Freemason

O Rito de York no Brasil: designação e história

Compartilhar:
✍️ Desconhecido 📅 04/06/2025 👁️ 0 Leituras

Constituições de Anderson 1723, Rito de York

A designação

A abertura dos portos do Brasil em 1808, pelo então Príncipe Regente D. João de Bragança, e posteriormente Rei D. João VI, possibilitou que produtos vindos da Inglaterra circulassem no mercado brasileiro, com comerciantes britânicos, principalmente ingleses, instalando-se no Rio de Janeiro. Estima-se que por volta de 1822 havia cerca de dois a três mil britânicos vivendo no Rio de Janeiro, que tinha uma população de cerca de 112 a 120 mil habitantes. Entre os migrantes ingleses havia maçons (FREYRE, 1948), tanto dos “Antigos” quanto dos “Modernos” [1], e Joseph Ewbank era um deles, sendo membro da Loja Comércio e Artes quando o Grande Oriente do Brasil (GOB) foi fundado, em 1822.

Não temos informações de como se deram os contactos iniciais entre os maçons britânicos e os maçons brasileiros, mas é fácil imaginar o seguinte questionamento feito por um Maçom brasileiro a um Maçom inglês, especialmente se fosse dos “Antigos”: “ Em qual Rito vocês trabalham em Inglaterra?”, e uma possível resposta poderia ser “- No rito de York”.

Há uma interessante nota de rodapé numa secção do Ahiman Rezon, que era o livro de Constituição da Grande Loja dos “Antigos”:

“Eles [ou seja, os ‘Antigos’] são chamados de maçons de York, porque a primeira Grande Loja em Inglaterra foi congregada em York em 926 d.C. pelo Príncipe Edwin, que na época obteve uma autorização do rei Athelstan, para uso da fraternidade”.

Conforme SHEPPARD (2006) esta é uma narrativa que tem causado muitos mal-entendidos e confusões, tanto em Inglaterra como no exterior, e que tem resultado em muitos irmãos americanos, especialmente aqueles cujas Grandes Lojas têm origem nos “Antigos”, alegarem que os seus predecessores eram maçons de York do século X, e que praticam o antigo rito de York. As Grande Lojas da Pensilvânia e da Carolina do Sul ainda mantêm as suas Constituições sob o nome de Ahiman Rezon.

O facto é que no entendimento dos maçons brasileiros, na época do estabelecimento da maçonaria regular no Brasil, em Inglaterra se trabalhava num rito denominado de Rito de York, e este entendimento se firmou. Tem-se indícios disso no antigo periódico do Rio de Janeiro chamado “O Sete D’Abril”, que na edição de 7 de Julho de 1835 (Anexo I) publicou uma matéria intitulada “Maçoneria – Montezuma”, no qual há a seguinte citação: “Em Inglaterra, debaixo do Rito de York, temos outro exemplo …”. Isto demonstra claramente que a denominação “Rito de York” estava em uso no Brasil para se referir à maçonaria praticada em Inglaterra.

Consultando os Boletins Oficiais do Grande Oriente do Brasil, que começaram a ser publicados de forma regular em Dezembro de 1871, encontra-se no Boletim de Janeiro de 1872 a informação de que no GOB existiam 78 lojas em plena actividade, sendo uma no Rito de York (GOB, 1872). Denominar de “Rito de York” ao craft inglês era certamente de uso corrente no Brasil há muito mais tempo.

O que chamamos de “Rito de York”, cuja trajectória no Brasil será a seguir sintetizada, não deve ser confundido com o termo utilizado nos Estados Unidos da América para designar o conjunto de três corpos de graus superiores que são independentes entre si, nomeadamente o Capitular Rite (ou Royal Arch Masons), o Cryptic Rite (ou Cryptic Rite Masons), e as Chivalric Orders (ou Knights Templar). Nos Estados Unidos muitos preferem referir-se ao conjunto desses corpos como “Rito Americano” (PUSHEE, Dan e STUCCZYNSKI, K, 2021).

