O Rito Escocês Rectificado (RER): introdução histórica e personalidades de referência
O Rito Escocês Rectificado (RER) exerceu um papel místico de primeiro plano, sobretudo na Alemanha, em França e na Suíça. A sua origem remonta ao chamado Sistema da Estrita Observância, fundado em 1756 pelo Barão de Hund, o qual fora iniciado em 1754, em Paris, nos Altos-Graus do Capítulo de Clermont.
O Sistema invocava a tradição da Ordem do Templo, à qual fazia remontar a sua filiação. Hund firmou a sua nova Ordem sobre um vaso território, dividido em nove províncias e incluindo todas as nove regiões da Europa. Esta nova Maçonaria comportava, então, seis graus: “Aprendiz”, “Companheiro”, “Mestre”, “Mestre Escocês de Santo André”, “Escudeiro Noviço” e “Cavaleiro Templário”, mais tarde substituído pela designação de “Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa” (CBCS). Hund acrescentou-lhes, depois, um sétimo grau, o de eques professus. Mais tarde, ainda, juntou-lhes um ramo de Clérigos Franco-Maçons ou Grão-Professos. Os detentores dos dois últimos graus, que dirigiam tudo com um perfeito conhecimento de causa, conservavam-se desconhecidos para os dos graus inferiores, daí lhes vindo a designação de Superiores Desconhecidos.
O movimento teve grande sucesso, sobretudo na Alemanha, onde doze príncipes reinantes eram membros activos da Estrita Observância. A Ordem contou, também, no seu seio com alguns adeptos célebres que nos deixaram obras profundamente marcadas pelo espírito maçónico e pelos valores iniciáticos: Goethe, Wieland, Lessing, W. A. Mozart, Joseph de Maistre ou Werner.
Em 1773, quatro Directórios Escoceses da Estrita Observância foram constituídos em França – Estrasburgo, Lyon, Montpellier e Bordéus – pelo Barão de Weiler, secundado por aquele que foi o mais activo propagandista francês do Regime, Jean-Baptiste Willermoz.
O Barão de Hund faleceu em 1776. O novo Grão-Mestre, Ferdinand de Brunswick, esforçou-se por organizar o Rito e definir-lhe os objectivos. Essa vontade já fora afirmada no Convénio de Kohlo, em 1772, o qual suprimiu toda a ligação com Superiores Desconhecidos.
A Ordem foi definitivamente rectificada, e daí o nome de “Rito Escocês Rectificado” que assumiu no Convénio das Gálias, efectuado em Lyon no ano de 1778, e no Convénio de Willhemsbad, em 1782” [1].
“O Rito Escocês Rectificado, saído da Estrita Observância, foi em grande parte obra de JB Willermoz. Em 1778 efectua-se, em Lyon, sob a presidência de Willermoz, o Convénio das Gálias, convocado com o fim de reformar a Franco-maçonaria e, mais particularmente, a Estrita Observância. Além da adopção dos rituais preparados por Willermoz, são aplicados o Código Maçónico das Lojas reunidas e rectificadas de França, o Código Geral dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, bem como as Instruções Secretas dos Professos e dos Grão-Professos, onde se desenvolvem algumas ideias tiradas de Pasqually. Perante o êxito da reforma, o Grão-Mestre da Estrita Observância Templária, Ferdinand de Brunswick, reúne em 1782 um Convénio Geral, em Wilhelmsbad. Nele, foi aprovado o essencial do Convénio das Gálias, à excepção das Instruções Secretas dos Professos, o que era para Willermoz um fracasso na sua tentativa de impregnar a Franco-Maçonaria com o Martinezismo.
O RER é composto pelas Lojas Simbólicas de São João (Aprendizes, Companheiros e Mestres), pelas Lojas de Santo André (Mestre Escocês) e pela Ordem Interior (Escudeiros Noviços e Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa), dirigida por um Grão-Priorado e organizada em Prefeituras e Comendadorias.
