No nosso Caminho: Um solstício de Verão em Varsóvia
No nosso Caminho de crescimento e de evolução pessoal, para além das viagens que fazemos para fora de nós, ao encontro de outros quotidianos, em tudo iguais ao nosso, mas em diferentes contextos, uma das coisas mais sublimes que une todos os eus a algo superior é a Música. Uma das artes liberais que “aprendemos” quando vemos a Estrela Flamejante, talvez a expressão aritmética da essência da Criação, a manifestação sublime que nos reúne ao inefável, ao mundo do imaterial.
Os antigos conheciam bem o Poder da Música, ao longo dos séculos foi sendo associada a manifestações culturais tanto do campo do sagrado como do profano. E foi precisamente no caminho de várias confluências que escolhas conscientes entre o passado preservado como memória colectiva e a manifestação intemporal desse mesmo passado reinterpretado na sua imortalidade que fui parar numa igreja para ouvir um concerto de órgão de tubos. Em vez de fotografar a mobília de Frederick Chopin, decidi ouvir um intérprete contemporâneo a interpretar as suas obras. Não há ninguém que consiga traduzir melhor a linguagem do Criador que um compositor de sons numa Harmonia mais ou menos audível ou dissonante. Aos intérpretes dessa Harmonia, cabe recriar de forma mais ou menos sintonizada com o compositor, transportando para o contexto presente a imortalidade da obra, tornando viva e materializável toda a essência do que nos foi transmitido, independentemente do século e do propósito com que foi concebido.
Assim, dei por mim a contemplar a face negra de um ícone feminino e um judeu crucificado, enquanto ouvia Chopin. Inicialmente compostas para recriação nos salões mais nobres e endinheirados de uma Europa rumo ao abismo incomensurável do progresso industrial que engolia o mundo inteiro naquilo a que os filósofos vieram a designar como imperialismo capitalista, um rumo que também levou à emancipação das massas e ao fim do tráfico de seres humanos, as obras de Chopin, um génio virtuoso do seu tempo, vieram parar a uma catedral católica. Mas não a uma catedral qualquer, a uma catedral que nos tempos das Guildas de pedreiros livres foi consagrada a S. João Baptista, um dos inúmeros profetas que na Judeia anunciava a vinda de um Mashiach que havia de livrar o povo de Israel do domínio cruelmente opressor e desumano de forma para além do que o paganismo permitia, do Império Romano. Este preâmbulo já vai longo, longe de ser uma apologia política ou religiosa, constitui somente a introdução à minha alquimia individual perante todo o peso simbólico do universo religioso transposto para um Sagrado, para além do tempo e das circunstâncias.
Ao ouvir os sons que saiam do órgão de tubos, manipulado habilmente pela sensibilidade solene de um músico experiente, habituado a tocar para as pedras e para os santos, com uns quantos pagadores de bilhete pelo meio que lhe dão o sustento material e lhe trazem o calor humano dos aplausos, não pude deixar de ser transportada para uma miríade de analogias.
Aquela catedral não era a original, era uma reconstrução feita com muito talento e sacrifício por um grupo de arquitetos e artesãos que tiveram a tarefa hercúlea de ressuscitar uma cidade medieval dos escombros deixados pela pior barbárie de que há memória pelos vivos e também por muitas gerações de mortos. A história dos judeus do Leste, está intimamente interligada com a história da Polónia e na II Guerra Mundial, a ira e o ódio que levou à devastação que atingiu a população judaica durante a Shoah, foi a mesma ira e o mesmo ódio que incendiaram pessoas em casas, hospitais, caves, usando bombas e matando um a um cada polaco que encontrassem pelo caminho, mesmo crianças e velhos. A Catedral de S. João Baptista ergueu-se assim dos escombros e, tal como a Fénix, passou não só de celebrar o elemento iniciático das águas do baptismo primordial, mas também o renascimento da vida transformada pelo fogo dos infernos a que os demónios presentes na natureza humana presidem com especial devoção destruidora de tempos a tempos.