De acordo com MORRIS (2006), a expressão Rito de York (York Rite) passou a ser empregada nos Estados Unidos no início do século XX para diferenciar os praticantes dos graus superiores de origem inglesa daqueles que seguiam o majoritário Rito Escocês Antigo e Aceito (Ancient and Accepted Scottish Rite) nos seus graus superiores.

Entretanto, a designação “Rito de York” tem procedência bem mais antiga, tendo sido utilizada pelos maçons da Grande Loja “dos Antigos”, estabelecida em Londres em 1751, que se autoproclamavam “maçons de York” com o intuito de conferir um carácter de maior antiguidade às suas práticas, acusando a Grande Loja dos “Modernos”, fundada em 1717, de terem se desviado dos rituais e tradições maçónicas originais. Os “Modernos” haviam promovido modificações nos seus rituais após as revelações de Prichard (1730) no livreto Masonry Dissected, que expôs “segredos” maçónicos, o que levou os “Modernos” a alterarem alguns aspectos dos seus rituais, como por exemplo a inversão das palavras sagradas do Aprendiz com a do Companheiro. Este ritual dos “Modernos”, com as mudanças realizadas, acabou servindo de base para os rituais dos ritos Adonhiramita e Moderno que surgiram posteriormente na França, os quais mantêm essas alterações até os dias actuais. Com a união dos “Modernos” e “Antigos” em 1813, e a formação da actual Grande Loja Unida de Inglaterra, e com base no trabalho anteriormente feito pela Promulgation Lodge (1809-1811), prevaleceu a versão original dos rituais.

O reverenciado Maçom americano Albert G. Mackey, numa das suas obras mais emblemáticas, A Lexicon of Freemasonry, com primeira edição de 1845 (MACKEY, 1845), e nas várias outras edições posteriores ao longo do século, tanto nos Estados Unidos quanto em Inglaterra, menciona repetidamente nas diversas edições a expressão York Rite como uma designação comumente utilizada para fazer referência tanto ao Craft inglês como ao americano.

Alguns maçons ingleses de destaque consideravam o Arco Real como parte do Rito de York, como William James Hugham, um dos fundadores da primeira loja de pesquisa maçónica do mundo, a Quatuor Coronati Lodge. Do artigo An analysis of ancient and modern Freemasonry (Uma análise da antiga e moderna Francomaçonaria), publicada em 1863 extraímos a seguinte citação, na qual ele se refere ao termo Rito de York como sendo o próprio Craft inglês:

“… although under the York Rite, the whole grandeur of the third degree is not witnessed until exaltation to the Royal Arch …” (… embora sob o Rito de York toda a grandeza do terceiro grau não seja presenciada até a exaltação ao Arco Real …) (HUGHAM, 1863).

Outro destacado Maçom inglês, Adolphus Frederick Alexander Woodford, também fundador da Quatuor Coronati Lodge, faz referências à denominação “Rito de York” como sendo de uso corrente em Inglaterra, embora ele a considerasse inadequada. No livro Kenning’s Masonic Cyclopwdia, WOODFORD (1878) nota-se o seguinte comentário a respeito do termo “Rito de York”:

“Rito de York. – É uma terminologia que se refere à Maçonaria Simbólica (Craft); porém não de maneira exacta, pois os ‘Maçons de York’ cessaram as suas actividades há muito tempo, e manter essa denominação leva muitos a acreditar que a Maçonaria de York ainda está em funcionamento. Seria mais correcto chamar de ‘Rito Inglês’ em Inglaterra e ‘Rito Americano’ nos Estados Unidos.”

Assim, Woodford deixa transparecer que, na sua época, o Craft inglês e o americano eram frequentemente referidos como “Rito de York”, mesmo que ele considerasse essa denominação inapropriada.

