O ecumenismo Maçónico
Maçonaria, organização ecuménica
A Maçonaria, embora tenha desenvolvido um sistema de linguagem para instrumentalizar a sua prática, não pode ser considerada uma crença nem uma religião. Não é uma crença porque não defende nem propaga um pressuposto filosófico ou artigos de fé, destinados a guiar pessoas nas suas vidas espirituais; é não é uma religião porque, na sua estratégia de culto, não pretende buscar um relacionamento entre os seus praticantes e uma divindade específica, mas sim, honrar, com os seus trabalhos e com os seus pensamentos o Princípio Único que origina, organiza e rege toda a realidade cósmica, Princípio este que a linguagem maçónica chama de Grande Arquitecto do Universo.
A Maçonaria não cultua um deus específico, com nome e identidade estabelecida por qualquer sistema linguístico desenvolvido por uma religião. Nomes são símbolos gráficos escolhidos para atender ao principio da identidade, isto é, para identificar os objectos e situá-los dentro de uma hierarquia sistémica, atribuindo-lhes função e finalidade. Isto é o que chamamos “Ordo ab Chaos”, ou seja, colocar ordem no caos, sem a qual o mundo seria uma completa anarquia, sem estrutura nem forma, longe de qualquer ideia que se pudesse fazer de um verdadeiro edifício.
Destarte, os maçons não reúnem nos seus templos para cultuar uma divindade, mas sim para trabalhar, com os seus pensamentos e acções, em prol de um Princípio de Organização mundial. E como nenhuma organização será virtuosa se os seus membros também não o forem, importa que, nos seus princípios de educação e conduta, também se veicule a necessidade de combater os vícios e exaltar a virtude.
Por isso a Maçonaria se define como uma organização ecuménica onde todas as crenças e religiões são respeitadas. Deus não é deus dos cristãos, dos muçulmanos, budistas, taoistas, hinduístas; e a sua representação correcta não é monopólio de católicos, evangélicos, ortodoxos, xiitas, sunitas, xintoístas ou qualquer outra estratégia doutrinária que grupos específicos tenham desenvolvido para figurar a divindade. Assim, o título Grande Arquitecto do Universo é um nome tão bom quanto Ormuzd, Alá, Jeová, Brahma, Ain-Sof, Verbo, ou qualquer outro que a linguagem humana lhe quiser dar. Ele é O Princípio e o Fim de todas as coisas. E nós talvez sejamos o seu Meio. Assim, quando entendermos de facto como tudo isso funciona, então não teremos mais tantas linguagens a confundir-nos, como no episódio da Torre de Babel. Não precisaremos mais de religiões, mas de uma única crença e uma única linguagem como estratégia para instrumentalizar a sua prática. Nesse dia a “Ordo ab Chaos” terá sido definitivamente realizada e o edifício que os Obreiros da Arte Real se propuseram a construir será, finalmente completado.
A linguagem maçónica
A linguagem maçónica recebeu influências de diversas fontes e arquétipos, as quais se estampam nos actos litúrgicos dos seus rituais e transparecem na iconografia dos seus templos. A sua estrutura fundamenta-se num conjunto de lendas, alegorias e pressupostos filosóficos, que dão ao conjunto do catecismo maçónico, ao mesmo tempo, uma aparência de confissão religiosa e organização sectária, mas essa, como se vê, é apenas uma aparência. Na verdade, toda a bizarra simbologia adoptada pela Maçonaria nada mais consiste do que um sistema de linguagem, no qual a prática maçónica se inspira para veicular a sua proposta de vida.
É neste sentido que definimos a Maçonaria como sendo uma ideia, uma prática e uma instituição. Ideia porque ela se fundamenta num arquétipo existente no inconsciente colectivo da humanidade desde que os primeiros agrupamentos humanos se organizaram. Este arquétipo é a ideia da união, da reunião de elementos “iguais” num grupo, para preservar as conquistas sociais. Prática, porque esse comportamento surgiu espontaneamente entre os grupamentos humanos e se disseminou por todos os povos da terra, dando origem, mais tarde, à instituições que se organizaram e se tornaram grandes pilares de sustentação das sociedades. Entre estas instituições podemos elencar as igrejas, as sociedades corporativas, as universidades, e a própria Maçonaria, como sociedade organizada.
