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O Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz

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✍️ Desconhecido 📅 15/06/2025 👁️ 0 Leituras
O Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz
O Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz

Resumo

O presente artigo examina a sociedade secreta o Apostolado ou a Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, activa no período entre 1822 e 1823, contextualizada no conturbado período da proclamação de Independência do Brasil, em 1822. Com base em pesquisas historiográficas, foi possível identificar a sua fundação, organização, acções e membros nesse período. Dentre os seus membros, foquei em três: José Bonifácio de Andrada e Silva, fundador e idealizador, Dom Pedro I, líder máximo dessa sociedade e Joaquim Gonçalves Ledo, grande opositor dos ideais de Bonifácio. O Apostolado buscava pavimentar a independência pela via monárquica e a manutenção de Dom Pedro I como líder da nação e a rejeição por completo das ideias republicanas. Embora o Apostolado seja uma organização distinta da Maçonaria, na prática reproduzia essa instituição na sua estrutura e hierarquia, bem como da adopção de pseudónimos, juramentos, sinais, toque e palavras para reconhecimento dos seus camaradas, além de compartilhar os seus membros e dirigentes.

Introdução

Conhecer o nosso passado comum e, principalmente, a nossa história, por si só é uma obrigação quanto ao ser cidadão; o é ainda maior para o Maçom. A construção e pavimentação das vias percorridas por muitos antes de nós, segue, como toda a história, um caminho pouco rectilíneo no que concerne à sucessão de factos e eventos que culminam nas decisões que criam marcos e/ou balizadores históricos.

A participação de membros, da então, Proto-Maçonaria Brasileira, em especial os do Grande Oriente do Brasil (GOB), em vários desses marcos históricos é, ou ao menos deveria ser, de amplo conhecimento tanto para os não iniciados quanto para os já iniciando nessa Ordem, por inúmeras vezes as histórias pessoais desses Maçons se confundem; ou melhor, se misturam a construção da nação brasileira.

Entre tantos personagens que permearam a nossa história, destaco: Dom Pedro I, Joaquim Gonçalves Ledo e José Bonifácio de Andrada e Silva, ambos Maçons e Apostolados [1] e membros iniciados no Apostolado (1822-1823), ou a Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, que foi uma sociedade secreta, genuinamente, brasileira que teve uma vida efémera; porém, muito movimentada.

Contextualização

Como exercício de contemporaneidade e melhor contextualização da vida do Apostolado, escopo desta pesquisa, seguem alguns marcos e balizadores históricos que influenciaram, directamente ou indirectamente, os protagonistas dessa sociedade:

Revolução Americana (Independência Americana), 1776; Revolução Francesa, 1789; Fuga de Dom João VI, 1807 (Novembro) saída de Portugal – 1808 (Janeiro) chegada ao Brasil; Criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, 1815; Criação da Santa Aliança, 1815; Dom João VI proíbe as sociedades secretas no Brasil, 1818; Revolução do Porto, 1820; Dom João VI nomeia Dom Pedro I como regente do Brasil e retorna para Portugal, 1821; 1822…

Independência!

…existe uma causa! A independência do Brasil! Isso é consenso, mas o caminho a seguir se divide nesse marco; ir pela República ou Monarquia? Estas vias ou vertentes têm os seus expoentes, de um lado, Joaquim Gonçalves Ledo, então com 40 anos, que defende a via republicana; do outro, José Bonifácio de Andrada e Silva, com 58 anos, que defende a via monárquica e ao centro desses, temos Dom Pedro I, que está com 23 anos, que compreende a necessidade da independência, mas com os “…olhos fitos na coroa portuguesa, que, mais dia menos dia, lhe viria às mãos, não se dispunha a agir contra os seus conterrâneos…” [2] pois com a morte do seu pai, Dom João VI, torna-o sucessor directo ao trono de Portugal.

Com a crescente efervescência constitucionalista na sociedade brasileira, que encontra reverberação ou mesmo amplificação dentro das Lojas Maçónicas, o clamor, desses, que desejam redigir o seu próprio futuro e abandonar de vez a tutela e a passiva obediência do passado, seguem gerando conflitos; por exemplo, dentro da Maçonaria, usualmente temos a tendência de acreditar que os conflitos internos dentro das sociedades secretas, em especial na Maçonaria, sejam frutos exclusivos do nosso tempo, que no “passado” os membros, dessa sociedade e de outras, estão, em todos os assuntos, sempre em uníssonos e coesos e que seria essa a realidade vivida, porém, com um olhar menos ufanista percebemos que este sentimento de “exclusividade”, nos conflitos, não é real e podemos até concluir que ao invés da excepção essa seja a regra. Entretanto, no passado, esses conflitos poderiam ser, e realmente o foram, mais mortais do que os de hoje; porém, com as mesmas paixões e diversas correntes que ocorrem nos dias actuais.

