O que é o Paradoxo de Salomão?
O paradoxo de Salomão ocorre quando as pessoas demonstram consistentemente mais sabedoria e racionalidade ao raciocinar sobre os problemas dos outros do que sobre os seus próprios problemas.
Em essência, a pessoa é:
- Excelente em dar conselhos — consegue analisar a situação de um amigo com objectividade, ponderar todas as opções e oferecer a melhor solução.
- Péssima em seguir o seu próprio conselho — ao enfrentar um problema pessoal semelhante, ela se torna irracional, emocional e menos capaz de encontrar a melhor estratégia.
Por que isto acontece?
A chave para o paradoxo é o distanciamento psicológico. Quando analisamos o problema de outra pessoa, a nossa mente está desligada do turbilhão de emoções, medos e inseguranças que o problema causa. Este distanciamento permite que usemos o raciocínio sábio, que inclui:
- Objectividade: Ver a situação de forma clara, sem as lentes do ego ou da emoção.
- Reconhecimento de Limites: Estar ciente das próprias limitações e da natureza incerta das coisas.
- Busca por Compromisso: Ser mais propenso a buscar um meio-termo ou um trade-off.
- Consideração de Perspectivas: Levar em conta a visão de todas as partes envolvidas.
Quando o problema é nosso, a intensa carga emocional (ansiedade, raiva, medo) coloca-nos no modo de “primeira pessoa” (imersivo), dificultando a aplicação dessas estratégias sábias.
Como escapar do Paradoxo?
A solução, comprovada por pesquisas psicológicas (principalmente de Igor Grossmann), é criar activamente o distanciamento psicológico ao lidar com os seus próprios problemas:
- Fale consigo mesmo na Terceira Pessoa: Ao invés de perguntar “O que eu devo fazer?”, pergunte “O que [o Seu Nome] deveria fazer?”. Isto força a sua mente a adoptar uma perspectiva de observador externo.
- Imagine que é um Amigo: Pense no seu dilema como se fosse o problema de um amigo próximo que lhe pediu conselhos. Que conselho você daria a essa pessoa que você se importa?
- Use a Distância Temporal: Pergunte a si mesmo: “Como vou ver este problema daqui a 10 anos?” Isso diminui a intensidade da emoção presente e ajuda a focar na relevância de longo prazo.
Ao criar esta “separação” artificial, você pode acessar a mesma sabedoria que usa para ajudar os outros.
O termo “Paradoxo de Salomão”, na Maçonaria
O termo “Paradoxo de Salomão”, na Maçonaria, não é um conceito doutrinário ou ritualístico formalmente codificado nos rituais da Ordem, mas sim uma reflexão filosófica sobre as contradições na vida do Rei Salomão, figura central do simbolismo maçónico.
O paradoxo refere-se à discrepância entre a imensa sabedoria atribuída ao Rei Salomão e as suas acções e decisões pessoais contraditórias, conforme narrado na Bíblia (principalmente em 1 Reis e Eclesiastes).
Para a Maçonaria, que utiliza Salomão como símbolo de Sabedoria (representada pelo Venerável Mestre no “Trono de Salomão” ou no “Pedestal da Sabedoria”, dependendo do rito maçónico), o paradoxo residiria em:
- Sabedoria vs. Acção: Salomão possuía a maior sabedoria (intelectual e espiritual) para governar com justiça, construir o Templo Sagrado e ditar princípios morais e sábios.
- Contradições Pessoais: No entanto, ele falhou em aplicar essa mesma sabedoria à sua própria vida no final, cometendo o que considerariam à sua cultura e fé ‘erros’ como:
- Idolatria: Permitindo a adoração de outros deuses pelas suas inúmeras esposas estrangeiras e, consequentemente, desviando-se do monoteísmo (1 Reis 11:4-8).
- Luxúria e Despotismo: Acumulando excesso de cavalos, prata, ouro e esposas, contrariando as leis para os reis de Israel (Deuteronómio 17:16-17), e impondo trabalhos forçados.
O paradoxo de Salomão, portanto, serve como uma lição moral para o Maçom: a simples posse de sabedoria não garante a virtude ou a conduta recta. É preciso aplicar a sabedoria para si e para os outros, na prática, diariamente, para evitar que o vício e a paixão superem a luz do conhecimento, algo que o próprio Rei Salomão não conseguiu sustentar até o fim.
O paradoxo de Salomão poderia ser mais bem questionado da seguinte maneira: – Como alguém, abençoado por Deus pela Graça da Sabedoria, logo, em sendo Salomão sábio, tendo as maiores e melhores resolutividades sábias para as questões dos outros, não teria a Sabedoria para a melhor aplicação a si mesmo? A aporia talvez residisse em: – Se possui Sabedoria, como não ser capaz de resolver as suas próprias questões com Sabedoria, se a possui? Então não possuiria Sabedoria? Não seria Sabedoria?
Esta reflexão, talvez aporética, conduz-nos, em filosofia maçónica, a uma grande e sublime lição: a do desbaste da Pedra Bruta, cinzelada individualmente, para o próprio desenvolvimento moral e espiritual, constante e permanentemente, a ser aplicado nas nossas vidas (ao outro) e (a si mesmo).
Portanto, a SABEDORIA; a busca pela Sabedoria, a Sabedoria para com os outros, (pessoas e natureza) e para consigo mesmo (individualmente), precisa ser, (e é), plena, ampla, e difusa, tanto para com todos (para o outro), quanto individualmente (para si mesmo), e, em si mesma. Embora ter SABEDORIA, na sua plenitude e sempre, seja um escopo sobre-humano, (- posto que não somos perfeitos), a SABEDORIA, para nós que somos apenas humanos “perfectíveis”, é um sedutor e eterno processo de busca da Luz; um processo harmonioso de aprendizagem, em conjunto e individual, do desbaste da Pedra Bruta.
Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI
Referências e Artigos Relacionados
- DACHEZ, Roger. De Salomon à James Anderson, l’invention de la franc-maçonnerie. Ed. Dervy, Paris. 2020.
- Fontes Bíblicas: 1 Reis 11:4-8: Decadência moral de Salomão na velhice. Eclesiastes: Reflexão sobre a vaidade (“Hãbel“) de todas as buscas terrenas, uma conclusão que ecoa o paradoxo da sua própria vida.
- GROSSMANN, I.; KROSS, E.. Exploring Solomon’s Paradox: Self-Distancing Eliminates the Self-Other Asymmetry in Wise Reasoning About Close Relationships in Younger and Older Adults. Psychological Science, 25(8), pp. 1571–1580. 2014.
- GROSSMANN, I.. The Dynamic Interplay Between Culture and Wisdom: Historical and Contemporary Perspectives. In Advances in Culture and Psychology, Vol. 7, pp. 245–331. Oxford University Press. 2017.
- KROSS, E. et al.. Self-talk as a regulatory mechanism: How you do it matters. Journal of Personality and Social Psychology, 106(2), pp. 304–324. 2014.
- LIANG, M. J. et al.. Do bystanders always see more than the players? Exploring Solomon’s paradox through meta-analysis. Frontiers in Psychology, 14. 2023.
