Grande Priorado Rectificado de França: A crise (continuação e fim?)
Alegações de falsificação de documentos, intimidações e demissões em cascata
Na sequência do nosso artigo de 12 de Setembro de 2025 intitulado “Crise no Grande Priorado Rectificado de França: uma governação em causa e a IA no centro do conflito”, que destacava as tensões internas no Grande Priorado Rectificado de França (GPRF) e no Directório Nacional das Lojas Escocesas Rectificadas de França (DNLERF) – duas jurisdições amigas da Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) -, nomeadamente em torno da utilização controversa da inteligência artificial para a redacção de textos doutrinários e cartas de protesto assinadas por Jacques Bourbasquet-Pichard, antigo Grande Inspector, e Patrick Meneghetti – Guardiões dos Selos com o cargo de Assistente do Grão-Mestre -, recebemos uma nova série de documentos anónimos.
Estes elementos, enviados em Setembro de 2025 por um endereço de e-mail em proton.me, aprofundam as acusações de disfunções autoritárias e revelam factos graves envolvendo supostas falsificações e pressões sobre membros-chave da Ordem.
Esta segunda onda de informações, dirigida a um vasto público dentro da Ordem e intitulada “Mentiras e Derrapagens n° 2 – Novas informações”, dirige-se directamente aos “Amados Irmãos Mestres Escoceses de Santo André”. Denuncia uma “derrapagem autoritária” dentro da direcção.
Estes documentos implicam o Deputado Mestre Geral (DMG) Herland Barrières, acusado de ter utilizado fraudulentamente a assinatura e o nome do Grande Secretário Nacional, François Chapel, num contexto de adiamento sine die da fusão entre a DNLERF e a GPRF – um projecto, no entanto, validado por unanimidade pelas instâncias competentes em Maio de 2025.
Os factos alegados: uma assinatura falsificada e uma “falsificação de documentos”.
No centro destas revelações está a acta da reunião do Conselho de Administração (CA) do DNLERF de 6 de Julho de 2025. Este documento, que anuncia a suspensão provisória do processo de fusão por motivos de “clima nocivo” e impossibilidade técnica relacionada com o site Praxis (gerido por Herland Barrières), tem as assinaturas de Herland Barrières (Presidente) e François Chapel (Secretário). No entanto, de acordo com os documentos fornecidos, François Chapel não redigiu nem validou este texto, e a sua assinatura aparece invertida (de cima para baixo e da direita para a esquerda), como demonstra uma comparação com a sua assinatura autêntica noutra acta.
Numa “Exposição dos factos” detalhada, François Chapel explica o desenrolar dos acontecimentos:
- Em 26 de Maio de 2025, o Conselho Nacional aprova por unanimidade o tratado de fusão e os novos estatutos.
- A 6 de Julho de 2025, um CA “de emergência” decide adiar a fusão sem motivos documentados.
- A 7 de Julho de 2025, é enviado um e-mail com a acta aos membros do Conselho de Administração, assinado por “O secretário François Chapel”, mas proveniente de um endereço genérico (nepasrepondre@dnlerf-praxis.fr), sem que Chapel seja o seu autor.
Chapel qualifica esses actos como “falhas graves”, evocando uma potencial “falsificação de documentos” e uma “usurpação de identidade” na acepção do artigo 226-4-1 do Código Penal. Ele especifica que nunca autorizou o uso da sua assinatura electrónica sem validação prévia, contradizendo as afirmações de Herland Barrières que, num e-mail de 31 de Agosto de 2025, invoca um “acordo recíproco” para agilizar os procedimentos administrativos em caso de problemas com a internet.
As capturas de ecrã anexadas ilustram estas irregularidades: uma mostra a acta do Conselho de Administração com as assinaturas invertidas; outra, o e-mail falsificado; e uma terceira, uma observação de François Chapel salientando que a sua assinatura original (da acta de 26 de Maio) foi manipulada.
Pressões e pedido de demissão: uma lógica de intimidação?
Em resposta à divulgação por François Chapel de uma “precisão” sobre a acta de 7 de Julho, enviada em 28 de Agosto de 2025 aos membros do Conselho Nacional, Herland Barrières exige a sua demissão. No seu e-mail de 31 de Agosto, ele acusa Chapel de violação da confidencialidade e do RGPD (Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados), ao mesmo tempo que afirma ter usado a assinatura de Chapel com o seu consentimento. Ele conclui:
“A sua demissão é necessária e agradeço que a envie por correio, sem necessidade de justificação.”
François Chapel respondeu em 1 de Setembro de 2025 num e-mail aos membros do Conselho Nacional, negando qualquer acordo implícito sem validação e salientando que o artigo 13.° dos Estatutos Civis exige apenas a assinatura do Presidente para as actas. Ele denuncia uma “operação de diversão” e recusa-se a se demitir, argumentando que o seu papel de “denunciante” é legítimo para proteger a associação de um risco jurídico.
