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Os simbolismos dos animais com chifres em bestiários ingleses

✍️ Desconhecido 📅 25/08/2022 👁️ 7 Leituras

Trechos que explicariam alguns dos significados do termo “bode” atribuídos ao Maçom e/ou à Maçonaria

Cabrito no Bestiário Bodley 764 (Oxford, Bodleian Library, MS Bodley 764 In: BARBER, 1999, p. 82)
Cabrito no Bestiário Bodley 764 (Oxford, Bodleian Library, MS Bodley 764 In: BARBER, 1999, p. 82)

Preliminar

O “significado”, variabilidade ou transformação de acepções dos termos “bode” x “cordeiro”

Preliminarmente, é preciso efectuar algumas considerações sobre uma fundamental dualidade entre o simbolismo do cordeiro e do bode; do positivo e do negativo; do bem e do mal e que esses significados podem, no dinamismo das culturas, transformarem-se. exemplificativamente, no mundo cristão, há de se ressaltar que o imaginário cristão relaciona a crucificação de Yeshua (Jesus Cristo) com o cordeiro preparado para o ritual da páscoa judaica (CHEVALIER, 1986, p. 344). Pelo vínculo entre o sacrifício realizado na Pessach, com o Cristo crucificado, este torna-se, simbolicamente, o cordeiro. Na citação “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jó, 1:29), encontrada no texto de João, o Evangelista, é feita a referência ao sacrifício de Cristo, “como de um cordeiro imaculado e incontaminado”.

Em grande parte, dever-se-ia a “São Bernardo (1090 – 1153), expondo o bode como um animal sujo, afasta tal relação com Cristo e opta por usar a história do cordeiro imolado ao invés do bode expiatório (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 182). Talvez isto justifique a ausência de qualquer menção ao bode expiatório ou a sua associação a Cristo nos bestiários medievais.”

Todavia, muito embora o cordeiro tenha tal significado, há de se considerar também outra cerimónia, descrita esta no Velho Testamento, o ritual de expiação, na qual é costume usar um bode – expiatório – que também foi comparado ao sacrifício de Cristo. Entretanto, pelos simbolismos negativos atribuídos ao bode, no passar da história, este animal foi suprimido, enquanto símbolo de Cristo, a favor da figura do cordeiro.

Indubitavelmente, é muito clara a simbologia dos animais com chifres que estão no alto dos montes, “em elevação”, com visão privilegiada, “visão superior”, mais próximos do conceito de altitude, mais próximos dos “céus”, e as suas “coroas”, adornos ou chifres, serem num todo, símbolos de uma espécie de “religação” com o inatingível, com o transcendental, com o sagrado ou profano, com a divindade ou o maléfico, pelos povos antigos e medievais, ganhando inclusive inúmeras alegorias de significados variados, polissémicos e que são passíveis de transmutações dos seus significados primários, chegando até ao ambíguo ou dúbio.

Não há, em absoluto, afirmações peremptórias, como “verdades absolutas” a respeito da relação “bode x maçom” por este articulista, e muito menos pelo escritor Marcelo Cardoso Amato, que apresenta a sua explanação de tese de mestrado em História Medieval de maneira altamente imparcial e científica – (sem, contudo, mencionar esta relação aqui abordada, com maçom ou maçonaria). O que se observa, constata-se facilmente em leituras diversas, imagens, quadros, figuras, artigos e livros é a muito conhecida e popular relação existente, jocosa ou maledicente, elogiosa ou detractora, entre a ideia ou significado que encerra esses animais com chifres, sobremaneira a do bode, aos maçons e/ou à maçonaria.

Esta peça de arquitectura baseia-se, fulcralmente, nas pesquisas e informações contidas na tese de mestrado Os Simbolismos Dos Animais Com Chifres Em Bestiários Ingleses, de Marcelo Cardoso Amato, com a concentração e reprodução de alguns dos seus trechos, às informações referentes aos caprinos, sobretudo a figura do “bode” e as suas relações de significado com o Maçom e a Maçonaria.

