Freemason

O significado da cerimónia de elevação (II)

✍️ Desconhecido 📅 08/10/2022 👁️ 5 Leituras

delta, elevação

(Continuação – Ligação para a Parte I)

A vontade

Companheira da inteligência e do seu desenvolvimento, nos seus estados sucessivos, a Vontade é a faculdade de desejar e querer. A vontade é a gémea da Inteligência: enquanto esta é a faculdade passiva e luminosa do nosso ser, a que determina e guia os nossos juízos, a Vontade é aquela faculdade activa por excelência, que nos impulsiona a acção, traduzindo-se em esforço construtor ou destrutivo, segundo a particular direcção da Inteligência. As duas faculdades estão assim constantemente relacionadas e se determinam e influenciam mutuamente.

O Pensamento, dirigido pela Inteligência, prepara a linha ou direcção na qual se canaliza e segundo a qual actua a Vontade, enquanto esta, por sua vez determina e dirige a actividade intelectiva do pensamento, sendo a Consciência o centro motor estático determinante das duas.

Assim como há consciência e subconsciência, pensamento consciente e pensamento consciente e, portanto, inteligência racional como instintiva, há também uma vontade instintiva ou automática ao lado da vontade inteligente ou racional. A primeira é a que constitui os nossos desejos e os nossos impulsos, em comum com os animais e seres inferiores, enquanto a segunda é o resultado da reflexão, o fruto de uma determinação inteligente.

Pela sua íntima natureza, o progresso destas duas faculdades deve estar constantemente relacionado. A marcha do aprendiz, indica este processo: a cada passo do pé esquerdo (passividade, inteligência, pensamento), deve corresponder um igual passo do pé direito (actividade, vontade, acção) em esquadro, ou seja em acordo perfeito com o primeiro.

O livre arbítrio

Como coroamento e consequência necessária do estudo das faculdades humanas, chegamos ao problema do determinismo e do livre arbítrio, um problema sobre o qual muito se discutiu doutos e sábios em todos os tempos, pois da sua solução depende a irresponsabilidade ou responsabilidade do homem e, portanto, a utilidade de todo esforço.

A solução deste problema é de importância fundamental para o Maçom, pois se o homem não for livre nas suas acções e determinações a Maçonaria, como Arte Real da Vida, não teria razão nenhuma de existir. O Companheiro, que reconheceu interiormente a verdadeira natureza das suas faculdades, acha-se agora perfeitamente capacitado para se resolver.

É sem dúvida, que a vontade, e por consequência a actividade do homem e o fruto das suas acções, se acham determinados pelo o que ele pensa, julga e vê interiormente. Assim pois, o que o faz único e como obra em determinadas circunstância, o que elege constantemente (seja esta eleição consciente ou inconsciente, depende da sua maneira de pensar, da sua claridade de mente, do seu juízo e dos seus conhecimentos.

Por consequência, livre arbítrio e liberdade individual existem para o homem em proporção do desenvolvimento da sua Inteligência e do seu Juízo.

Para o homem inteiramente dominados pelas suas paixões, instintos, vícios e erros, não existe o livre arbítrio, como existe para o homem iluminado e virtuoso. Os instintos e as paixões determinam constantemente os seus actos assim como os do animal e o ata ao julgo de uma fatalidade que é a consequência ou concatenação lógica das causas e dos efeitos, ou seja a dupla reacção interior e exterior de toda acção.

Mas para quem se esforça constantemente em se dominar e dominar as suas paixões, elegendo constantemente o mais recto, justo e elevado, o livre arbítrio, no sentido mais amplo da palavra, é uma realidade, pois por meio desse esforço liberta-se dos vínculos que atam ao homem instintivo aos seus erros e paixões: conhece a Verdade e a Verdade o faz livre.