O Código do Rito estipula que “o primeiro compromisso do franco-maçom é observar fielmente os seus deveres para com Deus, o Rei, a Pátria, os irmãos e a si próprio. Só o jura depois de haver a garantia do respeito que ele tem á Divindade e da importância que dá aos deveres do homem honrado. A cerimónia da sua recepção (…) prova-lhe que todos os Irmãos estão penetrados do amor do Bem. Todos se comprometeram, pelas mais santas promessas, a amar e a praticar a virtude, a votar-se à caridade e à beneficência.
Segundo o Ritual de Iniciação de 1778, o Recipiendário presta juramento sobre o Evangelho segundo São João de “ser fiel à santa religião cristã, ao seu soberano e às leis do Estado, de ser beneficente em relação a todos os homens”. O Rito Escocês Rectificado jamais deixou, desde aí, de afirmar o seu espírito cristão e “joanista”. A Ordem Interior proclama, além disso, a sua ligação espiritual à Ordem do Templo tal como esta era na sua origem.
Depois da tormenta revolucionária, o Rito Escocês Rectificado só voltou a ser reformado em Genebra e em Zurique. Foi assim que se constituiu o Directório e Priorado Independente da Helvécia, cujos três primeiros graus se fundiram, em 1844, na Grande Loja Suíça “Alpina”.
Em 1910 foi feita uma tentativa de reconstituição do Rito no seio do Grande Oriente de França pelo Dr. Camille Savoire e por Édouard de Ribaucourt; este retomou depressa a sua independência e criou, em 1913, a Grande Loja Nacional Independente Francesa. Quanto a Camille Savoire, permaneceu fiel ao Grande Oriente de França e tornou-se Grão-Comendador do Magno Colégio dos Ritos, tentando criar neste uma secção do Rito Rectificado. O fracasso da tentativa levou-o, em 1935,a uma cisão retumbante e à criação, por Carta do Grão-Priorado da Helvécia, do Grão-Priorado das Gálias. Pouco depois era criada, para a administração das Lojas Simbólicas, uma Grande Loja Escocesa Rectificada. Em 1938, o Grande Oriente de França instituía, por seu lado, um Grão-Priorado Independente de França e algumas Lojas Rectificadas integravam-se na Grande Loja de França.
Em 1939, o Grão-Priorado das Gálias caiu no sono e só retomou a actividade em 1947. Em 1949 restabelecia relações com o Grão-Priorado da Helvécia, que confirmava a Carta de 1935. Em 1958, o Grão-Prior André Moiroux concluiu um Tratado com a Grande Loja Nacional Francesa. Assim, as Lojas Azuis rectificadas passaram para a jurisdição da GLNF, administrando o Grão-Priorado as Lojas de Santo André e a Ordem Interior. No mesmo ano, efectuou-se em Zurique um Congresso Geral do Rito que deu à Ordem um Órgão Central, dirigido por um Grande Chanceler-Geral” [2].
Apontamentos Biográficos relevantes para o RER:
“Jean-Baptiste Willermoz (1730-1824), comerciante capelista de Lyon, mais homem de bom-senso do que espírito brilhante, foi discípulo de Martinés de Pasqually e de Louis-Claude de Saint-Martin. Menos dotado do que estes para a iluminação interior e para a meditação, mais capaz de julgar os factos do que as ideias, desejara apaixonadamente atingir os arcanos supremos dissimulados sob a simbologia maçónica.
