Instalação do Venerável Mestre – Relatos históricos
Uma das acusações que os “Antigos” fizeram aos “Modernos” no século XVIII era a de ter caído no esquecimento ou negligenciado a cerimónia secreta de Instalação do Mestre Eleito da Loja, actualmente chamado de Venerável Mestre. Em 1813, após a união das duas Grandes Lojas rivais da Inglaterra, esta cerimónia passou a ser considerada como um dos marcos tradicionais.
Este artigo é baseado na escrita do pesquisador francês Rene Guilly, também conhecido como René Desaguliers, que por sua vez revisou o trabalho de Harry Carr na revista Ars Quatuor Coronatorum vol. 89 de 1976 sob o título “A Evolução da Cerimónia de Instalação e Ritual” e foi exibido por Harry Carr na loja de mesmo nome em 19 de Fevereiro de 1976.
Como a cerimónia de instalação é difundida em França, René Desaguliers tem interesse especial em estudar as fontes desta cerimónia secreta, através das divulgações maçónicas, que são importantes registos históricos. Interesse este que não é diferente das pesquisas realizada para o “Prumo de Hiram”.
De qualquer forma, Harry Carr limita o seu estudo apenas às fontes inglesas, embora, enfatiza Désaguliers, as fontes irlandesas pareçam ser do seu interesse.
Primeiro de tudo, Harry Carr remonta à história da Maçonaria Inglesa por 600 anos, até a Maçonaria operativa e descobre que não há nenhum vestígio de cerimónias de instalação ou eleição antes da maçonaria especulativa de 1717, mesmo com relação aos Diáconos, Vigilantes e Mestres.
As Constituições de Anderson de 1723, no entanto, descrevem o caminho para constituir e criar uma nova loja. Cita também a Cerimónia de Instalação de Wharton. Estamos falando de Philip Wharton, 1º Duque de Wharton, Grão-Mestre da Grande Loja de Londres e Westminster em 1722.
É a descrição mais antiga da instalação do Mestre de uma nova loja e o que aprendemos com ela?
Em primeiro lugar, o Grão-Mestre pergunta se o “candidato” foi examinado pelo seu vice/adjunto. Aquele candidato que é um Companheiro do Ofício, de boa moral e grande experiência, está (Publicado em freemason.pt) localizado à esquerda do Grão-Mestre e após o consentimento unânime dos irmãos, a nova loja é constituída, os deveres do Mestre são apresentados e ele é instalado.
Infelizmente, nem esses deveres nem a cerimónia de instalação são conhecidos.
Em seguida, todos os membros se curvam para a sua vez para cumprimentá-lo como sinal de submissão. A primeira coisa que está provada é que a Maçonaria de 1723 tinha dois graus, mesmo que, neste caso, não esteja claro em que grau a cerimónia está aberta.
Os membros são, sem dúvida, Mestres e Companheiros do Craft, e nenhuma obrigação do Mestre eleito foi encontrada, nem um sinal, um toque ou uma palavra. Observe finalmente que, embora as Constituições de Anderson não descrevam a cerimónia, existem os encargos e requisitos para ter a honra de aceder a tal cargo.
E somente nas “Três Batidas distintas” (Three Distinct Knocks) de 1760, que é descrita a primeira cerimónia de instalação durante a cerimónia de constituição de uma nova loja. Fala-se de “a obrigação dos oficiais de uma loja”, sendo a primeira do Mestre “na Cadeira”.
A loja parece aberta no terceiro grau e nada se sabe da eleição. O texto concentra-se na parte esotérica da cerimónia. O futuro Mestre ajoelha-se em ambos os joelhos ao sul e assume uma obrigação que retoma as ideias clássicas: de não revelar a palavra e o toque, de respeitar os deveres da sua posição e de trabalhar para o bem da Maçonaria, etc. etc. … sob pena de receber as punições do Aprendiz Admitido, do Companheiro de Ofício e do Mestre Maçom!
Elevado com o aperto de mão do Mestre, o Instalador desliza até o cotovelo e sussurra a palavra e, presumivelmente, agora está instalado na Cadeira. Então o aplauso do Mestre é dado, descrito como o grande sinal de um Mestre Maçom que é feito levantando as mãos à sua cabeça, depois descarregando-o no avental e ao mesmo tempo batendo no chão com os dois pés.
As divulgações, “As três batidas distintas” e “Jackin e Boaz” apresentaram em 1762 a mesma cerimónia.
Em 1730, John Pennel, Secretário da Grande Loja da Irlanda, retoma a cerimónia de Wharton para a redacção do Livro das Constituições irlandesas, mas sem mencionar Wharton. Da mesma maneira que Laurence Dermott que foi instalado em 1746, como Mestre da Loja nº26 em Dublin, também retoma a mesma cerimónia com algumas modificações na sua publicação do “Ahiman Rezon” de 1756.