Dentro desta volatilidade, Dom Pedro I (24 anos) escreve ao seu pai Dom João VI em 19 de Junho de 1822: “…Eu ainda me lembro, e me lembrarei sempre do que Vossa Majestade me disse, antes de partir dois dias, no seu quarto (Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás des respeitar do que para algum desses aventureiros…) [3]. Dom Pedro I segue dentro desse conselho e aduz que se a independência é inevitável, então, que ele a conduza.

A disputa passional e cada vez mais frequente entre os grupos republicanos e monárquicos dão ao grupo partidário dos ideais de Bonifácio, força para a fundação do Apostolado.

Fundação da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz

A fim de controlar, vigiar e conduzir os outros protagonistas e desdobramentos da então inevitável Independência do Brasil, Dom Pedro I se insere em duas sociedades secretas, o Apostolado e a Maçonaria e, em ambas, se torna o líder máximo. Sobre a Maçonaria existe uma ascendência maior dos ideais de Gonçalves Ledo; já no Apostolado, a predominância está mais próxima de Bonifácio.

O Apostolado é uma ordem de cavalaria, daí o seu título de: “A Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz”. Em rápida análise, podemos depurar esse título com a ideia de membros da nobreza que se congregam na forma de uma campanha militar/religiosa (Ex. Cruzada – Cavaleiros Templários) da Terra de Santa Cruz (do Brasil), a:

…Ilha de Vera Cruz foi o primeiro nome dado ao Brasil. Isso porque a expedição de Pedro Álvares Cabral carregava lascas do que se supunha ser a verdadeira (vera) cruz em que Cristo fora crucificado… Os comandantes das grandes embarcações sempre tinham restos da cruz… Por causa disso, muitas das terras descobertas naquela época eram baptizadas de Vera Cruz ou Santa Cruz, alusão às réplicas abençoadas, mas não verdadeiras, da cruz que as embarcações menores levavam. Com a visita de naus menores, em 1504, a ilha de Vera Cruz passou a ser chamada de Terra de Santa Cruz…” [4]

A fundação do Apostolado ocorre em 2 de Junho de 1822. A data não ficou a cargo do destino, foi escolhida por ser um dia antes da convocação, de Dom Pedro e redigida por Bonifácio, para a Assembleia Constituinte [5] que iria redigir uma Constituição para o Reino do Brasil antes da declaração da Independência (sendo essa considerada uma das vitórias dos partidários da via republicana liderada por Ledo). O Apostolado se reunia, a princípio, nas salas do Quartel-General do Comando das Armas – Rua da Guarda Velha [6] – actual Avenida 13 de Maio no Rio de Janeiro, onde assinaram a acta de fundação e firmaram o juramento treze associados [7]; destes, os quatro primeiros são: Dom Pedro de Alcântara, José Bonifácio de Andrada e Silva, (Luís Pereira da) Nóbrega (Sousa Coutinho) e Joaquim Gonçalves Ledo [8].

Iniciação no Apostolado

Para iniciar no Apostolado o paisano, denominação do não iniciado, o seu nome era proposto numa palestra. Deveriam informar umas as outras das suas aprovações e rejeições a fim de evitar que um mesmo paisano fosse proposto ou rejeitado em mais de uma palestra. Após o processo de escrutínio e com a aprovação, o paisano era iniciado no grau de “recruta” e prestava o seguinte juramento [9]:

Juro aos Santos Evangelhos guardar escrupulosamente o segredo do meu grau, não comunicando à pessoa alguma paisana qualquer coisa, que na qualidade de Recruta me for confiada, nem tão pouco instruir alguém do sinal, senha e contra-senha correspondente. Juro obediência aos meus superiores na Ordem. Juro finalmente promover com todas as minhas forças, e à custa da minha vida, e fazenda a Integridade, Independência, e Felicidade do Brasil como Império Constitucional, opondo-me tanto ao Despotismo que o altera, como a Anarquia que dissolve. Assim Deus me ajude [10].

