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O símbolo: linguagem e transcendência

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✍️ Desconhecido 📅 21/08/2025 👁️ 0 Leituras

simbolos maçónicos

Antes de podermos falar sobre o “símbolo” devemos antes de tudo deter-nos sobre o “signo”, signo linguístico. Sem este último o primeiro não poderia existir. O signo linguístico, segundo o “pai” da Linguística moderna, Ferdinand de Saussure, é a união intrínseca entre o significante, a parte perceptível ou exprimível do signo (e.g., c-a-s-a) e o significado, a parte inteligível do signo ou o seu conceito (e.g., casa ).

Os verbos deram origem aos nomes. Os nomes deram origem aos símbolos. Na Linguagem, o símbolo aparece, para alguns autores, como sinónimo de signo. Umberto Eco (1971) explica que, para Charles Peirce [1], o signo – é algo que, sob certo aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa para alguém – e tem uma relação tríade (vd. exemplo infra) que se estabelece entre um determinado “objeto”, o seu representante e a interpretação que é realizada.

[…] na base do triângulo encontra-se o símbolo ou representamen, colocado em relação a um objeto que o representa; no vértice do triângulo, o signo tem o interpretante, que muitos foram levados a identificar com o significado e a referência […] Todavia, a hipótese aparentemente mais fecunda é a que vê o interpretante como outra representação relativa ao mesmo objeto […] A linguagem seria então um sistema que se esclarece por si mesmo, através de sucessivos sistemas de convenções que se explicam reciprocamente. (ECO, 1971, p. 25-26).

A interpretação, portanto, é uma espécie de base sobre a qual se instaura a relação objeto-signo e corresponde à ideia, no sentido platónico do termo, dado que o signo não representa o objeto no seu todo, mas apenas, uma ideia dele. A relação entre signo e objeto pode ser dividida em três categorias:

  • “de ícone” – por referência a um determinado objeto através da sua semelhança com ele. (e.g., o desenho de uma árvore que representa a árvore real e que se parece com essa mesma árvore).
  • “de índice” – onde existe uma relação que não se parece necessariamente com o objeto, mas recebe uma influência dele e, por isso mesmo, possui algo em comum com o objeto (e.g., o fumo, que pode indicar a presença de fogo e como tal constitui esta categoria de índice de fogo.
  • “de símbolo” – esta é a categoria que nos interessa e a qual se refere a um objeto que designa, por uma espécie de lei ou convenção, uma ideia (e.g., os signos linguísticos e os próprios símbolos maçónicos – entenda-se por estes últimos toda a linguagem verbal, gestual e corporal maçónica, bem como todas as sonoridades prescritas e realizadas em Sessão e concretamente todos os objetos simbólicos que a nossa Ordem nos vai proporcionando a cada etapa).

Uma das postulações básicas da Linguística é a da arbitrariedade do signo. Porém, essa arbitrariedade não provém de um acto voluntário individual, o que, por conseguinte, faz com que os signos não possam ser mudados de maneira aleatória. Caso isso ocorresse, a comunicação tornar-se-ia impraticável.

Pelo contrário, a arbitrariedade do signo é praticamente “normativa, absoluta, válida y obligatoria para todos los sujetos que hablan un mismo idioma”. (KRISTEVA, 1998, p. 15) e eu diria, no nosso caso concreto, para todos quantos falam maçonicamente. Por arbitrariedade entende-se que não existe uma necessidade natural ou real que una o significante com o significado (e.g., o significante CASA não possui em si mesmo nada que possa caracterizar o significado casa ).

O homem pode modificar o significado, tornando-o mais rico ou mais pobre, dando sentido (direção e significado) ao universo, formando o Universo do Sentido, que é dinâmico e contínuo. É o que ocorre com a publicidade de um produto que vê alterado o seu significado, consoante o interesse do dono do produto. Na política, encontramos também abundante material de propaganda que “vende” a imagem de um determinado candidato, ao alterar apenas alguns conceitos.

Em relação ao signo, o universo semântico é o conjunto de elementos que, em proporções diferentes, constrói a referência de determinado signo. A partir destas colocações, podemos afirmar que o símbolo na linguagem tem sido usado como sinónimo de signo, ou, então, como uma categoria do signo. Esta aproximação pode trazer confusões conceptuais e, mais do que isso, uma redução do significado do símbolo que o impede de representar.

Associar a noção do símbolo apenas à palavra escrita, ao signo linguístico, e, pior ainda, à palavra tomada no seu sentido denotativo, é reduzir muito todas as possibilidades que o símbolo pode ter, leituras que podem ser feitas acerca dele, ou seja, é impedir a sua função transcendente. Este ponto é de suma importância na relação com a transcendência, uma vez que o símbolo, nessa relação transcendente, possui um significado que vai para lá da sua referência, do seu conceito.

O símbolo, segundo Carl Jung necessita possuir um esboço fundamental arquetípico. O arquétipo é um símbolo potencial:

[…] “o arquétipo em si” é, essencialmente, energia psíquica aglomerada, mas o símbolo é agregado pelo modo como a energia aparece e se torna justamente constatável. Nesse sentido, Carl Jung define o símbolo também como “índole e retrato da energia psíquica” (JACOBI, 1995, p. 73).

