Desafios do Maçom na sociedade contemporânea
Contexto actual da sociedade
Os trabalhos de Silva (2012),Teixeira, P. G. et al. (2022) e Turin (2022) desenvolvem reflexões sobre a sociedade contemporânea, que enfrenta desafios decorrentes do avanço tecnológico e da necessidade permanente de adaptação a novos hábitos, comportamentos e costumes. A conexão contínua, o excesso de trabalho e de informações, o imediatismo e o enfraquecimento das relações humanas têm contribuído para uma vida marcada pela pressa, pelo cansaço e pela dificuldade de contemplação, reflexão e interiorização. O indivíduo contemporâneo tende a valorizar a rapidez, a produtividade e a satisfação imediata, muitas vezes deixando em segundo plano a relação consigo mesmo, com o outro, com a natureza e com o sentido mais profundo da existência. As plataformas digitais também podem intensificar esse cenário ao favorecer a formação de bolhas de informação, reforçar crenças preexistentes e ampliar a polarização. A velocidade da comunicação nem sempre é acompanhada pela disposição para ouvir, compreender e dialogar com quem pensa de maneira diferente. Nesse ambiente, torna-se necessário reflectir criticamente sobre a relação entre o progresso tecnológico e as necessidades humanas, procurando preservar o equilíbrio entre inovação e humanização, produtividade e contemplação, conectividade e convivência, conhecimento e sabedoria. Mais do que acompanhar as transformações do mundo, é necessário saber como viver nele sem perder aquilo que nos torna verdadeiramente humanos.
O Maçom e o seu comportamento na sociedade
Diante desse contexto, cabe ao Maçom assumir uma postura consciente de aperfeiçoamento interior e de responsabilidade perante a sociedade. A Maçonaria não propõe o afastamento do mundo, mas o aperfeiçoamento do homem para que possa actuar nele de maneira mais equilibrada, fraterna e construtiva. Nesse sentido, quatro virtudes comportamentais podem assumir especial importância na vida contemporânea: tolerância, paciência, serenidade e gratidão. Elas constituem quatro formas complementares de relacionamento: com o outro, com o tempo, consigo mesmo e com a própria vida e com o seu Criador.
Tolerância – respeitar o outro
Tolerância é a disposição de respeitar opiniões, crenças, comportamentos e culturas diferentes dos nossos, mesmo quando deles discordamos. Para Marques (2001, p. 129) “Ser tolerante implica que se aceite que os outros pensem de maneira diferente de nós, sem por isso os odiarmos”. Ser tolerante não significa concordar com tudo, renunciar aos próprios princípios ou considerar todas as ideias igualmente válidas. Significa reconhecer que o outro tem o direito de pensar e se expressar de maneira diferente, desde que sejam respeitados os limites da convivência, da dignidade humana e da lei. A tolerância, portanto, não é passividade. Podemos discordar, questionar, argumentar e até mesmo corrigir quando necessário, mas sem transformar a divergência em hostilidade ou agressão. Numa sociedade marcada pela polarização, a tolerância torna-se condição essencial para o diálogo e para a convivência. O Maçom deve aprender a discordar sem desrespeitar, argumentar sem agredir e ouvir sem preconceito. A tolerância é, assim, uma forma de reconhecer no outro um semelhante, apesar das diferenças.
Paciência – respeitar o tempo
Paciência não significa simplesmente esperar. De acordo com o verbete “Paciência” (2026) é a capacidade de suportar incómodos e dificuldades de toda ordem, em diferentes circunstâncias. É um comportamento activo de autocontrole, resiliência e clareza mental diante das adversidades, das incertezas e dos acontecimentos que não se podem controlar. Numa época dominada pela velocidade e pelo imediatismo, ter paciência significa saber interromper a impulsividade, dar tempo à reflexão e evitar decisões precipitadas. A paciência permite analisar os riscos, compreender a origem dos problemas e escolher o melhor caminho antes de agir. Também ensina que determinados acontecimentos precisam de tempo para amadurecer: ideias, decisões, relacionamentos e até mesmo o próprio processo de transformação. Ser paciente não significa ser passivo ou resignado. Significa aceitar aquilo que não se pode controlar e agir com sabedoria sobre aquilo que se pode transformar. Diante da doença, do sofrimento, das perdas e das situações que escapam à nossa vontade, a paciência ajuda a preservar o equilíbrio e a extrair das experiências difíceis ensinamentos para o aperfeiçoamento pessoal. O Maçom deve compreender que a construção de uma obra sólida exige tempo. Assim como a pedra bruta não se transforma de uma só vez, o aperfeiçoamento humano também é um processo gradual.
Serenidade – governar a si mesmo
Para Fraiman (1991, p. 40), “A serenidade é a condição de um senso de realização pessoal, de certeza de haver realizado o melhor de si mesmo, dentro das condições possíveis”. Serenidade é um estado interior de equilíbrio, clareza e domínio de si que permite enfrentar pressões, conflitos e adversidades sem ser dominado pelas emoções. Não significa ausência de sentimentos. Ao contrário, a pessoa serena reconhece as suas emoções, mas não permite que elas determinem impulsivamente as suas palavras e acções. A serenidade é uma força consciente que permite processar emoções intensas sem ser governado por elas. Diante de uma provocação, por exemplo, responder imediatamente pode ampliar o conflito. A serenidade cria um espaço entre o estímulo e a resposta, permitindo escolher conscientemente como agir. Por isso, diante da agressividade, a serenidade pode retirar força do conflito. A discussão perde intensidade quando uma das partes deixa de alimentar a escalada emocional. Ser sereno é também saber expressar necessidades, limites e opiniões de maneira respeitosa e firme. É focar no problema, e não atacar a pessoa. A serenidade favorece a empatia, transmite segurança e contribui para a resolução dos conflitos. Segundo Gracián y Morales (2018, p. 37), ter serenidade é evidenciar prudência. Para o Maçom, representa uma importante manifestação do domínio de si mesmo: antes de procurar transformar o mundo exterior, é necessário aprender a governar o próprio mundo interior.
