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O Bode Emissário “Azazel”

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✍️ Desconhecido 📅 23/01/2026 👁️ 0 Leituras
azazel
Azazel

A purificação do santuário terrestre requeria dois bodes – o bode do Senhor e o bode emissário (“azazel“, em hebraico). Ao sacrificar o bode do Senhor, o sumo sacerdote efectuava a expiação pelo santuário (no lugar santíssimo), pela tenda da congregação (o lugar santo), e pelo altar (o pátio). (Levítico 16:20; cf. Levítico 16:16-18). A tradução “bode emissário”, do hebraico “azazel“, provém da Vulgata, com a expressão “caper emissarius“, “bode a ser mandado embora” (Levítico 16:8).

A explicação sobre o “Bode” na Maçonaria é detalhada por José Castellani na sua obra clássica “O Cavaleiro do Oriente”. Neste livro, Castellani — que foi um dos maiores historiadores e pesquisadores da Maçonaria — dedica capítulos ou seções para desmistificar símbolos e lendas urbanas, explicando que a figura do bode não possui nenhuma relação ritualística real com a Ordem, sendo, na verdade, uma herança de perseguições religiosas e trocadilhos linguísticos (como por exemplo, a confusão com a palavra “Baphomet” ou o termo “Goat”). Também de sua autoria, trata o Ir. Castellani sobre o assunto em “Origens do Misticismo Maçónico”.

Porquê o bode?

Castellani explica que a lenda surgiu principalmente por três motivos:

  1. Antimaçonaria: Ataques da Igreja e de detractores no século XIX (como Léo Taxil).
  2. Baphomet: A confusão feita por leigos entre os símbolos templários e a Maçonaria.
  3. Bode Expiatório: A ideia simbólica de que o iniciado deve deixar os seus vícios para trás.

A figura do bode remonta às antigas civilizações mesopotâmicas (símbolo de fertilidade e de vida, os arqueólogos encontraram várias estatuetas em sepulturas), depois por práticas judaicas (séc. XIII a.C.) e Grécia Arcaica, especificamente por volta do século VI a.C., quando se verificou uma proliferação das chamadas religiões de mistérios, de carácter iniciático.

Dentre elas, uma teve enorme difusão: o culto de Dionísio, que passou a ser o núcleo da religiosidade órfica. Dionísio está ligado a ritos agrários. Neste sentido é que, como práticas catárticas, incluíam-se ritos de purificação pessoal e da comunidade (pólis).

No Dia da Expiação, no judaísmo antigo, o sumo sacerdote purificava o santuário mediante o sangue expiatório do bode do Senhor. Somente depois que a expiação se achava completa é que o ritual envolvia Azazel. Colocando as mãos sobre a cabeça desse bode, o sumo sacerdote pronunciava sobre ele “todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados” (Levítico 16:21). Depois, o bode era enviado para o deserto, para a “terra solitária” (Levítico 16:22).

José Castellani e Nicola Aslan discutem sobre o tema “bode”, em que poderíamos dividir em três eixos que se conectam à Maçonaria:

1. A Herança do Culto de Dionísio (Tragédia)

Dionísio (o Baco romano) está no centro dessa evolução. A palavra “Tragédia” vem do grego tragoedia (tragos = bode + oide = canto).

  • Nos ritos órficos e dionisíacos, o bode era o animal sacrificado ou o símbolo dos sátiros que acompanhavam o deus.
  • Conexão Maçónica: Castellani argumenta que a Maçonaria, sendo uma escola de mistérios moderna, herdou o estigma de “rito secreto” que as religiões de mistério gregas possuíam. O que era um rito de fertilidade e purificação (catarse) foi reinterpretado pela Igreja Medieval como algo demoníaco.

2. O Bode Expiatório (Levítico 16)

Na prática judaica há o conceito do Azazel. No Dia da Expiação (Yom Kippur), um bode carregava simbolicamente os pecados do povo para o deserto.

  • A lógica: O bode “limpava” a comunidade dos pecados.
  • Na Maçonaria: Existe uma interpretação simbólica de que o candidato, ao entrar (ser aceito e admitido) na Ordem, deve “abandonar os seus vícios”. Detractores transformaram essa purificação moral na lenda de que o Maçom “monta no bode”, ou “bebe o seu sangue”, travando ali um “pacto demoníaco”, ou como se estivesse dominando um símbolo do mal ou do pecado.

3. A Fusão com a função litúrgica de alguns Oficiais Maçónicos na Iniciação

Castellani faz uma observação técnica interessante: na Inglaterra do século XVIII, o oficial encarregado de conduzir o candidato, (o Irmão Terrível, Diáconos, ou Mestre de Cerimónias, dependendo do rito praticado), era às vezes chamado de forma jocosa por outros maçons, e também por não-maçons, de “bode”.