TRECHOS DE Os Simbolismos Dos Animais Com Chifres Em Bestiários Ingleses QUE EXPLICARIAM ALGUNS DOS SIGNIFICADOS DO TERMO “BODE” AOS MAÇONS E/OU À MAÇONARIA

Resenha sinóptica

Na tese de Marcelo Cardoso Amato, de mestrado em História Medieval, pela UNL – Universidade Nova de Lisboa, há

um importante aspecto a ser destacado na conclusão desta pesquisa é que os animais não podem ser categorizados com simbolismos únicos e, por vezes, tais simbolismos podem ser mesmo opostos. Também os próprios chifres e animais chifrudos podem ser encarados como elementos simbólicos polissémicos. E, diferente de como poderia ser suposto, os chifres durante o período medieval estavam mais ligados às figuras do bem que às do mal.

O autor Marcelo Cardoso Amato busca grande parte das suas informações para a sua dissertação em bestiários, Livros Sagrados, figuras antigas, iluminuras (pinturas medievais), esculturas e quadros. Os bestiários consultados por Amato foram: Bestiário de Aberdeen; Bestiário de Cambridge; Bestiário Bodley 764; Bestiário Add. 11283; Bestiário 12 CXIX; Bestiário de Rochester; Bestiário Harley 3244; Bestiário Medieval, além de Bíblias e Livros Sagrados de outras religiões, assim como também diversos pesquisadores e obras renomadas, – no que o autor que mais me chamou atenção foi o referenciado Louis Charbonneau-Lassay, com a sua obra The Bestiary of Christ. New York. 1991.

Muito sobre a simbologia de vários animais, considerados ou associados ao sagrado ou profano, da Antiguidade, principalmente da Idade Média, e em especial na Inglaterra, explicariam, como por exemplo, em particular, a figura do “Bode“, para os Maçons. O “Bode” – animal por vezes associado aos aspectos virtuosos ou pecaminosos é associado ou à Maçonaria e/ou aos Maçons, e é encontrado nesta peça, com informações preciosas sobre origens, significados, polissemia, ambiguidades, transformações de significados, maniqueísmos, poder esotérico, missão ritualística e outras associações simbólicas de significados vários.

ALGUMAS CONCEPÇÕES SIMBÓLICAS DE ANIMAIS DE CHIFRES, ESPECIALMENTE CABRITOS, CABRAS, BODES E O ÍBEX, DEPREENDIDOS DE Os Simbolismos Dos Animais Com Chifres Em Bestiários Ingleses, QUE EXPLICARIAM ALGUNS DOS SIGNIFICADOS DO TERMO “BODE” ATRIBUÍDOS POPULARMENTE AO MAÇOM E/OU À MAÇONARIA

Algumas simbologias atribuídas ao bode

  • Símbolo do fiel iniciado;
  • Símbolo cristão;
  • Símbolo anticristão;
  • Símbolo ambíguo e relacionado ao Juízo Final;
  • Símbolo de Sacrifício;
  • O símbolo da Cornucópia (Jóia do Mestre de Banquetes) na Maçonaria;
  • Emblema de Iniciação e Evolução do Espírito;
  • Símbolo de Visão Superior do bode, como um animal com sentido de visão aguçada;
  • Simbolismo do “conhecer à distância”;
  • O Enxergar ao longe, Elevação, Sublimidade Espiritual
  • Símbolo de Fertilidade na Antiguidade;
  • Expiação de pecados;
  • Guardião de sigilos;
  • Símbolo do que há de Negativo;
  • Poder maléfico;
  • Símbolo de Prefiguração de Sacrifício para uma Nova Vida.

O cabrito

  • Símbolo do fiel iniciado;
  • Símbolo cristão;
  • Símbolo anticristão.

“CABRITO

Enquanto “tragiscos” – filhote –, o cabrito parece ter uma conotação mais positiva e, passando a fase adulta – “tragos” –, o agora bode aparece carregado de simbolismos negativos. De acordo com Charbonneau-Lassay, essa transformação da concepção simbólica do cabrito para o bode acontece desde tempos antigos (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 186).

Durante a Antiguidade o cabrito foi considerado um animal sacrificial, tal como fora o cordeiro, por exemplo. Além disto, para Charbonneau -Lassay o cabrito foi a imagem do fiel iniciado em cultos de diferentes tradições, como na Assíria com o culto de Istar e Thamuz, ou na tradição grega, nos rituais para Dionísio (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 186), embora neste último caso seja mais frequente a associação ao bode e ao sátiro, e não ao cabrito.

