Quando entre um tapete e uma cartola há uma flor
Naquela noite, a Loja do Rito Schroeder respirava em cadência baixa, como um coração que decidiu por bater mais devagar.
As colunas sustentavam mais do que o tecto:
sustentavam o peso invisível do mundo __ um mundo que, lá fora, gritava sem escutar a própria voz.
E ali, no intervalo entre palavra e silêncio, 1° e 2° Vigilantes teciam o seu duelo enquanto o Venerável Mestre a todos ouvia…
O 1° Vigilante falava como quem traz areia do deserto digital, nos olhos, o cansaço das telas, nos lábios, o gosto metálico das discussões estéreis:
“— A praça arde. A razão foi lançada ao vento como folha seca. Se nos recolhemos, quem restará para falar no meio do incêndio?”
A sua voz carregava urgência, como um sino tocado fora de hora.
O 2° Vigilante, porém, falava em outra frequência. Não mais alta — mais profunda.
“— Não é fogo apenas __ dizia__ é tempestade sem pausa, é mar que desaprendeu a maré”.
E então, com mãos invisíveis, desenhou no ar duas águas: um oceano revolto, onde ninguém aprende a nadar, e uma piscina silenciosa, onde o corpo reaprende o próprio peso.
“— Antes de salvar, é preciso não se afogar”.
Entre eles, nomes antigos surgiam como constelações convocadas ao debate: Kant __ o solitário legislador de si, erguendo a razão como uma lâmina pura; Habermas __ o arquitecto da mesa comum, onde a palavra deveria florescer sem medo; e, mais recente, como sombra lúcida, Byung-Chul Han __ aquele que viu a transparência sem verdade e nomeou o cansaço do mundo.
Mas ali, naquela noite, nenhuma teoria permanecia intacta.
A razão isolada cansou.
A razão compartilhada se perdeu no ruído.
E o diálogo __ outrora ponte__ tornou-se arena.
Então o Rito Schroeder foi instado.
Não como segredo, nem como mistério envolto em véus, mas como forma.
Forma que desacelera.
Forma que interrompe.
Forma que ensina o tempo a respirar de novo.
Silêncio.
Não o silêncio do vazio, mas o silêncio que contém, como a semente contém a árvore, como o intervalo contém a música (ahhh as nossas músicas!!!)
Ali, a palavra não nasce de impulso, mas de espera.
Ali, o pensamento não reage, amadurece.
O 1° Vigilante resistia:
“— E o mundo lá fora?”
O 2° Vigilante respondia:
“— E o mundo dentro?”
Porque o verdadeiro colapso, talvez, não fosse apenas da praça __ mas do próprio sujeito que já não consegue permanecer consigo.
Foi então que o Venerável Mestre, até então imóvel como um eixo do tempo, ergueu a sua presença.
E quando falou, não foi ruptura, foi síntese.
“— Meus Irmãos, ouvimos aqui não dois discursos, mas duas dores do mesmo século. A dor de lutar e a dor de não saber mais como lutar. A dor de falar e a dor de já não conseguir escutar.”
(nesse momento os Irmãos Orador e Secretário já esperavam por mais trabalho __ sabemos quais)
Os olhos do Venerável Mestre percorriam a Loja como quem mede a espessura do invisível.
“— A razão não morreu __ disse__ apenas perdeu o seu ritmo. E onde o ritmo se perde, a forma deve reaprender a conduzir.
“Falou-se do oceano, sim, mas não para negá-lo.
“Falou-se da piscina da piscina, não para eternizá-la.
“No entanto, quando o tapete aqui se encontra estendido, este nosso espaço não é de fuga. É forja!
“Aqui não nos escondemos do mundo, preparamo-nos para ele.
“Aqui, o silêncio não é ausência, é resistência.
“Aqui, a palavra não compete, se constrói”.
E então, convidou a todos os Obreiros a reajustarem a cartola sobre as suas próprias cabeças, com o mesmo carinho de quem deposita uma flor aos seus ancestrais e deixou a última imagem:
“— Se lá fora o tempo nos acelera até à ruptura, que aqui aprendamos novamente a durar”.
A Loja silenciou.
Mas não era um silêncio vazio.
Era um silêncio habitado, denso como terra fértil antes da chuva.
E talvez, naquele instante suspenso, tenha surgido algo raro: não uma resposta, mas a capacidade de ainda buscá-la.
Porque, no fim, entre o grito do mundo e o recolhimento do Rito, há um ponto quase invisível onde o homem reaprende a ser medida de si.
E é nesse, ponto mínimo e decisivo, que a razão volta a respirar.
Rony A. Hergert, M. M. – ARLS Humanismo nº 7073 – Rito Schröeder / GOSP, Oriente de São Paulo