Para concluir este tema, de uma correspondência enviada em 28/12/1910, pelo Grão-Mestre da Grande Loja Distrital (GLUI) da República Argentina, Francis Hepburn Chevalier-Boutell ao Grande Secretário da GLUI em Londres, Sir Edward Letchworth, extraímos o seguinte comentário:

“Como é de vosso conhecimento, existem várias Lojas no Brasil compostas exclusivamente por súbditos britânicos ou que contam com irmãos de língua inglesa trabalhando no Rito de York, mas sob jurisdição local.” (Anexo II)

O Rito de York no Brasil

As primeiras lojas no Brasil que trabalharam sob o Rito de York foram estabelecidas por maçons ingleses. Em Novembro de 1833, sete maçons britânicos, incluindo Joseph Ewbank, que como já mencionamos foi membro da Loja Comércio e Artes quando da fundação do GOB em 1822, solicitaram à Grande Loja Unida de Inglaterra (GLUI) autorização para fundar uma loja maçónica no Rio de Janeiro, à qual denominaram de Orphan Lodge (Loja Órfã). Esta Loja recebeu a sua Carta Constitutiva (Warrant) da GLUI datada de 17 de Dezembro de 1834, com o número 616.

A primeira sessão da Orphan Lodge foi registrada e posteriormente publicada no periódico maçónico The Freemasons’ Quarterly Review, na edição de 31 de Dezembro de 1838 (THE FREEMASONS’ QUARTERLY REVIEW, 1838), a qual reproduzimos a seguir:

BRASIL – A Orphan Lodge, n° 616, iniciou as suas actividades nesta quarta-feira, 28, na casa do Irmão George Last, na Rua de Matta Cavallos, nesta cidade, sob os melhores auspícios. Os Irmãos começaram a chegar por volta das duas horas, e a Loja foi aberta às três, momento em que a cerimónia de posse dos diversos Oficiais foi realizada pelo Irmão Ewbank, V. M.; em seguida, os membros se sentaram para um excelente banquete preparado para a ocasião. A saúde de Sua Alteza Real, o MVGM, foi celebrada com todo o carinho e respeito como é de costume observado em todos os lugares onde as virtudes de Sua Alteza são reconhecidas, tanto como pessoa quanto como Maçom. O segundo brinde foi direccionado ao Lord Dundas, Pro-G. M., em seguida ao Lord J. H. Spencer Churchill, G. M. Adjunto e aos demais Oficiais da G. L. de Inglaterra. O Irmão Aranaga, 2° Vig, na ausência do digno irmão G. Malmgren, 1° V., ergueu um brinde à saúde do Irmão J. Ewbank, V. M. da Loja, que foi realizado com grande entusiasmo; o Irmão Ewbank fez um breve discurso de agradecimento. Após o brinde à saúde dos 1° e 2° Vigilantes, e demais oficiais da Loja, o V. M. propôs um à saúde do incansável Irmão e excelente homem, Laurence Thompson (V.M. da Loja Caveac, n° 205, em Hammersmith), com um agradecimento pelos seus esforçados serviços em nosso benefício. O Asilo dos Maçons Idosos foi tema de aprovação; e em breve, esperamos demonstrar a nossa boa vontade a respeito disso. A noite foi ocasionalmente animada por algumas excelentes canções apresentadas pelo Irmão J. T. Thomas, Secretário da Loja; e também, pelos Irs. Last, Mills, Ballard, entre outros, sendo que por volta das dez horas os Irmãos se dispersaram, muito contentes com este seu primeiro encontro maçónico no Brasil.

Duas lojas adicionais foram estabelecidas com documentos constitutivos provenientes da Grande Loja Unida de Inglaterra, sendo a St. John’s Lodge n° 703, no Rio de Janeiro, fundada em 21 de Setembro de 1839, e a Southern Cross Lodge, n° 970, no Recife, datada de 15 de Junho de 1856. Apesar da sua curta duração, a trajectória dessas três lojas marcou oficialmente a interacção do Brasil com o Sistema Ritualístico Inglês (GENZ, 2013).