Porém, nos bestiários medievais não é possível identificar os simbolismos antigos do cabrito. Por vezes ele é tratado como emblema de Cristo e outras é tratado como um emblema do Anticristo ou do pecador. Sendo um animal de simbolismo ambíguo, a figura do cabrito aparece bastante relacionada ao Juízo Final. O Bestiário Bodley 764 anota que “They represent sinners, who shall stand on the left hand of God on the Day of Judgement, in the same way that the just, represented by sheep, shall stand on His right hand” ( Oxford, Bodleian Library, MS Bodley 764 In: BARBER, 1999, p. 82). Este trecho faz referência à passagem: “E serão reunidas na sua presença todas as nações e ele separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos bodes, e porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda” (Mt, 25: 32-33).

A figura ambígua do cabrito pode, portanto, aproximar-se ora da cabra, no seu simbolismo positivo, ora do bode, no negativo. Nos textos dos bestiários, o cabrito representa Cristo: “Christ is like a kid because of the sins of the flesh” (Oxford, Bodleian Library, MS Bodley 764 In: BARBER, 1999, p. 82) e, em oposição, o animal também se relaciona com o Anticristo, desta vez usando da citação de Lucas: “Há tantos anos que te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos” (Lc, 15: 29) (Oxford, Bodleian Library, MS Bodley 764 In: BARBER, 1999, p. 82). Talvez seja essa dualidade simbólica do animal a explicação para a iluminura que mostra dois cabritos em posições opostas?

Curiosamente o Bestiário de Cambridge faz uma associação da derivação do nome latino do cabrito, “edendum”, à função espiritual da abadia na qual o texto foi produzido: “Kids (Hedi) are so called from the word “edendum” (meet to be eaten) because these little ones are very fat and of an agreeable taste. And that is why our own abbey here, in which I am writing this – our “edes” – is also called “spiritually nourishing” (edulium)” (Cambridge University Library, MS l.i. 4. 26 In: WHITE, 1984, p. 76). Relaciona-se assim o cabrito não a Cristo, a Anticristo ou os que encaram o Juízo Final, mas à actividade produtiva e espiritualmente nutritiva de uma abadia, tal como a carne do cabrito é nutritiva ao corpo. Sendo assim, da forma como São Gregório de Nisa (335 – 394) nas suas Homilias atribui ao Cristo a figura da cabra como símbolo de perfeição e conhecimento visionário do passado, presente e futuro (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 191), os pensadores medievais acordam na simbologia positiva da cabra e da cabra selvagem, distanciando-se de forma subtil do cabrito, que aparece como personagem de simbolismo ambíguo e afastando-se por completo do par doméstico da cabra: o bode, que possui significação quase que exclusivamente negativa.”

A cabra e a cornucópia

  • O símbolo da Cornucópia (Jóia do Mestre de Banquetes) na Maçonaria;
  • Símbolo de Abundância;
  • Emblema de Iniciação e Evolução do Espírito;
  • Conotação Positiva;
  • Símbolo também de poder maléfico.

Tal como na Idade Média, na Antiguidade a cabra também era considerada um animal de conotações simbólicas positivas, fazendo-se lembrar a história grega da cabra Amaltea, que inspirou a alegoria da cornucópia ou chifre da abundância. Além desta, Charbonneau-Lassay inclui ainda a Deusa Mãe cretense que aparece junto a uma figura caprina; a cabra celestial das tradições da Síria e da Caldeia que combate forças maléficas; a figura zodiacal do Capricórnio nestas mesmas regiões – embora este signo seja mais relacionado ao bode Aegipan –, e também cita a cabra como emblema da Iniciação em regiões do Mediterrâneo, desta vez aludindo à potência da visão do animal, que cresce à medida que a cabra escala as montanhas assim como o espírito se eleva e alarga ao decorrer do tempo (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 190). Esta característica, adaptada ao cristianismo, torna-se importante na leitura das narrativas dos bestiários medievais.