  • A confusão entre o Baphomet (atribuído aos Templários) e o animal das religiões agrárias criou a “tempestade perfeita” para o folclore do “Bode Maçom”.

A origem antropológica do símbolo e o e o que Castellani defende é mostrar que a Ordem nunca adoptou o animal nos seus rituais, mas acabou “herdando” o estigma de um símbolo que, na Mesopotâmia e na Grécia, representava a própria força da vida e da renovação, como também do próprio sigilo, discrição, circunspecção e também jocosidade.

Ainda, em artigo de Alexandre L. Fortes, sobre a temática do “bode”, Os simbolismos dos animais com chifres em bestiários ingleses, há trechos que explicariam alguns dos significados do termo “bode” atribuídos ao Maçom e/ou à Maçonaria, tratando do “significado”, variabilidade ou transformação de acepções inclusive dos termos “bode” x “cordeiro”.

Algumas simbologias atribuídas ao bode

  • Símbolo do fiel iniciado;
  • Símbolo cristão;
  • Símbolo anticristão;
  • Símbolo ambíguo e relacionado ao Juízo Final;
  • Símbolo de Sacrifício;
  • O símbolo da Cornucópia (Jóia do Mestre de Banquetes) na Maçonaria;
  • Emblema de Iniciação e Evolução do Espírito;
  • Símbolo de Visão Superior do bode, como um animal com sentido de visão aguçada;
  • Simbolismo do “conhecer à distância”;
  • O Enxergar ao longe, Elevação, Sublimidade Espiritual
  • Símbolo de Fertilidade na Antiguidade;
  • Expiação de pecados;
  • Guardião de sigilos;
  • Símbolo do que há de Negativo;
  • Poder maléfico;
  • Símbolo de Prefiguração de Sacrifício para uma Nova Vida.

Conclusão

A figura do “Bode na Maçonaria” é uma construção híbrida, que transita entre o mito antropológico, a teologia bíblica e a fraude histórica, muitas vezes convergida e assumida por muitos maçons como algo jocoso, ou por não-maçons (profanos) como algo maligno e de cunho detractor, sendo esta última concepção derivada de mera ignorância, desconhecimento ou superstição. Daí, poder-se inferir que:

  1. Inexistência em Ritual Maçónico: Conforme demonstram historiadores como José Castellani e Nicola Aslan, o bode não possui lugar nos rituais oficiais da Maçonaria. A sua presença no imaginário popular é fruto de ataques antimaçónicos do século XIX (como a Fraude de Taxil) e de brincadeiras jocosas sobre a condução do candidato durante a iniciação.
  2. Transmutação do Símbolo: O símbolo do bode é inerentemente ambíguo. Enquanto no Judaísmo (Levítico 16) ele assume o papel de “expiador” (Azazel) para a purificação da comunidade, e na Grécia liga-se à fertilidade e à tragédia dionisíaca e que na Idade Média ele foi demonizado. Esta carga negativa foi erroneamente transferida à Maçonaria por detractores que confundiram a busca pela “Luz” com ritos sombrios.
  3. Riqueza Arquetípica: A pesquisa de Marcelo Cardoso Amato e Alexandre L. Fortes amplia a compreensão do tema ao mostrar que, para além da lenda, o bode carrega atributos de visão aguçada e elevação espiritual. Na Maçonaria, essa “visão superior” e o “conhecer à distância” alinham-se simbolicamente ao processo de evolução do espírito, aprimoramento das virtudes e ao abandono dos vícios, assemelhando-se à purificação catártica das antigas escolas de mistérios.

O “Bode Maçom” é um folclore resultante de perseguições religiosas e trocadilhos linguísticos, mas que, sob uma lente académica e iniciática, permite resgatar lições profundas sobre sacrifício, renovação, discrição, circunspecção, e a busca incessante pelo desbaste da P.B. ou sublimidade espiritual.

Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI

Referências Bibliográficas

  • AMATO, Marcelo Cardoso. Os simbolismos dos animais com chifres em bestiários ingleses. 2018. Dissertação (Mestrado em História Medieval) – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2018.
  • ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1974.
  • CASTELLANI, José. O Cavaleiro do Oriente. São Paulo: Editora A Gazeta Maçônica, 1994.
  • CASTELLANI, José. Origens do Misticismo na Maçonaria. São Paulo: Traço Editora, 1982.
  • https://www.freemason.pt/os-simbolismos-dos-animais-com-chifres-em-bestiarios-ingleses/
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Fraude_de_Taxil
  • LEVÍTICO 16. Bíblia.

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