O Rito de York no GOB

Como já citado, no Boletim Oficial do GOB, de Janeiro de 1872, na página 68, (GOB op. cit.) consta que havia entre as suas lojas uma trabalhando no Rito de York, mas não encontramos quaisquer outras informações sobre essa enigmática, e improvável loja. Acreditamos que se tratava da Loja Zur Friedenspalme, fundada em 1870 por imigrantes alemães em Blumenau, que trabalhava na língua alemã, possivelmente seguindo o Rito de Schroder e não o Rito de York. Em 1883, com a fusão das Lojas do Grande Oriente Unido do Brasil (Beneditinos) ao Grande Oriente do Brasil, veio junto a Washington Lodge, fundada em 1874 por imigrantes americanos na cidade de Santa Bárbara do Oeste (SP). Esta loja utilizava rituais do Rito de York, e ainda que não tenha sido fundada no GOB tornou-se a primeira no Rito de York, com rituais provavelmente oriundos da Grande Loja do Alabama, visto que entre os seus fundadores estava o Coronel William Hutchinson Norris, que foi Grão-Mestre daquela Obediência, além de Senador da República. A última referência a esta loja nos boletins do GOB, como activa, foi em 1889, quando apareceu numa lista de Lojas regulares da Obediência. Numa relação seguinte de Lojas, publicada no Boletim número 6, de 1896, a Washington Lodge, número 309, encontra-se indicada como inactiva.

A partir de 1860 as demandas dos maçons ingleses por lojas ligadas directamente à Grande Loja de Inglaterra foram retomadas. Segundo GENZ (2013) as respostas da GLUI a essas demandas eram sempre negativas. Em 1879 o Grande Secretário da GLUI recebeu outra consulta sobre a possibilidade de expedição de uma Carta para uma Loja a ser formada no Rio de Janeiro, e a resposta seguiu o mesmo padrão das demandas anteriores:

“É regra estabelecida pelo Grão-Mestre de Inglaterra de nunca conceder uma Carta Constitutiva para uma Loja se reunir num país onde esteja operando uma Grande Loja distinta. Este é o caso do Rio de Janeiro, que creio estar sob a jurisdição do Grande Oriente do Brasil.”

No ano seguinte a Grande Loja Unida de Inglaterra reconhecia formalmente o GOB como única potência maçónica regular no Brasil.

Em 1891 uma antiga sociedade beneficente denominada Filhos da Luz, composta por setenta e sete membros, todos maçons, resolveram constituir-se numa loja maçónica. Por razões que desconhecemos optaram por trabalhar no Rito de York. Acreditamos que entre os seus membros houvesse alguns influentes maçons ingleses. Em 21 de Dezembro de 1891 o GOB aprovou a eleição da sua directoria. Noticiando sobre uma biblioteca em formação na sede do GOB, o Boletim Oficial de Janeiro de 1892 informa que a Loja Filhos da Luz havia feito uma “valiosíssima oferta de cerca de 1200 volumes de obras importantes e algumas raras”. No entanto, a existência da loja foi breve, pois em 19 de Abril de 1893, apenas um ano e sete meses após a sua fundação no Rito de York, um acto do Grão-Mestre designou os Irmãos Carlos Adolpho Borges Corrêa de Sá, Victorino Joaquim Alves Mourão e Rodrigo António Machado Reis (todos pertencentes à extinta Sociedade Beneficente Filhos da Luz) para regularizar a Loja Filhos da Luz no Rito Escocês Antigo e Aceito. Desconhecemos as razões de terem mudado de rito, mas a falta de um ritual em Português certamente foi uma delas.

No mesmo ano em que a Loja Filhos da Luz foi criada, e a sua directoria empossada, a terceira Loja do Rito de York recebeu autorização para ser instalada no Rio de Janeiro, em 22 de Dezembro de 1891. Assim surgiu a Eureka Lodge, que recebeu o número 440 e, devido ao facto de que a maioria dos seus membros era composta por ingleses e americanos, foi permitida que trabalhasse no idioma inglês. Esta Loja foi regularizada em 19 de Janeiro de 1892. Segundo GENZ (op. cit.), a Eureka Lodge teve um papel significativo no desenvolvimento do Rito de York dentro do GOB, contribuindo para a fundação de novas Lojas. Esta Loja continua em plena actividade, sendo que desde 1935 está sob a Constituição da GLUI.

