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Fundação da primeira Grande Loja

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✍️ Desconhecido 📅 20/07/2025 👁️ 0 Leituras
Stationers' Hall, grande loja
Stationers’ Hall

Rumo a uma nova cronologia

Uma análise cuidadosa das fontes disponíveis leva a repensar a data de fundação da primeira Grande Loja do mundo. Tudo parece indicar que não foi em 24 de Junho de 1717, na Taberna O Ganso e a Grelha, em Londres, mas quatro anos depois, em 24 de Junho de 1721, no Stationers’ Hall, na mesma cidade, sob o olhar da imprensa e na presença de centenas de maçons.

Na Inglaterra da segunda década do século XVIII, respirava-se uma atmosfera de transformação. A Revolução Gloriosa (1688) havia deixado para trás o absolutismo, e a monarquia parlamentar consolidava-se sob o reinado de Jorge I, o primeiro soberano da Casa de Hanôver, vindo da Alemanha. O Parlamento ganhava poder frente ao trono, e uma nova elite mercantil e ilustrada começava a moldar o rumo do país. Londres, naquela época, era uma cidade em expansão demográfica, agitada pelo comércio, pelos salões científicos e por uma vida intelectual cada vez mais secular. A Royal Society e a Society of Antiquaries promoviam debates sobre ciência, história e política, enquanto nas tabernas se discutiam livremente os temas do dia. Era, sem dúvida, um clima propício para o nascimento de uma Maçonaria especulativa moderna.

Neste contexto, esta afirmação, que pode parecer disruptiva à primeira vista, baseia-se no facto simples, mas decisivo, de que não existe qualquer evidência documental contemporânea que comprove a realização de uma reunião em 24 de Junho de 1717 que tenha sido fundacional e institucional de uma primeira Grande Loja. Nem actas, nem notas de imprensa, nem diários pessoais, nem panfletos, nem referências circunstanciais. O silêncio é absoluto. Em contraste, o ano de 1721 oferece fontes e testemunhos primários abundantes que dão conta de uma transformação real, visível e explícita na vida maçónica londrina.

O documento mais relevante a este respeito é o Livro E da Loja da Antiguidade nº 2, um manuscrito datado poucas semanas após, 24 de Junho de 1721, que registra claramente a realização de uma Grande Assembleia no Stationers’ Hall de Londres — a histórica sede do grémio de impressores, livreiros e editores construída em 1760, que ainda se conserva ao lado da catedral de São Paulo — na qual foi empossado como Grão-Mestre o Duque de Montagu, que jurou sobre a Bíblia “proteger os direitos e liberdades dos maçons, bem como os antigos registros”. Este é, até onde se sabe, o registo fiável mais antigo conhecido da existência de uma Grande Loja.

A isso somam-se os relatos publicados na imprensa londrina da época. Entre 26 e 28 de Junho de 1721, jornais como The Post Boy e The Weekly Journal descreveram extensivamente um banquete maçónico realizado no Stationers’ Hall, com a participação de 300 a 400 Irmãos. O mais relevante destas crónicas é que se referem explicitamente à existência de uma “Grande Loja”, o que sugere que, nessa altura, a instituição já tinha adoptado uma configuração pública e estruturada.

Outros testemunhos contemporâneos reforçam esta interpretação. William Stukeley, membro da Royal Society e figura proeminente nos círculos ilustrados da sua época, registou no seu diário pessoal a realização do banquete, o discurso proferido por John Theophilus Desaguliers, a leitura de um manuscrito antigo e a eleição do Duque de Montagu como Grão-Mestre. O próprio Desaguliers, nas suas notas pessoais, descreveu em detalhe o cortejo, a cerimónia e a formalização dos cargos. Nenhum deles fez qualquer alusão a uma reunião fundacional em 1717.

Os historiadores Andrew Prescott e Susan Sommers, ligados à Loja de Investigação Quatuor Coronati nº 2076, foram enfáticos a esse respeito: “não existe qualquer testemunho contemporâneo de uma Grande Loja entre 1717 e 1721”. É a partir de Junho de 1721 que aparecem, de forma simultânea e coerente, várias fontes independentes que descrevem uma organização formalizada, com estrutura hierárquica, visibilidade pública e liderança definida.

Embora seja verdade que na segunda edição das Constituições de James Anderson (1738) é mencionado um banquete celebrado em 24 de Junho de 1717 na taberna O Ganso e da Grelha, também é preciso notar que se trata de uma fonte escrita mais de duas décadas depois, sem respaldo documental contemporâneo e sem testemunhas que corroborem o seu relato. Em contrapartida, o Livro E de 1721 representa uma fonte de muito maior peso histórico e credibilidade.

Portanto, se os factos forem examinados com rigor crítico, tudo parece indicar que a institucionalização efectiva da primeira Grande Loja ocorreu em 1721, e não em 1717. Seria então que teria ocorrido a transição, documentada e pública, de uma Maçonaria dispersa em Lojas isoladas para uma estrutura centralizada com vocação de regulamentação e permanência. E essa transição marcaria o início de uma nova etapa, caracterizada pela racionalização dos antigos usos, pela adopção de formas representativas e pela projecção pública.

Embora a ausência de evidência não seja evidência de ausência, estabelecer com precisão esta cronologia constitui uma reivindicação do método histórico, da documentação contrastável e do espírito iluminista que animaram o nascimento da modernidade maçónica na Londres das primeiras décadas do século XVIII.

A data de 1721, por ser apoiada por documentos e testemunhos claros, proporciona um prestígio social mais sólido e palpável do que a reunião de 1717, que parece mais uma construção simbólica que serviu para dar identidade à Maçonaria. Mas compreender isto não significa desvalorizar o relato de Anderson, mas aceitar que na Maçonaria a história, o mito e o símbolo se entrelaçam para sustentar o seu sentido profundo e a sua força social.

Parece-me que devemos abraçar a dualidade de respeitar o rigor histórico sem perder de vista a função vital que os mitos desempenham, porque nessa tensão está também a riqueza do nosso legado. Somente a partir dessa compreensão aberta poderemos honrar verdadeiramente o legado que nos foi confiado.

Iván Herrera Michel

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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