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O silêncio augural da noite

✍️ Desconhecido 📅 01/07/2022 👁️ 7 Leituras

música silêncio

O traçado deste Balaústre, bem como outros que já tenho apresentado gira à volta do pensamento do grande filósofo e músico russo Vladimir Jankélévitch.

A aura fantasmática do silêncio surge como o alfa e o ómega do pensamento de Jankélévitch, pelo que considero que toda a sua filosofia termina na senda apofática do silêncio, debruçando-se no negro do nocturno. Por este motivo, vou referir-me à questão do silêncio e à sua relação com a música, não concebendo o silêncio como uma instância absorvente que reduz a realidade ao mutismo total, mas como instância musical, que nos permite ouvir a essência inaudível dos sons.

A filosofia jankélévitchiana vai demonstrar-nos que o silêncio é, antes de mais, uma das experiências mais profundas da natureza humana, pois só o homem tem a possibilidade falar e, por conseguinte, só ele tem o privilégio de fazer silêncio. Segundo o autor, o desenvolvimento da linguagem na nossa civilização constitui uma das formas mais nobres de expressão do espírito humano, todavia, a palavra em comparação com a música será sempre uma forma de ruído, um ‘ruído’ nobre relativamente às outras formas de ruído presentes no mundo, mas nunca deixa de ser um ‘ruído’ ensurdecedor e perturbador para quem deseja realmente ouvir a ‘voz do silêncio’. Deste modo, Jankélévitch critica o estatuto da linguagem na vida humana, considerando-a como uma forma de ‘barulho’, com o intuito de demonstrar que o discurso linguístico é um verdadeiro entrave à fruição da vida, um entrave à ‘experiência’. É neste ambiente crítico e dilacerador de regras, que o autor nos propõe o Silêncio como experiência primordial da vida, do amor e da música. Tal derrubamento da linguagem tem como finalidade reconduzir o homem para a arte musical, pois enquanto o homem estiver preso ao discurso não pode vivênciar a beleza dos sons. Jankélévitch afirma que o amante da música tem tendência a desvalorizar a palavra, na medida em que a linguagem surge como algo ameaçador, algo que pode perturbar o homem e distrai-lo daquilo que é mais essencial, neste sentido, vai verificar-se uma certa oposição entre a linguagem e a música. Em primeiro lugar, para se ouvir música, para se criar e compor música é necessário, como condição fundamental, um vazio e um silêncio inicial, por isso, quando o homem tenta perscrutar os sons deve fazer silêncio. A música e a linguagem não podem, assim, existir em simultâneo, travando uma luta acirrada, que desencadeia uma grande tensão entre ambas. Jankélévitch refere que quando a linguagem e a música entram em ‘concorrência’, a prioridade deve ser concedida à música, pois o homem deve calar as suas palavras para deixar ouvir e “falar” os sons.

De um modo geral, a palavra foi sempre valorizada no domínio filosófico – na verdade, o que é a filosofia senão uma reflexão por meio de palavras? – Se percorrermos toda a história da filosofia poderemos assistir à emergência da linguagem e do poder do Logos na Antiguidade Clássica, onde reinava a soberania do Logos e da palavra. Os cidadãos da polis reuniam-se na Ágora, local central na sociedade grega, onde os homens dissertavam sobre os mais diversos assuntos, e a Ágora vivia de palavras, pois o discurso retórico ocupava um lugar fundamental no pensamento grego. Na filosofia platónica, o filósofo era apresentado como um ser excepcional que se encarregava de “mostrar” a verdade às pessoas através do ‘discurso’, na medida em que o sábio deveria conduzir os homens à verdade através do ‘diálogo’ e da habilidade retórica, que encontra na ironia socrática a sua fonte de inspiração. A retórica deveria estar, pois, ao serviço da sabedoria e, usada correctamente, poderia encaminhar as almas para o mundo dos Arquétipos. Deste modo, o filósofo aparece-nos como um “retórico” ao serviço do Bem.

O Iluminismo vai acentuar igualmente o poder da palavra, erguendo a palavra como a expressão mais elevada da racionalidade humana. Kant acreditava que através do diálogo racional se poderia estabelecer ‘paz perpétua’ entre os homens, pois o objectivo do diálogo era desfazer mal-entendidos e estabelecer uma harmonia universal. Os homens esclarecidos acreditavam que existia um horizonte de racionalidade acessível a todo ser humano e que, através da palavra, a humanidade poderia chegar a um entendimento. Todavia, o Romantismo, posicionando-se contra o Iluminismo, apresenta a palavra não como ‘meio de entendimento’ entre os homens, mas como uma ‘meio de expressão da alma’, da sua intimidade, do seu lirismo profundo. O aparecimento do Romantismo traz consigo a elevação da palavra poética, na medida em que, para os românticos, Schiller e Novalis, a poesia era a arte suprema que permitia contactar com a essência da verdade. A palavra não era, assim, entendida apenas na sua função comunicativa ou retórica, passa a ser encarada como um elemento revelador, possuindo fundamentalmente uma função hermenêutica. Os românticos consideravam que era preciso interpretar, decifrar um sentido oculto e desvendar um ‘segredo’ que envolve todo o universo. Neste sentido, a hermenêutica está associada ao deus Hermes, o mensageiro dos deuses, que é portador de uma mensagem ou de um sentido primordial para a humanidade. Hermes era um intermediário que enviava as mensagens dos deuses aos homens e as mensagens dos homens aos deuses, estabelecendo a ligação entre o divino e o humano. A partir da figura de Hermes surgiu a ‘hermenêutica’, que se constitui como ciência no século XIX, demonstrando uma grande importância no Romantismo. Schleiermacher, amigo de Schlegel, partilhava os ideais românticos e ‘revolucionou’ a noção de hermenêutica tradicional, introduzindo a hermenêutica enquanto ciência, que não se cinge à interpretação de textos, mas apresenta um sentido superior: interpretar a vida. A ciência hermenêutica deixa de ter, por conseguinte, um sentido meramente técnico e começa a ganhar um sentido filosófico profundo.

Schleiermacher pretendia constituir uma ‘doutrina universal da interpretação’, onde o pensamento e a linguagem formavam uma espécie de unidade. Partindo do pressuposto de que todo o ser humano só pode pensar por intermédio de palavras, Schleiermacher entende que os conceitos e os juízos mantêm uma relação de interdependência. Se existe uma unidade fundamental entre pensamento e linguagem, então, a compreensão da realidade depende das possibilidades da própria linguagem, pois, através da linguagem, o homem pode criar pensamentos, na medida em que a linguagem é configuradora de uma certa visão do mundo. Daí a importância da hermenêutica, que está ligada à ciência suprema, a Dialéctica. Não pode existir Dialéctica, nem pode haver uma aproximação à verdade sem o auxílio da hermenêutica, visto que a concepção da verdade depende sempre da interpretação. Como tudo se apresenta de um modo relativo e parcial, e tudo se encontra dependente de uma determinada visão do sujeito, não pode haver pretensão de criar uma linguagem universal, pelo que Schleiermacher conclui que a verdade só pode ser objecto de uma intuição (Anschauung) e sentimento (Gefühl). Tudo vai girar em torno de uma hermenêutica mística que é a base da nossa cosmovisão. Só resta ao homem sentir e intuir o Absoluto, e neste aspecto, Schleiermacher distancia-se do Iluminismo, não acreditando na existência de uma linguagem universal que fosse compreendida por todos os homens, pois o universal é sempre pensado dentro das possibilidades de uma determinada linguagem específica.

João Branco – Cavaleiro Rosa Cruz

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