Em 1775, será William Preston na sua “Ilustrações da Maçonaria”, que mostra uma nova evolução. Retoma a Instalação de Wharton e insere o primeiro texto completo dos Deveres do Mestre, muito próximo dos usados hoje em dia. Ao novo Mestre da Loja é entregue a insígnia do seu cargo e a carta patente da loja, apresenta-se o Volume da Lei Sagrada, o livro das Constituições, as ferramentas e jóias dos oficiais a serem empossados, que são felicitados conforme as suas funções.
Mas como é que Preston escreveu sobre a cerimónia de instalação em 1775, se ele pertencia a uma loja dos Modernos?
William Preston foi iniciado em 1763 na loja nº 111 da Grande Loja dos Antigos. Em 1764, a sua loja mudou de obediência e de nome, passando a chamar-se Loja Caledonian nº 325 da Grande Loja dos Modernos.
Posteriormente, a Loja Caledonian tornou-se, a principal componente do primeiro Grande Capítulo do Sagrado Arco Real. Acredita-se que os membros da loja, apesar de estarem sobres a égide dos Modernos, continuavam praticando o chamado quarto grau dos Antigos ou Arco Real.
Em 1774, irmãos da Loja Antiquity participaram de uma palestra de William Preston e ficaram impressionados com o seu conhecimento sobre os Antigos e o convidaram para ser membro da Loja que outrora, com o nome de Ganso e a Grelha, fora fundadora da Grande Loja dos Modernos. A Loja Antiquity orgulhava-se de ser uma das primeiras lojas da obediência e por não estarem muito satisfeitos com as mudanças realizadas pelos Modernos, tinham especial interesse nas práticas descritas por Preston.
A partir de 1801, há vestígios da cerimónia de instalação, mas ao contrário do livro de William Preston, não há palavras de passe, sinais, toques ou penalidades. E será somente em 1822, nas actas da Loja Antiquity, que algo novo aparecerá.
De facto, num certo momento da cerimónia, os Irmãos Mestres instalados retiram-se. Preston frequentemente utilizou a noção de “uma sala adjacente”, uma sala onde o Mestre Eleito será apresentado ao Mestre Instalador, fazendo uma apologia das suas qualidades e méritos, o secretário irá recitar os antigos deveres e regulamentos, prestando o seu juramento de Mestre Eleito (Venerável Mestre).
Especificamente, é mostrado que nada se sabe sobre se houve ou não uma abertura e fechamento daquela cerimónia, e se isso deve ser feito na presença de pelo menos três Mestres Instalados.
O novo Mestre é descrito saindo da sala adjacente vestido com as suas insígnias, colocando-se na cadeira e sendo aclamado. Então, em procissão, os membros prestam homenagem a ele, como sinal de submissão; a loja fecha no terceiro grau, em seguida, descendo até o primeiro grau, onde todos os oficiais são empossados.
Vamos voltar no tempo, agora estamos em 1810 com a instalação da Loja de Promulgação. Parece, segundo Harry Carr, que os Modernos tinham negligenciado totalmente essa cerimónia, ao (Publicado em freemason.pt) contrário do que os Antigos fizeram sob a direcção de Dermott. E, de facto, a Cerimónia de Instalação foi considerada um dos “Marcos” em vista da reunificação que deu lugar a Grande Loja Unida da Inglaterra.
Progressivamente, vai-se constatando, pelas actas que chegaram até nós, que o ensino das cerimónias de instalação estava evoluindo, pelo menos em teoria, já que não há nada que nos permita dizer como ela realmente foi praticada na sua totalidade.
A próxima evolução está no MS. Turk de 1816, que constitui a terceira Instrução de William Preston, da qual existem cinco versões manuscritas, mas a MS. Turk é a única completa conhecida.
Verifica-se que o Mestre Eleito é apresentado à Loja no Segundo Grau, que lhe são dados os Antigos Deveres, os regulamentos gerais, onde ele assume o compromisso que assina e sela, os Mestres Maçons e os Mestres Instalados saem para uma “sala de Instalação” onde os trabalhos do terceiro grau são abertos, então os Mestres Maçons retiram-de, deixando apenas o “Conselho de Mestres Instalados”.
O Mestre Eleito é novamente apresentado e recebe “o benefício da Instalação”, ele ajoelha-se em ambos os joelhos e os dois Mestres Instalados juntam as suas mãos formando um arco acima dele. Todos os irmãos se ajoelham.
Uma vez cumprida, faz-se uma invocação ao Pai Todo Poderoso, observando que é a versão antiga de um ritual que contém uma oração de abertura e que difere pouco da usada hoje na Inglaterra.
Retomando o curso da cerimónia, o Mestre Instalado assume o seu juramento e é colocado na cadeira pelo toque e pela palavra, é saudado e, por fim, o Conselho é fechado ou, mais exactamente, suspenso. Note aqui que as noções de trabalhos abertos e suspensos, não vêm de um ritual específico. Os Mestres Maçons são reintroduzidos e a Loja é fechada no terceiro grau, retornando a todos para a Sala da Loja, onde os trabalhos também são fechados.
E, com efeito, essa instalação é observada melhor em “Três Batidas Distintas” e “Jackin e Boaz”. Note também que, embora haja um sinal de reconhecimento e um toque específico nessa cerimónia. Na história de William Preston, este sinal e toque não são encontrados.
Pode-se pensar que, se Preston formalizou esta cerimónia, ela pode ter sido praticada por lojas dos Modernos, já que o controle da Grande Loja sobre a ritualística das lojas, não era muito grande.
Assim, com o tempo, o Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, em 1827, teve que intervir pessoalmente para padronizar as cerimónias no país e ainda instalar como se deveria, os Mestres de Loja, mesmo aqueles que já estavam em exercício.
Dez irmãos foram nomeados, incluindo o Grande Secretário e o Grande Arquivista para formar uma comissão especial chamada “Loja ou Conselho de Mestres Instalados”, que tinha como objectivo manter regularmente lojas de instrução de Mestres Instalados, este Conselho também podia instalar os Mestres Eleitos.
Há apenas um documento referente ao trabalho daquela estrutura de Mestres Instalados, a acta de 24 de Fevereiro de 1827 da Loja ou Conselho de Mestres Instalados. Algumas perguntas que seguem, permanecem sem resposta e acima de tudo neste texto, René Désaguliers deixa as seguintes dúvidas:
- Como dar forma para declarar ou constituir um Conselho de Mestres Instalados, bem como a abertura e encerramento dos trabalhos.
- A palavra do Mestre Instalado e a maneira de comunicá-lo eventualmente.
- A cláusula penal da obrigação.
- A inspecção do templo por Salomão e o papel de Adonhiram.
- A saudação dada pela Assembleia nos três graus da cerimónia.
Para responder a estas perguntas, é preciso consultar o que René Guilly reagrupou sob o termo “Documentos Mais Tardios” e o “MS Henderson”, que é um manuscrito de 350 páginas.
Em 1832, John Henderson foi 1º Vigilante da Loja Antiquity nº2 e foi Presidente do Departamento de Assuntos Gerais da Grande Loja Unida da Inglaterra em 1836-1837. No início dos trabalhos do Conselho de Mestres Instalados, ele descreve no seu caderno, entre outros, a terceira instrução de William Preston do MS. Turk, que citamos anteriormente.
Da mesma forma, em 1838, aparece a publicação do ritual do terceiro grau e a Cerimónia de Instalação de Georges Claret, que de alguma forma é o precursor ou o pai dos rituais impressos, como os que conhecemos hoje.
Voltemos à conclusão desta primeira parte, as contribuições históricas para responder a cinco questões anteriores.
- Os dois textos confirmam que após a abertura da Loja nos três graus, os Mestres Maçons se retiram e pelo menos três Mestres Instalados constituem por uma simples declaração e um simples golpe de malhete, o Conselho de Mestres Instalados; não há cerimónia de abertura ou encerramento.
- Se a palavra do Mestre Instalado parece omitida na acta de 1827, pode-se simplesmente pensar que ela foi voluntária por razões de prudência.
- Para o sinal penal, a omissão também foi prudência? De facto, pode-se pensar que não existia antes de 1827 e que Claret e Henderson foram os primeiros a fazer uma referência directa.
- Para a inspecção do Templo por Salomão, nada existe antes de 1827 se não é uma referência ao “sinal e saudação de um Mestre de Artes e Ciências”. Henderson fala de (Publicado em freemason.pt) sinal e saudação e um pouco da sua história, Claret dá na plenitude também a introdução da Rainha de Sabá.
- Finalmente, a saudação ao Mestre Instalado pelos participantes parece ser uma recente inovação, sendo que Claret e Henderson não evocam mais do que uma simples saudação do Mestre Instalador.
Para entender o interesse de pesquisar a prática dessas cerimónias hoje, para entender a história e sentir o simbolismo, eu poderia terminar o resumo citando um parágrafo de René Desaguliers:
“A instalação é, acima de tudo, a mais alta honra que uma loja pode conferir, implicando os deveres e responsabilidades de um significado profundo para o feliz recipiendário e a cerimónia é sempre interessante e bela, desde que seja conduzida com dignidade e o decoro que eles impõem”.
Luciano R. Rodrigues
Bibliografia
- Constituições da Grande Loja de Londres e Westminster – 1723
- Constituições da Grande Loja da Irlanda – 1730
- A Maçonaria Dissecada – 1730
- Ahiman Rezon – 1756
- As Três Batidas Distintas – 1760
- Jackin e Boaz – 1762
- Ilustrações da Maçonaria – William Preston – 1775
- The Evolution of the Installation Ceremony and Ritual – Harry Carr – 1976
- L’evolution de la céremonie et du rituel d’Installation secréte du Maitre Elu, René Desaguliers – 1991