O e-mail anónimo acusa Herland Barrières de assédio e represálias, transformando sanções disciplinares em ferramentas de intimidação. Além disso, o acesso de François Chapel à plataforma Praxis (DNLERF e GPRF) foi revogado arbitrariamente por Barrières, que detém o controlo exclusivo, constituindo um “abuso de poder”, segundo os denunciantes.
Um e-mail intermediário de Chapel a Philippe Dubourget (Grão-Prior do GPRF) em 28 de Julho de 2025 já expressa as suas dúvidas sobre o adiamento da fusão, questionando a natureza e as “dificuldades” não especificadas e defendendo a transparência para com os membros.
Uma demissão bombástica: a de Jean-François Rossi
Estas revelações provocaram uma onda de choque, culminando com a demissão do Muito Respeitável Irmão Jean-François Rossi, Grande Orador do DNLERF. Num texto citado na íntegra no e-mail anónimo, Rossi denuncia “manobras fraudulentas, acusações, usurpação de identidade e outras fraudes” no seio do Conselho de Administração, qualificando o clima de “quase ditatorial”. Ele critica a “busca patética por bugigangas” e recusa-se a apoiar uma “simulação lamentável”:
“Na sequência das várias cartas recebidas nos últimos dias (Patrick Meneghetti, Jacques Bourbasquet-Pichard e, por último, mas não menos importante, as de François Chapel), é agora do conhecimento de todos que se tramam coisas no seio do Conselho Directivo, coisas que pouco têm a ver com aquilo que nos deveria reunir. E o que deveria, além disso, questionar-nos sobre a respeitabilidade efectiva do título “Muito Respeitável”.
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O ego inflado é certamente condenável, mas, no entanto, frequente, e temos de nos conformar com isso enquanto esperamos poder ajudar as vítimas a resolvê-lo através da famosa “persuasão suave”.
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Por outro lado, manobras fraudulentas, acusações, usurpação de identidade e outros tipos de engano são inaceitáveis. Manobras acompanhadas de supostas sanções disciplinares (provenientes de uma autoridade sem valor, escusado será dizer…), de ordens de demissão, como se a demissão pudesse ser forçada, quando na verdade apenas demonstra a liberdade daquele que toma essa decisão… No que me diz respeito, não quero mais ser testemunha deste bric-à-brac quase ditatorial, ainda mais dentro de uma Ordem cuja vocação originalmente iniciática há muito foi enterrada sob a busca patética por bugigangas, condecorações vazias de sentido e medalhas de chocolate… Ordem na qual alguns estão mesmo dispostos a recorrer a todos os extremos pela simples ideia de que poderiam perder essas famosas distinções, distinções que, claro, têm apenas o nome… É tragicómico… de morrer de rir ou triste de chorar (riscar o que não interessa). Felizmente, o famoso segredo maçónico ainda nos protege do escárnio geral; é imperativo preservá-lo!
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Em suma, não pretendo mais apoiar esta lamentável farsa de forma alguma. Uma delas consistiria em continuar a participar no Conselho de Administração do Directório. Sendo membro pelo simples facto do meu cargo de Grande Orador, vejo- me, com grande pesar e enquanto espero por algo melhor, na obrigação de renunciar a este cargo.
Jean-François Rossi
Grande Orador do DNLERF. Demissionário.
Esta demissão ilustra a amplitude da divisão, ligando estes novos factos às críticas anteriores sobre a opacidade e o autoritarismo evocadas no nosso primeiro artigo.
Implicações e perspectivas: rumo a uma implosão da Ordem?
Estes documentos reforçam as alegações de inversão de papéis entre instâncias ordinais e civis, falta de transparência e abuso de poder, já apontadas por Bourbasquet-Pichard e Meneghetti. A utilização exclusiva do Praxis por Barrières levanta questões sobre o controlo dos dados e das comunicações internas, enquanto as acusações de falsificação podem ter consequências judiciais, se forem confirmadas.
Até o momento, nenhuma resposta oficial foi emitida pelo GPRF ou pelo DNLERF. Os denunciantes apelam a uma tomada de consciência colectiva para restaurar o espírito iniciático do Rito Escocês Rectificado. O Alto Conselho e o Conselho Nacional, que se devem reunir em breve, estarão sob pressão para abordar estes escândalos. Esta crise, amplificada pelas fugas anónimas, poderá marcar um ponto de não retorno para esta obediência histórica, arriscando uma cisão ou uma reforma profunda.
A 450.fm continua a acompanhar este caso e convida as partes envolvidas a contactar-nos para esclarecimentos ou direitos de resposta. Os documentos originais, recebidos anonimamente, estão disponíveis mediante solicitação para verificação, respeitando a confidencialidade das fontes.
Charles-Albert Delatour
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
