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História do Grande Oriente de França: 1ª Parte (1728-1815)

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✍️ Desconhecido 📅 28/08/2025 👁️ 0 Leituras
Grande Oriente de França
Grande Oriente de França

Quem é que nunca ouviu falar do Grande Oriente de França? A maior e mais antiga Obediência Maçónica em França, o Grande Oriente de França é uma verdadeira instituição, com uma influência considerável em todo o mundo, ao ponto de poder ser considerado o porta-estandarte da Maçonaria liberal. A história do Grande Oriente de França é fascinante, porque acompanhou todas as reviravoltas da história francesa, desde o século XVIII até aos nossos dias, representando uma forma de continuidade numa época marcada por rupturas. Vejamos as principais etapas da história do Grande Oriente de França.

As origens do Grande Oriente de França: A primeira Grande Loja de França (1728 ou 1738)

As primeiras Lojas francesas foram criadas em 1725, sob o impulso da Grande Loja de Londres, fundada em 1717 (ou mais provavelmente em 1721). Antes de se tornarem independentes, as Lojas fundadas por Londres estavam agrupadas em estruturas bastante leves, conhecidas como Grandes Lojas Provinciais ou Inglesas, cujos Grão-Mestres eram geralmente súbditos britânicos. Em França, os três primeiros Grão-Mestres da primeira Grande Loja de França documentada desde 1728 eram ingleses ou escoceses: o Duque de Wharton, que tinha sido Grão-Mestre da Grande Loja de Londres em 1722-1723 e que se revelou mais um aventureiro oportunista, o baronete escocês James Hector Mac Leane e o inglês Charles Radclyffe, Conde de Derwentwater, sendo os dois últimos jacobitas convictos. Derwentwater foi decapitado após a derrota jacobita na batalha de Culloden, em 1746.

O primeiro Grão-Mestre francês só foi eleito em 1738, na pessoa de Louis Pardaillan de Gondrin, Duque d’Antin (1707-1743). Segundo alguns autores, só a partir dessa data se pode falar de uma Grande Loja de França. É discutível se o Duque d’Antin sucedeu directamente a Derwentwater, uma vez que os Grão-Mestres ingleses só eram eleitos por um ano. Entre 1728 e 1738, parece ter havido apenas três Grão-Mestres britânicos em França, o que é muito pouco. Wharton foi Grão-Mestre em França apenas uma vez, e Mac Leane e Derwentwater podem ter sido reeleitos várias vezes, mas é possível que tenham existido outros Grão-Mestres britânicos de que não temos memória.

Quanto ao Duque d’Antin, que faleceu prematuramente em 1743, foi Grão-Mestre apenas durante cinco anos e não deixou vestígios particulares no desenvolvimento da Grande Loja de França.

A Grande Loja de França entre 1743 e 1771: um período rico em acontecimentos

A história da primeira Grande Loja de França começou efectivamente em 1743 com a nomeação de Louis de Bourbon-Condé, conde de Clermont (1709-1771) como Grão-Mestre. E o tempo do seu Grão-Mestrado foi um tempo turbulento.

Durante este período, a Grande Loja de França teve de lidar com uma série de problemas e crises internas. Não era ainda uma Obediência Maçónica comparável às que conhecemos hoje: o poder do Grão-Mestre era relativamente fraco, num quadro altamente descentralizado que dava grande autonomia às Lojas e às estruturas intermédias que as governavam a nível local (a Grande Loja Escocesa de Bordéus, a Loja Mãe de Marselha, a Grande Loja dos Mestres Regulares de Lyon, etc.). No caso do conde de Clermont, o seu estatuto de príncipe de sangue e de chefe do exército levou-o a afastar-se frequentemente do seu cargo de Grão-Mestre, tendo delegado o seu poder em três substitutos, o banqueiro protestante Baur, depois o mestre de dança Lacorne e o Conselheiro Chaillon de Jonville.

