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O Zen e o Estoicismo

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✍️ Desconhecido 📅 02/11/2025 👁️ 0 Leituras

Estoicismo

Dando Fim à Busca da Felicidade, uma obra (2022) do psicanalista e professor zen Barry Magid, cuja vida e obra têm estado na vanguarda de um movimento para integrar a psicologia ocidental às práticas espirituais orientais, cita, em determinada altura que “Infelizmente, muitas pessoas prefeririam tratar as consequências inevitáveis de ser humano como um fracasso do seu projecto de perfeição nos seus vários disfarces do que admitir que as coisas mais básicas a respeito da vida não estão, e nunca estiveram, sob o nosso controle”, estabelecendo, dessa maneira, uma aproximação bem acentuada do seu pensamento com a Filosofia Estóica.

O autor destaca que as pessoas frequentemente encaram as limitações humanas (envelhecer, adoecer, sofrer perdas, morrer) como se fossem falhas pessoais. Isso ocorre porque existe a ilusão de que seria possível construir um projecto de perfeição no qual a vida estaria sob o total controle de cada um. Porém, as coisas mais fundamentais da existência nunca estiveram sob o domínio pessoal de ninguém.

Os estóicos, como Epicteto, Séneca e Marco Aurélio, enfatizavam que é necessário distinguir o que está no poder pessoal e o que não está, não cabendo a ninguém controlar a vida, mas apenas a própria atitude e a sua resposta diante dos acontecimentos. A ilusão de domínio absoluto gera sofrimento, pois faz o homem lutar contra o inevitável.

Epicteto, por exemplo, dizia “Algumas coisas dependem de nós, outras não”. Este princípio é praticamente idêntico ao ponto que Magid levanta.

Estabelecendo diferenças de tom entre um e outro, Magid fala dentro de uma chave mais psicológica e budista (ele é seguidor da tradição Zen), ressaltando a tendência do Ego de rejeitar a imperfeição e a contingência. Por sua vez, os estóicos falam em termos de razão, natureza e destino (Logos), propondo a aceitação serena do que escapa ao controle individual.

Portanto, buscando pontos de convergência, tem-se que ambos se encontram num ponto central, que afirma que a vida não está sob o controle pessoal, o sofrimento aumenta quando se resiste a essa verdade, e a sabedoria está em aceitar os limites da condição humana.

Há várias maneiras e formas de criar um ambiente de crescimento e esclarecimento pessoal, mas o que varia entre eles é o caminho escolhido. A verdade sobre a vida – com os seus limites, incertezas e inevitabilidades – é como uma montanha. Cada tradição filosófica ou espiritual aponta um caminho diferente para subir essa montanha, mas a montanha continua sendo a mesma.

  • O Estoicismo busca o cume pela via da razão, distinguindo o que está ou não no poder de cada um;
  • O budismo/Zen, como no caso de Magid, segue pelo caminho da atenção plena e da aceitação compassiva;
  • A Maçonaria, propõe a senda do autoconhecimento simbólico e do trabalho interior sobre a Pedra Bruta;
  • Outras tradições, como o cristianismo, o hinduísmo ou mesmo a filosofia moderna, oferecem trilhas próprias – algumas mais voltadas para a fé, outras para a reflexão racional.

O que muda é o estilo da caminhada – mais racional, meditativo, ritualístico ou devocional. Mas todas convergem na ideia de que o homem só encontra paz e sabedoria quando aceita os limites do que não pode controlar e transforma o que está ao seu alcance.

Em última instância, o caminho é o que dá o tom da experiência pessoal. Alguns preferem uma estrada recta e lógica, outros uma trilha contemplativa, outros ainda uma jornada simbólica. O importante é que, em qualquer uma delas, o buscador genuíno encontre crescimento e esclarecimento.

Trilhas de Sabedoria – Caminhos para a mesma montanha

zen, estoicismo

Pode-se ver daí que todas essas tradições, cada qual à sua maneira, partem de uma mesma constatação: não há o domínio pessoal sobre a totalidade da vida. A diferença está em como cada caminho ensina a responder a essa condição humana.

Em qualquer caminho escolhido, porém, há factores que contribuem em muito para o alcance, ou mesmo qualquer aproximação, de um estado de crescimento interior. E esses factores passam, ao meu entendimento comum, pela constância de propósito, pela resiliência diante dos obstáculos e pela atenção focada no processo.

Independentemente do caminho escolhido – estóico, zen, cristão, maçónico, existencialista ou outro qualquer – certos factores universais parecem indispensáveis para qualquer busca de crescimento interior.

Três pilares que são destaques para esse entendimento:

Constância de propósito

  • É o fio que mantém o buscador alinhado ao seu objectivo, evitando dispersão;
  • Os estóicos chamariam isso de prohairesis (firmeza da vontade);
  • No Zen, é o “sentar-se sempre de novo” (shikantaza);
  • Na Maçonaria, é a perseverança no trabalho de lapidar a Pedra Bruta.

Resiliência diante dos obstáculos

  • O crescimento interior não elimina dificuldades, mas ensina a suportá-las e transformá-las em aprendizagem;
  • O estóico vê nisso a oportunidade de exercício da virtude;
  • O cristão, uma provação que fortalece a fé;
  • O maçom, uma lição para o aprimoramento moral.

Atenção focada no processo

  • Crescimento não é um salto único, mas um caminho feito passo a passo;
  • Isso exige vigilância, presença e disciplina;
  • No Zen, é literalmente viver o instante;
  • Para o existencialista, é assumir cada escolha como construção de si;
  • Para o maçom, é valorizar cada grau, cada símbolo, cada rito como parte do progresso.

O ponto em comum entre todas as tradições é que ninguém cresce por acaso ou por mera inspiração. O que transforma a pessoa é o propósito claro, a resiliência constante, e a atenção disciplinada. Sem isso, mesmo o caminho mais iluminado pode se tornar apenas teoria ou distracção intelectual.

Esses três factores são universais e transversais. São como os ferramentais internos que permitem ao homem, em qualquer tradição, se aproximar do estado de sabedoria, serenidade ou iluminação.

Giovanni Angius, MI – 33º REAA – ARLS Orvalho do Hermon nº 21 – Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo – Brasil

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