Ainda no século XIX, a quarta Loja do Rito de York, a Duke of Clarence Lodge n° 443, foi regularizada em Salvador, na Bahia, em 23 de Fevereiro de 1893, numa cerimónia que teve a participação de cerca de 300 pessoas. O seu primeiro Venerável Mestre foi Henry J. Moon, que no ano seguinte à sua gestão escreveu uma carta ao Grande Secretário da GLUI, Sir Edward Letchworth, da qual extraímos o seguinte trecho:

“Eu, com apoio de outros maçons ingleses, enviei em Novembro de 1892, um pedido de Carta Constitutiva para fundar uma Loja aqui, e entendemos o motivo da recusa, e agora poderia por gentileza nos informar, já que temos uma Carta da Grande Loja do Brasil para trabalhar no Rito de York, se conseguiremos uma Carta Constitutiva do Arco Real para fundarmos um Capítulo…” (Anexo III)

A quinta Loja a ser criada no GOB sob o Rito de York, ainda no século XIX, foi a Morro Velho Lodge n° 648, em 1899. Esta Loja foi fundada por mineradores ingleses que estavam trabalhando na mina de ouro chamada “Morro Velho”, em Nova Lima, Minas Gerais. Assim como a Duke of Clarence Lodge, esta loja encontra-se activa e desde 1935 sob a autoridade da GLUI.

Até a criação do Grande Capítulo do Rito de York, em 1912, mais cinco Lojas foram fundadas neste Rito, a saber, a Loja Eureka Central (no Rio de Janeiro), Unity Lodge (em São Paulo), Saint George Lodge (no Recife), Wanderers Lodge (em Santos) e Loja Eduardo VII (em Belém).

Em 21 de Dezembro de 1912, em resposta às solicitações das Lojas do Rito de York, e para permitir uma prática mais autêntica deste Rito conforme realizado na maçonaria inglesa, o Grande Oriente do Brasil estabeleceu um tratado com a Grande Loja Unida de Inglaterra. Este tratado previu a criação de um Grande Capítulo do Rito de York, que em inglês foi denominado de “Grand Council (Capítulo) of the York Rite”. Substituíram a palavra “Capítulo” por “ Council ”, para não gerar dúvidas em Inglaterra onde “Chapter” diz respeito ao Arco Real. Segundo GENZ (2013) isto atendeu aos anseios dos praticantes do Rito de York que, conforme mencionado no relatório de Junho de 1913 da Comissão de Assuntos Gerais da GLUI, o Grande Capítulo “efectivamente assegurará independência para as Lojas no Brasil compostas por cidadãos britânicos, assegurando a regularidade dos seus trabalhos em conformidade com os princípios da Maçonaria Inglesa”.

Em homenagem a este Tratado de Amizade de 1912, entre o GOB e a GLUI, foi confeccionada em Inglaterra uma medalha que exibia os emblemas da GLUI e do GOB lado a lado, com um Esquadro e um Compasso na parte superior e duas mãos entrelaçadas na parte inferior. O anverso trazia, gravada a buril, a inscrição AMICITIA SEMPITERNA (eterna amizade).

Sob o Grande Capítulo do Rito de York foram consagradas as seguintes Lojas: Loja Brasil n° 953 em 1920 (no Rio de Janeiro), Loja Friendship n° 975 em 1922 (em Niteroi), Loja Centenary n° 986 em 1922 (em São Paulo), Loja Campos Salles n° 966 em 1923 (em São Paulo), Brazil Craft Master’s Lodge n° 1010 em 1925 (no Rio de Janeiro), e a Loja Royal Edward n° 1096 em 1932 (no Rio de Janeiro).

O Ritual do Rito de York na língua portuguesa e a fundação do Distrito da GLUI no Brasil

A Loja Brasil foi constituída com o propósito de trabalhar no Rito de York em língua portuguesa. Um Ritual em inglês chamado “ Perfect Ceremonies of Craft Masonry as Taught in the Unions Emulation Lodge of Improvement for Masters Masons ”, ou simplesmente “Perfect Ceremonies ”, foi traduzido pelo Ir. Josephino da Silva Moraes (membro da Loja Brasil) e publicado em Londres com os custos arcados pelo GOB (Decretos 654 e 655 de 20 de Agosto de 1920). Em reconhecimento pelo trabalho realizado em benefício do Grande Capítulo do Rito de York, o Ir. Josephino Moraes recebeu uma carta de agradecimento e uma medalha de prata.