Nunca, como antes, precisamos de quem anuncie a vinda de um reino de Luz, que ilumine a Alma dos homens acima da putrescência do ódio, das invejas e da ambição mesquinha. Muitas vezes os homens confundem monstros com profetas decapitando e crucificando os profetas e os homens santos para gaudio dos que conquistam para si vontades e consciências, legiões de muitos que se demitem de si próprios em prol de uma salvação que nunca virá. Um rei decapitou este homem que pregava nas margens do rio Jordão, respondendo aos apelos da ambição e da astúcia que as escrituras personificaram como qualidades femininas de uma princesa. O princípio feminino passivo que influenciou a ação do princípio masculino resultando na morte do que anunciava a vinda de um rei que iria reinar acima dos outros reis.
Esse messias iniciado por S. João, curava leprosos e dava vergastadas em corruptos irritando os Romanos ao proclamar-se filho de D’us. Filhos de D’us é a Humanidade inteira. Este judeu dissidente da ortodoxia da época, poderia ter sido apenas queimado numa fogueira como herege ou simplesmente excomungado e banido da sua comunidade como aconteceu ao filho da Sefarad, Baruch Espinoza, tivesse ele nascido uns séculos mais tarde, e bem longe das margens daquele rio que hoje, tal como há 2000 anos, é composto do sangue e das lágrimas das disputas bem mundanas dos impérios de todos os tempos pela Terra Santa.
Como assim não foi, dei por mim a contemplar a imagem de um judeu lívido, coroado de espinhos, preso a uma cruz para todo o sempre e a quem resolveram chamar de messias, de D’us vivo.
Atrás dele, uma imagem de um ícone feminino onde o rosto de prata oxidada a quem chamam de Maria, segura no colo não a Osíris ou a Mitra, mas aquele judeu crucificado enquanto menino. O ciclo da vida, o sagrado feminino e o princípio masculino da ação criadora, ali tão presentes naquele simbolismo de uma igreja que mais não fez que cultivar o sincretismo de uma pastiche de crenças e deuses pagãos resultante dos escombros do império Romano. Aquela Maria a quem chamam virgem é muito mais que isso! É a Deusa dos arcanos maiores, a mãe que encerra em Si todas as emanações do princípio feminino de todas as coisas. Chamam-lhe apenas de virgem, quando ela é bem mais que isso, é uma Mulher, uma mãe. Uma esposa, uma filha, uma prima, uma avó. Maria somos todas nós e as mulheres cristãs recorrem a ela para as aliviar de todas as suas aflições, longe de saberem que a força sagrada que as faz sobreviver a tudo é apenas a delas próprias.
Os homens trataram de nos convencer de que precisamos de uma virgem para nos salvar, quando é a capacidade das mulheres em assegurar a continuidade da espécie que nos tem levado a todos até aos dias de hoje. Por detrás de um grande D’us vivo, estamos todas nós.
Voltando à figura piedosa do judeu crucificado, este profeta mais não fez que preparar os seus concidadãos para a realidade após a destruição do segundo Templo e da diáspora que se seguiu, em que os judeus se espalharam pela Terra inteira. A realidade de que, fora de Jerusalém, cada casa, cada lar judeu é um templo. A Torah, sendo transportável e imutável, funciona como a Arca da Aliança e cada palavra sua ficará guardada no Santo dos Santos que é o coração dos homens. Ao amar ao próximo como a si mesmo, mandamento mosaico repetido até à exaustão como sendo exclusivamente um mandamento cristão, cada um de nós estará a servir de vaso para receber a Luz das emanações divinas e recriar o Reino de D’us na Terra.
Assim sendo, e em jeito de conclusão desta viagem, como Maçon, em dias de celebração do apogeu da Luz da Consciência superior que a nós preside, através da música divinal que me invadiu até ao âmago e contemplando símbolos não maçónicos, aproveitei para fixar mais uma pedra nos alicerces do meu Templo interior.
Isabel Landeiro, M. M. – Federação Portuguesa da Ordem Mista Internacional “Le Droit Humain” – O Direito Humano

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