Livre e de Bons Costumes
Crescemos e evoluímos na nossa Augusta Ordem Maçónica lendo e ouvindo, vezes sem conta, esta alocução – “Livre e de bons Costumes”. Aquilo que almejamos e consideramos “adquirido” na nossa vida, afinal.
Mas, o que significa ela verdadeiramente ?…
Numa curta, informal e despretensiosa pesquisa por mim efectuada (re)encontrei algumas definições inerentes a este conceito que são de todos nós conhecidas – não tenho a ousadia de querer ensinar o que quer que seja a qualquer um dos MMQQII com estas reflexões vertidas em papel – quando muito, desejaria despertar a “centelha divina” presente em cada um de nós e que nos permite reconhecer o reflexo destas considerações por delas estarmos, desde há muito, iluminados. Algumas definições, a título de exemplo, que encontrei enquadram-se, pois, num certo e determinado sentido de “senso-comum” maçónico.
Desse modo, “Ser de Bons Costumes” será:
- ter adquirido hábitos salutares que permitam a um Homem conduzir-se a si mesmo em qualquer condição e lugar;
- ser honrado e justo, empenhando todos os seus esforços para se tornar melhor Ser Humano e Cidadão a cada dia que passa;
- não estar envolvido em situações que firam a Dignidade Humana;
- auxiliar, na medida das suas capacidades e possibilidades, Aqueles que necessitam de apoio;
- ser capaz de se conduzir bem em discussões interpessoais, ambientes confusos e dificuldades financeiras;
- ter bom-senso, organização e equilíbrio.
O conceito de “Bons Costumes” aplica-se, fundamentalmente, à Ética e à Moral dos Candidatos Profanos que almejam ingressar na Augusta Ordem Maçónica, A qual espera, quer destes quer dos seus Integrantes Iniciados, um espírito de verídica Fraternidade, Cooperação e Altruísmo.
De qualquer modo, há que ter a humildade e a lucidez necessárias para compreender o limitado alcance da designação e do conceito de “Bons Costumes” – estes não têm um carácter “absoluto” e imutável, estando antes “balizados” e relativizados pela Moral vigente de uma Sociedade num determinado Tempo e Espaço, i.e., num determinado contexto ou época históricos. O quadro de valores normativos ético-morais de um sociedade ou de um Povo não é imune às conquistas e/ ou vicissitudes históricas, sócio-políticas e históricas que a evolução dos tempos traz.
O que são, pois, “Bons costumes”?… Ter na vida profana, tanto a nível familiar como profissional, uma conduta irrepreensível perante os Cânones da Lei?… Mas, desde quando é que a Lei dos Homens normatiza ou define o que é um “Homem Bom”?… Alguns dos maiores criminosos da nossa Sociedade são intocáveis perante a Lei, quer no nosso país quer no Estrangeiro. Ser um Pai, um Marido e um Amigo extremosos, disponíveis e zelosos, estar “Vigilante” em cada um desses “papéis relacionais”, seguramente que será condição “sine qua non” para se ser merecedor desse epíteto … mas, será apenas isso?…
Serão essas condições únicas e suficientes para sermos merecedores dessa “coroa de Glória” ?… Com todo o respeito, considero a sua verificação é necessária para o juízo de que falo. Mas tal juízo não se esgota na referida e elogiosa constatação. Até porque a “capa” dos “Bons Costumes” pode ser um conveniente calculista refúgio para as hipocrisias e dissimulações da vida profana em todo o seu esplendor!…
Posto isto, “Bons Costumes” em Maçonaria não devem ser encarados como sendo um conceito referente, somente, aos valores sociais consagrados; devem, isso sim, ser encarados como um “recto modo de vida”, já que a conotação desse termo, mais do que moralista”, é de carácter existencial.
Numa perspectiva um pouco mais subjectiva e pessoal, “dar a cara” por quem sofre, por quem está na “mó de baixo”, “caiu em desgraça” e é incompreendido, seguir o caminho mais tortuoso, a via mais espinhosa e difícil, sem as luzes da ribalta ou os holofotes da “Fama” convenientemente a insuflarem-nos o Ego é, para mim, mais meritório dessa adjectivação de “Ser de Bons Costumes” – porque pressupõe a mais decisiva das qualidades de um Homem – a “Coragem”. Sem Coragem, todas as restantes qualidades não se manifestam no nosso quotidiano. A Coragem moral necessária para enfrentar o ”Status” quo” e, senão alterá-lo, pelo menos denunciá-lo e questioná-lo, é para mim, sem dúvida, um “bom costume”.
Porque, entre os fariseus das vidas profana e maçónica, passar por entre os “pingos da chuva” parece ser uma qualidade verberada e festejada – o supremo triunfo do “Chico esperto”. Fugir para evitar “a Tempestade”, assistindo de “camarote” ao infortúnio alheio.
