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O que é a verdade?

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✍️ Desconhecido 📅 10/12/2025 👁️ 0 Leituras

verdade

Vivemos num tempo em que a informação circula à velocidade de um clique, mas em que a verdade parece, tantas vezes, perder-se e até ocultar-se no meio do ruído: Notícias falsas, manipulação de factos, teorias da conspiração – tudo isto se tornou parte do nosso quotidiano. E, perante esta avalanche, é legítimo perguntar: afinal, o que é a verdade? Como a reconhecemos? E, talvez ainda mais importante, como a defendemos?

Quantas vezes nos sentimos perdidos neste mar de versões contraditórias. Quantas vezes me questiono se não estaremos todos a navegar às cegas, guiados por faróis que ora apontam para o vermelho, ora para o verde, sem sabermos em qual confiar.

Se a mentira se tornou tão abundante, precisamos – mais do que nunca – de reaprender a procurar, a questionar e a valorizar a verdade. Não apenas como um conceito abstrato, mas como um compromisso ético, uma bússola para a nossa vida, não só dentro da nossa Ordem, mas dentro da sociedade em que estamos inseridos, seja ela a familiar, a laboral, a religiosa ou a social. E, se é certo que a verdade pode até ser difícil de definir, é, sem dúvida, demasiado preciosa para ser abandonada.

Ao adentrarmos na busca sobre o conceito de verdade somos de imediato confrontados com uma panóplia de filósofos que se debruçaram sobre este conceito, desde logo Platão (Séc. V a.C.), que defendia a existência de verdades universais e imutáveis, situadas no seu “Mundo das Ideias”, apenas acessíveis pelo pensamento racional. Aristóteles, contemporâneo de Platão e seu discípulo, que formulou a teoria da verdade por correspondência, segundo a qual uma afirmação é verdadeira quando corresponde aos factos ou à realidade.

Protágoras, também do séc. V a.C. representante do relativismo sofista, que afirmava que “o homem é a medida de todas as coisas”, ou seja, segundo esta corrente, a verdade depende da percepção de cada indivíduo. Sócrates, um dos principais filósofos do mundo antigo e os seus discípulos defendiam a existência de uma verdade absoluta e de valores universais, muito embora Sócrates fizesse ênfase à limitação do conhecimento humano. Já na era moderna, René Descartes (séc. XVII) buscou uma verdade indubitável, ao afirmar cogito, ergo sum (penso, logo existo) como fundamento da certeza.

No séc. XIX surgem Hegel e outros idealistas, como Fichte e Joachim, que desenvolveram a teoria da coerência, segundo a qual a verdade é uma propriedade de sistemas de proposições que são coerentes entre si. Nietzsche, contemporâneo destes últimos criticou a ideia de uma verdade universal, ao argumentar que as verdades são construções culturais e históricas. Já na transição para o séc. XX, Husserl via a verdade como resultado da experiência fenomenológica, ou seja, daquilo que é observado e sentido diretamente.

E podia continuar o rol de muitos outros que nesta época refletiram sobre tão grave conceito. Detenho-me, porém, num filósofo disruptivo que nos apresenta uma abordagem singular sobre o conceito de verdade, distinta das tradições clássicas da filosofia ocidental aqui já referidas. Alguém, para quem a verdade não se reduz à correspondência entre pensamento e realidade, nem se esgota na evidência lógica ou na adequação teórica. A verdade, segundo este filósofo, está profundamente ligada à ética, à justiça e à relação com o Outro.

No último dia de Dezembro de 1905 do calendário juliano, Kaunas, a segunda maior cidade da Lituânia via nascer Emmanuel Levinas, filósofo posteriormente naturalizado francês, de uma família judaica que ousou ver a questão ontológica de uma perspectiva diferente. Levinas, convida-nos a ter outra perspectiva, uma perspectiva que envolve o rosto do outro. Este rosto que para o filósofo exige uma resposta é imediatismo, é “epifania” e “revelação”. “No rosto o outro homem está presente para mim com absoluta imediatidade, na ausência total de intermediários: ele faz-se evidente” (Giménez, 2011, p. 89).

Os escritos do filósofo Emmanuel Levinas estão repletos de alteridade. É o outro que me define. Não posso definir-me sem a presença dele, e não é uma presença que envolva o nome de alguém. Por si só, o outro define-me e questiona-me, projeta-me e retém-me. Portanto, “não é estranho que as suas obsessões o levem a desconfiar de qualquer indício de totalidade e, para isso, nunca perde de vista a infinitude do Outro…

Um rosto que ri e saúda, um rosto que sofre e que me exige uma resposta, um rosto que me seduz e que me cativa” (Aguirre, 2010, p. 57).