É neste sentido que encontraremos em todos os seus templos, e no conjunto de actos litúrgicos que formam os seus ritos, bem como na estrutura do seu catecismo, uma profusão de temas, símbolos e fórmulas pertencentes a praticamente todas as instituições acima relacionadas.
Esta imagem pode ser visualizada no desenho da planta do templo e do quadro da Loja, onde os oficiais do culto e os artefactos que ornamentam o templo estão dispostos para a prática da liturgia que ali se desenvolve.
A ideia que está na base da Maçonaria é a da Irmandade, praticada entre pessoas de bons costumes e carácter íntegro. Por isso o Grau de Aprendiz é consagrado à Fraternidade, tendo como objectivo a união de toda a humanidade [1]. O templo maçónico tem a forma de um rectângulo, dividido em dois segmentos, que simbolizam o Oriente, onde se situa o Altar do Venerável Mestre, director da Loja e condutor dos trabalhos. Ali também se situam, pintados num painel, os ícones reverenciados pela Maçonaria, que são representações das primeiras manifestações da divindade no mundo da matéria, ou seja, o Sol e a Lua, símbolos da Luz com que o Grande Arquitecto do Universo ilumina o mundo de noite e de dia [2]. No tecto, a representação do céu maçónico, onde ponteiam várias estrelas cujos significados são encontrados nas tradições cultivadas por antigas civilizações [3].
Os artefactos e instrumentos encontrados dentro do templo maçónico são, na sua maioria, inspirados na profissão reverenciada pelos maçons. Esta profissão é a do pedreiro, origem da Maçonaria institucional, que tomou emprestado da organização dos pedreiros medievais, a sua estrutura e boa parte da sua liturgia ritual. Assim é que a maioria das jóias utilizadas pelos oficiais lembra a profissão de pedreiro: esquadros, compassos, régua, a corda de oitenta e um nós, com a qual os pedreiros medievais demarcavam os canteiros, martelos, trolhas, cinzéis, alavancas, e outros instrumentos, são denotativos dessa tradição. Outros símbolos, como estandartes, colunas, espadas e punhais, bandeiras, candelabros, mesas e altares, as vestimentas e as alfaias usadas pelos oficiais e membros da Loja, as figuras geométricas, são representações de ideias e fundamentos defendidos pela Maçonaria, assim como as cores de que são revestidas as paredes e o mobiliário do templo.
Tudo isto constitui um formidável sistema de linguagem que precisa de ser aprendido pelo iniciado.
O aprendiz Maçom, com os instrumentos de trabalho na mão, posto diante da pedra bruta, e com o seu avental de trabalho. Símbolo que significa o início de um trabalho de aprimoramento do seu carácter, simbolizado pela pedra bruta que ele vai começar a desbastar. Por isso se diz que a Maçonaria é uma ideia (o ideal de aprimoramento do carácter), uma prática (o trabalho do artesão, que transforma a pedra bruta em obra de arte) e uma instituição (a sociedade maçónica organizada) que permite esse resultado. Assim, a Maçonaria, embora organizada de forma sectária e corporativa, tem como primeiro objectivo, o aperfeiçoamento moral do indivíduo e a preservação da ideia fundamental que está base do desenvolvimento social: a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Imagens: Ritual do Grau de Aprendiz e arquivo do autor.
Notas
[1] Cf. dispõe o Ritual do Aprendiz, no Rito Escocês Antigo e Aceito. Esta ideia é fundamental em todos os ritos maçónicos.
[2] Cf. Génesis, 1:16.
[3] A abóboda celeste representada no templo maçónico reflecte uma visão do céu , conforme vista por antigas civilizações, tais como a egípcia e a mesopotâmica. Segundo tradições cultivadas por estes povos, estes eram o “centro” de onde se originava a luz. Por isso os templos egípcios eram orientados em direcção à estrela Spica, a estrela mais brilhante da constelação de Virgem, símbolo da deusa Ísis, a redentora.