“Charbonneau-Lassay converge com a interpretação do chifre como símbolo do poder, considerando as representações da força e do poder como elementos comuns entre os diferentes animais chifrudos (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 268). Aceitando que do poder deriva a abundância (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 273), justificam-se as inúmeras figuras de divindades representadas com chifres ou segurando cornucópias – vasos em formato de chifres bastante presentes nas tradições clássicas. A alegoria da cornucópia procede da história de Amaltea, a cabra que alimentou Zeus enquanto criança com a ajuda das ninfas Adraste e Ida (FERRO, 1996, p. 121) e, em agradecimento, a divindade as presenteou com um dos chifres da cabra, agora capaz de conceder em fartura os bens terrenos (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 273).”.

“A relação entre o símbolo do chifre e a abundância é legada aos egípcios helenizados de Alexandria (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 273), aos romanos, que simbolizam a divindade da Fortuna segurando uma cornucópia (Figura 3), e também aos celtas, que usam o chifre como símbolo da abundância e da fertilidade, sendo o caso mais evidente o de Cernunnos, a divindade céltica da fertilidade e senhor dos animais que é imaginada como tendo chifres.”.

Cernunnos no Pilar dos Barqueiros, Gália, séc. I (Disponível em: http://www.musee-moyenage.fr/collection/oeuvre/pilier-des-nautes.html).

“Na Bíblia os chifres são usados como elementos de metáforas, simbolizando a glória, a dignidade, o poder, a honra, a vitória, a liderança, a coragem, a protecção, a salvação, entre outros (MELLINKOFF, 1970, p. 76) e, por esta razão, durante a Idade Média não causava estranheza figuras como Moisés serem representadas com chifres.

Mas os chifres podem representar o poder de bons personagens e também poderes maléficos, remetendo-se, por exemplo, à passagem bíblica de Daniel:

“Quis, então, saber a verdade acerca da quarta fera, que era diferente de todas as outras, extremamente terrível, com dentes de ferro e garras de bronze, que comia e triturava, e depois calcava aos pés o que restava; e também sobre os dez chifres que estavam na sua cabeça – e o outro chifre que surgiu e diante do qual três dos primeiros caíram, esse chifre que tinha olhos e boca que proferia palavras arrogantes […]. Estava eu contemplando: esse chifre movia guerra aos santos e prevalecia sobre eles […]”

(Dan, 7:19 – 21)

O íbex

  • Uma visão superior do bode, como um animal com sentido de visão aguçada.

Assim como o íbex, nos códices medievais, a cabra e a cabra selvagem têm nas suas narrativas a característica de se esforçar para alcançar os penhascos das montanhas. Sobre a cabra selvagem, por exemplo, nos bestiários é descrito que: “these linger on the highest mountains and can recognize approaching people from far away, distinguishing the wayfarer from the sportsman” (Cambridge University Library, MS l.i. 4. 26 In: WHITE, 1984, p. 41). A partir deste trecho, encontra-se uma importante peculiaridade das cabras que é transformada em elemento alegórico: o sentido aguçado da visão.,

Íbex no Bestiário 12 CXIX (British Library, Royal MS 12 CXIX, f. 26r);
Figura (à esquerda): A pia baptismal de Thames Ditton, Inglaterra, séc. XII (DRUCE, 1908, p. 3); Figura (à direita): Íbex na mesma pia baptismal, Inglaterra, séc. XII (DRUCE, 1908, p. 3).

“Além das narrativas encontradas nos bestiários medievais, outra demonstração da transformação do íbex numa alegoria cristianizada é apresentada por Druce a partir da análise de uma pia baptismal normanda encontrada na Igreja de São Nicolau, no vilarejo de Thames Ditton, na Inglaterra”.

Visão do caprino

  • Simbolismo do “conhecer à distância”;
  • O Enxergar ao longe, Elevação;
  • Sublimidade Espiritual.

