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Ouve, vê e cala, se quiseres viver em paz

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✍️ Desconhecido 📅 09/04/2026 👁️ 0 Leituras

audi, vici, tace, Ouve, vê e cala

AUDI, VIDE, TACE, SI VIS – VIVERE IN PACE [1]

Não pode um Aprendiz ser impedido de falar em Loja, já que é só simbólico o seu impedimento de fazer uso da palavra; em qualquer sociedade iniciática, o recém-iniciado, simbolicamente, só ouve e aprende, não possuindo, ainda, nem os meios e nem o conhecimento para falar.

AUDI – O primeiro passo em todos os antigos sistemas de desenvolvimento místico, oculto ou filosófico, e correspondente ao Aprendiz Maçom. Entre os budistas, é o Shrávaka; nos mistérios de Mitra, o Corvo (o que só podia repetir o que ouvira, à maneira de corvos e papagaios); na escola pitagórica, os Akoustikoi, e entre os cristãos, o Catecúmeno. Nesta etapa não é permitido ao noviço fazer perguntas, mas deve apenas estar atento aos ensinos orais do Mestre, à aquisição de qualidades morais e ao domínio dos princípios fundamentais de sua doutrina. Só depois de se revelar habilitado nessa etapa é que pode ser elevado à seguinte. O sinal desse grau alude simbolicamente à observância dessa qualidade, isto é, o silêncio. (Cf. Romanos 11:13; S. Tiago 1:22 e 25.)

VIDE – Contemple, observe, examine, conheça ou perceba pela visão. Compreenda, deduza e conclua com os elementos obtidos a veracidade dos factos.

A arte de olhar – esta verdadeira arte quando bem utilizada pode comunicar mais sensações, emoções e sentimentos do que uma conversa de horas. Uma arte tão antiga quanto a própria humanidade, talvez iniciada quando a primeira beldade da idade da pedra olhou para trás, sobre o ombro, e arrastou consigo um forte caçador de clava na mão, vestido com a pele de um animal abatido. Há escritores que gostam muito de descrever ‘‘olhares duros como o aço”, “frios como o gelo”, “ardentes como o fogo”.

Há um elemento que pode dar mais ou menos força a um olhar; é o tempo que levamos olhando nos olhos de outra pessoa. “Olhe directo nos olhos de alguém, depois mude o seu olhar de direcção. Você acaba de fazer um tipo de declaração. Mantenha um olhar firme um segundo a mais, e a mensagem terá sido diferente. Mais dois segundos e tudo mudará novamente”.

Para cada situação existe como que um tempo moral de olhada, que é a quantidade de tempo que você pode sustentar o olhar de outra pessoa, sem ser grosseira, agressiva ou tímida demais. Você pode cruzar os seus olhos com os de alguém que venha caminhando em direcção oposta por cerca de três segundos. E o significado de uma olhada dentro desse período de tempo é: “você é um outro ser humano e com este meu olhar eu reconheço isso”. Mas se você sustentar um olhar por mais de três segundos, a mensagem enviada é: “Eu estou interessado em si”. Da mesma forma como os olhos podem enviar ou receber mensagens agradáveis, também podem transmitir agressividade. Em muitas espécies de animais e também no ser humano, um olhar fixo e demorado pode ser sinal de hostilidade. Se o tempo do olhar for diminuído ou os olhos forem baixados isso poderá representar “bandeira branca”, e acalmar a outra pessoa.

TACE – Os primitivos catecismos maçónicos do século XVIII diziam que “os três pontos particulares que concernem ao Maçom eram Fraternidade, Fidelidade e ser calado. ” Eles “representam Amor, Ajuda e Verdade entre os Maçons”. Nas Iniciações antigas, na índia, no Egipto, esta Lei do Silêncio era imposta com rigor aos novos adeptos. Na Ordem Pitagórica, as provas, que tinham por finalidade dar têmpera ao carácter do postulante, eram severas. Era-lhe imposto um silêncio perpétuo. Aprendia a dominar a sua curiosidade, a refrear toda solicitação profana. Este penoso estágio durava, às vezes, cinco anos. Só era abreviado para pessoas de elite.

Nicola Aslan, no seu Grande Dicionário Enciclopédico, considera: Silêncio – disciplina iniciática imposta nos Mistérios da antiguidade e cultivada por todas as sociedades secretas e fraternidades iniciáticas. A própria palavra “mistério” significa, em linguagem religiosa, alguma coisa de separado, de secreto, de oculto, de que não é lícito falar. Nos Mistérios de Elêusis, o mistagogo (Mestre dos Mistérios) colocava uma chave de ouro sobre a língua dos Iniciados, sem lhes exigir qualquer juramento de guardarem o silêncio e o segredo sobre tudo que tinham visto e ouvido, mas punições severas eram decretadas contra os tagarelas: banimento, confisco de bens, a própria morte e a proibição de enterrar o delinquente na sua terra natal, castigo terrível naquela época.

A imposição do silêncio não é somente uma disciplina que fortalece o carácter, é também, e principalmente, o meio pelo qual o Iniciado pode entregar-se à meditação sobre os augustos mistérios que encerram as perguntas que todo espiritualista se faz: donde vim? Para onde vou?, perguntas essas que o Iniciado Maçom defronta desde o momento em que transpõe a porta da Câmara de Reflexão. É também o meio de melhor observar os ensinamentos maravilhosos contidos no Ritual.

Em todas as reuniões e actos maçónicos, o silêncio deve ser rigorosamente mantido, não por força de disposições regulamentares ou pelos ditames da boa educação e das conveniências sociais, mas para que possa ser formado o ambiente de espiritualidade, próprio de um Templo. Ao ajudar a formação desse ambiente, tão propício à meditação, o Maçom beneficia-se a si mesmo e beneficia aos demais também.