Portanto, assim como o homem passa do domínio do instinto ao domínio da inteligência, e da cega obediência às suas paixões a uma clara e inteligente determinação ou, por outras palavras, de erro e a Verdade e do vício a Virtude, assim passa igualmente do domínio da fatalidade que é própria da sua natureza instintiva ou inferior, ao domínio da liberdade, própria da sua natureza divina ou superior, e esta afirma-se constantemente sobre aquela.

Este é o caminho da liberdade que a Maçonaria indica aos homens nas diferentes viagens ou etapas do seu simbólico progresso. Caminho e progresso que se realizam por meio do esforço

individual sobre a Senda da Verdade e da Virtude, as duas colunas que dão acesso ao Templo da Divina Perfeição do nosso Ser.

As cinco viagens

Assim como um primeiro discernimento entre o vício e a virtude e entre o erro e a verdade, foi necessário ao Aprendiz antes de poder viajar ou progredir do Ocidente ao Oriente e das trevas para a Luz, assim também o reconhecimento das suas faculdades, por meio das quais o Companheiro começa a contestar a pergunta Quem somos? é condição necessária para empreender as viagens ou etapas de progresso que o esperam nesta segunda fase da sua carreira maçónica.

As viagens são em número de cinco, como as faculdades que acabamos de examinar, e há um estreito paralelo entre estas faculdades e os instrumentos que ao aspirante (já potencialmente Companheiro) deverá levar em cada viagem, ou melhor dizendo, nas quatros primeiras que se efectuam (como o do Aprendiz) do Ocidente ao Oriente passando pelo Norte, e logo de regresso do Oriente ao Ocidente pelo Sul.

Como o Aprendiz, o Companheiro também deve proceder do mundo concreto, ou do domínio da realidade objectiva, ao mundo abstracto ou transcendente, o mundo dos Princípios e das Causas, atravessando a região obscura da dúvida e do erro (o Norte) para voltar pela região iluminada pelos conhecimentos adquiridos (o Sul), constituindo cada viagem uma nova e diferente etapa de progresso e realização.

A primeira viagem

Na primeira viagem ou etapa do seu progresso, o novo companheiro leva os dois instrumentos com os quais fez o seu trabalho de aprendiz, trabalho que agora o incube de prosseguir com a nova habilidade que foi o resultado de toda a aprendizagem.

O malho e o cinzel, por meio dos quais o pedreiro desbasta a pedra bruta, “aproximando-a a uma forma em relação com o seu destino”, são para o Maçom as duas faculdades gémeas da vontade e da determinação inteligente, sobre a qual a primeira tem que aplicar-se para produzir um resultado aproveitável na Obra de Construção Individual, meta dos seus esforços.

O primeiro destes dois instrumentos utiliza a força da gravidade, com a massa metálica de que se compõem, para produzir um efeito determinado: a desagregação ou fractura de outra massa de pedra ou matéria bruta, menos homogénea e resistente que a massa metálica que sobre a mesma que se aplica. É uma força ou Poder cujo efeito seria constantemente destrutivo, senão se aplicar com extremo cuidado e inteligência.

Assim é daquelas naturezas humanas nas quais o lado energético ou volitivo tomou um desenvolvimento exagerado e indevido, em relação com o poder director da inteligência. Possuídos por uma ideia exclusiva a que animam com todo o fogo da sua natureza passional, porem sem o discernimento necessário para uma sábia lição, estes seres constituem um perigo constante para a estabilidade do edifício social, se outros não sabem dominá-los e dirigir útil e construtivamente as suas energias. São, como se chamam no termo oriental, as naturezas rajásicas nas quais prevalece o elemento activo do enxofre e constituem a casta dos chatrias, a qual pertencem os revolucionários e guerreiros, as naturezas impulsivas e rebeldes de todas as raças.

Em comparação com o malho, o cinzel tem uma massa metálica limitada; porém a sua têmpera e agudez o fazem distinguir nitidamente do primeiro, enquanto se grava numa forma determinada sobre a matéria bruta na qual o aplicamos, cortando-a em vez de quebrá-la e fazê-la em pedaços, como o faria por si só o malho.

