Filosofia Iniciática do Grau de Aprendiz (II)
(Continuação da Parte I)
As duas colunas
As duas colunas que se encontram no ocidente e à entrada do Templo da Sabedoria são o símbolo do aspecto dual de toda a nossa experiência no mundo objectivo ou Reino das Sensações.
Representam os dois princípios complementares humanizados nos nossos dois olhos, na dualidade manifestada em quase todos os nossos órgãos, nos dois lados, direito e esquerdo, do nosso organismo, e nos dois sexos que se integram à espécie humana e se reflectem em todos os reinos da vida e da natureza.
Cosmicamente correspondem aos dois Princípios da Actividade e da Inércia, da Energia e da Matéria, da Essência e da Substância, representados pelo enxofre e o Sal na câmara de reflexões e, metafisicamente, pelos dois aspectos masculino e feminino da Divindade, que como Pai e Mãe Celestes, como deuses e deusas, nos seus aspectos particulares, encontram-se praticamente em todas as religiões.
O reconhecimento individual da Divindade, sob o aspecto de Pai ou de Mãe, parece ter sido instintivo onde queira que a religião tenha sido efectivamente vivida. Foi sempre mais fácil estabelecer aquela relação individual com a Divindade, revelada pela primeira pergunta do testamento Maçónico, considerando-a como um Princípio Abstracto, afastado da nossa percepção e experiência directa, que faz exclamar às almas mais simples, como a Madalena: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram”.
O Princípio de Vida, é pois, em nós, nosso Pai e nossa Mãe, e o Pai-Mãe do Universo e de todos os seres. Algumas religiões dão mais importância a um do que a outro destes aspectos, na realidade complementares e inseparáveis da Realidade Única. Não é este o local mais apropriado para se fazer um estudo mais detalhado sobre este interessantíssimo tema, e contentar-nos-emos com transcrever, sobre o valor da preferência de um ou de outro conceito, as palavras de um culto e sábio orientalista contemporâneo: “O Pai e a Mãe não brigam entre si (pela adoração ou reconhecimento interior de um ou do outro), ainda que os seus filhos possam fazê-lo.
Espaço e tempo
No que diz respeito ao domínio do manifestado, o Macrocosmo, as mesmas duas colunas podem considerar-se como símbolos do espaço e do tempo, ou seja, das duas realidades fundamentais nas quais parece ter sido fundamentado e baseado o Universo que conhecemos.
Espaço e Tempo, da mesma que Energia e Matéria, são as realidades finais que a ciência positiva admite como condições indispensáveis de toda existência física, fazendo abstracção das quais nada do que existe e é objectivamente percebido, poderá ser concebido. Ainda que na teoria einsteiniana se unifiquem (fazendo do tempo uma quarta dimensão do espaço) e se trate de pôr em evidência a sua relatividade, seguem constituindo os alicerces inalteráveis, o marco primordial e o pressuposto relativamente invariável do nosso Templo Cósmico.
Como a dualidade não é, em verdade, nada mais do que a soma dos dois aspectos complementares de um Princípio Único, ao qual revelam objectivamente, e do qual expressam respectivamente a Imanência e a Transição, o Espaço é, pois, no fundo, um só aspecto relativo do Ser, que tudo contém e compreende, pelo facto de que tudo é , e o Tempo é outro aspecto desta Suprema Realidade considerada como o dinâmico manancial do Grande Fluxo Cósmico.
Se quisermos considerar o Tempo e o Espaço como um só elemento conservador, por assim dizer, de toda manifestação objectiva, teremos no Tempo-Espaço uma das duas colunas da Dualidade básica do Templo da Natureza, sendo a integral Energia-Matéria a outra coluna ou elemento que constitui a soma de todas as forças ou aparências que agem, se assentam ou se estabelecem dentro do primeiro elemento.
De qualquer forma, considerando o universo e os seus elementos formadores, não nos será possível evitar um conceito fundamentalmente dual desses primeiros elementos. Podemos reduzir o Templo ao Espaço, considerando-o como um aspecto deste, e a Matéria à Energia (ou reciprocamente), mas, se quisermos chegar à unidade, temos de transcendê-los a ambos, e nenhum outro elemento poderá constituir a síntese suprema fora do próprio Ser que tudo é, e constitui a Unidade de Tudo.
Uma vez que o aspecto dual do Universo e do Primeiro Princípio que o origina encontra-se com as duas colunas no Ocidente e à entrada do Místico Templo da verdadeira Ciência, é natural que este aspecto deva ser superado. Realmente, no Oriente, as duas colunas (representadas pelo Sol e a Lua) unificam-se no Delta, do qual falaremos mais adiante, assim como o enxofre e o sal sintetizam-se no mercúrio, que reintegra na consciência do homem a Unidade da Vida, dividida na manifestação.
