Iniciação, Elevação e Exaltação: quando o ritual continua dentro do homem
Não é fácil falar sobre certos assuntos que exigem discrição, especialmente quando estão ligados à Maçonaria. Isto torna-se ainda mais delicado quando se trata das experiências de transição que, no meio maçónico, conhecemos como iniciação, elevação e exaltação. Naturalmente, a depender do rito praticado, podem existir diferenças de nomenclatura, e o próprio tema dos ritos merece observação, estudo e, sobretudo, tolerância. Mas isso pode ficar para outra ocasião.
Aqui, quero chamar a atenção para a iniciação, a elevação e a exaltação a partir da perspectiva do Rito Escocês Antigo e Aceite. Quando falamos dessas cerimónias, quase sempre as recordamos com emoção, nostalgia e certo saudosismo. E isso é compreensível. Elas marcam a nossa passagem pelos graus, atestam a nossa evolução formal dentro da estrutura da Ordem e, em muitos casos, tornam-se referências vivas na nossa memória. Entretanto, mais do que momentos solenes de progressão ritual, essas cerimónias também podem provocar uma nova forma de observar a vida e, em certos casos, a nós mesmos.
Digo isso porque vivi esse processo de maneira muito concreta. Quando fui iniciado na Maçonaria, em 30 de Setembro de 2023, experimentei um dia profundamente marcante. Estava ansioso, emocionado e consciente de que vivia algo muito diferente de tudo o que conhecia até então. Foi, para mim, um novo início. Um mundo novo se abria diante de mim.
Depois disso, vieram as sessões económicas, a adaptação ao modelo de ensino e estudo da Ordem, as instruções recebidas e os primeiros contactos mais atentos com o simbolismo e a alegoria. Aos poucos, fui me aproximando de conceitos, palavras e ideias que antes, para mim, estavam esvaziados de sentido. Não se tratava de eu ser uma má pessoa — tanto que fui aceito após o escrutínio de admissão —, mas de reconhecer que vivia grande parte do tempo no automático, sem um verdadeiro exercício de reflexão.
Permaneci aproximadamente catorze meses no grau de Aprendiz. Em seguida, recebi de minha Loja o aval para avançar ao grau de Companheiro. Fiquei empolgado. Tratava-se de uma nova etapa, e eu imaginava que algo novo me aguardava. De facto, aguardava.
Durante a cerimónia de elevação, acompanhei com atenção as explicações do Venerável Mestre. Ouvi os conceitos, os significados, as orientações e percorri, atento, as etapas que o ritual denomina viagens. Eu estava presente, concentrado e receptivo a tudo o que me era transmitido.
Entretanto, terminada a última viagem, quando a palavra foi passada ao Irmão Orador, algo mudou dentro de mim. Eu até escutava as suas palavras, mas já não conseguia compreendê-las plenamente. Estava mergulhado nos meus próprios pensamentos. Depois de mais de um ano frequentando a Maçonaria como Aprendiz, eu acabara de receber uma quantidade significativa de novas informações e, mais do que isso, percebera o peso real de tudo aquilo.
Naquele momento, fui tomado por uma inquietação profunda. Compreendi que, a partir dali, eu já possuía ferramentas suficientes para começar a ser alguém melhor do que havia sido até então, alguém que, no fundo, eu realmente desejava ser. Mas compreendi também que isso não aconteceria sem custo. Para que essa transformação fosse possível, eu teria de rever muitas ideias, modificar pensamentos, combater hábitos e corrigir acções. Vi, com clareza, que se tratava de uma luta constante e exigente.
Foi justamente aí que a elevação deixou de ser apenas uma cerimónia e passou a se tornar uma interpelação interior. Por um instante, arrependi-me de ter ingressado na Maçonaria. Não por rejeição à Ordem, mas porque compreendi que minha presença ali não poderia se resumir a frequentar sessões, estudar símbolos ou avançar de grau. Havia uma exigência moral silenciosa, porém firme: tornar-me uma pessoa melhor.
Pouco tempo depois de minha elevação, conversei com meus padrinhos e procurei explicar, ainda que de maneira um pouco evasiva, a preocupação que sentia. Parecia-me que as coisas estavam ficando mais apertadas, mais exigentes, como se novos trabalhos interiores estivessem sendo colocados diante de mim.
Permaneci cerca de onze meses como Companheiro Maçom. Nesse período, estudei um pouco mais do que havia estudado como Aprendiz, pesquisei, escrevi, procurei meditar em alguns momentos e continuei observando, dentro de mim, um conflito constante. Havia um desejo real de mudar muitas de minhas acções, mas também a percepção de que essa mudança não seria simples nem imediata.
Mais tarde, fui exaltado ao grau de Mestre. E, mais uma vez, a cerimónia me ofereceu uma nova possibilidade de reflexão e descoberta. Ao chegar a esse grau, senti claramente que precisava retornar aos ensinamentos de Aprendiz. Compreendi que, naquele momento, seria capaz de aproveitar com mais profundidade aquilo que antes havia recebido apenas de modo inicial. Também passei a perceber melhor os conteúdos do grau de Companheiro. Foi como se a caminhada anterior começasse, então, a revelar sentidos mais amplos.
Como Mestre, entendi algo que considero essencial: enquanto estamos vivos e em plena posse das nossas faculdades mentais, sempre podemos recomeçar. Podemos observar, planear, corrigir e agir no sentido de superar as nossas falhas. Sempre existe, em algum nível, a possibilidade da morte de um mau hábito e, ao mesmo tempo, a possibilidade do nascimento de uma nova forma de viver.
Foi então que comecei a compreender com mais clareza que os símbolos e as alegorias não existem apenas para serem estudados ou explicados em Loja. Eles existem também para serem observados em paralelo com a nossa própria vida. Servem como instrumentos de leitura interior, de análise de ideias, pensamentos e acções. Permitem identificar pontos que precisam ser corrigidos, ajudam a romper maus hábitos e favorecem a construção de novos comportamentos mais racionais, conscientes e coerentes com os princípios que afirmamos seguir. Os seus ensinamentos não devem permanecer restritos ao discurso, mas converter-se em ferramentas vivas de transformação moral.
Hoje, compreendo que iniciação, elevação e exaltação não são apenas etapas formais da trajectória maçónica. São também imagens de processos interiores que podem se repetir muitas vezes ao longo da vida. Há momentos em que precisamos ser iniciados numa nova consciência; outros, em que somos elevados a uma percepção mais exigente de nós mesmos; e outros, ainda, em que somos chamados a morrer para antigos padrões, para então renascer de modo mais lúcido.
Talvez esse seja um dos grandes sentidos da experiência maçónica: recordar ao homem que a sua verdadeira obra não se limita ao Templo exterior, mas continua, silenciosa e exigente, dentro de si mesmo.
Lucas Pessoa e Silva, M. M. – ARLMS Firmeza e Humanidade Marabaense nº 6 – Orienta de Marabá, Pará – Grande Loja Maçónica do Estado do Pará – GLEPA