Em 1921, foi constituída a Loja Campos Sales com o intuito de operar segundo um novo rito aprovado pelo GOB, denominado Rito Brasileiro. Como os rituais ainda não estavam finalizados, a Loja trabalhou durante cinco meses no Rito Moderno e, devido à intervenção de Mário Behring, na época Grão-Mestre do GOB, foi filiada ao Grande Capítulo do Rito de York em 23 de Abril de 1923 para trabalhar com o ritual em português.

Na sessão do Conselho Geral da Ordem do GOB, em 20 de Dezembro de 1934, presidida pelo Grão-Mestre Geral General José Maria Moreira Guimarães, foi considerado o parecer positivo da Comissão de Relações Exteriores a respeito da solicitação da GLUI para que o GOB permitisse a criação de Capítulos do Arco Real em território nacional, além de uma Grande Loja Distrital. Após os debates, a primeira solicitação foi aprovada por unanimidade, enquanto a segunda recebeu quatro votos contra. Durante a reunião do Conselho Geral em 7 de Março de 1935, foi lida uma carta da GLUI manifestando gratidão ao GOB pela permissão concedida para a fundação de um Capítulo do Arco Real no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, e que delegava ao Pod. Ir. Peter Swanson a interlocução com a Grande Secretaria-Geral da Ordem quanto aos passos a serem seguidos para este propósito se concretizar. No dia 20 de Março de 1935, a GLUI enviou ao GOB um projecto de Tratado que foi examinado pelo Conselho Geral na sua sessão de 5 de Abril daquele ano. Uma reunião extraordinária do Conselho Geral foi convocada em 3 de Maio de 1935 para deliberar sobre o convénio sugerido pela GLUI, visando estabelecer no Brasil uma Grande Loja Distrital.

Assim, em 6 de Maio de 1935, o Grande Oriente do Brasil, por um tratado assinado com a Grande Loja Unida de Inglaterra que reconhecia o GOB como a única Potência legítima no Brasil, foi autorizada a instalação da Grande Loja Distrital da América do Sul – Divisão Norte, que contou com a adesão de todas as Lojas do Grande Capítulo do Rito de York, tendo o Ir. Peter Swanson como seu primeiro Grão-Mestre Distrital. O Tratado foi oficializado no GOB através do Decreto n° 1099, assinado pelo Grão-Mestre Gal. José Maria Moreira Guimarães, em 22 de Junho de 1935.

No dia 14 de Setembro de 1935, no Templo Nobre do Grande Oriente do Brasil, localizado no Lavradio (RJ), ocorreu a fundação da Grande Loja Distrital da América do Sul – Divisão Norte. Em 19 e 25 de Setembro foram consagrados, respectivamente, os Capítulos do Arco Real Silver Jubilee nº 5560, em São Paulo, e Guanabara n° 5557, no Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, outros Capítulos foram estabelecidos, sempre sob a égide do Supremo Grande Capítulo Inglês, contando com a activa participação de Irmãos do GOB.

O Ressurgimento do Rito de York no GOB

Novas lojas no Rito de York no GOB foram estabelecidas somente após os anos 50, ganhando um novo impulso a partir de 1983 sob a liderança do Grão-Mestre Geral Jair Assis Ribeiro. Por meio do Acto n° 0221, datado de 19 de Agosto de 1983, ele nomeou o Ir. Ricardo Bath Crespo como Grande Secretário-Geral de Relações Exteriores,

“… com a missão de investigar e tratar de todos os assuntos referentes ao Rito de York no Brasil, com o objectivo de:

  1. Formação de Lojas Simbólicas;
  2. Gestões junto à Grande Loja Distrital para a América do Sul – Divisão Norte – com vistas a instituições de Capítulos (Arco Real); e
  3. Gestões protocolares junto a Lojas e Capítulos do exterior, visando criar intercâmbios de interesse do Rito de York.”

