O Engbund e Friedrich Ludwig Schröder
Origem, objectivos e funcionamento de um grau de conhecimento maçónico (1802-1868)
INTRODUÇÃO: O contexto histórico ou de como a Maçonaria alemã quase sucumbiu ao próprio sucesso
Há um fenómeno recorrente na história das instituições que merece atenção: o momento em que o êxito de uma ideia começa a corroê-la por dentro. No final do século XVIII, a franco-Maçonaria alemã experimentava precisamente isso. O que havia sido, nas décadas anteriores, um espaço de sociabilidade ilustrada e reflexão moral transformara-se num mercado de graus, patentes e promessas de conhecimento superior. A Strikte Observanz (Estrita Observância), com a sua fantasia templária e os seus Superiores Desconhecidos, dominava o cenário. E, como costuma acontecer quando a forma devora o conteúdo, proliferavam charlatães, vendedores de títulos e toda sorte de Beutelschneider — os cortadores de bolsas, na expressão da época.
O Convento de Wilhelmsbad, em 1782, funcionou como uma espécie de die Krisis husserliana [1]: expôs as pretensões históricas fabricadas da Estrita Observância — declarando formalmente a inexistência de qualquer filiação templária e a ficção dos Superiores Desconhecidos — e deixou o campo maçónico alemão em frangalhos. Foi desse vácuo que emergiu o movimento reformista. Herder, Goethe, Hufeland — e, sobretudo, Friedrich Ludwig Schröder (1744-1816), o director teatral de Hamburgo que emprestaria o seu nome ao sistema que, em tese, até hoje praticamos.
O problema de Schröder era genuinamente filosófico, ainda que ele talvez não o formulasse nesses termos: como preservar a densidade semântica dos três graus simbólicos e, ao mesmo tempo, satisfazer a legítima aspiração dos Mestres por aprofundamento — sem capitular diante do mercado dos altos graus? A questão não era meramente administrativa. Era, no fundo, uma questão sobre o sentido da Maçonaria.
2. Origem e desenvolvimento do Engbund
2.1 O precursor: Feßler e a tentativa de um Scientifischer Bund
A ideia de reunir Mestres interessados em pesquisa não nasceu com Schröder. Ignaz Aurelius Feßler (1756-1839) havia tentado algo semelhante — e o seu fracasso é tão instrutivo quanto o êxito posterior de Schröder.
Feßler era uma figura proteica, quase inverosímil. Nascido na Hungria ocidental, entrou para a Ordem dos Capuchinhos em 1773, recebeu as ordens sacras em 1779, e em 1784 denunciou ao imperador José II os horrores dos cárceres monásticos vienenses — o que lhe custou a paz, mas lhe abriu as portas da Universidade de Lemberg, onde assumiu a cátedra de Orientalística. Ali começou a sua carreira maçónica, na loja Fénix. Depois veio a Silésia, o Bund der Evergeten (Liga dos Benfeitores, uma tentativa de dar continuidade às ideias dos Illuminati), a conversão ao luteranismo em 1791, a mudança para Berlim em 1796.
Em Berlim, Feßler encontrou o seu terreno. Afiliou-se à loja Royal York e, em poucos anos, tornou-se seu reformador: reescreveu os rituais dos três graus, reestruturou os altos graus como meras “iniciações” históricas (Erkenntnisstufen), obteve do rei Frederico Guilherme III o protectorado para a recém-criada Grande Loja — quatro meses antes do édito que concederia às três Grandes Lojas prussianas o seu monopólio. O princípio norteador era kantiano até a medula: a Maçonaria deveria ser “uma instituição educacional para a racionalidade e a moralidade em benefício da sociedade humana”.
Foi neste contexto que, em 1802, Feßler fundou o Scientifischer Bund (Liga Científica) junto à loja Zu den drei Bergen em Freiberg: o Scientifischer Bund (Liga Científica). O objectivo, registrado na Encyclopädie der Freimaurer de Mossdorf (1822), era elaborar a história da fraternidade maçónica desde as suas origens até os tempos presentes, na sua totalidade e em todas as suas partes, bem como em todos os seus sistemas e desvios, com a maior completude e evidência possíveis. A formulação é significativa: evidência, completude, totalidade. O vocabulário é iluminista até a medula. A liga de Feßler, contudo, teve vida curta [2].