O juramento, processo sempre cercado de muita solenidade e esse sempre igual ao grau do compromisso assumido, demonstra os ideais da sociedade que o recruta recém-iniciado deverá se incutir, como “idealizador” do Apostolado. José Bonifácio, provavelmente, trabalhou e/ou coordenou a redacção desse juramento. Cabe lembrar, que ele viu de perto as acções e resultados da Revolução Francesa nos anos em que estudou e morou na Europa. Bonifácio está decidido pela constância/vitalidade dos cargos e a sua sensação de segurança/continuidade que esta traz a nação em longo prazo, diferentemente de Ledo que batalha pela temporalidade dos cargos e fim da hereditariedade desses. Esta dicotomia entre os dois (Ledo/Bonifácio) resume bem os sentimentos da época.

Reconhecer um Camarada

O agora recruta tomava conhecimento dos sinais, toques e palavras para reconhecimento dos camaradas [11] (membros) da Ordem, bem como da sua estrutura organizacional e hierarquia. Conforme os registros das actas [12] a adopção de um pseudónimo, ou nome histórico, era uma prática adoptada entre os membros dessa sociedade. “Embora distinto da maçonaria, o Apostolado parodiou-lhe o arcabouço, a liturgia, o juramento, o fraseado, os graus e os toques e sinais” [13].

Dentre os sinais de identificações os camaradas assinavam as suas iniciais e/ou pseudónimos precedidos de pontos em forma de quincôncio [14] e traziam por distintivo um laço amarelo [15].

Organização

O sistema de Graus, hierarquia que os membros possuíam, consistia basicamente em: 1º – Recruta; 2º – Escudeiro e 3º – Cavaleiro. A estrutura organizacional era divida em: Apostolado poder central (composto pelos membros mais importantes em número de doze, que tinham por função dirigir as acções da Ordem e legislar sobre o funcionamento das palestras) [16], Palestra (Similar a uma Loja Maçónica) e Decúria [17], menor unidade dentro da sociedade.  Já os cargos administrativos se dividiam em: Arconte [18] -Rei – Líder máximo (Rómulo – Dom Pedro I), Cônsul / Lugar Tenente (Tibiriçá – José Bonifácio). Na Palestra a administração era formada por um Caudel (presidente), um Inspector, um Secretário, um Síndico e um Tesoureiro. Em Fevereiro de 1823 a Palestra existente se dividiu em três: 1ª – Independência ou Morte que se reunia entre os dias 01 e 10 de cada mês; 2ª – União e Tranquilidade (homónima a uma Loja fluminense do Grande Oriente do Brasil) entre os dias 11 e 20 de cada mês; 3ª -Firmeza e Lealdade entre os dias 21 e 30 de cada mês [19].

Para efectivas realizações dos ideais, bem como defender e ajudar a propagar as ideias dessa sociedade, estabeleceu-se a obrigação pecuniária de 640 réis mensais, (hipotética conversão teríamos o valor de R$78,72) [20], para cada membro.

Ordens, acções e estudos

Destaca-se entre algumas ordens expedidas pelos Apostolados, a de Janeiro de 1823 direccionada às Palestras que exigiam dos seus camaradas examinassem escrupulosamente a possibilidade de que indivíduos estivessem se reunindo em sociedades que se julgam carbonárias, onde emitiam ideias subversivas e destruidoras da ordem [21].

Na Palestra Independência ou Morte a ordem era fiscalizar a entrada e saída de passageiros do porto do Rio de Janeiro. Era a acção adoptada para combater os suspeitos de serem os inimigos da independência e/ou carbonários.

O próprio Arconte-Rei Rómulo (Dom Pedro I), em Abril de 1823, propõe que os camaradas deveriam assistir às sessões da Assembleia Constituinte para observarem os que se mostram pouco afectos à causa da Independência do Brasil, e às de liberdade dos Deputados, e darem parte na Palestra a fim de darem-se providencias que parecessem justas [22].

No campo dos estudos e pesquisas o Apostolado criou uma comissão para a redacção de um projecto de constituição para o Brasil. O relator desse projecto era o camarada Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e Silva (Falkland), sendo os demais membros: José Bonifácio de Andrada e Silva (Tibiriçá), Martin Francisco Ribeiro de Andrada (Guatimozim), Antônio Telles da Silva (Caramuru), Barão de Santo Amaro (Leo), Caetano Pinto de Miranda Montenegro (Aristides), J.J.C.C (Aristóteles), B.G.G. (Briareu) e Frei Francisco Sampaio (Claudiano) [23].

Outros Camaradas e fim da sociedade

Entre os camaradas identificados, além dos já mencionados anteriormente, temos:

“…o desembargador intendente da policia José Inácio da Cunha, “Nicêo”, depois ministro e Visconde de Alcântara; o desembargador Francisco da França Miranda, “Catão”, que presidiria a devassa contra os liberais (a “bonifácia”); o desembargador Estevão Ribeiro de Resende, “Santa Ana”, devotado ao regente e ajudante do intendente da polícia, mais tarde ministro e marquês de Valença; o cónego Belchior Pinheiro de Oliveira, “Regulo”, ex-democrata, primo dos Andradas; Miguel Nunes Vidigal, “Miguel”, o atrabiliário major Vidigal, comandante da Guarda Real da Polícia; e Fernando Carneiro Leão, “Brasileiro”, o mais rico e influente dos comerciantes do Rio e sem dúvida do Brasil, adiante condecorado com diversas ordens e os títulos de visconde e conde da Vila Nova São José…” [24]

A relação de membros poderosos e influentes na Corte e província do Rio de Janeiro, capital do Império Brasileiro, demonstra a força e centro político que a Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz possuía, mas mesmo com todos os esforços dos camaradas em prol de Dom Pedro e da monarquia o Apostolado, a exemplo da Maçonaria, também seria dissolvida por seu líder máximo o Arconte-Rei Rómulo (Dom Pedro I). Esta acabou sendo vítima de uma das suas principais tácticas, a denúncia por carta, em que informava da conspiração em andamento contra Dom Pedro I sob a liderança dos Andradas e os seus camaradas no Apostolado. Cabe lembrar, que Dom Pedro já estava enfurecido com a constituição proposta que lhe retirava poderes e estava ainda convalescente da queda que lhe fracturou uma costela. O sentimento explode com a denúncia e com o seu ímpeto vai directo à sede do Apostolado acompanhado de 50 soldados, interrompe os trabalhos, vai ao presidente da reunião, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva que num momento de consternação tenta guardar num cofre próximo, documentos que comprovariam a denúncia. Dom Pedro rapidamente o impede e toma posse dos documentos, o cofre, e, a seguir, se dirige aos camaradas e informa que deveriam todos se retirar e ficar cientes de que não haveria mais reuniões sem a sua autorização.

Um fim muito mais alegórico

Esta descrição serve como explicação e descrição, próxima do que ocorreu, mas muito melhor do que esta é a alegoria de Viriato Corrêa [25].

Plácido Antonio Pereira de Abreu entregou a carta ao Imperador, contou a cena que o fazia tremer ainda. Vinha entrando no portão principal da Quinta quando um desconhecido lhe passara um involucro a ele dirigido; abrindo-o, encontrara aquela carta dirigida a sua Majestade e um bilhete exigindo, sob pena de morte, que fizesse entrega, em mão, de tal missiva misteriosa.

Era na manhã de 1 de Julho de 1823, no palácio imperial de S. Cristóvão, Pedro I, no seu quarto, moído de sangrias e ataduras, por aquele tremendo e celebre tombo de quinze dias antes, em que quebrara uma costela e machucara outras, rasgou afoitamente o envelope. Estava a carta em alemão. E, como a Imperatriz estivesse ao seu lado, ordenou a Plácido que se retirasse e estendeu o papel à esposa. Dona Maria Leopoldina empalideceu.

– Que é? Perguntou ele.

Uma denúncia anónima contra o Apostolado de José Bonifácio. Dizia a missiva que, na associação secreta do primeiro-ministro, se conspirava para refrear os excessos de poder do Imperador. A conspiração devia estalar naquele dia, se Sua Majestade comparecesse à sessão.

Uma ruga vincou a testa do monarca.

Estavam, de meses atrás, turvados os horizontes da política. Sentia-se no ar o prenúncio de tempestades fuzilantes, adivinhava-se, em tudo, que o prestígio dos Andradas desabava.

Dona Leopoldina, boa amiga de José Bonifácio, arriscou:

– Isto é intriga, isto é mentira.

– Pode ser que não, pode ser que não, repetiu D. Pedro, pensativamente.

– Pode ser, pode ser, repetiu d. Pedro a dona Leopoldina; os Andradas andam a fazer-me pirraças.

E guardou a carta. Doíam-lhe as pernas, as costelas machucadas, a costela partida.

À tarde mandou chamar José Bonifácio à Quinta. E, quando o ministro entrou, recebeu-o com a mesma simplicidade de sempre.

– Fique a conversar aí com a Imperatriz que eu vou curar-me. Espere-me.

E entrou para o quarto. Amarrado de ataduras, picado de sanguessugas, ainda com uma pontinha de febre, embuçou-se numa capa e despejou-se pelas escadas, impetuosamente.

A noite estava tremenda e fria.

Chuviscava irritantemente.

Sua Majestade desceu às cavalariças.

– Um cavalo desferrado, depressa!

Em poucos minutos os palafreneiros ajudavam-no a montar.

D. Pedro desce ligeiramente a esplanada da Quinta, a galope, no rumo do quartel de cavalaria montada de S. Cristóvão. E, quando entra no gabinete do comandante Pardal, este tem uma exclamação assustada:

– Sua Majestade!

– Silêncio! Quero uns oficiais e uns cinquenta soldados bem armados e encapotados.

Às oito e meia da noite marchava o bando misterioso a caminho da Guarda-Velha, onde ficava o Apostolado. Nem viv’alma pelas ruas; a chuva era agora mais cerrada e grossa.

Defronte da casa a tropa estaca. Dentro, um largo clarão de luz.

D. Pedro bate à porta. O porteiro aparece, desconfiado, olha-o e quer impedir-lhe a entrada.

– Agarrem-no! Ordena Sua Majestade a dois soldados.

E sobe, seguido dos oficiais. O segundo porteiro vem fechar-lhe a porta.

– Segurem esse atrevido! Ordena novamente.

E continua a subir com o seu bando de encapotados.

Mais um lance de escadas – o grande salão fulgente. Está o Apostolado reunido. No trono, Antônio Carlos, de malhete em punho, dirige os trabalhos.

– Esperem-me aqui no vestíbulo! Diz o Imperador aos oficiais.

E entra. Ao vê-lo os “dignitários” e “camaradas”

erguem-se, arrancando rapidamente os punhais da cinta. Os militares encapotados desembainham imediatamente as espadas, correndo em defesa de d. Pedro.

– Contenham-se! Fala-lhes Sua Majestade. Os punhais são do rito.

E caminha para o trono. Antônio Carlos, apressadamente, quer guardar, num cofre ao lado, os papeis que estão sobre a mesa.

Pedro I segura-lhe fortemente o punho. Há um momento angustioso de silêncio.

Sua Majestade senta-se no trono. E agora o ar-conte-rei, a autoridade suprema do Apostolado.

E, no meio da mudez espavorida de toda a gente, diz, com aquela firmeza espectaculosa que foi sempre sua:

– De hoje em diante não haverá mais, sem a minha ordem, sessão no Apostolado. Retirem-se.

Os soldados tinham entrado, formando alas silenciosas. Um por um dos associados secretos foi desfilando e descendo, de cabeça baixa, por entre os soldados,

E, quando todos saíram, o Imperador encarou os militares:

– Nem uma palavra sobre isto que se passou.

Quando D. Pedro entrou de novo no palácio da Boa Vista, fingindo que saía do seu quarto privado,

José Bonifácio conversava ainda com a Imperatriz.

– Vossa Majestade demorou bastante.

– É verdade. O meu curativo hoje foi longo…

A história continua…

Ainda no exercício de contemporaneidade e melhor contextualização seguem outros balizadores históricos: Dom Pedro I proíbe as sociedades secretas (20 de Outubro de 1823); Exilio Andradas (20 de Novembro de 1823); Promulgada a Constituição do Império do Brasil (25 de Março de 1824); Portugal reconhece a Independência do Brasil (29 de Agosto de 1825); Nasce Pedro II (2 de Dezembro de 1825); Morre D. João VI (10 de Março de 1826) D. Pedro I no Brasil – D. Pedro IV em Portugal, é reconhecido como rei de Portugal (Março a Maio 1826), mas abdica em favor de sua filha D. Maria II (2 de Maio de 1826); Fim da Guerra da Cisplatina (27 de Agosto de 1828); Dom Pedro I abdica do trono em favor de seu filho Pedro II (7 de Abril de 1831); Dom Pedro I nomeia José Bonifácio tutor de DOM Pedro II (1831),  Dom Pedro I em Portugal (1831); Dom Pedro I morre (24 de Setembro de 1834); Morre José Bonifácio (6 de Abril de 1838)…

Conclusão: Apostolado ou Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz?

O nome Apostolado está ligado directamente aos doze membros dirigentes dessa sociedade que eram os responsáveis por formularem as suas directrizes, ordens executivas, actos e estudos que deveriam ser seguidos pelos demais membros da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, o ideal da Monarquia Constitucional era o mote principal dessa sociedade e as suas acções e estudos eram norteados nesse sentido; portanto, rechaçar toda e qualquer oposição era uma defesa natural e a adesão de nobres, políticos e militares tornava essa uma simbiose perfeita. A participação dos membros dessa sociedade nas decisões e eventos que culminam com proclamação de Independência do Brasil é decisiva, embora ainda de pouco conhecidos do público em geral. As relações interpessoais dos protagonistas, dessa fase da nossa história, são mais fáceis de compreender quando contextualizados dentro dessas organizações ou sociedades secretas, imbuídos desse conhecimento os relatos são muito mais vívidos, desnudando os tidos como heróis e vilões, esses ganham contornos humanos mais reais e verdadeiros.

Carlos Augusto Roque, M. M. – Grande Oriente do Brasil – São Paulo (GOB-SP)

Grande Chanceler do Grande Priorado do Brasil das Ordens Unidas Religiosas, Militares, e Maçónicas do Templo de São João de Jerusalém, Palestina, Rodes e Malta

Grande Secretário da Grande Loja de Mestres Maçons da Marca do Brasil

Vice-cônsul da Administração do Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz

Fonte

  • Artigo publicado na Revista “GEPAM – Grupo de Estudos, Pesquisas e Artes da Maçonaria do Pará” v. 1; nº 9 – Junho de 2025

Notas

[1] VARNHAGEN, Francisco Adolfo de – História da Independência do Brasil – Edições do Senado Federal – Vol. 137 – 2010 – pág. 146

[2] CORRÊA, Viriato. Histórias da Nossa História. Rio de Janeiro: 4º Edição. Editora Getúlio Costa, 1921. Pág. 190

[3] EGAS, Eugênio – Cartas de D. Pedro a seu Pae D. João VI (1821-1822) – São Paulo – TYPOGRAPHIA BRASIL, DE ROTHSCHILD & CIA. – 1916 – pág. 104.

[4] DO VALLE, Maristela – Primeiro nome do Brasil derivou da fé – Folha de São Paulo – São Paulo, segunda, 14 de Abril de 1997 – Turismo – https://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/fx140409.htm

[5] https://www2.camara.leg.br/a-camara/conheca/presidentes/imperio1.html – 03.06.1822 – No Rio de Janeiro, o príncipe regente D. Pedro de Alcântara expede decreto… Manda convocar uma Assembleia Geral Constituinte e Legislativa, composta de deputados das províncias do Brasil, os quais serão eleitos na forma das instruções que forem expedidas.

[6] VARNHAGEN, Francisco Adolfo de – História da Independência do Brasil – Edições do Senado Federal – Vol. 137 – 2010 – pág. 153.

[7] RIZZINI, Carlos. Dos Clubes às Lojas Maçónicas: RIHG – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, nº 190, Janeiro/Março, 1946 – p. 39.

[8] VARNHAGEN, Francisco Adolfo de – História da Independência do Brasil – Edições do Senado Federal – Vol. 137 – 2010 – pág. 146.

[9] BARATA, Alexandre Mansur – Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência – Tese Doutorado – Unicamp – 2002 – pág.  278.

[10] Idem.

[11] BARATA, Alexandre Mansur – Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência – Tese Doutorado – Unicamp – 2002 – pág.  283.

[12] RIZZINI, Carlos. Dos Clubes às Lojas Maçónicas: RIHG – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, nº 190, Janeiro/Março, 1946 – p. 39.

[13] RIZZINI, Carlos. Dos Clubes às Lojas Maçónicas: RIHG – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, nº 190, Janeiro/Março, 1946 – p. 40.