A VISÃO DA CABRA

Os bestiários apresentam estes dois exemplares de animais chifrudos como símbolos de Cristo e dos membros da Igreja, excluindo ou ainda deslocando para a narrativa do bode alguns dos elementos simbólicos antes atribuídos à cabra. Nos bestiários medievais, sobre a cabra e a sua relação com Cristo, lê-se:

“Thus Our Lord Jesus Christ is partial to high moutains, i.e. to Prophets and Apostles, for it is said in the Song of Songs: “Behold my cousin cometh like a he-goat leaping on the mountains, crossing the little hills, and like a goat he is pastured in the valleys”. Our Lord is pastured in the Church – you see, the good works of Christians are food for him” – and it was he who said: “I hungered and you gave me to eat, I thirsted and you gave me to drink” (Cambridge University Library, MS l.i. 4. 26 In: WHITE, 1984, p. 41).
.
“Assim, nosso Senhor Jesus Cristo é parcial a altas montanhas, ou seja, os profetas e apóstolos, pois é dito no cântico dos cânticos: “Eis que meu primo vem como um bode que salta nas montanhas, atravessa as pequenas colinas e uma cabra ele é pastado nos vales ”. O nosso Senhor está pastando na Igreja – veja bem, as boas obras dos cristãos são alimento para ele ”- e foi ele quem disse: “Eu tinha fome e você me deu para comer, tenho sede e você me deu para beber ” (Cambridge University Library, MS l.i. 4. 26 In: WHITE, 1984, p. 41).

Sobre a sua capacidade de enxergar muito longe, o Bestiário de Cambridge acrescenta:

“Because the sharpness of a goat’s eyes is very acute, and they see everything and know men from afar, this symbolizes Our Lord, who is the Lord God of all knowing” (Cambridge University Library, MS l.i. 4. 26 In: WHITE, 1984, p. 41).
.
“Como a nitidez dos olhos de uma cabra é muito aguda e eles vêem tudo e conhecem homens de longe, isto simboliza o Nosso Senhor, que é o Senhor Deus de todos os que sabem” (Cambridge University Library, MS l.i. 4. 26 In: WHITE, 1984, p. 41).

Embora não seja exclusiva, a excelente visão da cabra torna-se talvez o principal elemento alegórico desta narrativa nos bestiários, enquanto os Physiologus, (obra escrita em grego por volta do século II em Alexandria, no Egipto, com o título traduzido como O Naturalista, tendo o seu exemplar mais antigo datado do século IX, actualmente mantido em Berna, na Suíça), descrevem com maior atenção o aspecto da cabra viver em lugares de altitude..

O bode

  • Símbolo de Fertilidade na Antiguidade;
  • Símbolo de Expiação de pecados;
  • Símbolo de Guardião de sigilos;
  • Símbolo de prefiguração de sacrifício para uma nova vida.

“O BODE EM RITUAIS RELIGIOSOS

Lembrando a tradição pré-cristã da fábula da Filha Sábia, o uso do bode era frequente em rituais que envolviam a fertilidade, como nas celebrações dionisíacas, nos cultos helenísticos de Artemis ou Vénus (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 180) e também nos rituais escandinavos dedicados ao deus Thor, uma das divindades mais adoradas entre os séculos VIII e XI nas regiões nórdicas e que, sendo chamado de “senhor dos bodes”, atribuía para si a função de manter a fertilidade dos campos (OLIVEIRA, 2016, p. 47). Entretanto, antes de apresentar as questões a respeito destes rituais, vale a pena apontar que na tradição mosaica o bode também se integra em rituais religiosos.

O bode aparece em diferentes passagens bíblicas como elemento dos rituais de expiação do povo judeu. Os animais seleccionados como parte da cerimónia do Yom Kippur, ou Dia do Perdão, têm como função retirar as impurezas do povo de Israel, como atestado no Levítico: “Imolará então o bode destinado ao sacrifício pelo pecado do povo e levará o seu sangue para detrás do véu. […] Fará assim o rito de expiação pelo santuário, pelas impurezas dos israelitas, pelas suas transgressões e por todos os seus pecados” (Lv, 16:15 – 16). Além do bode imolado por Aarão no ritual de expiação, outro bode foi apartado do seu rebanho para protagonizar outro ritual expiatório, desta vez sendo abandonado no deserto: “Aarão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode e confessará sobre ele todos os seus pecados. E depois de tê-las assim posto sobre a cabeça do bode, enviá-lo-á ao deserto, […] e o bode levará sobre si todas as faltas deles para uma região desolada” (Lev, 16: 21 – 22).