2.2 A fundação de Schröder: do círculo ao Engbund
Friedrich Ludwig Schröder (1744-1816) era, em quase tudo, o oposto de Feßler. Onde este era errático, Schröder era metódico; onde Feßler acumulava inimigos por intemperança, Schröder cultivava redes por paciência; onde o húngaro era um intelectual sem base institucional estável, o hamburguês era director de um dos teatros mais importantes da Alemanha e figura central de uma cidade-estado com tradição de autonomia.
Schröder foi iniciado em 1774 na loja Emanuel zur Maienblume, que então praticava a Estrita Observância. Tornou-se Venerável Mestre em 1787 e, a partir daí, empreendeu uma reforma sistemática. A sua correspondência com Herder (1800-1803) documenta o cuidado filológico com que trabalhava: cotejava textos, conferia fontes inglesas, discutia formulações. O ritual que emergiu desse processo — o Schrödersche Lehrart — é até hoje praticado.
Mas Schröder percebia um problema que a reforma ritual, por si só, não resolvia. Em 1797, ele inaugurou em Hamburgo uma Instrucktions- und ökonomische Loge für Brüder im Meistergrad — uma loja de instrução e economia para irmãos no grau de Mestre. O propósito era declarado sem rodeios: “Aqui eu queria familiarizar os irmãos com os sistemas e as fraudes maçónicas… aqui deveriam ser propostas e respondidas questões científicas e morais, orais e escritas.”
Note-se a franqueza: “fraudes maçónicas” (maurerische Betrügereien). Schröder não estava interessado em diplomacia. Queria vacinar os Mestres contra o charlatanismo dos altos graus — e para isso era preciso que conhecessem o vírus.
O instituto fechou após dezoito sessões. “O número era pequeno demais, o entusiasmo não se sustentou.” Mas dessa tentativa frustrada nasceu algo duradouro: um Kreis der vertrauten Brüder (Círculo dos Irmãos de Confiança), que se reuniu pela primeira vez em 25 de Outubro de 1802. E aqui a terminologia é reveladora. O círculo passou por três denominações sucessivas: primeiro Vertraute Brüder, depois Historische Kenntnisstufe (Grau Histórico de Conhecimento), finalmente Engerer geschichtlicher Bund (Liga Histórica Restrita) — donde Engbund. A progressão terminológica não é acidental: ela espelha um amadurecimento institucional e conceitual.
Na primeira fase, o critério é pessoal: confiança. Na segunda, o critério é epistémico: conhecimento histórico. Na terceira, o critério é organizacional: uma liga, isto é, uma estrutura com regras e permanência. A própria nomenclatura documenta a passagem do informal ao institucional, do vínculo afectivo ao projecto intelectual.
É preciso notar, ademais, que 1802 foi o mesmo ano em que Feßler fundou o seu Scientifischer Bund e em que foi forçado a deixar a Royal York. Os dois projectos nasceram quase simultaneamente, mas em condições institucionais radicalmente distintas. Schröder tinha o que Feßler não tinha: uma base estável, uma rede consolidada, uma cidade que não era Berlim. Hamburgo, ao contrário da capital prussiana, não estava sujeita às mesmas intrigas de corte nem à mesma vigilância sobre sociedades secretas. O Engbund pôde crescer onde o Scientifischer Bund definhou.
3. A engenharia institucional do Engbund: como sublimar o desejo sem suprimi-lo
Segundo o Internationales Freimaurerlexikon de Lennhoff e Posner — obra de referência incontornável, publicada em 1932, que permanece, pela abrangência sistemática e pelo uso de fontes primárias, a mais completa no género —, o Engbund deveria ocupar o lugar dos altos graus e facilitar a transição para a Maçonaria pura. Mas atenção: Schröder foi mais longe que Feßler. A sua organização não tinha qualquer influência sobre os graus joaninos; era apenas um instituto crítico.