Depois de uma revisão do ritual traduzido em 1920, o Grão-Mestre emitiu o Decreto n° 41, datado de 12 de Dezembro de 1983, que passou a valer a partir de 23 de Janeiro de 1984, autorizando, adoptando e implementando os rituais para os três graus do Rito de York. Desde então o Rito de York experimentou um novo crescimento no GOB.

A partir 2003, com a introdução das Ordens de Aperfeiçoamento Maçônico (Side Degrees ou Ordens Maçónicas Progressivas) no Brasil sob a jurisdição nacional, o Rito de York ganhou um impulso significativo, passando de algumas dezenas de Lojas para mais de duzentas. Várias outras Obediências estaduais no Brasil, ao serem reconhecidas pelo GOB e pela GLUI, começaram a adoptar o Rito de York como uma opção para as suas Lojas, ainda que utilizando outra designação para o Rito, chamando-o de Rito de Emulação, uma homenagem que julgamos justa à famosa loja de instrução Emulation Lodge of Improvement, guardiã desde 1823 do seu Emulation ritual.

Agradecimentos

Agradeço a todos os Irmãos e amigos que de alguma forma me incentivaram na pesquisa que resultou neste artigo. Meu agradecimento especial aos V. Irs. Joselito Romualdo Hencotte (Secretário Adjunto de Orientação Ritualística do GOB), que com os seus comentários enriqueceu o texto, e Anderson Martines (P.M. da Lambeth Borough Council Lodge nr. 2941, Londres), ambos pelo material que conseguiram junto a Biblioteca da GLUI, que esclareceu e enriqueceu aspectos importantes deste trabalho. Aos Irmãos e amigos Fernando Ximenes, César Mingardi e Alexandre Fortes pela revisão e sugestões.

Elder de Lucena Madruga

Past Master da Loja Cavaleiros de York, n° 4671, GOB; 1° Vig. da Iron Bridge Lodge, n° 10.056, UGLE; Assessor do Gabinete do Grão-Mestre do GOB; e Grande Escriba E. do SGCMSAR-GOB

Fonte

  • Publicado na revista A Voz do Escriba, de 7 de Abril de 2025, pág. 33.

Notas

[1] As palavras “Antigos” e “Modernos” referem-se à Grande Loja dos “Antigos”, de 1751 e à Grande Loja dos “Modernos”, de 1717.