Por outro lado, a resistência e homogeneidade da massa metálica de que se compõem o fazem especialmente adaptável para suportar, no seu extremo superior, os golpes do malho, e transmiti-lo como efeito útil sobre a matéria em que obra, separando da mesma um fragmento determinado, melhor que destruí-la cega e não inteligentemente.

Sem dúvida, o cinzel sem o malho, que aplica sobre ele mesmo a energia da massa de que se compõem, seria igualmente ineficiente e incapaz de produzir por si só aquele trabalho a que esta destinado, em colaboração com o segundo. Assim ocorre com aquelas naturezas puramente intelectuais, que elaboram continuamente planos e projectos, porém, por falta de energia, nunca põem prática, condenando-se a inércia e sujeitando-se passivamente as condições e circunstâncias, as vontades que as utilizam e das que se fazem servir-lhes como instrumentos, assim como das pessoas e coisas que as rodeiam.

Prevalecem nestas naturezas tamásicas o elemento passivo e feminino do sal, e constituem a casta dos vaysias, comerciantes, artistas e empregados, nos quais domina a inteligência elaborativa e que, sabiamente dirigidos e utilizados, formam a força silenciosa, inteligente e trabalhadora de uma nação. Na primeira viagem aprende o Companheiro, como conclusão dos seus esforços como Aprendiz, o uso combinado dos dois instrumentos, ou seja o uso harmónico da vontade impulsiva e da determinação inteligente, com as quais se acham em condição de fazer da matéria prima do seu carácter, ou da pedra bruta da sua personalidade profana (tirando-lhe as suas asperezas e partes supérfluas) uma pedra lavrada, ou seja uma obra de arte.

A capacidade de usar em perfeita harmonia, com suficiente reflexão e discernimento, estas duas faculdades gémeas, constituem as naturezas sátvicas nas que prevalece o elemento equilibrante ou mercúrio (satva), ou seja a inteligência iluminada pelo discernimento do Real. Estes põem-nos por cima da luta entre os pares de opostos e realiza em nós a Pedra Filosofal: a perfeita união do Amor e da Sabedoria, que nos dá o ceptro do Poder verdadeiro e durável, prerrogativa da casta dos brahmanes, ou directores espirituais da sociedade.

  1. Mais propriamente deveria dizer-se satva-tamásicas, e pela anterior satva-rajásica, ou seja, respectivamente, a inteligência passiva (sem poder directivo independente), e dominada pelos impulsos, a paixão e a ambição.
  2. Uma correspondência simbólica mais perfeita que a anterior, baseada sobre as três gunas, das quatro castas hindus, encontra-se na sua correlação com os quatros elementos, correspondendo o Ar aos Brahmanes, o Fogo aos Chatrias, a Água aos Vaysias e a Terra aos Sudras.

A segunda viagem

Os instrumentos levados na segunda viagem pelo Obreiro que se iniciou nos princípios da Arte são de uma natureza inteiramente diferente das dois com que fez o seu primeiro trabalho: enquanto os primeiros são dois instrumentos pesados para um trabalho material, aqui teremos dois instrumentos mais ligeiros de precisão para um objectivo intelectual: a régua e o compasso.

Com estes, alem de verificar e dirigir o trabalho feito com os anteriores (como o fazem o escultor e o artista consumados, transformando a pedra bruta em arte) o Companheiro adestra-se nos primeiros elementos daquela Geometria, que é um dos objectivos do seu estudo e que nos dá a Chave da Arte da Construção, ajudando-nos para interpretar os planos do Divino Arquitecto dos mundos.

A régua e o compasso não são simplesmente dois instrumentos de medida, em que a medida da terra ou mundo objectivo, seja o significado originário da palavra Geometria, senão melhor criativos e cognitivos, dado que, por meio deles podemos construir quase todas as figuras geométricas, começando pelos dois elementares, que são a linha recta e o círculo.