Eis o ponto decisivo, e vale a pena determo-nos nele. O Engbund não era um alto grau. Não conferia distinção hierárquica, não prometia revelações esotéricas, não se inseria na economia simbólica da ascensão iniciatória. Era outra coisa: um espaço de conhecimento. As funções podem ser assim descritas:
- (a) Canalização do interesse pelos altos graus: O Engbund permitia que Mestres se familiarizassem com os diversos sistemas de altos graus — mas como objecto de análise crítica, não como degrau de ascensão. A operação é subtil: transforma-se a fome de graus em conhecimento sobre graus. O desejo não é negado; é redireccionado.
- (b) Fomento do trabalho científico: O Engbund era uma congregação de Mestres estimulados a trabalhos científicos próprios e reunidos regularmente para discussões. História da Maçonaria, ritualística comparada, filosofia moral — o cardápio era vasto, mas o método era um só: a investigação crítica.
- (c) Selecção como garantia de qualidade: A filiação era deliberadamente restrita. O Engbund deveria ser, nas palavras do léxico, protecção dos irmãos cientificamente interessados e dispostos à pesquisa contra os muitos demais. Há uma franqueza quase rude nessa formulação. Nem todo Mestre estava apto ou disposto ao trabalho intelectual sério.
O Engbund não fingia o contrário.
4. Organização e funcionamento
A arquitectura institucional do Engbund merece atenção detalhada, pois nela se revela a diferença entre uma ideia interessante e uma instituição viável.
Os diversos Engbünde formados junto a lojas em várias cidades alemãs — Hamburgo, Bremen, Lübeck, Weimar, entre outras — estavam subordinados ao Mutterbund (liga-mãe) em Hamburgo. Certos Grão-Oficiais e todos os Veneráveis Mestres eram membros ex officio; em cada loja, um número limitado de Mestres era admitido. A estrutura era deliberadamente hierárquica e centralizada, garantindo coordenação e padrões uniformes de pesquisa.
Havia ainda uma segunda camada de selecção: o Korrespondenz-Zirkel (Círculo de Correspondência), formado por membros escolhidos de cada Engbund local para conduzir a comunicação entre os diversos núcleos. Esta estrutura em dois níveis — Engbund e Círculo de Correspondência — permitia combinar capilaridade local com coordenação central. Era, em suma, uma rede antes da era das redes.
As reuniões ocorriam separadamente dos trabalhos regulares de loja — o que reforçava a distinção funcional entre a actividade ritual e a actividade de pesquisa. Enquanto a loja trabalhava com símbolos, o Engbund trabalhava sobre símbolos. A diferença é crucial: no primeiro caso, o símbolo age sobre o iniciado; no segundo, o iniciado analisa o símbolo. São operações complementares, mas distintas.
Um detalhe merece atenção especial: até 1851, empregava-se um ritual de admissão, semelhante às “iniciações” históricas de Feßler. Isso levanta uma questão inevitável: o Engbund não teria, afinal, se tornado aquilo que pretendia combater — um alto grau disfarçado? As fontes sugerem que não. O ritual não conferia precedência sobre outros Mestres, não implicava promessa soteriológica, não criava hierarquia de comando nem segredo operacional — os quatro traços distintivos de um alto grau propriamente dito. Ainda assim, foi posteriormente abandonado, possivelmente para preservar o carácter de puro círculo de estudos. É como se a instituição houvesse passado por um processo de autocorrecção — recuando quando percebeu que a forma ritual ameaçava contaminar a função epistémica.
Schröder, aliás, foi categórico nesse ponto: recusou-se terminantemente a permitir que os graus estudados pelo Engbund fossem introduzidos nos graus simbólicos. O estudo era histórico e crítico, nunca prático. Era possível conhecer o Rito Escocês Rectificado ou os mistérios rosacrucianos — mas apenas como objectos de análise, jamais como práticas a serem adoptadas. A distinção entre pesquisa e prática era, para Schröder, inegociável.