Referências Bibliográficas

  • FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil / aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. 1a edição. Rio de Janeiro: José Olympo. 1948. 394p
  • GENZ, Plinio Virgílio. A Maçonaria Inglesa no Brasil. São Paulo: Madras, 2013. 245p.
  • GOB – GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Constituição do Grande Oriente do Brasil, ano de 1907. Disponível em [https://www.gob.org.br]. Acesso em 05/05/2025.
  • GOB -GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Boletim Oficial do GOB – Boletins publicados no século XIX. Disponível em: [https://bndigital.bn.gov.br/]. Acesso em 05/03/2025.
  • GOB – GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Boletim Oficial do GOB – Publicados no site do Grande Oriente do Brasil. Disponível em [https://www.gob.org.br]. Acesso em 05/05/2025.
  • GOB – GRANDE ORIENTE DO BRASIL – BOLETIM DO GRANDE ORIENTE DO BRASIL – Jornal da Official da Maçonaria Brasileira. N°2, 1° ano. Rio de Janeiro: Typ. Do Grande Oriende de Pinheiro & c. 1872.
  • [https://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?BIB=709441&pagfis=40] Acesso em 05/03/2025.
  • O SETE D’ABRIL. Maçoneria – Montezuma, Rio de Janeiro, 7 de Julho de 1835, n° 260, p. 2. Disponível em
  • [https://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/docreader.aspx?BIB=709476&pagfis=1094]. Acesso em 05/03/2025.
  • HUGHAM, William James. An analysis of ancient and modern Freemasonry. Freemasons Magazine and Masonic Mirror, n.° 456, pág. Londres, 1863. Disponível em: [https://masonicperiodicals.org/periodicals/mmr/issues/mmr_12101867/page/7/artic les/ar00700/]. Acesso em 05/03/2025.
  • MACKEY, Albert Gallatin. A Lexicon of Freemasonry; containing a definition of all it communicable terms, notices of its history, traditions, and antiquities, Londres e Glasgow: Ed. Richard Griffin and Company, 1860.
  • MORRIS, S. Brent – The Complete Idiot’s Guide to Freemasonry. Nova York: Editora Alpha, 2006. 334p.
  • MORRIS, S. Brent – The High Degrees in The United States: 1730-1830. Disponível em: [https://www.gcmrep.pt/masonic-papers-by-bro-s-brent-morris-33o-g-c-the-high-degrees-in-the-united-states-1730-1830/] Acesso em 05/03/2025] Acesso em 05/03/2025.
  • THE FREEMASONS’ QUARTERLY REVIEW. Brazil: The Orphan Lodge, n° 616. Londres, 31 de Dezembro de 1838, p. 116. Disponível em: [https://masonicperiodicals.org/periodicals/fqr/issues/fqr_31121838/page/116/] Acesso em 05/03/2025.
  • TRATADO entre o Grande Oriente do Brasil e a Grande Loja Unida de Inglaterra em 1912.
  • TRATADO entre o Grande Oriente do Brasil e a Grande Loja Unida de Inglaterra em 1935.
  • PRICHARD, Samuel. Masonry Dissected, Londres: Editora J. Wilford, 1730. Disponível em: [https://www.google.com.br/books/edition/Masonry_Dissected/AcJ8OU09lp4C?hl =pt-BR&gbpv=1&dq=Masonry+Dissected&printsec=frontcover]. Acesso em 05/03/2025.
  • PUSHEE, Dan e STUCCZYNSKI, K. The York Rite of Freemasonry Official Information. Disponível em: [https://yorkrite.org/wp/what-is-a-york-rite- mason/] Acesso em 05/03/2025.
  • SHEPPARD, Ray. Ahiman Rezon. 2006. Disponível em [https://antients.org/history%20-%20Ahiman%20Rezon.htm] Acesso em 05/03/2025.
  • SWANSON, Peter. The History of Craft Masonry in Brazil. 1928.
  • WOODFORD, Adolphus Frederick Alexander. Kenning’s Cyclopredia of Freemasonry. Londres: Editora G. Kenning. 1878. 674p

Anexo I

Páginas 1 e 2 do periódico “O Sete D’Abril”, do Rio de Janeiro, edição nº 260, de 7 de julho de 1835. No destaque da página 2 onde cita a denominação “Rito de York” referindo-se ao Craft da maçonaria inglesa.
Páginas 1 e 2 do periódico “O Sete D’Abril”, do Rio de Janeiro, edição nº 260, de 7 de julho de 1835. No destaque da página 2 onde cita a denominação “Rito de York” referindo-se ao Craft da maçonaria inglesa.

Anexo II

Página 1, de 8, de carta enviada em 28 de dezembro de 1910, pelo Grão-Mestre da Grande Loja Distrital da República Argentina, subordinada à GLUI, Francis Hepburn Chevalier-Boutell, ao Grande Secretário da GLUI em Londres, Sir Edward Letchworth.
Página 1, de 8, de carta enviada em 28 de dezembro de 1910, pelo Grão-Mestre da Grande Loja Distrital da República Argentina, subordinada à GLUI, Francis Hepburn Chevalier-Boutell, ao Grande Secretário da GLUI em Londres, Sir Edward Letchworth.

Anexo III

Carta enviada em 23 de fevereiro de 1893 pelo PMI da Duke of Clarence Lodge, Henry James Moon, ao Grande Secretário da GLUI, Sir Edward Letchworth.
Carta enviada em 23 de fevereiro de 1893 pelo PMI da Duke of Clarence Lodge, Henry James Moon, ao Grande Secretário da GLUI, Sir Edward Letchworth.

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo