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O discurso de Ramsay, 1738 – Versão Impressa

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✍️ Desconhecido 📅 27/02/2024 👁️ 0 Leituras

Andrew Michael Ramsay

O discurso do Cavaleiro de Ramsay

O ardor nobre que vocês mostram, senhores, para entrar na mui nobre e mui ilustre Ordem dos Maçons é uma prova certa de que vocês já possuem todas as qualidades necessárias para se tornarem membros, ou seja: HUMANIDADE, MORAL PURA, O SEGREDO INVIOLÁVEL e o GOSTO PELAS BELAS ARTES.

Licurgo, Sólon, Numa e todos os legisladores políticos foram incapazes de tornar as suas instituições permanentes, e por mais sábias que fossem as suas leis, eles não foram capazes de se espalhar em todos os países e todas as eras. Como tinham em vista somente as vitórias e conquistas, a violência militar e a ascendência de um povo sobre outro, elas não podiam tornar-se universais, nem atender ao gosto, a engenharia e os interesses de todas as nações. A Filantropia não era a sua base. O amor à Pátria, mal entendido e levado ao extremo, muitas vezes, destruiu nessas repúblicas guerreiras, o amor e a humanidade em geral.

Os homens não de distinguem essencialmente pelas diferentes línguas que falam, as roupas que usam, os países que ocupam, ou as dignidades com que são investidos.

O MUNDO TODO NÃO PASSA DE UMA REPÚBLICA ONDE CADA NAÇÃO É UMA FAMÍLIA E CADA INDIVÍDUO UM FILHO. É para fazer reviver e espalhar estas máximas essenciais, emprestadas da natureza do homem que a nossa Sociedade foi inicialmente estabelecida.

Queremos reunir todos os homens de espirito esclarecido, maneiras gentis e humor agradável, não só pelo amor às belas artes, mas ainda mais pelos grandes princípios de virtude, ciência e religião, onde o interesse da Fraternidade se tornam aqueles de toda a raça humana, onde todas as nações podem recorrer a conhecimentos sólidos, e onde os habitantes de todos os reinos possam aprender a valorizar um ao outro, sem abrir mão da sua pátria.

Os nossos ancestrais, os Cruzados, reunidos de todas as partes da cristandade na Terra Santa, desejavam, assim, reunir numa única Fraternidade os indivíduos de todas as nações.

Quantas obrigações nós devemos a estes Homens Superiores, que sem interesse egoísta, sem sequer escutar o impulso natural de dominar, imaginaram uma instituição cujo único propósito é reunir mentes e corações para torná-los melhores e criar no decorrer do tempo, uma nação totalmente espiritual, onde sem derrogar os diferentes deveres que diferentes estados exigem, criarão um novo povo, que, composto de diferentes nações, consolidará todos eles de alguma forma pelo vínculo da Virtude e da Ciência.

O segundo requisito da nossa sociedade é uma Moral sã. As ordens religiosas foram estabelecidas para tornar os homens cristãos perfeitos; as Ordens militares, para inspirar o amor à verdadeira glória, e a Ordem dos maçons para transformar os homens em homens gentis, bons cidadãos, bons súbditos, invioláveis nas suas promessas, adoradores fiéis do Deus da Amizade, mais amantes da virtude do que de recompensa.

Polliciti servare fidem, sanctumque vereri, Numen amicitiae, mores, non munera amare.

No entanto, não nos limitamos às virtudes puramente civis. Temos entre nós três tipos de irmãos: os noviços ou Aprendizes, os Companheiros ou professos, os Mestres ou Irmãos Perfeitos. Explicam-se aos primeiros as virtudes morais, aos segundo as virtudes heróicas, e aos últimos as virtudes cristãs, de modo que toda a nossa instituição abrange toda a filosofia dos sentimentos e toda a teologia do Coração. É por isto que um dos nossos veneráveis Irmãos disse:

Maçons, Ilustre Grão-Mestre,
Recebam meus primeiros transportes
Em meu coração a Ordem os faz nascer;
Feliz! Se os nobres esforços
Fazem-me merecer a sua estima
E me elevam a este verdadeiro sublime
À primeira verdade,
À essência pura e divina
da origem divina da alma,
Fonte de vida e clareza.

Porque uma filosofia triste, selvagem e misantropa desgostava os homens virtuosos; os nossos antepassados, os Cruzados, quiseram torná-la agradável, de uma alegria pura e uma satisfação moderada. As nossas festas não são o que o mundo secular e o vulgar ignorante imaginam. Todos os vícios do coração e da alma são dali banidos, e temos uma proibição de irreligião e libertinagem; incredulidade e corrupção.  É neste espírito que um dos nossos poetas disse:

Seguimos hoje caminhos pouco percorridos,
Nós procuramos construir, e todos os nossos edifícios
Ou são masmorras aos vícios
Ou templos às virtudes.

Os nossos banquetes são semelhantes aos simpósios virtuosos de Horácio, onde se podia falar de qualquer coisa que pudesse iluminar a mente, regular o coração e inspirar o gosto pela bondade, verdade e beleza.

O noctes coenoeque Deum…
Sermo oritur, non de regnis domisbusve aliens
…sed quod magis ad nos
Pertinet et nescire matum est agitamus; utrume
Divitits homines, an sint virtuti beati;
Quitue ad amicitas usus rectumve trehat nos,
Et quae sit natura boni, summumque quid ejus.

Aqui o amor de todos os desejos se fortifica, Nós banimos das nossas lojas toda a disputa que possa alterar a tranquilidade do espírito, a doçura dos costumes, os sentimentos de amizade, e esta harmonia perfeita que não se encontra a não ser na eliminação de todos os excessos indecentes, e de todas as paixões discordantes.

Assim, obrigações que a ordem vos impõe são de proteger os seus irmãos com a sua autoridade, iluminá-los com as suas luzes, edificá-los com as suas virtudes, socorrê-los nas suas necessidades, sacrificar todo o ressentimento pessoal e procurar tudo o que possa contribuir para a paz e a união da Sociedade.

Nós temos segredos, são sinais figurativos e as palavras sagradas, compondo uma linguagem às vezes chamada muda, às vezes muito eloquente para se comunicar à distância e para reconhecer os nossos irmãos em qualquer de qualquer língua que eles sejam.  Essas eram palavras de guerra que os cruzados davam um ao outro para garantir as surpresas dos sarracenos, que se infiltravam entre eles para cortar as suas gargantas. Estes sinais e estas palavras recordam a lembrança de qualquer parte da nossa ciência, ou uma virtude moral ou algum mistério da fé. Aconteceu connosco o que nunca aconteceu com qualquer outra Sociedade.

As nossas lojas foram criadas e se espalharam por todas as nações civilizadas e, no entanto, mesmo entre uma numerosa multidão de homens, jamais algum irmão traiu os nossos segredos. Aquelas naturezas mais triviais, mais indiscretas, os menos educados no silêncio, aprendem a ficar quietas, aprendem esta grande ciência ao entrar na nossa Sociedade. Tamanho é o poder da ideia de união fraterna sobre os espíritos!  Este segredo inviolável contribui poderosamente para unir os súbditos de todas as Nações e fazer a comunicação de benefícios fácil e mútua entre nós. Temos vários exemplos nos anais da nossa Ordem.

Os nossos irmãos que viajaram a diferentes países tiveram apenas que se fazerem conhecidos nas nossas Lojas para ali receberem todo tipo de ajuda, mesmo em tempo das mais sangrentas guerras e presos ilustres encontraram irmãos, onde esperavam encontrar inimigos. Se alguém faltasse com as promessas solenes que nos unem, vocês sabem, senhores, que as sanções que impomos são o remorso de consciência, a vergonha da sua perfídia e a exclusão da nossa sociedade, de acordo com estas belas palavras de Horácio:

Est et fideli tuta silentio
Merces; vestabo qui Cereris sacrum
Vulgaris arcanum sub lisdem
Sit trabibus, fragilemque mecum
Solvat phaselum…

Sim, senhores, os famosos festivais de Ceres em Elêusis, de Ísis no Egipto, de Minerva em Atenas, de Urania entre os fenícios e de Diana na Cítia tinham relações com os nossos. Nestes lugares, mistérios eram celebrados, onde havia muitos vestígios da antiga religião de Noé e dos Patriarcas. Eles terminavam com refeições e libações e não conhecemos nem a intemperança, nem os excessos em que os gentios gradualmente caíram. A fonte dessas infâmias foi a admissão às assembleias nocturnas de pessoas de ambos os sexos, contra os usos primitivos. É para evitar esses abusos que as mulheres estão excluídas da nossa Ordem. Nós não somos tão injustos ao ponto de considerar o sexo frágil como incapaz de sigilo, mas a sua presença poderia alterar imperceptivelmente a pureza das nossas máximas e da nossa moral.

Se o sexo é banido, que não seja isso ponto para alarmes,
Isto não um ultraje à sua fidelidade;
Mas tememos que o amor entrando com os seus charmes
Não produza o esquecimento da fraternidade.
Nomes de irmãos e de amigos seriam as fracas armas
Para garantir os corações contra a rivalidade.

A quarta qualidade necessária na nossa Ordem é o gosto pelas Ciências e Artes Liberais. Assim, a Ordem exige que cada um de vocês contribua com a sua protecção, pela sua generosidade ou o seu trabalho, para uma vasta obra para a qual nenhuma Academia pode ser suficiente, porque todas estas Sociedades são compostas por um número muito pequeno de homens e o seu trabalho não pode abraçar um objecto tão amplo.

Todos os Grandes Mestres na Alemanha, Inglaterra, Itália e em outros lugares apelam a todos os Sábios e todos os artesãos da Fraternidade que se unam para fornecer os materiais para um Dicionário Universal das Artes Liberais e Ciências úteis, com excepção somente da Teologia e Política. Já começamos a trabalhar a obra em Londres e através da união dos nossos irmãos, poderemos concluí-la em poucos anos. Ali são explicados não só os termos técnicos e a sua etimologia, mas ainda oferece a história de cada ciência e cada arte, os seus princípios e a maneira de os trabalhar. Por meio dela serão reunidas as luzes de todas as nações num único trabalho que será uma biblioteca universal de tudo o que é belo, grande, luminoso, sólido e útil em todas as ciências e em todas as artes nobre. Esta obra aumentará a cada século, de acordo com o aumento do conhecimento, e ela difundirá por todos os lados a emulação e o gosto pelas coisas belas e úteis por toda a Europa.

O nome de Maçom não deve, assim, ser tomado no sentido literal grosseiro e material, como se os nossos fundadores tivessem sido trabalhadores comuns em pedra ou génios meramente curiosos que desejavam aperfeiçoar as artes. Eles eram arquitectos qualificados que queriam dedicar os seus talentos e os seus bens à construção de templos exteriores, mas também de princípios religiosos e guerreiros que queriam esclarecer, edificar e proteger os templos vivos do Altíssimo, que é o que eu lhes vou mostrar desenvolvendo a história, ou melhor, a RENOVAÇÃO da ordem.

Cada família, cada república, cada império, cuja origem se perde na antiguidade obscura tem a sua fábula e a sua verdade e a sua história. Alguns fazem a nossa instituição remontar até os dias de Salomão, alguns até NOÉ, e mesmo até Enoque e que construiu a primeira cidade, ou até ADÃO.

Sem pretender negar essas origens, eu passo a coisas menos antigas. Aqui está o que eu recolhi nos anais antigos da Grã-Bretanha, nos Actos do Parlamento britânico, que falam muitas vezes dos nossos privilégios e na tradição viva da nação Inglesa que era o centro da nossa Fraternidade desde o século XI.

No tempo das Cruzadas na Palestina, muitos príncipes, senhores e cidadãos se associaram e prometeram restaurar o templo dos cristãos na Terra Santa e se empregar para fazer retornar a sua arquitectura à primeira instituição; Eles concordaram sobre vários antigos sinais e palavras simbólicas extraídas do fundo da religião, para reconhecer uns aos outros entre os infiéis e os sarracenos. Comunicavam-se esses sinais e palavras apenas a aqueles que prometiam solenemente, e muitas vezes até mesmo diante do altar, nunca os revelar. Esta promessa sagrada não era, portanto, um juramento execrável, como tem sido chamado, mas um laço respeitável para unir os cristãos de todas as nacionalidades numa mesma Fraternidade. Algum tempo depois, a nossa Ordem formou uma união íntima com os Cavaleiros de São João de Jerusalém. A partir daquele momento, as nossas Lojas assumiram o nome de Lojas de São João. Esta união se fez de acordo com o exemplo dos israelitas quando eles ergueram o segundo templo. Enquanto lidavam com a trolha e a argamassa com uma mão, na outra eles tinham a espada e o escudo. A nossa Ordem, portanto, não deve ser considerada uma renovação das Bacanais, mas uma ordem moral, fundada em tempos imemoriais, e renovada na Terra Santa pelos nossos antepassados, para lembrar a memória das mais sublimes verdades em meio aos prazeres da Sociedade.