O episódio do bode expiatório foi encarado como uma prefiguração do sacrifício de Cristo por autores como Teodoreto (393 – 457), Tomás de Aquino (1225 – 1274), Bruno de Asti (1467 – 1541), entre outros. Todavia, São Bernardo (1090 – 1153), expondo o bode como um animal sujo, afasta tal relação com Cristo e opta por usar a história do cordeiro imolado ao invés do bode expiatório (CHARBONNEAU-LASSAY, 1997, p. 182). Talvez isso justifique a ausência de qualquer menção ao bode expiatório ou a sua associação a Cristo nos bestiários medievais.

Durante a época clássica o bode teve diferentes funções nas celebrações para Dionísio ou Baco. Dionísio era a divindade que personificava o excesso ébrio do vinho e, por consequência, da diminuição das inibições humanas. Nestas festividades dionisíacas – nas quais as bacantes vestiam peles de bode (CHEVALIER; GHEERBRANDT, 2009, p. 157) – um bode era sacrificado ao som de melodias chamadas tragodiai, ou canções caprinas, o que em certa medida promoveu o desenvolvimento da tragédia grega (VARANDAS, 2006, p. 97)..

Fraude de Taxil e a figura do sátiro maléfico maçónico ficcioso

A partir do final do século XIX, início do século XX, já na actual era contemporânea, muito da imagem e conceitos negativos e satânicos à maçonaria e aos maçons, foi atribuída coma a figura de Baphonet, figura com chifres, metade bode, metade homem, uma espécie de sátiro (figura lendária, antropomórfica, metade bode, metade homem), e pelos panfletos amplamente divulgados na europa e por todo o mundo, pelo escritor e perjuro Leo Taxil.

Trata-se de uma obra de repercussão mundial, como uma espécie de “exposure” ficciosa, em Os Mistérios da Franco-maçonaria, provavelmente a mais famosa farsa antimaçónica francesa. O seu autor, Léo Taxil, quis vingar-se da Maçonaria, por ter sido expulso em 1882 por um caso de plágio ou perjúrio.

Figura (à direita): Cartaz publicitário da obra de Leo Taxil. Figura (ao centro): Invocação de Baphomet pelos maçons segundo Taxil. Figura (à esquerda) Leo Taxil, responsável por uma farsa antimaçónica sem precedentes que gerou um escândalo e envolveu o próprio Papa à época, Leão XIII.

Veja-se um excelente resumo objectivo do episódio histórico de Leo Taxil, que envolveu até o Papa Leão XIII (Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci-Prosperi-Buzzi), em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fraude_de_Taxil

Resumo da história de Leo Taxil

“Leo Taxil era o nome de pena de Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand-Pagès, que tinha sido anteriormente acusado de difamação a respeito de um livro que escreveu chamado The Secret Loves de Pope Pius IX. Taxil inicialmente chegou a publicar vários livros anticatólicos, que pintaram a hierarquia eclesiástica como hedonista e sádica. Taxil ingressou na Maçonaria em 1881, mas não passou do primeiro grau, sendo expulso dez meses depois, em 1882, por estar envolvido em alguns casos de plágio e difamação.

Em 20 de Abril de 1884 o Papa Leão XIII publicou uma encíclica, Humanum Genus, que afirmou que a raça humana foi “separada em duas partes opostas e diversas, das quais uma resolutamente luta pela verdade e a virtude, a outra é daquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Uma é o reino de Deus sobre a terra, a saber, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo (…) O outro é o reino de Satanás”.

Este outro reino dito, ao que se supõe pelo posicionamento do pontífice com relação aos maçons, “levado ou assistido” pela Maçonaria.

Após esta encíclica, Taxil viu, como ele mesmo confessaria mais tarde, uma grande oportunidade para uma brincadeira onde ridicularizaria a Igreja e vingar-se-ia da Maçonaria por tê-lo expulso. Em 1885, Taxil submeteu-se a público, dizendo converter-se ao catolicismo romano, e anunciou a sua intenção de reparar o dano que ele tinha feito para a verdadeira fé. De seguida, inventou uma ordem maçónica satânica imaginária de nome Palladium, cujo objectivo principal seria de dominar o mundo.