Esta Grande Loja, bastante fraca, tem de enfrentar o aparecimento dos altos graus maçónicos na década de 1740. A sua posição oficial (pelo menos a do Grão-Mestre) é de grande reserva em relação a estes novos graus, chegando mesmo a proibi-los no caso do grau de Kadosh, que surge por volta de 1750. Mas é impossível ignorar os altos graus, que se multiplicam e atraem cada vez mais maçons. No conflito entre o Conselho dos Cavaleiros do Oriente, que praticava um rito de sete graus, e o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, que tinha um sistema de 25 graus, o Conde de Clermont inclinou-se para os Cavaleiros do Oriente, cujo rito era mais sóbrio, mas muitos membros da Grande Loja (incluindo os dois substitutos Lacorne e Chaillon de Jonville) aderiram sem reservas aos Imperadores do Oriente e do Ocidente. Foi assim que, em 1761, na ausência do Grão-Mestre e sem o seu conhecimento, os dois substitutos, juntamente com sete outros signatários, todos membros do Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, concederam a Étienne Morin a famosa patente que o autorizava a difundir o Rito de Perfeição de 25 graus nas Antilhas francesas. Este foi o ponto de partida para o Rito Escocês Antigo e Aceite.

Mas o problema principal era a oposição crescente, no seio da Grande Loja de França, de duas correntes sociologicamente identificáveis: por um lado, os aristocratas e os burgueses próximos da nobreza, representados principalmente nas Lojas parisienses, mais progressistas nos domínios filosófico e religioso, e, por outro, os burgueses e os artesãos, maioritários nas Lojas de província, claramente mais conservadores em matéria religiosa. A facção aristocrática, que recebeu o nome do substituto Lacorne, era conhecido como “lacornard“, enquanto o campo burguês era conhecido como “anti-lacornard“.

Após a morte de Lacorne, em 1762, o Grão-Mestre empreendeu uma reforma da Grande Loja e decretou que os cargos passariam a ser electivos, por um período de três anos. Até então, os cargos de Venerável Mestre ou dignitário podiam ser comprados e mantidos vitaliciamente. Nas primeiras eleições, realizadas em 1765, os “anti-lacornardos” venceram; no processo, quinze “lacornardos” foram expulsos da Grande Loja.

Em Dezembro de 1767, por ocasião da celebração do dia de S. João, alguns dos Irmãos expulsos em 1765 tentaram entrar no templo da Grande Loja, mas a entrada foi recusada e forçada. A cena transformou-se numa troca de golpes e invectivas, e este escândalo quase público levou o tenente-general da polícia, Antoine de Sartine, a suspender os trabalhos da Grande Loja, provavelmente a pedido do próprio Grão-Mestre. Esta suspensão durou até 1771, ano em que o Grão-Mestre, o Conde de Clermont, também morreu. Foi sucedido por outro príncipe de sangue, Louis-Philippe d’Orléans, duque de Chartres (1747-1793). Príncipe progressista, opositor do absolutismo e grande admirador do sistema político britânico, o duque de Chartres tomou assento nos Estados Gerais de 1789 entre os deputados da nobreza, depois foi eleito para a Convenção Nacional em 1793, renunciando a todos os seus títulos e adoptando o nome de Philippe Égalité.

Louis-Philippe d'Orléans, duque de Chartres (1747-1793)
Louis-Philippe d’Orléans, Duque de Chartres (1747-1793) – “Philippe Égalité”

A Grande Loja de França torna-se o Grande Oriente de França (1773)

A partir de 1771, o movimento de reforma iniciado pelo conde de Clermont em 1762 ganhou força e foi muito mais longe. Foi criada uma nova estrutura, com um sistema de representação das Lojas, dando mais peso às Lojas de província e contrariando a preponderância das Lojas parisienses e aristocráticas que existia anteriormente. Os antigos “lacornards” tiveram, no entanto, um papel importante nestas reformas, uma vez que tinham apoiado a candidatura do Duque de Chartres. Em 1772, obtiveram a fusão da Grande Loja de França e do Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, que tinha sido rejeitada pelo anterior Grão-Mestre.

Em 1773, a Grande Loja de França reestruturada adopta o nome de Grande Oriente de França. No entanto, algumas Lojas contestaram estas reformas e formaram uma Grande Loja Nacional conhecida como a Grande Loja de Clermont. Estas Lojas juntaram-se ao Grande Oriente em 1799.

Para além da sua reorganização completa, o projecto mais importante empreendido pelo Grande Oriente de França antes da Revolução foi o trabalho sobre os rituais. A ideia de rever os rituais e sobretudo de chegar a um ritual unificado no Grande Oriente de França tinha surgido já em 1773, mas os trabalhos só começaram em 1781, culminando com a adopção dos rituais dos três graus simbólicos em 1785 e das quatro Ordens de Sabedoria (altos graus) em 1786.  Este é conhecido como o Rito Francês.

Apesar das suas ideias progressistas, o Duque de Chartres teve pouco envolvimento nestas reformas, que foram levadas a cabo pelo Grande Administrador do Grande Oriente, Anne Charles Sigismond, duque de Montmorency-Luxembourg (1737-1803).

O período que precedeu a Revolução foi muito próspero para o Grande Oriente de França, que em 1789 contava com 629 Lojas e 30.000 membros. Tinha sido assinado um tratado com as Lojas Rectificadas, que mantinha as Lojas simbólicas deste Rito sob a jurisdição do Grande Oriente, de modo a não ficarem completamente fora do seu controlo.

A Revolução de 1789: demissão e morte do Grão-Mestre (1793)

O início da Revolução de 1789 foi um duro golpe para a Maçonaria em geral e para o Grande Oriente de França em particular. Não que a Revolução tenha atacado directamente a Maçonaria, mas antes porque muitos Maçons abandonaram as Lojas, por uma variedade de razões. Alguns tinham abraçado os ideais da Revolução e optado por um empenhamento mais concreto na mudança da sociedade, enquanto outros, aristocratas, se tinham exilado, como o Duque de Montmorency-Luxembourg.

Apesar de o Grande Oriente de França ter aprovado oficialmente a Revolução em 1792, muito poucas Lojas continuaram a reunir-se, e o golpe fatal veio quando o Grão-Mestre, o Duque de Chartres, que se tinha tornado Philippe Égalité, renunciou à sua qualidade de membro a 22 de Fevereiro de 1793. O Grão-Mestre não só virou as costas à Maçonaria, como a renegou completamente, declarando que tinha acreditado nas ilusões igualitárias da Maçonaria, mas que agora se confrontava com a realidade e que uma República não podia tolerar a existência de sociedades secretas no seu seio. Numa assembleia extraordinária realizada a 13 de Maio de 1793, o Grande Oriente de França aceita a demissão do Grão-Mestre e pondera a sua substituição, apesar de o cargo ser teoricamente inamovível. Mas o Terror tinha começado e iria durar até 27 de Julho de 1794 (9 de Thermidor do ano 2): a Maçonaria francesa entrou então num estado de dormência e, embora algumas Lojas ainda se reunissem, faziam-no de forma semi-clandestina.

A carreira de Philippe Égalité não tardou a chegar ao fim. Durante o julgamento de Luís XVI perante a Convenção, que se desenrolou em várias sessões entre 15 e 20 de Janeiro de 1793, votou a favor da morte do Rei. Um general tentou em vão derrubar a Convenção para salvar Luís XVI, o general Charles François Dumouriez (1739-1823), chefe do Exército do Norte. Revolucionário, mas favorável a uma monarquia constitucional, ameaçado de perseguição pela Convenção, desertou para os austríacos a 4 de Abril de 1793. Entre os oficiais que o seguiram na sua deserção, conta-se Louis-Philippe, o filho mais velho de Philippe Égalité e futuro Rei Louis-Philippe I. Philippe Égalité foi imediatamente suspeito de conluio com o seu filho e os seus amigos. Preso em 7 de Abril de 1793, foi condenado à morte em 6 de Novembro e guilhotinado no mesmo dia.

O despertar da Maçonaria francesa após o Terror

Em Fevereiro de 1793, enquanto o Grão-Mestre denunciava a Maçonaria, Alexandre Roëttiers de Montaleau (1748-1808), que tinha desempenhado um papel importante na elaboração dos rituais do Rito Francês, guardou os arquivos do Grande Oriente de França. Em 27 de Outubro de 1795, o Directório sucedeu à Convenção Termidoriana, que tinha substituído o regime do Terror após a queda de Robespierre. As actividades maçónicas podem então ser retomadas provisoriamente. Em Abril de 1796, o Grande Oriente de França elegeu Roëttiers de Montaleau para Grão-Mestre, mas este recusou o título, chamando-se apenas Grande Venerável.

Em seguida, ele começou a reunir a Maçonaria francesa dispersa e conseguiu que as Lojas da Grande Loja de Clermont, que se tinham separado em 1773, se juntassem ao Grande Oriente de França em 22 de Junho de 1799.