5. Realizações científicas: o léxico de Ridel e a loja Amalia
Os Engbünde, nas palavras do léxico de Lennhoff-Posner, “realizaram trabalho muito valioso nos anos da sua existência”. Mas o que significa, concretamente, “trabalho valioso” nesse contexto? A resposta passa necessariamente pela figura de Kornelius Johann Rudolf Ridel (1759-1821) e pelo ambiente intelectual de Weimar.
Ridel nasceu em Hamburgo, filho de um senador que morreu em 1771, deixando a família em situação financeira precária. Formado no Gymnasium da sua cidade natal, demonstrou desde cedo inclinação pela história e pela filologia. Em 1787, foi convidado pelo Grão-Duque Carlos Augusto de Saxe-Weimar para assumir a educação do príncipe herdeiro de quatro anos — cargo que exerceu por doze anos. Tornou-se, depois, Conselheiro de Câmara Secreta (Geheimer Kammerrath) e, em 1817, director da Câmara (Kammerdirektor).
A partir de 1783, Ridel foi também Illuminat. Mas a sua contribuição mais duradoura foi à Maçonaria de Weimar. Em Outubro de 1808, participou da refundação da loja Amalia zu den drei Rosen, que havia suspendido os seus trabalhos em 1782. A refundação foi conduzida sob os auspícios de Goethe e Friedrich Justin Bertuch, e a loja adoptou — significativamente — o sistema ritual de Schröder, abandonando a Estrita Observância que antes praticara.
De 1810 a 1819, Ridel foi Venerável Mestre da Amalia — a mesma loja de que Goethe era membro desde 1780. A correspondência entre ambos documenta uma relação de respeito mútuo. Quando Ridel morreu, em Janeiro de 1821, foi Goethe quem redigiu a introdução para as cerimónias fúnebres maçónicas. Um detalhe biográfico curioso: Ridel era casado com Amalie Kestner, irmã de Charlotte Kestner — a “Lotte” que inspirara Os sofrimentos do jovem Werther. Thomas Mann, no seu romance Lotte in Weimar (1939), retrata a visita de Charlotte a Weimar em 1816, quando ela se hospedou na casa da sua irmã — a esposa de Ridel.
O resultado mais notável do trabalho de Ridel foi o primeiro léxico maçónico em língua alemã: o Versuch eines alphabetischen Verzeichnisses der wichtigeren Nachrichten zur Kenntnis und zur Geschichte der Freimaurerei — em tradução livre, Ensaio de um índice alfabético das notícias mais importantes para o conhecimento e a história da Maçonaria —, publicado em Jena em 1817. A obra foi impressa na tipografia secreta do Grão-Duque de Weimar e circulou como “manuscrito para os arquivos do Engbund”, entregue apenas lacrada — sinal dos tempos, em que a pesquisa maçónica ainda exigia discrição.
Lennhoff e Posner atestam-lhe “grande valor histórico”, pois Ridel “pôde avaliar muitos fenómenos da sua época ainda como contemporâneo”. O próprio Internationales Freimaurerlexikon reconhece ter sido “extensamente baseado” no trabalho de Ridel na sua elaboração. Há, aqui, uma linhagem intelectual que merece ser sublinhada: do Engbund de Schröder ao léxico de Ridel, do léxico de Ridel ao Internationales Freimaurerlexikon de 1932 — uma tradição de pesquisa crítica que atravessa mais de um século.
6. O fim paradoxal (1868) e o contexto da unificação alemã
O Engbund foi dissolvido em 1868. A causa, registrada no léxico de Lennhoff-Posner, é de uma ironia quase trágica: “Ciúmes das Grandes Lojas e o temor de que o Engbund pudesse se desenvolver em alto grau levaram os Grão-Mestres alemães, em 1868, a proibir o Engbund.” O arquivo permaneceu em Hamburgo.
Convém situar esta decisão no seu contexto. A década de 1860 foi, para a Maçonaria alemã, um período de reorganização e tensão. A fragmentação em múltiplas Grandes Lojas — as três “antigas prussianas” (Zu den drei Weltkugeln, Große Landesloge, Royal York), mais as Grandes Lojas de Hamburgo, Saxónia, Bayreuth e outras — reflectia o particularismo político dos estados alemães. A unificação sob Bismarck, consumada em 1871, pressionava por alguma forma de coordenação também no campo maçónico.