O ângulo
O ângulo, no qual duas linhas diferentes partem de um único ponto originário, divergindo ao prolongar-se à medida em que se afastam da sua origem, representa outra imagem característica da dualidade, proveniente de uma unidade pré antinómica e imanente, na qual está a sua origem e a sua raiz.
O ponto central no qual se unem e do qual partem as duas linhas divergentes, corresponde ao Oriente, o Mundo da Realidade, no qual tudo permanece no estado da Unidade Indiferenciada e Indivisível. A parte oposta corresponde ao Ocidente, o domínio da realidade sensível, na qual a própria Realidade Transcendente aparece dividida ou separada nos dois princípios simbolizados pelas duas colunas.
Enquanto a manifestação emana constantemente do Oriente ao Ocidente, ou seja, do domínio da Realidade ao da aparência, da Essência à Substância, do Ser à forma e do Espírito à matéria, o conhecimento ou progresso iniciático, representado pela Luz Maçónica, caminha em sentido contrário, do Ocidente ao Oriente ou seja, desde os extremos do ângulo em direcção à sua origem. (Perceba-se aqui, o estreito parentesco existente entre as palavras oriente e origem, ambas derivadas do verbo latino orior, “surgir, emanar, levantar-se”)
O esquadro e o compasso
O esquadro e o compasso, separados ou unidos na forma conhecida e usada como símbolo Maçónico, formam dois diferentes ângulos, um móvel e com o vértice voltado para cima ou para o Ocidente.
O ângulo recto, formado pelo esquadro, é o emblema da fixidez, estabilidade e aparente inexorabilidade das Leis Físicas que governam o Reino do Ocidente ou da Matéria. Os dois princípios ou lados que concorrem a defini-lo encontram-se sempre à mesma distância angular de 90 graus, que corresponde à quarta parte da circunferência (que, de per si, representa a Unidade dentro do ciclo da continuidade) e ao ângulo do quadrado. O esquadro é, pois, outro símbolo da crucificação da qual deve libertar-se rectificando e dirigindo para o centro todos os seus esforços.
O ângulo recto é também, o símbolo da luta, dos contrastes e das oposições que reinam no mundo sensível, de todas as desarmonias exteriores, que devem ser enfrentadas e resolvidas na Harmonia que provém do reconhecimento da unidade interior. O compasso é o símbolo deste reconhecimento e desta harmonia, que deve unir-se ao esquadro e dominar o mundo objectivo por meio da compreensão de uma Lei e de uma Realidade Superior. Por intermédio do seu ângulo de 60 graus, no qual está ordinariamente disposto (o ângulo do triângulo equilátero), mostra o ternário superior que deve dominar sobre o quaternário inferior, ou seja, o perfeito domínio do Céu sobre a Terra.
O céu e a terra
O céu e a terra, indicados emblematicamente pelo esquadro e o compasso, e entrelaçados da mesma forma um com o outro, por serem aspectos respectivamente superior e inferior de uma mesma coisa, não representam nada mais que o Oriente e o Ocidente, com os quais já nos familiarizamos interpretando o valor esotérico da Cerimónia de Iniciação.
O Céu, ou seja o Mundo da Realidade Transcendente, apresenta-se à nossa consciência através do uso do compasso ou da faculdade compreensiva e comparativa da mente que conduz ao estudo das analogias, à indução e generalização das ideias, com as quais chega-se progressivamente do relativo ao absoluto.
A Terra, ou seja o Mundo da Aparência ou Realidade Objectiva, apresenta-se igualmente por meio do esquadro da razão, ou inteligência concreta e racional, que marca os limites fixados pelas suas leis, por meio da lógica e do juízo, com um determinismo do qual aparentemente não podemos escapar.
Entretanto, o Caminho da Liberdade encontra-se aqui mesmo, por meio do uso destas leis no seu aspecto progressista e construtivo conforme as nossas aspirações verticais, indicadas pelo prumo.
Cabe aqui citar outra vez o axioma hermético ao qual fizermos referência quando falamos da “câmara de reflexões”: visita interiora terrae retificando invenies occultum lapidem. Devemos adentrar à realidade do próprio mundo objectivo, e não contentar-nos com o seu estudo ou exame puramente exterior. Então, rectificando constantemente a nossa visão e os esforços da nossa inteligência (como demonstra a cuidadosa rectidão dos três passos da marcha do Aprendiz) atingiremos o uso do compasso em união com o esquadro, ou seja, o conhecimento da Verdade que nos liberta da ilusão.
As linhas paralelas
Assim como o ponto com o seu movimento directo engendra uma linha recta, assim também os dois pontos, movendo-se numa mesma direcção rectilínea, produzem as duas paralelas, símbolo característico da dualidade, ou seja, dos dois princípios cuja actividade ocorre paralela e complementarmente, à imagem dos pares de rodas que suportam um veículo e dos trilhos sobre os quais se apoiam.
