Maçons velhos e jovens: tradição e mudança
Já vi muitas coisas acontecerem na Maçonaria. Rostos novos que partem, ideias jovens castigadas, opiniões petrificadas, projectos que nascem e morrem, Lojas que desaparecem… e talvez esta reflexão seja uma tentativa de pôr em palavras o que alguns de nós sentem quando os rituais são deixados para trás e as perguntas chegam.
Tenho tido a oportunidade de ver a Maçonaria de vários ângulos e responsabilidades, e a verdade é que há algo que por vezes sinto quando falo com um Irmão jovem ou sénior: uma sensação de que estamos numa encruzilhada sem precedentes, imersos numa vertiginosa mudança de tempos, que não está a facilitar o caminho de transição que toda a tradição exige. Tempos que põem em jogo a sobrevivência da Ordem, tal como a conhecemos, e que se tornam cada vez mais difíceis de ignorar e de gerir, porque acabam por afastar os Irmãos das Lojas.
Em particular, quando falo com jovens maçons, noto algo que me impressiona e me faz pensar. Eles falam-me das suas ideias, de como querem que a Maçonaria faça alguma coisa pelo mundo atual, pelos problemas actuais. E eu fico ali, a acenar com a cabeça e a pensar: como é que lhes explico que este é, e não é, ao mesmo tempo, esse tipo de lugar? Que, para o compreender, precisamos de uma abstração à maneira da sobreposição e dos dilemas filosóficos que o gato de Schrödinger nos exige.
As suas queixas em geral giram em torno do facto de o trabalho nas Lojas ser maioritariamente sobre o passado e o mesmo de sempre. Como se tivessem chegado tarde ao encontro com a Maçonaria e o impacto dos maçons nas sociedades. Gostariam de ver que este não é apenas um espaço de introspeção ou um lugar para se sentarem e ouvirem o que os maçons mais velhos fizeram há anos atrás.
Eu compreendo os maçons seniores. Compreendo-os muito bem porque, afinal, sou um deles. Dizem-me que cada acção deve ter o seu peso, que a Maçonaria é, ou deve ser, um refúgio da azáfama exterior, que devem cuidar da tradição porque, em suma, é a única coisa que nos liga a todos os que nos precederam e aos que virão depois. Mesmo com aqueles que virão depois dos que hoje apelam à mudança e com aqueles que virão depois dos que virão depois deles.
Já ouvi veteranos agarrarem-se à ideia de que a Loja é um lugar sagrado, para além das questões da actualidade. Que não querem que nos afastemos de conceitos que consideram fundamentais, como os da tradição, do respeito pela autoridade e da preservação da história. As mudanças soam-lhes a ruído e temem que, se começarem a abrir-se, já não consigam parar e o que faz da Maçonaria o que ela é se perca para sempre.
E aí estamos nós, apanhados no meio entre as duas posições, porque cada uma tem um ponto válido. Os jovens, com a sua energia e os seus apelos à mudança, e os veteranos, com os seus apelos à paciência… como é que se equilibra isto?
Os jovens têm-me falado sobre justiça social, alterações climáticas, ambiente, inclusão, tecnologia, ciência e ética – questões que, para ser honesto, na altura não pensei que se cruzassem com a Maçonaria. Mas lá estão eles, a insistir que o mundo lá fora é tão importante como o que construímos dentro da Loja. Acho que têm razão porque é claro para mim que compreenderam que nas Lojas construímos para esse mundo. Não sei se todos os antigos compreendem isto, mas gostaria que o fizessem.
E então, quando os jovens começam a dizer que a mudança é urgente, os veteranos ouvem uma espécie de ameaça, pelo menos é o que me é dado a entender. Vejo-os com o seu respeito pelo passado e o seu orgulho nas contribuições da Ordem para a humanidade, e não observo – verdade seja dita – resistência à mudança por si só. Eles ainda se lembram do que pensavam e desejavam quando eram jovens. O que vejo é um desejo profundo de que tudo isto que celebramos – os rituais, os símbolos, os valores, o método… – permaneça no lugar. Não é que não queiram mudar, é que querem que essa mudança tenha raízes. Não sei se todos os jovens compreendem isto, mas gostava que o fizessem.
Cheguei à conclusão de que a Maçonaria precisa de ambos: o impulso renovador dos jovens e a solidez reflexiva dos mais velhos. Não se trata de um jogo de soma zero. Se um ganha e o outro perde, todos perdemos. A chave, se é que existe uma, é entender que ambos estão aqui por algo que os transcende e, embora estejam conscientes de que não estão em nenhum momento de inflexão, acham o desafio difícil. Sabemos que o conflito é a condição da vida. Sem esta tensão, talvez a Maçonaria ficasse parada, sem o impulso para se renovar, mas também sem a âncora da sua tradição.
Talvez tudo se resuma a uma questão de confiança. Os veteranos têm de confiar que os jovens não vêm desmantelar o que foi construído com tanto esforço ao longo de três séculos. E os jovens, por sua vez, têm de compreender que os veteranos não estão a tentar refrear o seu entusiasmo ou as mudanças, mas sim a garantir que o essencial não se perde no processo. Não é um caminho fácil, nem rápido. Todos querem o mesmo: que a Maçonaria seja um lugar de encontro, de crescimento e de pertença.
A este respeito, um jovem Maçom comentou comigo durante um jantar:
“Talvez, em vez de mudar tudo ou deixar tudo na mesma, o que precisamos é de uma conversa honesta”.
Aceitei-o em nome dos veteranos.
Talvez seja essa a tarefa que temos pela frente…Talvez….
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