Os Reis, príncipes e senhores, voltando da Palestina, fundaram várias lojas nos seus Estados. Desde o tempo das últimas Cruzadas, já vimos várias Lojas erguidas na Alemanha, na Itália, na Espanha e na França, e daí para a Escócia, devido à estreita aliança entre escoceses e franceses. James, Lord Steward da Escócia foi Grão-Mestre de uma Loja estabelecida em Kilwin no oeste da Escócia, no ano 1274 pouco depois da morte de Alexandre III, rei da Escócia, e um ano antes de John Baliol ter subido ao trono. Este senhor recebeu os maçons na sua Loja, os condes de Gloucester e Ulster, um Inglês e o outro irlandês.

Pouco a pouco, as nossas lojas e as nossas solenidades foram negligenciados na maioria dos lugares. Por isso é que assim muitos historiadores, os da Grã-Bretanha, são os únicos que falam da nossa ordem. No entanto, ela se manteve no seu esplendor entre os escoceses, a quem os reis (da França) confiaram durante muitos séculos, a guarda das suas pessoas sagradas.

Após os deploráveis acontecimentos das Cruzadas, o perecimento dos exércitos cristãos e o triunfo do Bendocdar, sultão do Egipto, durante a oitava e última Cruzada, o Grande Príncipe Edward, filho de Henrique III, rei da Inglaterra, vendo que não havia mais segurança para os seus irmão na Terra Santa, de onde as tropas cristãs estava se retirando, os trouxe de volta, todos, e essa colónia de irmãos foi estabelecida na Inglaterra. Como este príncipe tinha todas as qualidade heróicas, ele amava as belas artes, declarou-se protector da nossa Ordem, concedendo-lhe novos privilégios e, em seguida, os membros desta fraternidade assumiram o nome de maçons-livres, a exemplo dos seus antepassados. Desde aquela época, a Grã-Bretanha foi a sede da nossa Ordem, a conservadora das nossas leis e depositária dos nossos Segredos. As fatais discórdias de Religião que envergonharam e rasgaram a Europa no século XVI, fizeram degenerar a Ordem da Nobreza da sua origem. Mudaram-se, disfarçaram-se, suprimiram-se muitos dos nossos ritos e costumes que eram contrárias aos preconceitos da época.

É assim que muitos dos nossos irmãos esqueceram, como os antigos judeus, o espírito das nossas leis, e somente retiveram a letra e a casca. Começa-se a trazer para ela alguns remédios. É necessário apenas continuar e finalmente traze-la de volta à sua instituição de origem. Esta obre não pode ser difícil num estado onde a religião e o Governo só pode ser favorável às nossas leis. Das Ilhas Britânicas, a Arte Real está passando à França sob o reinado do mais amável dos Reis cuja humanidade anima todas as virtudes e sob o Ministério de um Mentor, que fez tudo o que poderia ser imaginado de mais fabuloso.

Nestes tempos felizes onde o amor da paz tornou-se a virtude dos heróis, a Nação, uma das mais espirituais da Europa, se tornará o centro da Ordem. Ela revestirá as nossas obras, os nossos Estatutos, os nossos costumes, com graça, delicadeza e bom gosto, qualidades essenciais numa ordem cuja base é a sabedoria, a força e a BELEZA do GÉNIO. É no futuro nas nossas lojas, assim como era nas escolas públicas, que os franceses aprenderão sem viajar, o carácter de todas as nações e que os estrangeiros experimentarão que a França é a pátria de todos os povos: “Patria gentis Humanae”.

Tradução de José Filardo

Fonte

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