Referindo-se ao silêncio, Luís Umbert Santos (Catecismo Maçónico) escreve:

“Todos os escritores maçónicos o recomendam como necessário à ordem e à seriedade a que se deve a imensa diferença que existe entre as reuniões maçónicas e profanas. O silêncio, assim praticado, eleva-se à categoria de virtude, graças à qual se corrigem muitos defeitos, ao mesmo tempo em que se aprende a ser prudente e indulgente com as faltas que se observam. “A Maçonaria simboliza o silêncio pela Trolha, com a qual devemos estender, silenciosamente, uma capa sobre os defeitos dos nossos semelhantes, assim como o faz o pedreiro vulgar, para encobrir os do edi fíelo”, (p. 91).

No seu Trabalho “O Maravilhoso Ensino Maçónico”, publicado na revista “La chaine d’Unlon”, de Julho de 1961, o Irmão L. Cousseau escreve:

“A aprendizagem é o período de meditação e de silêncio. O Aprendiz não pode tomar a palavra senão a convite do Venerável. O Sinal de Ordem lembra-lhe que deve dominar a exteriorização dos seus pensamentos. Os seus padrinhos estarão lá para guiá-lo e para fazer-lhe compreender o que não entendeu bem

“Esta Lei do silêncio deve ser por ele observada fora do Templo, no que diz respeito à Ordem Maçónica. É, aliás, a promessa que fez ao receber a Luz. Como poderia ele, sem experiência, compreender inicialmente e dar em seguida aos profanos uma ideia justa daquilo que aprendeu? Quando alguém ouve uma linguagem nova, uma opinião que acredita justa mas que, em regra geral, não tem a menor relação com o assunto, perderá, com certeza, desta forma, toda oportunidade para adquirir conhecimentos novos

“Para poder estar em situação de entender o conteúdo interior da linguagem quando ela se torna simbólica, ê portanto essencial aprender, previamente, a ouvir. Ouvir é uma ciência, e, se esta ciência faltar, qualquer tentativa de compreensão literal, sobretudo quando o discurso trata da consciência objectiva e da união da diversidade e da unidade, é destinada, adiantadamente, ao fracasso, além de estar prenhe de novos erros na maior parte dos casos”.

No silêncio, o Aprendiz aprenderá a meditar, a estudar o que lhe desagrada nos seus Irmãos, sendo desta forma que ele chegará a eliminar os seus defeitos que são muitas vezes semelhantes. Aprenderá, assim, a ser tolerante, em face das opiniões e dos actos dos outros.

O Maçom atento e assíduo mede muito depressa, aliás, pela sua própria experiência, quantos esforços, de tempo e de explicações, são necessários para compreender tudo o que foi dito.

Mas há, nesta Lei do Silêncio, algo de mais importante. Aprendendo a refrear o desejo de falar, o Aprendiz pratica, consciente e inteligentemente, a conservação de forças que seriam realmente desperdiçadas. Pouco a pouco, ele controla os seus impulsos e esta força que poderia gastar, fazemo-la nossa.

Esta prova tem por finalidade o desenvolvimento da vontade e permite atingir um maior domínio de si mesmo. Não esqueçamos que só um homem capaz de guardar o silêncio, quando é necessário, pode ser o seu próprio amo.

Desconhecendo por completo ser a Maçonaria uma fraternidade iniciática, e portanto uma escola de disciplina que, ao contrário das associações profanas, ministra ensinamentos, preconizando severa linha de conduta moral para os seus membros. Lojas há que incentivam Aprendizes e Companheiros a se exibirem em discursos repletos de lugares-comuns, ou tratando de assuntos profanos, fazendo assim perder o precioso tempo dos ouvintes. E chegam até a considerar a recomendação do silêncio como se fora um atentado contra pretensos direitos maçónicos do Aprendiz.

Inútil será dizer que não tendo recebido nenhuma espécie de instrução maçónica, nada podem transmitir aos Neófitos. Assim, transformam as Sessões das Lojas em estéreis palavreados inúteis que nada constroem mais acumulam perigosos elementos para o incenso de orgulhos e vaidades e futuros desentendimentos.

A ARLS “União e Segredo”, oferece na Internet o magnífico trabalho: Significado do Silêncio, onde abordando o Aspecto Simbólico e Filosófico e a “Lei Iniciática do Silêncio”, nos ensina:

“Calar não consiste somente em nada dizer, mas também em deixar de fazer qualquer reflexão dentro de si, quando se escuta alguém falar.

Os mistérios na Maçonaria devem ser velados em silêncio, pois em relação ao mundo profano os nossos segredos existem com o objectivo de não os poluir pelos que não se encontram preparados para entendê-los, e nada mais perigoso do que a verdade mal compreendida.

Somente o homem capaz de guardar o silêncio será disciplinado em todos os outros aspectos do seu ser, e assim poderá se entregar à meditação.

Enfim, o silêncio é a virtude maçónica que desenvolve a discrição, corrige os defeitos, permite usar a prudência e a tolerância em relação aos defeitos e faltas dos semelhantes”

Por tudo isso, louvemos os nossos Irmãos do passado que sabiamente nos recomendaram: “Ouve, vê e cala, se quiseres viver em Paz”

Valdemar Sansão – ARLS Washington Pelúcio nº 326 – Grande Loja Maçónica do Estado de São Paulo (GLMESP)

Notas

[1] AUDI, VIDE, TACE – Palavras inscritas no distintivo da GLESP, adoptadas na Grande Loja Unida de Inglaterra, após a sua unificação.

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