Pirataria maçónica (os landmarks)
Durante o processo de admissão na Maçonaria, tanto o candidato quanto a Loja se convencem de que a nossa Ordem não é uma religião. Por comodidade, substitui-se o Deus das religiões pelo conceito Pitagórico de “Grande Arquitecto do Universo” sobre o qual é erigido um novo culto e uma nova “religiosidade” que muitos pretendem ser “não dogmática”.
Apesar disso, o raciocínio verossímil (porém inverídico) destas afirmações reside no facto de que o proponente que não CREIA na existência de Deus não é aceite na Maçonaria – seja esse Deus um princípio criador, um ente infinito, eterno, sobrenatural e existente por si só; seja esse princípio a causa necessária e fim último de tudo que existe, etc. O Landmark XIX, compilado por Albert Mackey é taxativo:
“XIX – A crença no Grande Arquitecto do Universo é um dos mais importantes Landmarks da Ordem. A negação desta crença é impedimento absoluto e irremovível para a Iniciação”
Antes de Albert Mackey, a Constituição escrita por James Anderson (ministro da Igreja da Escócia e pastor nas Igrejas Presbiterianas de Swallow Street e Lisle Street) determinou peremptoriamente:
“Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer a Lei Moral; e se ele compreende correctamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso.”
Apesar das cláusulas pétreas estabelecidas nos Landmarks, muitos curiosos (e mesmo pretensos autores) vêem questionando as tradições maçónicas. Mal sabem eles (ou se sabem, agem de má-fé) que a Maçonaria é uma Ordem Tradicional – ou seja: um movimento fundado e conservado na tradição – entendendo-se por tradição a herança cultural, o legado de processos mentais ou atitudes e técnicas de uma geração para outra; tradição é, queiram ou não esses “sábios”, o conjunto dos valores morais e espirituais transmitidos de geração em geração.
A Maçonaria só se sustenta no mundo por causa da TRADIÇÃO. Removam estes Landmarks, alterem-se as leis e os costumes, e chegaremos ao ponto de excluirmos o Avental, o Esquadro, o Compasso e os Juramentos. O decréscimo da nossa autoridade ética, assim como as “maçonarias” irregulares que povoam o noticiário, têm a sua origem no relativismo com que alguns segmentos vêm tratando os assuntos maçónicos, inclusive na internet: no Facebook aos olhos de todos e no WhatsApp.
Modernizar a linguagem, SIM; vulgarizar e profanar, JAMAIS.
Ainda há entre nós os piratas que propõem listas próprias ou mais curtas de Landmarks, modificando alguns (entre eles o número XIX), eliminando os números I e II (sobre os métodos de reconhecimento e a divisão do Simbolismo em três graus), e por aí vai – tudo em nome da “modernidade”. O pedantismo e a auto-suficiência invadem assim vários recantos da Ordem onde são aceites discursos sobre temas de especialização Universitária proferidos por quem sequer se deu ao trabalho de ler os primeiros capítulos das obras que citam. Mais valeria que nos ativéssemos às Instruções de Aprendizes que, por si só, já contêm material de sobra para tirar o sono de muitos “professores”.
Esta pirataria apoia-se no sofisma de que a moralidade está subordinada às necessidades da época e que o Maçom é livre para interpretar a filosofia da Ordem e independente para seguir o caminho que bem entender. Não é bem assim. A liberdade de pensamento consiste no grau de independência e no conjunto de direitos e faculdades humanas que têm como objectivo o conhecimento. Esta independência e estes direitos têm de ser, necessariamente, conduzidos pela inteligência.
O simples facto de alguém estar “na Maçonaria” – numa Loja regular – não lhe dá o direito de alterar a Tradição Maçónica em nome de uma pretensa “liberdade de pensamento”, independentemente do seu grau de instrução profana, cargo maçónico ou Grau alcançado em quaisquer dos ritos.
José Maurício Guimarães