O suposto objectivo de Taxil era denunciar tal ordem, revelando os seus segredos e acções à sociedade. Tendo começado por acusar a Maçonaria de ocultar as piores misérias morais e incentivar os seus seguidores ao vício, quando não ao assassinato, em seguida, acusou de ser uma seita satânica que dedica os seus cultos a Baphomet, nos camarotes dos quais o chefe supremo Albert Pike recebia as suas ordens, de Lúcifer em pessoa.

Para tornar a farsa mais credível, Taxil misturou elementos do ritual Maçónico com elementos fantasiosos da sua invenção. Em particular, sobre as várias imagens doravante famosas, reutilizou o símbolo do 18º do Rito Escocês Antigo e Aceito, substituindo o cordeiro pascal pela imagem de Baphomet, uma figura simbólica concebida e divulgada a partir de 1854 pelo ocultista francês Eliphas Levi.

O primeiro livro produzido por Taxil após a sua suposta conversão católica era um quarto-volume da história da Maçonaria, que continha verificações fictícias de uma testemunha da sua participação no satanismo. Com um colaborador que publicou como “Dr. Karl Hacks”, escreveu outro livro chamado Devil in the Nineteenth Century, que introduziu um novo personagem, Diana Vaughan, uma suposta descendente do alquimista Rosa-Cruz Thomas Vaughan. O livro continha muitos contos sobre os seus supostos encontros com demónios encarnados, um dos quais supostamente escreveu profecias sobre a sua volta com a sua cauda, e outro que tocava piano, sob a forma de um crocodilo.

Segundo Taxil, Diana Vaughan teria sido envolvida na maçonaria satânica, mas fora resgatada quando um dia ela professou admiração por Joana d’Arc (ainda não canonizada na época), cujo nome teria posto os demónios em fuga. Declarando co-autoria como Diana Vaughan, Taxil publicou um livro chamado Eucharistic Novena, uma colecção de orações que foram elogiadas pelo Papa.

Leo Taxil convenceu muitos católicos com a sua farsa – tanto que em 1887 foi recebido em audiência pelo Papa Leão XIII, que declarou ser admirador da obra de Taxil, solicitou que ele escrevesse mais livros e passou a financiá-lo.

Continuando a farsa, Taxil alegou que Albert Pike, Grande Comendador do Supremo Conselho de Jurisdição do Sul do Rito Escocês antigo e aceito, era um “Papa Luciferianista”, o líder supremo de todos os Maçons do mundo, e que ele admitiu que toda sexta-feira às três horas conferia com o próprio Satanás. Monsenhor Northrop, bispo de Charleston (Carolina do Sul), foi especialmente para Roma, a este respeito a fim de garantir a Leão XIII que os maçons da sua cidade episcopal são pessoas dignas, e o seu templo não adornava qualquer estátua de Satanás.

Em 19 de Abril de 1897, após dez anos de patrocínio pelo Papa, Taxil chamou uma conferência de imprensa organizada na Sociedade de Geografia (a chamada Conferência de Leo Taxil), na qual confessou que as suas revelações sobre os maçons eram fictícias; admitiu que Diana Vaughan não existia, pelo contrário, que o nome tinha sido emprestado da sua secretária; revelou que tal ordem Paládio não existia; explicou detalhadamente os cuidados que teve para criar a e manter a farsa e agradeceu ao clero pela sua assistência em dar publicidade às suas alegações selvagens; e afirmou que a sua “brincadeira amigável” teria feito o seu sucesso no tempo do livre-pensamento que iria “Matá-los através de riso.” Isto revelou o grau da sua impostura e provocou um escândalo em que a polícia teve que intervir para acalmar e dar assistência e protecção ao autor.

Embora o material produzido por Taxil seja confessamente uma fraude, esse material ainda é utilizado contra maçons até hoje, principalmente pelos fundamentalistas cristãos e antimaçónicos, que associam o Baphomet à Maçonaria e afirmam que a maçonaria é satânica. Um livro foi-lhe consagrado (Le Mystère de Léo Taxil et la vraie Diana Vaughan), publicado em 1930, sob o pseudónimo “Spectator”, afirma que Taxil tinha sido manipulado pela Maçonaria para desacreditar a anti maçonaria.”