Voltaremos a ver novamente este símbolo da paralelas, e outros aos quais aqui temos feito referência sumária, no grau de Mestre, limitando-nos por ora a dizer mais alguma coisa sobre o que eles podem significar para o Aprendiz.
Duas paralelas são efectivamente os dois Caminhos do Norte e do Sul, que são percorridos nas viagens de ida e volta entre o Ocidente e o Oriente, e correspondem às duas colunas nas quais se assentam respectivamente os Aprendizes e os Companheiros. O quadrilongo que constitui o Templo Maçónico, está compreendido entre estas duas paralelas, delimitadas respectivamente pelos seus extremos oriental e ocidental.
Cada viagem de ida, ou progresso, do Ocidente, ao Oriente, corresponde pois a uma idêntica viagem de volta ou regresso, desde o Oriente ao Ocidente, paralelo este ao primeiro, mas dirigido em sentido inverso.
Os dois caminhos paralelos dos quais acabamos de falar não existem tão só simbolicamente dentro do quadrilongo da Loja, senão que também podem-se observar de muitas maneiras sobre o nosso próprio planeta. Por exemplo, como correntes magnéticas que vão respectivamente do Oriente para o Ocidente e reciprocamente, produzidas pelo movimento da terra dentro do campo magnético determinado pela radiação solar, às quais se devem os desvios da bússola.
Assim agem todas as; forças do Universo, segundo a Lei da Dualidade, paralelamente, mas em sentido inverso uma em relação à outra, prevalecendo por um lado o movimento centrífugo ou de extensão do interior ao exterior, e pelo outro, o movimento centrípeto de construção, do exterior ao interior. Este origina a gravidade, aquele a gravitação, duas formas diferentes da Força ou Princípio de Atracção.
Aquilo que é activo interiormente é passivo exteriormente, e vice-versa. Assim deve-se entender o valor das duas colunas, geralmente confundido e mal interpretado pela falta de compreensão desta Lei de Compensação, em consequência da qual ambos princípios (activo e passivo) se acham presentes em cada um dos dois aspectos, mas agindo em sentido inverso, um em relação ao outro.
O binário
A actividade em duas correntes ou sentidos inversos dos dois Princípios, comparável ao fluxo e refluxo das marés, origina os pares de opostos que se observam onde quer que seja no mundo fenoménico ou exterior, como ocorre na experiência psicológica ou interior.
Assim, a Luz, emanação activa e positiva, efeito do movimento centrífugo ou expansivo, opõe-se às trevas, que podem considerar-se como falta de luz ou luz negativa, efeito de um movimento centrípeto ou de absorção, do exterior ao interior. A primeira tem, pois, uma correspondência moral com a Sabedoria, o Amor e o Altruísmo, que é o desejo de dar; a segunda relaciona-se com a Ignorância, a Paixão e o Egoísmo, que é o desejo e a vontade de receber.
O mesmo pode ser dito do calor e do frio. O primeiro faz dilatar os corpos e os conduz a superar as suas limitações moleculares, do estado, sólido ao líquido, e deste ao gasoso, e do gasoso ao estado radiante, libertando os átomos progressivamente da sua escravidão dentro das moléculas, assim como da lei da Gravidade. Enquanto o segundo, fazendo voltar ao estado líquido os gases e solidificando os líquidos, sujeita-os sempre mais estreitamente a uma forma definida, limitando as suas possibilidades de movimento.
No campo moral, o calor tem uma evidente analogia com o entusiasmo, ou chama interior que nos inflama para qualquer tentativa que seja expressão do nosso ser e dos nossos íntimos desejos. Por seu lado, o frio está constituído pelas considerações materiais e o poder da ilusão que limitam, paralisam, escravizam e entorpecem os nossos esforços.
O mesmo pode ser dito no plano físico, da electricidade positiva e negativa, das acções e reacções moleculares, das duas propriedades opostas da actividade e da inércia, da afinidade química que age em ambos os sentidos, e dos diferentes tropismos visíveis tanto no mundo orgânico como no inorgânico, e no mundo moral, dos diferentes impulsos que nos animam, dos nossos pensamentos e inclinações positivas e negativas, e que nos fazem, respectivamente, activos e passivos.
O Bem e o Mal, a Beleza e a Feiura, a Vida e a Morte, a Fortuna e a Desgraça, a Verdade e o Erro, o Vício e a Virtude; heis aqui outros tantos pares de opostos que dominam no mundo relativo, sendo relativos do ponto de vista da consciência em que se consideram, existindo cada um deles unicamente em relação ao outro, e dissolvendo-se todos na diáfana perfeição do Absoluto.