Certo de que a doutrina de Pasquallly – o aperfeiçoamento do Homem e a sua aproximação, a sua “reintegração” no Deus de onde emana – tem o valor de uma verdade metafísica, Willermoz está igualmente convencido de que essa doutrina deve ser reflectida pela Franco-Maçonaria. Mas, contrariamente aos desvios de Pasqually e de Saint-Martin, não perde de vista a maçonaria “ordinária”. O seu temperamento activo, o seu sentido da organização minuciosa incitam-no a procurar nela uma adaptação dos ensinamentos secretos de Pasqually”. (2)
“Martinés de Pasqually – terá nascido na região de Grenoble por volta de 1715 e faleceu em Port-au-Prince no ano de 1774. No seu Tratado da reintegração dos Seres nas suas primeiras propriedades e potências espirituais e divinas afirma-se partidário de uma espécie de panteísmo místico. “Na origem, todos os Seres estão contidos no seio de Deus, autor de todas as coisas e cuja vontade as dirige na mesma unidade, ao mesmo tempo que as faz emanar, por uma efusão perpétua, sob a forma de querubins, serafins e arcanjos, cuja expansão provocou a queda. O Homem criado está, pois, decaído. No seu exílio, aspira à reintegração e, para isso, tem de identificar a sua vontade com a de Deus e, por conseguinte, aniquilar-se. Mas como, para atingir esse fim, é precisa a intervenção dos espíritos que povoam o intermundo, tem de se entrar em relações com eles. Por graduação, chegar-se-á até Deus pela prática dum culto misterioso”.
A organização e a prática deste culto são o objectivo do Rito dos Eleitos Coens (palavra hebraica que significa “sacerdote”), cuja escala compreende dez graus repartidos em quatro classes ou “templos”. As doutrinas do primeiro templo (a iniciação ou Maçonaria de São João) referem-se à criação do Homem, à sua desobediência e à sua punição. Nos mistérios dos 2º e 3º templos é dito que, quando o Homem, por uma via nova, santa e exemplar, se reintegrou na sua primeira dignidade, então aproxima-se do seu Criador; animado pelo sopro divino, é iniciado Eleito Coen.
A 4ª. Classe, classe secreta dos Réaux-Croix, tem por objecto pôr os iniciados em contacto com os mundos do Além, o das Potestades Celestes, pelo estratagema das evocações da Alta Magia, pois os verdadeiros Réaux (Réau = poderoso sacerdote) conservaram o poder da ordenação sacerdotal do culto primitivo.
A prática, verdadeira Teurgia, consistia em cultos mágicos: Culto de Expiação, Culto Operatório contra os Demónios, Culto contra a Guerra, Culto de Oposição aos inimigos da lei Divina; Culto para obter a descida do Espírito Santo, Culto para a fixação do espírito conciliador divino consigo. O único desejo era entrever – levantado por um instante o véu sobre o outro mundo – as portas da Jerusalém Celeste, a fabulosa cidade da Beatitude, o reino de uma Eterna Manhã.
Algumas Lojas que praticavam o Rito dos Eleitos Coens formaram-se a partir de 1754 no sul de França (Montpellier, Marselha, Toulouse, Bordéus). Martinés de Pasqually levou-o até Paris em 1766, fundando um Templo Coen com Bacon de la Chevalerie e JB Willermoz. Em 1767 estabeleceu um Tribunal soberano que deveria governar toda a Ordem” [3].
“Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803) – primeiramente advogado, depois Oficial, foi secretário e discípulo de Pasqually. Iniciado na Franco-Maçonaria, não encontrou nela a elevada espiritualidade que era a sua e acabou por retirar-se. Publicou, em 1775, a sua primeira Obra – Dos Erros e da Verdade – sob o pseudónimo de Filósofo Desconhecido que se manteve como seu sobrenome. Escreveu posteriormente inúmeros outros livros: O Quadro Natural das relações que existem entre Deus, o Homem e o Universo (1782); O Homem de Desejo (1790); Ecce Homo (1792); O Novo Homem (1792); Considerações Filosóficas sobre a Revolução Francesa (1796); Clarão sobre a Associação Humana (1797); O Crocodilo ou a guerra do Bem e do Mal (1798); O Ministério do Homem-Espírito (1802).
Com a morte de Martinés de Pasqually, a sua doutrina cindiu-se em dois ramos: a primeira, pelo trabalho prudente e avisado de Willermoz, chegou ao esoterismo maçónico tradicional. O segundo, pelo canal da Alta-Mística e pelo dom da análise metafísica, trouxe com Saint-Martin a doutrina e a técnica da Via Interior.