Em 1868, Gustav Heinrich Warnatz, Grão-Mestre vitalício da Grande Loja da Saxónia, convocou a primeira reunião dos Grão-Mestres alemães em Berlim, na sede da loja Zu den drei Weltkugeln. Era o embrião do que viria a ser, em 1872, o Deutscher Großlogenbund (Federação das Grandes Lojas Alemãs). Esse movimento de centralização tinha os seus custos — e o Engbund foi um deles.
A proibição do Engbund pode ser lida de várias maneiras. A explicação oficial — o temor de que se transformasse em alto grau — é plausível, mas insuficiente. Se o Engbund havia abandonado o seu ritual de admissão em 1851, precisamente para evitar essa deriva, por que o proibir dezassete anos depois?
Uma hipótese interpretativa mais incómoda: o sucesso do Engbund representava uma ameaça de outra ordem. Se era possível satisfazer a aspiração por aprofundamento sem recorrer aos altos graus, então a própria raison d’être dos sistemas de altos graus ficava em questão. O Engbund demonstrava, na prática, que a Maçonaria podia ser intelectualmente séria permanecendo nos três graus simbólicos. Para as potências que administravam sistemas de graus superiores — e que deles extraíam prestígio, receitas e controle —, essa demonstração era inconveniente.
Há também uma leitura institucional possível: o Engbund era uma estrutura transversal, que atravessava jurisdições e vinculava lojas de diferentes obediências. Numa época de centralização e demarcação de territórios, essa transversalidade podia parecer subversiva. Melhor eliminar o Engbund do que deixá-lo funcionar como um circuito paralelo, fora do controle dos Grão-Mestres.
Seja como for, a decisão de 1868 encerrou formalmente uma experiência de 66 anos. Uma instituição criada expressamente para sublimar o impulso pelos altos graus foi, ao final, proibida com a mesma justificativa que ela própria tentara neutralizar. É como se o sistema imunológico das Grandes Lojas não conseguisse distinguir entre o vírus e a vacina.
7. Desdobramentos e permanência do nome
O nome Engbund sobreviveu como designação genérica para grupos de trabalho científico no âmbito maçónico. O léxico de Lennhoff-Posner registra, entre outros, um Engbund histórico do Museu Maçónico de Bayreuth, um Engbund científico da loja Balduin zur Linde em Leipzig e um Engbund histórico das lojas berlinenses da Grande Loja de Hamburgo. Também a Academia Masonica, fundada em Praga em 1930, é caracterizada como Engbund.
Essa sobrevivência terminológica não é trivial. Indica que a ideia de Schröder — um espaço de pesquisa distinto da loja ritual, mas a ela vinculado — permaneceu fecunda mesmo depois que a instituição original foi dissolvida. O nome tornou-se, por assim dizer, um género: “Engbund” passou a designar qualquer círculo de estudos maçónicos organizado segundo princípios semelhantes.
A instituição é finalmente descrita, no léxico, como “protecção dos irmãos cientificamente interessados e dispostos à pesquisa contra os ‘muitos demais’ e um refúgio da vida de loja por vezes demasiado inclinada ao meramente social”. Há, nessa formulação, um diagnóstico que não perdeu actualidade. A tensão entre a dimensão intelectual e a dimensão convivial da Maçonaria é estrutural; o Engbund representou uma tentativa de institucionalizar a primeira sem negar a segunda.
Contemporaneamente, a função que o Engbund desempenhava foi assumida, em boa medida, pelas lojas de pesquisa (research lodges) do mundo anglófono — como a Quatuor Coronati Lodge n.º 2076, fundada em Londres em 1884 e a Quatuor Coronati São Paulo n.º 333, que os praticantes têm procurado desenvolver. São, em certo sentido, herdeiras do projecto schröderiano: espaços onde o estudo crítico da Maçonaria pode ser conduzido com rigor, sem que se confunda pesquisa com revelação, história com mitologia, análise com iniciação.