O Grande Oriente de França sob o Consulado e o Império (1799-1815)

O golpe de Estado de 18 Brumaire (9 de Novembro de 1799) põe fim ao Directório e institui o Consulado. O poder executivo é reforçado e passa a estar nas mãos de três cônsules, mas o verdadeiro homem forte é Napoleão Bonaparte, Primeiro Cônsul (1769-1821). Para muitos observadores da época, a Maçonaria era ou um antro de monárquicos ou um refúgio de jacobinos nostálgicos do Terror. Não teria sido surpreendente se o regime do Consulado, bastante autoritário e dominado por um militar, lhe tivesse sido hostil ou mesmo proibido.

Mas Bonaparte era bastante favorável à Maçonaria, pois o seu pai e os seus irmãos eram todos maçons. Nunca foi provado que o próprio Napoleão fosse Maçom, mas há quem acredite que possa ter sido iniciado durante a campanha do Egipto, na qual participaram muitos maçons. A Maçonaria não era, portanto, motivo de preocupação, embora fosse vigiada de perto pela polícia.

Napoleão não tinha mostrado grande interesse pela Maçonaria durante o Consulado, mas a sua atitude mudou quando se tornou Imperador dos Franceses (18 de Maio de 1804). Compreendendo que a Maçonaria poderia servir os seus interesses se lhe fosse dócil, decidiu colocá-la sob o controlo de homens que lhe eram devotados, próximos ou membros da sua família. Assim, em 1804, José Bonaparte foi nomeado Grão-Mestre do Grande Oriente de França, mas foi Jean Jacques Régis Cambacérès (1753-1824), o antigo Segundo Cônsul que se tornou Chanceler do Império, que exerceu o poder; e o Rito Filosófico Escocês, que era uma minoria muito pequena, foi colocado sob o Grão-Mestrado de Luís Bonaparte.

Foi neste contexto que Alexandre de Grasse-Tilly regressou da América e começou a fundar um Conselho Supremo para França do Rito Escocês Antigo e Aceite. Como prelúdio a esta fundação, começou por fundar uma Grande Loja Escocesa em 22 de Outubro de 1804, com o Marechal Kellermann (outro dos leais de Napoleão) como Grande Administrador. Em nome do Imperador, Cambacérès interveio imediatamente para que as Lojas desta nova Obediência fossem integradas no Grande Oriente de França. A 3 de Dezembro de 1804, foi assinada uma concordata: as Lojas da Grande Loja Escocesa passaram a fazer parte do Grande Oriente de França, enquanto o Supremo Conselho, que seria definitivamente constituído a 22 de Dezembro de 1804, manteve a jurisdição sobre os graus 4 a 33, com Grasse-Tilly como Grande Comandante.

Alexandre François Auguste, Conde de Grasse-Tilly
Alexandre François Auguste, Conde de Grasse-Tilly

Mas em 21 de Julho de 1805, o Grande Oriente de França criou um Grande Directório de Ritos, que começou a conferir o 33º grau do Rito Escocês Antigo Aceite, em violação da concordata de 1804, o que foi imediatamente denunciado pelo Conselho Supremo. Cambaceres interveio novamente e obteve uma fórmula de compromisso: o Grande Oriente passaria a administrar os graus de 1 a 18, e o Supremo Conselho de 19 a 33. E Cambaceres é nomeado Grande Comandante do Conselho Supremo em 1806. A Maçonaria francesa estava agora completamente nas mãos do poder imperial.

O Grande Oriente de França não era completamente livre sob o Império, porque servia os interesses e a glória do Imperador, não sem bajulação, aliás. Mas era particularmente florescente nessa altura: se em 1800 havia apenas 74 Lojas, o seu número já tinha aumentado para 300 no final do Consulado em 1804, e quando Napoleão abdicou em 1814, havia 1219, incluindo 69 Lojas militares, que tinham ajudado a difundir as ideias da Revolução nos países ocupados.

É sobretudo digno de nota a grande transformação que o Grande Oriente de França sofreu durante os acontecimentos da Revolução, da qual a burguesia saiu grande vencedora. Antes de 1789, estava nas mãos da aristocracia progressista, embora uma corrente burguesa conservadora se afirmasse cada vez mais. No final do Império, a maioria dos seus membros eram burgueses, artesãos e funcionários públicos, tendencialmente progressistas e liberais, enquanto os aristocratas (incluindo a nova nobreza do Império), que se tinham tornado mais conservadores, preferiam o Conselho Supremo.

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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