas personalidades.

Quase tudo na Maçonaria é baseado no número três. Inicialmente temos o trilogismo máximo da Maçonaria que são: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Quando responderam: “Vencer as minhas paixões, submeter a minha vontade e fazer novos progressos na Maçonaria”, aqui existe outro trilogismo.

No mundo profano somos considerados um pedra bruta, ou seja, uma jóia rara da criação do Grande Arquitecto do Universo, mas, cheio de agregados indesejáveis e de arestas imperfeitas e que devem ser lapidadas para que se produza um quadrado ou rectângulo perfeito. E, em sendo perfeito encaixará perfeitamente na construção do edifício, não deixando espaço nenhum, e nem será necessário alguma argamassa para fazer o seu ajuntamento.

Vencer as minhas paixões

A Maçonaria Universal propõe edificar a “Cidade Humana”, um mundo ideologicamente perfeito, do qual o homem virtuoso será ao mesmo tempo, o beneficiário e o organizador. E este propósito também é nosso. O que estamos tentando construir é o edifício perfeito dentro do ser humano, ou seja, é tirando e eliminando as arestas dos nossos vícios e lapidando as nossas paixões que poderemos ser um ser humano melhor para os nossos familiares, a nossa sociedade e para nós mesmos.

É mudando os nossos hábitos, actos e comportamento que transformamos o mundo à nossa volta. É a busca da perfeição e a prática das virtudes que nos transformarão em seres humanos melhorados.

Quando alguém quer ter músculos fortes, pratica exercícios físicos até conseguir o seu objectivo. Quando alguém deseja melhorar o seu carácter, iluminar o seu espírito e a sua alma deve praticar todas as virtudes diariamente, e é isto que vindes aqui fazer. Não é só dentro da loja que devemos ser perfeitos, devemos sim, ser perfeitos para o mundo, só assim, mudando primeiro a nós mesmos é que conseguiremos dar o primeiro passo para uma humanidade melhor: praticante da caridade, mais fraterna, mais solidária e com mais amor entre todos os irmãos.

Porquê tirar e eliminar as arestas dos nossos vícios?

Porque os nossos vícios são hábitos desregrados que adquirimos ao longo das nossas vidas e são perfeitamente descartáveis, pois, podemos viver sem eles.

Porquê lapidar as nossas paixões?

Porque as nossas paixões fazem parte do ser humano. São emoções e sentimentos que estão escondidas no nosso âmago. Vêm enraizadas dentro do humano e sem elas o ser humano não é nada. Por isso devemos somente aplainá-las, desbastando a parte podre; sufocando a parte má para que prevaleça a parte boa.

Sabemos que o bem e o mal estão dentro de cada ser humano. Ele faz aflorar o que quiser. As nossas paixões são as nossas emoções mais profundas que se levadas a um alto grau de intensidade sobrepõe à lucidez e à razão. E o ser humano é um ser emocional, por isso devemos controlar as nossas emoções com uma disposição firme e constante para a prática do bem e assim conseguiremos vencer as nossas paixões.

Submeter a minha vontade

Porquê submeter a minha vontade?

Já dissemos que o ser humano é emocional e racional, que pode ou não praticar actos em obediência e a um impulso ou a motivos ditados pela razão.

Entretanto, através do livre arbítrio o ser humano é livre para ser e fazer o que quiser sem dar satisfações a ninguém e nem prestar contas a ninguém a não ser a ele próprio. Lógico que devemos assumir as responsabilidades pelos nossos actos e sofrer as consequências das nossas más acções. Mas, somos livres, ou achamos que somos livres.

É esta pretensa liberdade que devemos trabalhar. Na verdade não somos livres, somos escravos dos nossos vícios e das nossas paixões que controlam a nossa vida. Somos escravos do nosso quotidiano, da rotina estafante do dia-a-dia, do nosso trabalho, do relógio, das nossas famílias, dos nossos amigos e inimigos, dos nossos sonhos, das nossas falsas promessas, do Poder Constituído, das Leis e da nossa vontade.

Este submeter a minha vontade, não quer dizer submeter a minha vontade à vontade de outros, mas, sim submeter a minha vontade à minha vontade. É ter controle sobre as minhas emoções e a minha vontade de as praticar. É fazer a minha razão subjugar a minha vontade, sujeitando, entregando e rendendo-se ao bom senso e à prudência, ponderando as minhas ideias, tendo um raciocínio lógico e juízo perfeito nas minhas acções. Ter emoções e vontade saudáveis aprimoram o seu relacionamento consigo mesmo e irradia vida e felicidade ao seu redor.

Então, devemos submeter a nossa vontade, o nosso livre arbítrio praticando boas acções, tendo bons pensamentos em relação a todos os que nos cercam e isto indirectamente a Maçonaria tentará colocar dentro de cada um de vocês, através do desvendar do simbolismo filosófico da nossa ordem. É submetendo, ou seja, controlando a nossa vontade que seremos livres dos vícios e das paixões desregradas.

Fazer novos progressos na Maçonaria

A Maçonaria não é religião, não é Igreja e não é escola, é uma instituição iniciática e ecléctica que conclama toda a humanidade a viver fraternalmente, todos como irmãos.

Os progressos que vier a fazer dentro da Maçonaria só dependerão dos próprios irmãos; como já disse Jesus Cristo “é buscando que encontrarão” “é batendo que se abrirão”. Cabe a cada irmão buscar a perfeição maçónica e por conseguinte a perfeição humana. Através de muito estudo e trabalho é que poderão fazer novos progressos na maçonaria, ou ficarão como muitos, batendo martelos por muitos anos sem entenderem porque estão na Maçonaria.

Cabe aqui uma pequena história que reflecte o teor das nossas palavras:

Conta-se que certo funcionário de uma empresa ferroviária, estando prestes a se aposentar, acertou a sua substituição, colocando o seu filho no seu lugar. O seu serviço e a sua responsabilidade era caminhar diariamente ao longo dos trilhos e na ida e na volta ia batendo nos trilhos com uma marreta de cinco quilos, verificando assim se os trilhos estavam bem presos aos dormentes. Ele, pessoa simplória tinha passado trinta anos fazendo aquele trabalho e o conhecia muito bem. No primeiro dia de trabalho do seu filho, saiu todo feliz a explicar-lhe o que era o seu ofício. Saíram então, marretando os trilhos, e o pai explicava ao filho como deveria ser a pancada no vergalhão do trilho; passaram-se as horas e em dado momento o filho pergunta ao pai:

– Pai, por que e para quê é feito este tipo de trabalho?

O pai, na sua simplicidade, respondeu-lhe:

– Não sei, eu recebi ordens para bater nos trilhos e fiz isso durante todos os dias nestes trinta anos de trabalho e agora aposento-me e passo o meu trabalho a ti.

Meus irmãos, na Maçonaria é a mesma coisa, se não procurares as respostas para as suas inquietações e os seus anseios mais profundos ficarão toda a vida batendo marreta nos trilhos sem saber o porquê.

Cabe a cada um procurar e questionar, estudar e reflectir sobre toda a nossa filosofia, procurando tirar de cada símbolo uma lição de vida, de cada dia em loja uma aprendizagem, de cada bater de martelo um novo som, pois, não existem dias iguais como não há ser humano igual, cada dia em loja é diferente do último, à medida que forem participando das sessões, aparentemente simples, as suas mentes irão alargando para receber o conhecimento implícito no simbolismo e na filosofia maçónica.

Luiz António Lima

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