O papel dos maçons na Resistência Francesa
O período da Ocupação e do regime de Vichy na França foi marcado por uma repressão sistemática das organizações maçónicas. Apesar das perseguições, muitos maçons desempenharam um papel crucial na Resistência Francesa, enquanto outros, infelizmente, colaboraram com o ocupante. Este documento explora as medidas tomadas por Vichy contra os maçons, apresenta as principais figuras da Resistência maçónica, examina os casos de colaboração e conclui com uma bibliografia e links úteis para aprofundar o assunto.
As medidas de Vichy contra os maçons
O regime de Vichy, sob a influência de ideologias fascistas e anti-semitas, rapidamente passou a perseguir os maçons, considerando-os inimigos do Estado. As principais medidas incluem:
- Lei de 13 de agosto de 1940: esta lei dissolve as sociedades secretas, visando particularmente as lojas maçónicas.
- Lei de 19 de agosto de 1941: impondo a declaração de filiação maçónica, visa excluir os maçons do serviço público e de profissões influentes.
- Propaganda anti-maçónica: o regime de Vichy intensificou a propaganda anti-maçónica, associando os maçons a uma conspiração mundial com judeus e comunistas.
Estas medidas forçaram muitos maçons a entrar na clandestinidade ou a se retirar da vida pública.
As principais figuras da Resistência Maçónica e suas ações
Jean Moulin (1899-1943)
Jean Moulin é talvez a figura mais emblemática da Resistência francesa. Iniciado na Maçonaria em 1927, Moulin desempenhou um papel crucial na unificação de vários movimentos de resistência sob a liderança de Charles de Gaulle. Como representante do General de Gaulle, ele estabeleceu o Conselho Nacional da Resistência (CNR) em 1943. A sua prisão e morte sob tortura em Julho de 1943 fizeram dele um mártir da Resistência.
Pierre Brossolette (1903-1944)
Jornalista, político e membro da Maçonaria, Pierre Brossolette foi um líder na luta contra a ocupação nazi. Ele juntou-se às Forças Francesas Livres e trabalhou em Londres antes de liderar várias missões na França ocupada. Capturado pela Gestapo em 1944, suicidou-se para evitar trair os seus camaradas sob tortura.
René Cassin (1887-1976)
Jurista e diplomata, René Cassin foi um fervoroso defensor dos direitos humanos e membro activo da Maçonaria. Durante a guerra, exilou-se em Londres e tornou-se um colaborador próximo de De Gaulle, contribuindo para a redacção dos textos fundadores da França Livre e, após a guerra, para a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
André Lebey (1877-1938)
Escritor e político, André Lebey foi um resistente activo contra o regime de Vichy. Membro do Grande Oriente da França, participou em acções de sabotagem e na organização de redes de fuga para resistentes e judeus.
Georges Mandel (1885-1944)
Político e membro da Maçonaria, Georges Mandel foi um fervoroso opositor do regime de Vichy. Preso em 1940, foi deportado para a Alemanha e depois trazido de volta para França, onde foi assassinado pela Milícia em 1944.
Émile Bollaert (1890-1978)
Comissário da República em Marselha, Émile Bollaert, Maçom, desempenhou um papel importante na organização da Resistência no sul de França. Após a guerra, continuou a servir a República como alto funcionário.
Gaston Monnerville (1897-1991)
Advogado e político, Gaston Monnerville, membro do Grande Oriente da França, foi um resistente activo. Após a guerra, tornou-se presidente do Conselho da República e, posteriormente, presidente do Senado.
Os maçons colaboradores
Infelizmente, nem todos os maçons resistiram à ocupação. Alguns escolheram o caminho da colaboração, por vezes por oportunismo, outras por convicção.
Abel Bonnard (1883-1968)
Escritor e político, Abel Bonnard, apelidado de “Gestapette” devido à sua homossexualidade e às suas estreitas ligações com os nazis, foi membro da Academia Francesa. Colaborou activamente com o regime de Vichy, tornando-se ministro da Educação Nacional em 1942. Após a guerra, foi julgado e condenado à degradação nacional perpétua à revelia em 1945. Exilou-se em Espanha e morreu em 1968.
Pierre Laval (1883-1945)
Pierre Laval, embora raramente associado directamente à Maçonaria, é frequentemente mencionado neste contexto devido às suas ligações com redes maçónicas antes da guerra. Primeiro-ministro do governo de Vichy, Laval foi um colaborador zeloso, facilitando a deportação de judeus e colaborando estreitamente com os ocupantes nazis. Foi julgado e executado em 1945 por traição.
Joseph Darnand (1897-1945)
Joseph Darnand, chefe da Milícia Francesa, foi um fervoroso colaborador dos nazis. Embora não fosse Maçom, tinha ligações com alguns membros da Maçonaria. Foi julgado e executado em 1945 por traição e crimes de guerra.
Jacques Barnaud (1893-1962)
Banqueiro e político, Jacques Barnaud, Maçom, colaborou com o regime de Vichy como delegado geral para as relações económicas franco-alemãs. Após a guerra, foi julgado, mas absolvido, embora tenha sido internado por um período devido às suas actividades.
Henri Lafont (1902-1944)
Henri Lafont, chefe da “Gestapo francesa”, foi um colaborador activo dos nazis. Embora não fosse Maçom, utilizou as suas ligações com alguns maçons para as suas actividades criminosas. Foi capturado, julgado e executado em 1944.
Conclusão
A história dos maçons durante a Ocupação e a Resistência francesa é marcada por contrastes impressionantes. Por um lado, muitos maçons desempenharam papéis fundamentais na luta contra o ocupante nazi, contribuindo significativamente para a libertação da França. Por outro lado, alguns indivíduos escolheram o caminho da colaboração, manchando assim a imagem da Maçonaria. Este documento tentou reflectir essa complexidade, destacando as acções heróicas dos maçons resistentes, ao mesmo tempo em que reconheceu a traição de alguns de seus membros.
Alexander Raymond, Presidente de Honra da Mémoire Vive de la Résistance
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
Bibliografia
- Azéma, Jean-Pierre. La Collaboration. Paris: Perrin, 1976.
- Berlière, Jean-Marc. Policiers français sous l’Occupation. Paris: Perrin, 2001.
- de Gaulle, Charles. Mémoires de guerre. Paris: Plon, 1954-1959.
- Forestier, Patrick. Jean Moulin, l’ultime mystère. Paris: Fayard, 2012.
- Paxton, Robert O. Vichy France: Old Guard and New Order, 1940-1944. Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 1972.
- Peschanski, Denis. Les Juifs dans la Collaboration. Paris: CNRS Editions, 1994.
- Shirer, William L. O colapso da Terceira República: uma investigação sobre a queda da França em 1940. Nova Iorque: Simon & Schuster, 1969.
- Warner, Geoffrey. Pierre Laval e o eclipse da França. Nova Iorque: The Macmillan Company, 1968.
Links úteis
- Fundação da Resistência – https://www.fondationresistance.org
- Museu da Resistência e da Deportação – https://www.musee-resistance.com
- Memorial da Shoah – https://www.memorialdelashoah.org
- Serviço Histórico da Defesa – https://www.defense.gouv.fr/sga/le-sga/organisation/service-historique-de-la-defense