[14] Dicionário Aurélio: Quincôncio, substantivo masculino, Reunião de objectos dispostos de cinco em cinco: quatro em quadrado, em rectângulo ou em losango, e um no meio.

[15] RIZZINI, Carlos. Dos Clubes às Lojas Maçónicas: RIHG – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, nº 190, Janeiro/Março, 1946 – p. 40.

[16] BARATA, Alexandre Mansur – Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência – Tese Doutorado – Unicamp – 2002 – pág. 277.

[17] Dicionário Aurélio: Decúria, substantivo feminino, grupo ou classe de dez indivíduos; Entre os romanos, corpo militar de cavalaria e infantaria, composto de dez soldados.

[18] Dicionário Aurélio: Arconte, substantivo masculino – [História] – Na Antiga Grécia, até o século VI a.C., magistrado que exercia o poder de legislar, sendo as suas funções, posteriormente, reduzidas ao cargo de executor das leis.

[19] BARATA, Alexandre Mansur – Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência – Tese Doutorado – Unicamp – 2002 – pág.. 278.

[20] Diniz Numismática, 2020. Disponível em: https://www.diniznumismatica.com/2015/11/conversao-hipotetica-dos-reis-para-o.html. Acesso em: 10/07/2020. Bruno Diniz: Conversão Hipotética dos Réis Para o Actual Real.

[21] BARATA, Alexandre Mansur – Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência – Tese Doutorado – Unicamp – 2002 – pág.  283.

[22] Idem.

[23] Idem – pág.. 284.

[24] RIZZINI, Carlos. Dos Clubes às Lojas Maçónicas: RIHG – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, nº 190, Janeiro/Março, 1946 – p. 40.

[25] CORRÊA, Viriato. Histórias da Nossa História. Rio de Janeiro: 4º Edição. Editora Getúlio Costa, 1921. Págs. 185 a 193

Bibliografia

Sugestões de Livros:

  • CASTELLANI, José. Do Pó dos Arquivos. 1998: Bicentenário de Nascimento de D. Pedro I. Editora CopyMarket, 2000.
  • GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. 5º Edição. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.
  • de CARVALHO, Manuel Emílio Gomes. Os Deputados Brasileiros nas Cortes Gerais de 1821. Brasília: Senado Federal, 2003.
  • de VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História da Independência do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2010.
  • de Sousa, Otávio Tarquínio. História dos Fundadores do Império do Brasil: A vida de D. Pedro I, Tomo 2º, Volume II. Brasília: Senado Federal, 2015.
  • de Sousa, Otávio Tarquínio. História dos Fundadores do Império do Brasil: A vida de D. Pedro I, Tomo 3º, Volume II. Brasília: Senado Federal, 2015.
  • MONTEIRO, Tobias. História do Império: A Elaboração da Independência. Brasília: Senado Federal, 2018.
  • CORRÊA, Viriato. Histórias da Nossa História. Rio de Janeiro: 4º Edição. Editora Getúlio Costa, 1921.
  • Eugênio. Cartas de D. Pedro – Príncipe Regente – a seu Pae D. João VI – Rei de Portugal – (1821-1822). São Paulo 1º Edição. Editora Typographia Brasil, 1916

Sugestões de Teses:

  • Tese (Doutorado em História) – Departamento de História, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2002. BARATA, Alexandre Mansur, Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência: Brasil 1790 – 1822.

Sugestões de Periódicos:

  • NEVES, Lúcia Maria Bastos P., Portugal durante a ausência do rei, Revista USP, São Paulo, nº 79, p. 10 a 21, Setembro/Novembro, 2008.
  • NEVES, Lúcia Maria Bastos P., Cidadania e Participação Política na Época da Independência do Brasil, Cad. Cedes, Campinas, v. 22 nº 58, p. 47 a 64, Dezembro, 2002.
  • SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. Organização, Preceitos e Elementos da Cultura Maçónica: fundamentos para a introdução aos estudos da Maçonaria, REHMLAC, San José, Costa Rica, v. 4 nº 1, p. 122 a 140, Maio/Novembro, 2012.
  • MOREL, Marco. Sociabilidades entre Luzes e Sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 28, p. 3 a 22.
  • RIZZINI, Carlos. Dos Clubes às Lojas Maçónicas: RIHG – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, nº 190 p. 29 a 44, Janeiro/marco, 1946.

Sugestões de Sites:

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