Pois, para mim, sempre foi mais digno de admiração e valor aquele que se ergue do chão após cair em desgraça, cerra os punhos, range os dentes, faz das fraquezas forças, num admirável ritual de auto-transmutação alquímica, e leva tudo diante de si, dizendo em auto-contemplação honesta e assertiva, ao fim de mais um dia de labuta, “Eu sou a Tempestade”! – eis esse, para mim, O “Bom costume” …
Quanto a “ser Livre”, aqui o desafio, a meu ver, aumenta. Estamos a abordar a “pedra de toque” da existência humana, aquilo que faz a vida ter sentido, a par do Amor, e que nos distingue das outras espécie vivas da Terra – a consciência da Liberdade e a capacidade de evoluir civilizacionalmente em direcção a uma “Praxis” e a uma “Ética” dela Mesma.
E isto apesar de haver, ainda, em pleno terceiro milénio, países em África e no sudeste asiático onde formas de Escravatura são aceites e fomentadas de modo mais ou menos sub-reptício.
Em seu nome, dezenas ou centenas de milhões de Seres Humanos, sem olvidar muitos dos nossos QQ.·.II.·., deram a sua vida em derradeiro e decisivo sacrifício; em seu nome foram compostas as mais belas obras de Arte que o Espírito Humano foi capaz de conceber; por Ela, e graças a Ela, estamos aqui hoje, reunidos, de avental e tricórnio, e de espada em riste, a salvo da indiscrição de Olhares Profanos mas, também, a salvo de perseguições políticas pelo facto de sermos Maçons.
“Liberdade” significa o direito de agir segundo o seu “livre arbítrio”, de acordo com a vontade própria, desde que essa mesma vontade não prejudique ou lese Terceiros. Pode, também, corresponder a uma sensação de “estar livre e não depender de ninguém”. E pode o conceito de “Liberdade”, também, ser associado a um conjunto de “ideais liberais” e de Direitos de cada cidadão.
A “Liberdade” é um conceito complexo e apaixonante, que merece abordagens jurídica, ética e filosófica.
- no plano jurídico, existe a “Liberdade Condicional”, que se verifica quando um indivíduo que foi condenado por algo que cometeu recebe o direito de cumprir toda, ou parte de sua pena, em Liberdade, de acordo com as normas da Justiça; existe, também, a “Liberdade Provisória”, que é atribuída a um indivíduo com cunho temporário. Pode ser obrigatória, permitida (com ou sem fiança) ou vedada (em certos casos, como o alegado envolvimento em Crime Organizado). A “Liberdade de Expressão” é a garantia e a capacidade dada a um indivíduo que lhe permite expressar as suas crenças e opiniões sem ser censurado e é um dos Princípios basilares do “Estado de Direito” democrático vigente na esmagadora maioria dos países do Mundo Ocidental, fundado em Direitos, Liberdades e Garantias. Estão previstas, contudo, restrições legítimas dessa mesma Liberdade de Expressão quando as opiniões ou crenças partilhadas têm o intuito de discriminar um indivíduo ou grupo específico de indivíduos através de declarações injuriosas ou difamatórias.
- no plano ético, o conceito de “Liberdade” alia-se intimamente ao de “Responsabilidade” visto que um indivíduo tem todo o direito de ter liberdade desde que essa mesma Liberdade não desrespeite ninguém nem ponha em causa princípios ético-legais, instituições legalmente constituída á luz do “Estado de Direito” ou os seus legítimos representantes.
- no plano filosófico, a Liberdade pode ser entendida como o conjunto de direitos de cada indivíduo, seja ele considerado isoladamente ou em grupo, perante o Governo do país em que reside; é o poder de qualquer cidadão para exercer a sua vontade dentro dos limites da Lei.
A Liberdade pode consistir na personificação de Ideologias liberais. É parte integrante do lema tríptico “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, criado em 1789 para expressar os valores estruturantes da Revolução Francesa, a qual correspondeu a um evento histórico singular e de decisiva e fundamental importância na História da Humanidade – simplesmente, nada mais voltou ao que era dantes dela … São esses, também, os valores estruturais da Maçonaria Andersoniana, considerados as suas verdadeiras “Colunas Vivas”!…
Alguns dos mais célebres e relevantes Filósofos da Humanidade teceram considerações e publicaram Obras sobre o valor da “Liberdade”.
Assim sendo, eis alguns exemplos:
- René Descartes (1596-1650): considerava a Liberdade como sendo motivada pela decisão do próprio indivíduo mas, muitas vezes, essa vontade é dependente de factores extrínsecos a esse mesmo indivíduo (por exemplo, bens materiais).
- Immanuel Kant (1724-1804): defendia a Liberdade como sendo o direito de o Indivíduo ditar as suas próprias regras, as quais deverão ser seguidas racionalmente. É um conceito relacionado com a Autonomia individual. Essa Liberdade só ocorre através do conhecimento das “Leis Morais” e não somente pela própria vontade do Indivíduo. Para Kant, a Liberdade é uma expressão vivencial do “Livre Arbítrio” e não deve ser relacionada com as Leis do Estado ou da Sociedade.
- Karl Marx (1818-1883): era da opinião que a Liberdade humana está directamente ligada aos seus bens materiais – desta forma, os Indivíduos manifestam a sua liberdade em grupo e criam o seu próprio mundo, sujeito aos seus próprios interesses económico-financeiros.
- Jean-Paul Sartre (1905-1980): para ele, a Liberdade como sendo a condição de vida do Ser Humano, segundo a qual o princípio do Homem é ser livre. Deste modo, o Homem é livre por si mesmo, independentemente dos factores do mundo e das suas ocorrências – ele é livre para fazer o que a sua vontade lhe ditar.
A Liberdade é um conceito iniciático e filosófico que, á semelhança das virtudes cardinais do Primeiro Grau do Rito Escocês Rectificado (RER), só faz sentido quando contrapesada e sopesada por outro valor conceito que lhe é cúmplice e complementar: assim sendo, do mesmo modo que aprendemos no Grau de Aprendiz do RER que a “Justiça” deve ser sempre temperada pela “Clemência” pois, de outro modo, não é verdadeiramente Justiça – a arte do Juíz ou Magistrado – mas, antes, “Justicialismo” (ou seja, o ofício do “Justiceiro” …), também, a Liberdade só faz sentido e só cumpre a sua aspiração mais nobre se for complementada pela “Responsabilidade” – de outro modo não seria “Liberdade” mas, antes” Libertinagem”, i.e., uma forma de submissão do Espírito Humano às suas paixões mais primárias e selvagens, aos seus desígnios mais irracionais, aos seus caprichos mais inconfessáveis e mesquinhos e, em suma, a tudo o que lhe retira Nobreza e Elevação morais.
Pressupõe devoção e consagração do Ser Humano, nas suas diversas dimensões – corporal, intelectual, psicológica e espiritual – a Valores e a Causas. De outro modo, não estaremos a falar de Liberdade mas sim da “Libertinagem” citada nas linhas acima. E é capacidade de o Ser Humano escolher, em plena autonomia de consciência, as “Boas Causas” e os “Bons Valores” aos quais se apegar na sua vida terrena que lhe confere o vínculo à dimensão imaterial e poética da Existência.
Sem essa capacidade de escolha dessas Causas e desses Valores, a vida perde valor, sentido e o seu significado mais profundo ou elevado – o Homem perde a possibilidade de se reintegrar na sua essência divina, na sua “alma mater” transcendental, de que nos fala Martinez de Pasqually no seu “Tratado da Reintegração dos Seres”, no qual a Alma Humana é o indício da “centelha divina” que nos habita, primordial promessa de assimilação ou reintegração no Criador, Deus-todo-Poderoso e Grande Arquitecto do Universo (GADU).
O Maçom não é livre de decidir, no seu único e exclusivo livre-arbítrio, o seu Destino. O Maçom do RER, menos ainda. Somos Membros integrantes de uma Ordem Filosófica de Cavalaria Espiritual, herdeira do legado místico da Ordem Templária e da sua Estrita Observância. Não somos membros de uma sociedade democrática mas sim de uma Ordem Sinárquica, com uma estrutura hierárquica bem definida, desde há séculos, sem margem para equívocos ou livres-interpretações. Sem espaço para diletantismos ou leviandades.
Ninguém é obrigado a ser Maçom mas, em sendo, uma vez proferidos juramentos e invocadas energias místicas e teúrgicas que nos vinculam á nossa Ordem, devemos ter a seriedade intelectual e moral de nos mantermos leais a esses mesmos juramentos e á promessa de Fraternidade e de Benevolência esclarecida que eles encerram. Porque, ser Maçom, é um privilégio vedado á esmagadora maioria dos comuns mortais. E é, sobretudo, motivo de alegria e júbilo para quem vive com honestidade, na mente e no coração, as peripécias, mistérios, privilégios e vicissitudes da sua condição maçónica.
Porque, uma vez Maçom, para sempre Maçom! Rumo ao Oriente Eterno.
Que Deus, Nosso Pai, GADU nos dê força e coragem para não esmorecermos perante as dificuldades do percurso e mantermos sólidas e vigorosas as Colunas da nossa mais recente dádiva de Amor Fraternal à Maçonaria Regular Universal.
Que assim seja! E que a Ordem prospere.
ECE, M.·. M.·.