A palavra símbolo ( σύμβολον), formada a partir do antigo verbo grego σύμβαλοο, que reunia a ideia de compilar, reunir, sempre teve de admitir as mais variadas definições e interpretações; no entanto, todas elas concordavam no ponto em que, dessa forma, se queria designar algo que, por detrás do sentido objetivo e visível, se oculta um sentido invisível e mais profundo. Desta forma, o homem foi capaz de emitir sons, ao imitar inicialmente os que a natureza lhe oferecia, e posteriormente elaborar uma musicalidade que, com o tempo, começou a fazer sentido.

Eugenio Trías [2] oferece um caminho para esta percepção:

Por símbolo debe entenderse en forma verbal: hace referencia a un acontecimiento al que llamo el acontecimiento simbólico. […] La etimología de la expresión símbolo, como se sabe, hace referencia al acto de «lanzar» a la vez, o «conjuntamente», algo.

Ese algo es una medalla o moneda partida por la mitad. El símbolo es una unidad escindida que se realiza como símbolo cuando ambos fragmentos son «lanzados» y se propicia su conjunción, su deseada articulación. Tal acto de conjunción es lo que llamo acontecimiento simbólico.

TRÍAS, 2015, p. 109.

Veja-se a seguinte metáfora onde Trías explica as partes correlativas (entre o sujeito e o objeto) existentes no símbolo:

Todo símbolo es una correlación y, como tal, expresa o significa un nexo. Se estipula y sella a través del símbolo la co-relación entre las dos partes divididas de la moneda o medalla. A la parte de la cual dispone el sujeto, signo y seña de su propia identidad, puede llamársele la parte simbolizante del símbolo, aquélla en virtud de la cual éste se hace patente y manifiesto, o puede acogerse en la experiencia. A la parte que el sujeto no dispone, pero que porfía por encontrar, y que se halla fuera de su estricto dominio y posesión, puede llamársele el sentido del símbolo, lo que proporciona orientación, norte y oriente a éste. Es lo simbolizado en el símbolo.

TRÍAS, 2015, p. 169.

Eugenio Trías já anuncia a compreensão do símbolo como ponte ou bússola que une duas metades separadas que, apesar de assim poderem existir, só assumem o seu sentido quando se unem.

Meus Queridos Irmãos:

O símbolo evoca a intuição; a linguagem sabe apenas explicar. O símbolo estende as suas raízes até ao mais profundo recôndito da alma; a linguagem roça, qual brisa suave, a superfície da compreensão. Só o símbolo consegue unir o mais diversificado no sentido de uma única impressão global. As palavras tornam o infinito finito, os símbolos arrebatam o espírito para além dos limites do finito e mortal até ao reino do ser infinito. Os símbolos estimulam intuições, são signos do inefável e como o inefável, são também eles inesgotáveis.

O símbolo aproxima o divino do humano, é a ponte que liga estas duas realidades, como as duas faces da mesma moeda. Está presente em todos os momentos em que existir uma passagem, um período de transição da vida humana (como os nossos ritos maçónicos – com a sua própria linguagem e sonoridades). Onde a presença do outro (ou Outro) se faz necessária para dar direção e significado a uma ausência. Nesta transição há uma perda ou há uma vitória.

Os símbolos de transcendência dizem respeito à libertação do homem de qualquer forma de vida restrita, da resposta única, do texto de um único sentido. Os símbolos encontram-se no campo da representação. Signos e símbolos pertencem a níveis diferentes da realidade. De facto, como afirma Cassirer, um filósofo alemão dos inícios do séc. XX, o homem é um animal simbólico, e diz mais, que o signo é uma parte do mundo físico do ser e o símbolo é uma parte do mundo humano dos sentidos.

Tal como o signo na Linguagem se refere ao nome de algo, o símbolo remete para o mundo dos sentidos e significados mais profundos e, desta forma, indizíveis. O símbolo é vivo enquanto expressa alguma coisa que não tem outra expressão melhor. Quando o símbolo encontra a sua máxima expressão, isto é, quando assume uma explicação do que se buscava explicar, torna-se um signo e morre enquanto símbolo.

O símbolo depende ainda da estrutura ou condição espirituais de cada homem, isto é, o símbolo compõe a linguagem da alma e do espírito, pela transcendência, quando exerce a função de mediador, como uma ponte. Tal como a vida, o símbolo é um constante transformador de energia. Energia que torna o homem, a sua alma e o seu espírito, vivos.

Sérgio C., M. M. – R. L. Miramar, nº 36 (GLLP / GLRP)
17.04. 6024 (A.L.)

Notas

[1] Filósofo e linguista norte americano do séc. XIX que muito contribuiu para a semiótica

[2] Filósofo espanhol (Barcelona) da atualidade.

Bibliografia

  • CASSIRER, Ernst (1995). Ensaio sobre o Homem. Lisboa: Guimarães Editores.
  • ECO, Umberto (1971). A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva.
  • JACOBI, Jolande (1995). Complexo, arquétipo, símbolo: na perspectiva de Carl G. Jung. 10. ed. São Paulo: Cultrix.
  • KRISTEVA, Julia (1998). El lenguaje eso desconocido: introducción a la lingüística. Madrid: Editorial Fundamentos.
  • TRÍAS, Eugenio (2015). Pensar la religión. Barcelona: Galaxia Gutenberg.

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