O Schrödersche Lehrart continua sendo praticado hoje por uma fracção reduzida dos maçons alemães (as estimativas variam, mas não ultrapassa cinco por cento), e também em países como Suíça, Áustria, Hungria e Brasil — onde sobreviveu às perseguições das duas guerras mundiais graças à comunidade germânica do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A clareza conceitual e a sobriedade ritual do sistema de Schröder continuam a atrair aqueles que buscam uma Maçonaria focada na transformação moral e no rigor intelectual, sem os ornamentos esotéricos que dominaram — e ainda dominam — boa parte da tradição continental.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: O Engbund como solução iluminista — e o que isso nos diz hoje
O Engbund encarna uma resposta tipicamente iluminista a um problema institucional que permanece nosso: como satisfazer o desejo por mais — mais conhecimento, mais profundidade, mais distinção — sem capitular diante dos sistemas que prometem atalhos esotéricos?
A solução de Schröder foi de uma elegância conceitual notável. Ele não negou o desejo de altos graus — tentativa que estaria fadada ao fracasso. Ele o transformou. O desejo de possuir graus converteu-se em desejo de conhecer graus. A aspiração iniciatória foi redireccionada para a pesquisa histórica e crítica. O grau de conhecimento (Erkenntnisstufe) não era um grau de iniciação, mas um grau de Erkenntnis — conhecimento racional, no sentido kantiano do termo.
Para o trabalho contemporâneo das lojas de pesquisa — e, de modo mais amplo, para qualquer Maçonaria que se pretenda intelectualmente honesta —, o Engbund oferece um modelo histórico: uma forma institucional que combina trabalho educacional com protecção contra o meramente social e que recusa tanto a sedução dos altos graus quanto a irrelevância do mero círculo de leitura.
Schröder sabia — e nós deveríamos saber — que a Maçonaria ou é levada a sério ou não merece ser praticada. O Engbund foi a sua tentativa de institucionalizar essa seriedade. Que tenha sido destruído pelo ciúme das próprias Grandes Lojas é uma lição que ainda não terminamos de aprender.
Rui Badaró, Venerável Mestre da ARLS Gotthold Ephraim Lessing 930, GLESP
Notas
[1] A referência é à obra tardia de Edmund Husserl, Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie (1936), na qual o filósofo diagnostica o momento em que as ciências europeias, ao perderem de vista o seu fundamento no Lebenswelt (mundo da vida), entraram em crise de sentido. A Krisis husserliana não é mera dificuldade ou obstáculo, mas o ponto de inflexão em que uma tradição é forçada a confrontar os seus próprios pressupostos esquecidos. O Convento de Wilhelmsbad funcionou, mutatis mutandis, como esse momento de desvelamento: expôs que a Estrita Observância repousava sobre fundamentos fabricados, obrigando a Maçonaria alemã a repensar-se desde as raízes, notadamente, porque J.J.C. BODE e todos que o acompanhavam foram voto vencido e a ideia vencedora foi a apresentada por J.B. Willermoz que introduziu o denominado Rito Escocês Rectificado na ocasião.
[2] A brevidade do Scientifischer Bund de Feßler explica-se menos por deficiências conceituais do que pelas vicissitudes biográficas do seu fundador. Em 1801, Feßler rompera com Fichte — que o acusara de jesuitismo disfarçado — em polémica pública que abalou a sua reputação nos círculos ilustrados berlinenses. Em 1802, no mesmo ano da fundação da Liga Científica, Feßler foi forçado a deixar a Grande Loja Royal York, da qual fora reformador e Grão-Mestre Adjunto, em meio a intrigas internas e resistências ao seu sistema ritual. Nos anos seguintes, a sua situação em Berlim tornou-se insustentável: acabou emigrando para a Rússia, onde encerrou a vida como superintendente luterano em Saratov (1839). O Scientifischer Bund perdeu, assim, o seu animador antes de se poder consolidar — destino comum a instituições que dependem excessivamente do carisma de um único homem.
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