Todas estas figuras tem para o Maçom uma importância construtiva no domínio moral e intelectual. A linha recta que nos traça a régua, é o emblema da direcção rectilínea de todos os nossos esforços e actividades, na qual devem inspirar-se os nossos propósitos e aspirações: o Maçom nunca se deve separar da exactidão e inflexibilidade da linha recta do seu progresso, que o indica constantemente o mais justo, sábio e melhor e que nunca se deve desviar do seu Ideal como da fidelidade aos Princípios que se propôs seguir, representados pelos pontos pelos quais a linha esta formada.

O círculo mostra e define ao alcance do raio das nossas actuais possibilidades, ou seja o campo de acção dentro do que devemos actuar e dirigir-nos sabiamente, na direcção inflexível indicada pela linha recta que passa constantemente pelo seu centro. Aprendemos assim a uniformizar constantemente a nossa conduta ao mais nobre e elevado, adaptando-nos ao mesmo tempo às nossas condições e necessidades actuais e fazendo o melhor uso das oportunidades e possibilidades que se nos dispensam no raio da nossa acção.

Em outras palavras, a união do círculo com a recta, traçados respectivamente pelo compasso e a régua, representa a harmonia e o equilíbrio que devemos aprender a realizar entre as possibilidades infinitas do nosso ser e a realidade das condições finitas e limitadas na qual nos encontramos, conciliando o domínio do concreto com o abstracto, para uma sempre mais perfeita e progressiva manifestação do Ideal no material.

Alem disso a Régua indica uma perfeita união que traçamos ou realizamos em cada momento, no presente (como uma linha entre os dois pontos nos quais esta compreendida) entre o passado e o porvir, sendo mesmo o presente a necessária consequência do primeiro e preparação do segundo.

Assim pois, em que tudo o que agora fazemos ou encontramos sobre o nosso caminho está passivamente determinado pelo o que fomos e o passado que temos esquecido, a eleição activa que fazemos no presente da nossa linha de acção, é a que determinará o seu êxito definitivo como resultante da força passiva do passado e da nossa própria atitude no presente.

Por conseguinte, não são tão importantes para nós as coisas e condições em que nos encontramos actualmente, como é a nossa atitude interior acerca das mesmas, que é a que determina o que saldará em definitiva delas. Qualquer que seja a condição ou circunstância em que nos encontramos, representa um ponto desde o qual devemos traçar (por meio da régua da nossa conduta) uma linha recta para outro ponto que dependerá por completo da nossa livre eleição, em que pode ser esta influenciada pelos nossos esforços, desejos e aspirações passadas.

E, enquanto ao compasso, as suas duas pernas e os dois pontos sobre os quais se aplicam permitem-nos reconhecer e traçar a relação justa e perfeita que existe constantemente entre o nosso eu e o mundo ambiente que nos rodeia, medindo com discernimento o alcance daqueles pontos que elegemos para traçar sobre os mesmos, com a ajuda da régua de que temos falado, a nossa linha de conduta em harmonia com o Plano do Grande Arquitecto, que é a Lei Suprema da nossa vida.

Assim aprendemos a vencer com industria e paciência todos os obstáculos que encontramos sobre a nossa senda, servindo-nos dos mesmos como pontos de partida, oportunidades, meios e degraus para o nosso progresso.

A terceira viagem

Conservando a régua na sua mão esquerda, o Companheiro, na sua terceira viagem, depõem o compasso para substituí-lo por uma alavanca, que apoia com a mão direita sobre a espada do mesmo lado.