Se a doutrina de Pasqually deixou em Saint-Martin uma indelével marca espiritual, a verdade é que ele mostra pouquíssimo interesse pelas manifestações do Além e, mais ainda, certa desconfiança quanto ao seu benefício moral. Saint-Martin é um especulativo puro e o lado mágico e cultural do Rito místico dos Eleitos Coens incomoda-o manifestamente, tanto que rejeita toda a teurgia de Pasqually, como rejeitou os ritos habituais da Franco-Maçonaria.
Nenhuma filosofia respeita tanto o individualismo como o Martinismo. Doutrina da unidade, visa elevar o Homem, espiritual e interiormente. Para LC de Saint-Martin, o problema já não é da Igreja, de culto ou de rito; o espírito do Homem é o único e verdadeiro Templo. O Homem é o sacerdote de Deus, encarregado de trazer ao Universo os decretos da sua Providência.
A Grande Obra consiste em criar (ou, antes, em descobrir) no centro de si mesmo, lenta e pacientemente, a figura do Eu Celestial, cujo símbolo Cristo nos oferece. Na verdade, é no Homem que se encontra Deus e chega-se ao conhecimento d´Ele pelas duas portas, do Coração e do Espírito, sendo a primeira, a mais importante” [3].
“O Martinismo Moderno – A vida e a doutrina de Saint- Martin não consegue fazer com que se pense que o Filósofo Desconhecido tenha criado um Rito particular. Pode-se, pois, ficar surpreendido por ver surgir, um século mais tarde, em 1888, uma Ordem Martinista, “renovada” por “Papus” (Dr. Gérard Encausse). Afirmava este que certos Superiores Desconhecidos haviam transmitido o sacramento do Mestre sob a sua responsabilidade pessoal, sem depender de qualquer grupo. Foi assim que Saint-Martin teria transmitido a Iniciação ao Padre Lanoue ou a Chaptal. O precioso depósito teria sido, transmitido depois, sucessivamente, de Lanoue para André Chénier, JA Hennequin, Henri de Latouche, Antoine Desbaroles, Amélie de Boisse-Mortemart e PA Chaboseau. Quanto à cadeia, partida de Chaptal, teria chegado em 1880 a Henri Delage, o qual terá comunicado a regra a Papus.
Papus, um fervoroso adepto das organizações activas, resolveu fundar uma Ordem que tomou o nome de Ordem Martinista. À sua volta tinham-se agrupado, num Supremo Conselho, alguns Ocultistas parisienses: PA Chaboseau, Stanislas de Guaita, Chamuel Sedir (Yvon Leloup), Paul Adam, Maurice Barrés, Georges Montiére, Charles Barlet, Jules Lejay, Jacques Burget e Joséphin Péladan.
Papus atribuiu à Ordem a “Iniciação pessoal e livre”, invocando a tradição esotérica cristã. Renovador do Ocultismo, entendia orientar o Martinismo para este. A Ordem compreendia três graus: Membro Associado, Iniciado e Superior Desconhecido. À data da morte de Papus (1916), a Ordem Martinista possuía 160 Lojas na Europa e nas duas Américas.
Há, hoje, três ramificações da Ordem Martinista, as sobreviventes do Martinismo de Tradição: a Ordem Martinista-Martinezista, a Ordem Martinista (estritamente) e a Ordem dos Eleitos-Coen. Há, ainda, dentro da Ordem Martinista, a destrinçar as duas vias tradicionais desta Escola Iniciática, que mantêm a sua pureza primitiva: o Martinismo de Saint-Martin (via cardíaca) e o Martinezismo de Martinés de Pasqually (via operativa)” [3].
ECE, M. M.
Notas
[1] págs. 60-61;
[2] págs. 112-114;
[3] págs. 118-121.
Bibliografia:
- “A Franco-Maçonaria”, Paul Naudon, Colecção “Saber”, nº 144. – Publicações Europa-América, 2000.