Estes pares de opostos estão simbolizados pelos quadrados brancos e negros do pavimento de mosaico que parte das duas colunas. O eterno conflito, que parece constituir a mesma essência da vida, tem sido simbolizado pelas diferentes religiões na luta entre os dois Princípios do Bem e do Mal; o Deus Branco e o Deus Negro, Princípio da Vida e o da Actividade, Brahma o Criador e Shiva o destruidor, Ormuz o Princípio da Luz e Arimán o Princípio das Trevas, Zeus e Cronos ou Júpiter e Saturno, Jehova e Satã, Osíris e Tífon entre os egípcios, Baal e Moloc entre os fenícios.
Deuses brancos e deuses negros, ou anjos e demónios, existem praticamente em todas as religiões, símbolos evidentes do impulso evolutivo e progressista das aspirações superiores do homem e da inércia ou gravidade dos instintos e tendências inferiores. Assim pois, o Armageddon ou batalha celeste entre os espíritos da Luz e os espíritos das trevas, ou seja entre as Forças Evolutivas e Libertadoras e as Forças Involutivas e Escravizadoras, é uma realidade psicológica universal de todos os tempos.
Mas não é menos certo que as duas forças opostas, os dois princípios que aparecem constantemente travando uma luta encarniçada, são dois diferentes aspectos ou manifestações de uma única e mesma Realidade, cujo reconhecimento faz-nos superar o ponto de vista da luta e do conflito, e situa-nos no ponto central da Harmonia que de tudo faz uma Coisa Única.
Diabolus est inversus Dei: não é uma realidade em si mesma, mas um aspecto ou contraparte negativa da manifestação positiva da única Realidade. O conflito entre o Bem e o Mal e o poder deste sobre nós cessam quando reconhecemos aquilo como sendo a única Realidade e o único Poder, e nisto vemos tão somente uma aparência ilusória desprovida de realidade e poder verdadeiros.
O ternário
Todo par de elementos ou princípios opostos e complementares encontra um terceiro elemento, o intermediário equilibrante ou Princípio de Harmonia, reflexo no mundo do relativo da Unidade Pré antinómica originária.
Assim cessa o conflito dos dois opostos e a dualidade faz-se fecunda e se resolve em impulso evolutivo, construtivo e progressista.
O Pai e a Mãe engendram o Filho, Osíris e Isis engendram a Horus, e o Enxofre e o Sal produzem o Mercúrio; Vishnu, o Conservador, posiciona-se entre Brahma o Criador e Shiva o Destruidor; a Arquitrave levanta-se sobre as duas colunas e origina a Porta; o Homem, ou seja, a Criatura Perfeita, nasce da união do Céu e da Terra, realizando a mística união e a expressão do Superior com o Inferior.
2 + 1 = 3
Todo Ternário resulta de uma Dualidade, à qual se lhe agrega uma nova Unidade do mesmo género, que pode considerar-se como a resultante da união dos elementos constitutivos do Binário ou Dualidade. Assim, por exemplo, toda vez que nos esforçamos em unir os dois lados ou linhas divergentes do ângulo por meio de uma linha horizontal, obtemos como resultado um triângulo, isto é, a primeira e mais simples das figuras geométricas.
No caso das ideias, a Verdade encontra-se uma vez examinada a tese e a antítese, os prós e os contras sobre determinado assunto, que nos conduz à solução do problema que nos ocupa, com a síntese dos argumentos favoráveis e dos contrários.
O esquadro, que é um dos símbolos fundamentais da nossa Instituição, nasce da união da perpendicular com o nível. O mesmo se pode dizer do malhete, que não é outra coisa senão o Tau dos antigos iniciados, e o mesmo igualmente da cruz formada pela união de uma linha vertical com uma horizontal.
Nos três casos, a vertical é o símbolo do Princípio Activo ou masculino, que corresponde ao enxofre dos alquimistas e pode considerar-se como o Pai do Universo; a horizontal representa analogamente o Princípio Passivo ou feminino, o sal dos alquimistas, ou seja a Mãe do Universo. E a união dos dois, forma um novo elemento ou Princípio que torna fecundas e construtivas as possibilidades dos dois primeiros, realizando a Harmonia e originando o Ritmo e o Movimento.
Isto resulta evidentemente pela suástica, ou cruz em movimento, símbolo muito antigo e universal, que representa a Vida que anima os quatro elementos, nascidos da união dos dois elementos primordiais na cruz.
A vida representada pela suástica é o mesmo mercúrio dos filósofos, ou seja o Filho do Pai e da Mãe celestiais.
Outros significados do Tau e da Cruz dizem respeito a graus diferentes do de Aprendiz, e deles falaremos oportunamente.
Maxell Egens
(Continua na Parte III)