Este quinto instrumento, que é como o compasso está caracterizado pelos dois pontos sobre os que se aplica (potência e resistência) e um terceiro que o serve de ponto de apoio, tem, em comparação com o precedente, uma função eminentemente activa, já que com o seu auxilio podemos mover e levantar os objectos mais pesados, aplicando sobre os mesmos uma força apropriada. Representa por tanto, o meio ou possibilidade que nos oferece, com o desenvolvimento da nossa inteligência e compreensão (o braço extremo ou potência da alavanca) para regular e dominar em qualquer momento a inércia da matéria e a gravidade dos instintos, levando-os e movendo-os para ocupar o lugar que os corresponde na Construção do nosso Edifício Individual.

As duas mãos, que devem aplicar-se sobre este instrumento para que o esforço seja mais efectivo, representam as duas faculdades (activa e passiva) da vontade e do pensamento, que devem aqui cooperar – como o uso do malho e do cinzel – concentrando a força se os seus músculos sobre o extremo livre da alavanca.

Qual é, pois, este meio, essa faculdade maravilhosa que remove todos os obstáculos e os leva onde queremos levá-los, sem a qual as duas mãos juntas não poderiam levantar os objectos pesados sobre os quais aplicamos?

Desde um ponto de vista geral, a alavanca pode considerar-se como símbolo de toda a Inteligência humana no seu conjunto, que tem o seu fulcro, ou ponto de apoio natural, no corpo físico, sobre o qual actua, na medida eficiente do seu desenvolvimento, para produzir todas as acções, sendo a Vontade a Força ou potência que sobre ela se aplica, e que a mesma Inteligência faz efectiva. A Vontade é a sua vez, expressão do potencial espiritual do Ser, manancial imanente de toda actividade, cuja particular natureza a inteligência determina. O Companheiro, por outras palavras, serve-se da alavanca, toda a vez que por meio da sua inteligência determina, planeia e executa uma acção particular que manifeste objectivamente o íntimo desejo do seu coração (a potência animadora, aplicada sobre a alavanca).

De uma maneira mais particular, sem dúvida, podemos ver na alavanca um símbolo bastante apropriado e expressivo da Fé, a faculdade que aplica, apoiando-se no fulcro da consciência individual, o Potencial Divino – e portanto infinito do Ser até levantar e mover as alegóricas montanhas das dificuldades. Diz-se no Evangelho que, para produzir esse resultado, é suficiente a Fé que se encontra dentro de um grão de mostarda; isto quer dizer que as mais pequenas sementes de Fé pode crescer, quando seja aplicada inteligentemente, até produzir os efeitos mais maravilhosos que possa imaginar, realizando-se assim, de uma maneira efectiva, a fachada hipotética de Arquitetes. Quando se possui essa alavanca da Fé, até o mundo pode ser levantado e transformado, por meio da força activa de uma nova ideia propulsora. Todos os homens que possam deixar na história e na humanidade uma pegada mais profunda da sua actividade, fizeram uso, efectivamente, da misteriosa alavanca, com a qual pode ser posta em movimento, e até ser utilizada, a inércia natural das massas, cuja primeira resistência se transforma depois em poder propulsor.

O pensamento sem a vontade, e a vontade sem o pensamento seriam igualmente incapazes de actualizar a Força Infinita da Fé, que para ser efectiva deve ser iluminada por um Ideal, e dirigida pelo motivo mais elevado, nobre e desinteressado, que a cada qual o seja dado alcançar, sem sombra de dúvida, por parte da inteligência, sem que haja vacilação nenhuma no objecto que nos anima.

É igualmente inútil este instrumento, senão se lhe aplica a Vontade com absoluta firmeza e perseverança de propósito, assim como o Pensamento, em vez de se concentrar sobre o mesmo com iluminado discernimento, se deixa desviar por considerações erróneas e falsas crenças que o aleijariam daquela clara visão em que consiste a clarividência do iniciado.

