Freemason

Quando entre um tapete e uma cartola há uma flor

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✍️ Desconhecido 📅 31/03/2026 👁️ 0 Leituras

esquadro compasso, flor

Naquela noite, a Loja do Rito Schroeder respirava em cadência baixa, como um coração que decidiu por bater mais devagar.

As colunas sustentavam mais do que o tecto:

sustentavam o peso invisível do mundo __ um mundo que, lá fora, gritava sem escutar a própria voz.

E ali, no intervalo entre palavra e silêncio, 1° e 2° Vigilantes teciam o seu duelo enquanto o Venerável Mestre a todos ouvia…


O 1° Vigilante falava como quem traz areia do deserto digital, nos olhos, o cansaço das telas, nos lábios, o gosto metálico das discussões estéreis:

“— A praça arde. A razão foi lançada ao vento como folha seca. Se nos recolhemos, quem restará para falar no meio do incêndio?”

A sua voz carregava urgência, como um sino tocado fora de hora.

O 2° Vigilante, porém, falava em outra frequência. Não mais alta — mais profunda.

“— Não é fogo apenas __ dizia__ é tempestade sem pausa, é mar que desaprendeu a maré”.

E então, com mãos invisíveis, desenhou no ar duas águas: um oceano revolto, onde ninguém aprende a nadar, e uma piscina silenciosa, onde o corpo reaprende o próprio peso.

“— Antes de salvar, é preciso não se afogar”.

Entre eles, nomes antigos surgiam como constelações convocadas ao debate: Kant __ o solitário legislador de si, erguendo a razão como uma lâmina pura; Habermas __ o arquitecto da mesa comum, onde a palavra deveria florescer sem medo; e, mais recente, como sombra lúcida, Byung-Chul Han __ aquele que viu a transparência sem verdade e nomeou o cansaço do mundo.

Mas ali, naquela noite, nenhuma teoria permanecia intacta.

A razão isolada cansou.

A razão compartilhada se perdeu no ruído.

E o diálogo __ outrora ponte__ tornou-se arena.


Então o Rito Schroeder foi instado.

Não como segredo, nem como mistério envolto em véus, mas como forma.

Forma que desacelera.

Forma que interrompe.

Forma que ensina o tempo a respirar de novo.

Silêncio.

Não o silêncio do vazio, mas o silêncio que contém, como a semente contém a árvore, como o intervalo contém a música (ahhh as nossas músicas!!!)

Ali, a palavra não nasce de impulso, mas de espera.

Ali, o pensamento não reage, amadurece.


O 1° Vigilante resistia:

“— E o mundo lá fora?”

O 2° Vigilante respondia:

“— E o mundo dentro?”

Porque o verdadeiro colapso, talvez, não fosse apenas da praça __ mas do próprio sujeito que já não consegue permanecer consigo.

Foi então que o Venerável Mestre, até então imóvel como um eixo do tempo, ergueu a sua presença.

E quando falou, não foi ruptura, foi síntese.

“— Meus Irmãos, ouvimos aqui não dois discursos, mas duas dores do mesmo século. A dor de lutar e a dor de não saber mais como lutar. A dor de falar e a dor de já não conseguir escutar.”


(nesse momento os Irmãos Orador e Secretário já esperavam por mais trabalho __ sabemos quais)

Os olhos do Venerável Mestre percorriam a Loja como quem mede a espessura do invisível.

“— A razão não morreu __ disse__  apenas perdeu o seu ritmo. E onde o ritmo se perde, a forma deve reaprender a conduzir.

“Falou-se do oceano, sim, mas não para negá-lo.

“Falou-se da piscina da piscina, não para eternizá-la.

“No entanto, quando o tapete aqui se encontra estendido, este nosso espaço não é de fuga. É forja!

“Aqui não nos escondemos do mundo, preparamo-nos para ele.

“Aqui, o silêncio não é ausência, é resistência.

“Aqui, a palavra não compete, se constrói”.


E então, convidou a todos os Obreiros a reajustarem a cartola sobre as suas próprias cabeças, com o mesmo carinho de quem deposita uma flor aos seus ancestrais e deixou a última imagem:

“— Se lá fora o tempo nos acelera até à ruptura, que aqui aprendamos novamente a durar”.

A Loja silenciou.

Mas não era um silêncio vazio.

Era um silêncio habitado, denso como terra fértil antes da chuva.

E talvez, naquele instante suspenso, tenha surgido algo raro: não uma resposta, mas a capacidade de ainda buscá-la.

Porque, no fim, entre o grito do mundo e o recolhimento do Rito, há um ponto quase invisível onde o homem reaprende a ser medida de si.

E é nesse, ponto mínimo e decisivo, que a razão volta a respirar.

Rony A. Hergert, M. M. – ARLS Humanismo nº 7073 – Rito Schröeder / GOSP, Oriente de São Paulo

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