Conclusão prévia

Logo, os animais com chifres, aqui, notadamente o bode, desde a Antiguidade, Idade Média e Moderna, e ainda até os dias de hoje, tem encerrado significados diversos, polissémicos, desde a sublimidade sagrada ao negativo profano, servindo ora como alegoria ou referência para explicar o Bem Maior ou Virtudes, assim como também ora para atribuir conceitos satânicos ou perversos, frutos da superstição e ignorância.

Alexandre L. Fortes 33°, M:. I:. – CIM 285969 – A. R. L. S. Irmão Cícero Veloso N° 4.543 – GOB-PI – GOB.

Algumas figuras de bestiários medievais ingleses

Cabra e cervo junto ao caçador e ao dictamno (Oxford, Bodleian Library, MS Bodley 764 In: BARBER, 1999, p. 56).
Cabras no Bestiário de Rochester (British Library, Royal MS 12 F XIII, f. 20v).
Bodes no Bestiário Royal 12 C XIX (British Library, Royal MS 12 CXIX, f. 31v).
Bode junto a videira no Harley MS 3244 (British Library, MS Harley 3244, f. 46v)

Algumas esculturas antigas de íbex (bodes)

Cabeça de bronze e dourada de um íbex ou de um capricórnio. Fazia parte de uma casca sagrada que podia ser carregada nos ombros de uma procissão de sacerdotes durante os rituais. Provavelmente de Zagazig, Egipto. Terceiro Período Intermediário, 21a Dinastia, 1069-945 AEC. Está em exibição no Museu Neues, Berlim, Alemanha.
Escultura Persa – Estátua de Bronze do Irã de um Íbex. Cerca de 1.900 a 1300 a.C.
Íbex alpino, representando em bronze, datado do século VII ao VI a.C.. É visto em 21 de Maio de 2008 no Museu de Arte e História de Genebra. A nova exposição apresenta uma colecção de qualidade excepcional entre as 7000 peças da colecção particular Barbier-Mueller, escolhidas por suas notáveis qualidades plásticas e que nunca tinham sido mostradas juntas. Foto AFP / Fabrice Coffrini (Crédito da foto deve ser FABRICE COFFRINI / AFP via Getty Images).
Íbex de ouro, Akrotiri, Grécia. Século XVII a.C.

Fontes e Bibliografia

  • AMATO, Marcelo Cardoso. Os simbolismos dos animais com chifres em bestiários ingleses. 2018.
  • CHARBONNEAU-LASSAY, Louis. The Bestiary of Christ. New York: Parábola Books, 1991.
  • CHEVALIER, Jean (dir.). Diccionario de los símbolos. Barcelona: Herder, 1986.
  • OLIVEIRA, Leandro Vilar. Thor, o senhor dos bodes: um estudo de simbologia animal. Diversidade Religiosa, João Pessoa, v. 6, n. 1, p. 34-63, 2016.
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Fraude_de_Taxil

Bestiários

  • Bestiário de Aberdeen (Aberdeen University Library, MS 24) In: ABERDEEN BESTIARY. Disponível em: https://www.abdn.ac.uk/bestiary/ms24 .
  • Bestiário de Cambridge (Cambridge University Library, MS l.i. 4. 26) In: WHITE, T. H. (Trad.). The Book of Beasts. New York: Dover Publications, 1984.
  • Bestiário Bodley 764 (Oxford, Bodleian Library, MS Bodley 764) In: BARBER, Richard. (Ed.). Bestiary. Woodbridge: The Boydell Press, 1999.
  • Bestiário Add. 11283 (British Library, Add. MS 11283). Disponível em: http://www.bl.uk/manuscripts/FullDisplay.aspx?ref=Add_MS_11283.
  • Bestiário 12 CXIX (British Library, Royal MS 12 CXIX). Disponível em: http://www.bl.uk/catalogues/illuminatedmanuscripts/record.asp?MSID=8813.
  • Bestiário de Rochester (British Library, Royal MS 12 F XIII). Disponível em: http://www.bl.uk/manuscripts/FullDisplay.aspx?ref=Royal_MS_12_f_xiii.
  • Bestiário Harley 3244 (British Library, MS Harley 3244). Disponível em: http://www.bl.uk/manuscripts/FullDisplay.aspx?ref=Harley_MS_3244.

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