A régua com a qual entrou pela primeira vez na segunda Câmara, não deve portanto separar-se nunca do Companheiro nos seus esforços por meio deste novo utensílio que o ajudará a realizar o que de outra maneira seria impossível, multiplicando as suas forças em proporção directa das necessidades, ou seja do objecto ou objectos sobre os quais se aplica. A régua é, pois, aquele instrumento de direcção sem o qual nunca poderemos fazer uma obra definida e efectivamente construtora: a nossa vida torna-se um caos (como seria um Universo sem Leis) quando possuímos uma régua justa e segura para todos os nossos esforços e acções.

A quarta viagem

O iniciado seguira levando a régua na sua quarta viagem [2], acompanhando-a esta vez com o esquadro, o sexto e último instrumento cujo uso deve aprender nestas peregrinações que tem por objecto outorgar-lhe aquela experiência, que necessita para se poder encaminhar para o Magistério na sua própria arte.

Assim como a união coordenada da régua com o compasso indica a capacidade de dar cada passo, em vista do objecto que nos propomo-nos, com perfeita rectidão, dentro do limite da nossa actuais possibilidades, assim igualmente a sua acção com o esquadro representa a necessária rectificação de todos os nossos propósitos e determinações, segundo o critério e Ideal que nos inspira, assim como as acções que realizam aqueles.

Particularmente, o esquadro unido a régua ensina ao Maçom que o fim nunca justifica os meios, só pode obter-se um resultado satisfatório quando os que se empenham estejam em harmonia, com a finalidade em que unidos se propõem. Assim, por exemplo, é um erro crer que pode obter-se e gerar a paz por meio da guerra, dado que a guerra se apoia em pensamentos de ódio, inimizade e violência, enquanto para a primeira se necessita sobre tudo amizade, simpatia, compreensão e cooperação.

Considerado isoladamente, o esquadro é um símbolo equivalente ao místico Tua dos egípcios, quer dizer, a união do nível com o prumo, por meio dos quais se constrói o muro e se levanta um edifício, em prumo com as Leis que governam toda construção, depois de verificar cuidadosamente a perfeita rectidão dos ângulos triedros das pedras que se empenham, de maneira que possam estas ocupar exacta e rigorosamente o lugar que a cada qual corresponda. Assim é que pode também substituir por estes dois instrumentos combinados.

A régua em união com o esquadro, representa também a perfeita medida dos materiais que usamos na elevação do edifício, que além de estar ajustado em todos os seus ângulos, há de ser bem proporcionados nas suas três dimensões, segundo o lugar onde se aplicam para lograr com o seu conjunto a homogeneidade, estabilidade e harmonia do edifício que se levanta, e cuja ausência acusaria obreiros inexperientes, aos que não pode confiar-se um trabalho de importância.

A pedra cúbica, ou seja a individualidade justamente desenvolvida em todas as suas faces, não é precisamente o que se necessita para o Edifício Social: uma pedra deste género constitui a excepção, e seria condenada ao isolamento por não poder aproveitar-se na união com as demais. O que melhor se necessita para o propósito construtor da Maçonaria, é uma pedra em perfeito esquadro nas suas seis faces, qualquer pode ser o desenvolvimento comparativo das mesmas, com tal, que haja proporção e paralelismo entre os seus diferentes lados, respectivamente verticais e horizontais, para que possam utilmente aproveitar-se e pôr-se no lugar que lhe corresponde, com a ajuda do nível e do prumo.

Não devemos, pois, os maçons, buscar uma uniformidade absoluta nas nossas ideias, ideias e convicções, conformando a nossa visão as limitações estreitas de um tipo preestabelecido, com os quais nos converteríamos noutros tantos ladrilhos, que se bem são bem úteis e pode aproveitar-se nas construções correntes, não o seria igualmente para um edifício grandioso e imponente, como é aquele Templo Simbólico que levantamos, com os nossos esforços unidos, a Glória do Divino Arquitecto do Cosmos cuja a perfeição e beleza dependem igualmente da inteligente variedade dos materiais que se empregam, assim como da sábia coordenação e combinação dos mesmos, de acordo com um Plano Magistral no qual há lugar para pedras das formas e dimensões mais complexas e variadas.