Ao compreender a direção da filosofia levinasiana, podemos entender a razão pela qual a alteridade é tão importante para o filósofo que chega a comover quem sobre ela se detém. Comove, não de forma sensível ou romântica, mas de uma forma que afeta o nosso eu interior e a maneira como a interpretamos e, portanto, a entendemos. A filosofia de Lévinas caracteriza-se por “reivindicar a não intencionalidade da consciência, que não buscará a verdade como um fim em si mesma; pelo menos não como mera adaptação da mente às coisas. A verdade identifica-se com a autonomia e a plenitude do ser” (Aguirre, 2010, p. 56).

E é o Outro que me gera do infinito, por assim dizer, e um Outro que não tem rosto, mas em cujo olhar posso descobrir a verdade, a verdade sobre mim e sobre a existência, a verdade sobre o mundo e a sua totalidade. Diante do outro habita a certeza até mesmo da minha indiferença, da minha inércia, é então que a alteridade se faz mesmidade. É de se esperar que, ao sermos “re-conhecidos” no outro e ao “re-conhecê-lo”, possamos também conhecer a verdade, que não é uma categoria cognoscível ou racional, mas sim na “relação” na qual habitamos e da qual dependemos em absoluta inter-relação.

A verdade do outro em mim é uma verdade essencial que nasce do coração do Talmude [1], que Levinas toma como uma tradição que arrebata a primazia da ontologia da tradição grega e que é proposta como outra visão da alteridade. A verdade deixa de ser uma propriedade do sujeito, para se entrelaçar numa relação do tu e eu, sujeita às palavras, sensações e racionalidades, mas fundamentalmente entrelaçada de transcendência.

A verdade torna-se o começo ético da pessoa no outro. É o reconhecimento do valor absoluto do outro em mim e vice-versa. Não é uma verdade a ser discutida ou compreendida, mas uma verdade do próprio sentido da existência que nos lança do e para o outro, para que não nos escondamos da resposta ética da vida. Não há mera tolerância ou inatividade, nem o sentimento de indiferença em que o outro nasce, se move ou se desenvolve, mas sim uma percepção maior que a todos nos fecunda no amor. O Outro sustenta-nos porque Ele é Amor, e não há verdade maior do que habitar no Outro, que, ao ver-nos vulneráveis, acode ao nosso vazio e preenche-nos de verdade e de bondade.

Lançado dessa resposta em direção ao bem, ao belo e ao bom como expressa León Hebreo, estudado por Miguel García-Baró desvincula todo o pensamento de Levinas do judaísmo. Esta força inesgotável da verdade não é uma posse do ser, mas da Alteridade absoluta e transcendente que nos sustenta e nos torna inteiros, como Levinas muito bem apresenta no seu enorme tratado Totalidade e Infinito (1961).

Levinas, com a força do seu pensamento eleva-nos a um encontro, onde não podemos analisar a verdade a partir da nossa própria consciência, mas a partir da consciência em abertura, ligada ao outro, inter-relacionada. Levinas mostra-nos que a verdade não é algo que possuímos, mas sim que é parte de nós, que nos possui, que não só pode ser compreendida como também habitada, ou pelo menos, podemos ter a clara consciência de que somos essencialmente verdadeiros.

De acordo com o capítulo XVIII do Evangelho de São João,

“Pilatos apresentou-se diante de Jesus e perguntou-Lhe: O que é a verdade? Tendo dito isto, saiu novamente para junto dos judeus e disse-lhes: Não encontro n’Ele culpa alguma.” (Jo. 18, 37-38)

Por que motivo Pilatos não aguarda por uma resposta? Creio que a dificuldade em se confrontar com a verdade resida, talvez, no facto de se poder constatar que o poder, perante ela, revela-se destituído de sentido.

Talvez Pilatos tenha descoberto o seu rosto em Cristo, talvez alguma humanidade tenha começado a emergir quando finalmente afirmou: “Não encontro culpa neste homem”, querendo talvez dizer: “Quem sou eu para julgá-lo?” Não sabemos. E a resposta para a pergunta também não, porque Cristo não a diz, porque não é algo que possa ser dito. É algo que se vive e se é. E na qual vivemos!

Sérgio C., M. M. – R. L. Miramar, nº 36 (GLLP / GLRP)

05.05.6025 (A. L.)

Notas

[1] Uma das obras centrais do judaísmo, composto por uma vasta coleção de ensinamentos, discussões, interpretações e comentários sobre a lei judaica, costumes, ética e tradições religiosas. É considerado fundamental para a compreensão e prática do judaísmo rabínico.

Bibliografia

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