Devemos, por conseguinte, desenvolver e trabalhar a pedra da nossa personalidade naquela forma que melhor se adapta, segundo a sua particular natureza, para ocupar o lugar mais apropriado no Edifício da Humanidade e da Criação, e expressando nela, como melhor podemos, aquela parte que nos é dado fazer patente do Génio Sublime do Artífice, do qual somos outras tantas manifestações.

A quinta viagem

Este Génio Individual no qual se revela a verdadeira capacidade do artista é o que o Companheiro trata de buscar na quinta viagem que, a diferencia das precedentes, cumpre-se sem o auxilio de nenhum instrumento e numa direcção oposta a qual se seguiu até agora: para trás e sob a ameaça de uma espada posta sobre o seu peito.

O que significa esta troca completa de direcção e de actividade? É uma nova etapa de progresso que se cumpre de uma maneira misteriosa, em oposição com as Leis e Regras seguidas até aqui, ou é um verdadeiro regresso inevitável para todos, apesar dos esforços realizados para alcançar o nosso ser mais elevado? Por que razão abandonou o Companheiro também a régua simbólica com a qual fez a sua entrada na segunda Câmara?

Esta viagem, e a maneira misteriosa como se cumpre, tem muitos sentidos e encerra uma profunda doutrina, intimamente relacionada com o número cinco que faz esta viagem particularmente peculiar no grau de Companheiro.

Em primeiro lugar, cumpre-se sem nenhum instrumento. Isto significa que, fazendo-se adestrado no uso dos seis instrumentos fundamentais da construção, a saber, o malho, o cinzel, a régua, o compasso, a alavanca, e o esquadro que correspondem as seis principais faculdades, tem agora que buscar a sua sétima faculdade central, que corresponde a letra G (a sétima letra do alfabeto latino), cujo perfeito conhecimento o conduzirá ao Magistério. Representa, por outras palavras, o novo campo de estudo e de actividade que se abre ao artista experimentado no uso dos diferentes instrumentos, para expressar uma fase superior das suas habilidades, e ao iniciado, uma vez que há dominado a sua natureza inferior e se adestrou no uso das suas diferentes faculdades, com aquisição de novos poderes que representam a multiplicação dos seus talentos.

Indica, portanto, um novo género de trabalho, em que deve adestrar-se, e no qual todos os instrumentos empregados até agora, ainda a mesma régua, são supérfluos, dado que se trata de actividade puramente espiritual, qual é a meditação que conduz a contemplação da Realidade, a qual chagará ascendendo os cinco degraus de que a continuação falaremos.

O abandono da régua representa aquele estado de completa liberdade que se consegue uma vez que se tenha dominado os sentidos e as paixões inferiores e o individuo se abre à percepção daquela Luz Interior (simbolizada na Estrela Flamejante) que faz inútil toda regra externa.

Chega, pois um momento, na evolução individual, no qual todas as regras, ensinamentos e ajudas exteriores, que até então foram de suma utilidade, já não servem, e quase constituem um obstáculo para o seu progresso ulterior. Devem então abandonar-se, convertendo-se o Artista no instrumento do Génio Divino que actua nele, buscando uma perfeita expressão do Ideal em que se manifesta, e fazendo-se igualmente o Iniciado veículo e expressão daquela Luz que aparece e daquela Voz que se faz ouvir dentro do seu próprio coração.

(Continua na Parte III)

Maxell Egens

Notas

[1] Um refinamento particular da visão física, chamado clarividência astral ou mental permite reconhecê-los também exteriormente, fazendo que os pensamentos apareçam como realidades visíveis. Ver a este respeito a abundante literatura teosófica.

[2] Deve-se notar que nas viagens de número par (2 e 4) se levam instrumentos passivos, e nas impares instrumentos activos.

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