Gratidão – reconhecer o dom da vida
Gratidão é a disposição interior de reconhecer o bem recebido e valorizar aquilo que a vida oferece. Agradecer é mais do que pronunciar palavras de reconhecimento; a gratidão é uma atitude diante da existência. Para o Maçom, essa atitude encontra uma dimensão espiritual no reconhecimento do Grande Arquitecto do Universo, a quem agradece não apenas quando tudo está bem, mas também pela força, pela sabedoria e pelas oportunidades de aprendizagem encontradas nas dificuldades. Segundo Grün (2022, p. 46), “Vivencio Deus como um escudo de protecção, impedindo que as agressões me atinjam e me protegendo”. Isso não significa agradecer pelo sofrimento em si. Significa procurar, mesmo diante da adversidade, compreender o que ela pode ensinar, que sentido pode revelar e de que maneira pode contribuir para o aperfeiçoamento pessoal. A gratidão desloca a atenção daquilo que foi negado para aquilo que efectivamente se recebe. Ela combate a insatisfação permanente, favorece a humildade e lembra que grande parte daquilo que somos e possuímos resulta também da contribuição de outras pessoas e das oportunidades recebidas ao longo da vida. No simbolismo maçónico, pode-se compreender esse processo como parte da lapidação da pedra bruta: reconhecer as imperfeições, valorizar os dons recebidos e utilizá-los para construir algo melhor em si mesmo e ao redor. O bem recebido deve transformar-se em bem oferecido. A gratidão é reconhecer que a vida é um dom; agradecer é reconhecer o Doador; e viver agradecido é transformar o dom recebido em amor oferecido.
As quatro virtudes como caminho de aperfeiçoamento
Tolerância, paciência, serenidade e gratidão não são comportamentos isolados. Formam um conjunto de virtudes que pode orientar a maneira como o Maçom se posiciona diante da sociedade contemporânea.
Podemos compreendê-las como quatro respostas aos principais desafios da sociedade actual:
- Diante da diferença e da polarização, praticar a tolerância.
- Diante da pressa, da adversidade e daquilo que não podemos controlar, cultivar a
- paciência.
- Diante das pressões, provocações e conflitos, preservar a serenidade.
- Diante da vida, dos seus dons e oportunidades, exercer a gratidão.
Estas quatro virtudes estabelecem uma sequência significativa de aperfeiçoamento: respeitar o outro, respeitar o tempo, governar a si mesmo e reconhecer o dom da vida. Assim, o aperfeiçoamento maçónico não se limita à aquisição de conhecimentos ou à compreensão dos símbolos. Ele se manifesta, sobretudo, na transformação gradual da maneira de pensar, sentir e agir.
Conclusão
A sociedade contemporânea oferece extraordinárias possibilidades de conhecimento, comunicação e desenvolvimento, mas também apresenta riscos de dispersão, imediatismo, isolamento, intolerância e perda de sentido. Nesse cenário, o desafio do Maçom não é rejeitar a modernidade, mas humanizá-la por meio do seu próprio comportamento. Cabe-lhe preservar a capacidade de ouvir numa época de excesso de opiniões; esperar em uma época de imediatismo; manter o equilíbrio numa época de conflitos; e agradecer numa época marcada pela insatisfação e pelo consumo. O verdadeiro aperfeiçoamento maçónico não se revela apenas pelo conhecimento adquirido, pelas palavras pronunciadas ou pelos símbolos compreendidos, mas principalmente pela maneira como cada irmão se comporta na vida quotidiana. Assim, ao procurar lapidar a sua própria pedra bruta, o Maçom contribui também para a construção de uma sociedade mais equilibrada, fraterna e humana.
Que possamos, portanto, levar para além das paredes do Templo aquilo que nele aprendemos: tolerância para conviver, paciência para compreender, serenidade para agir e gratidão para viver.
Nicolau André de Miguel – M. I. – ARLS Estrela de Valinhos n° 942 – GLESP
Referências
- FRAIMAN, Ana Perwin. Coisas da idade. 2a ed. rev. e ampl. São Paulo: Hermes Editora e Informação S/A, 1991.
- GRACIÁN Y MORALES, Baltasar. A arte da sabedoria: edição completa com os oráculos inspiradores escritos há mais de 300 anos. Barueri, SP: Faro Editorial, 2018.
- GRÜN, Anselm; STUFE, Ansgar. Espiritualidade para tempos hostis: uma pequena farmácia da consolação. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.
- MARQUES, Ramiro. O livro das virtudes de sempre: ética para professores. São Paulo: Landy Editora, 2001.
- PACIÊNCIA. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Wikimedia, 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paciencia. Acesso em: 28 Ago. 2026.
- SILVA, Rafael Bianchi. Notas para um diagnóstico da sociedade contemporânea. Revista Espaço Académico, n. 136, p. 10-17, Set. 2012.
- TEIXEIRA, P. G. et al. A angústia existencial e as dificuldades de se relacionar com o mundo do homem contemporâneo: uma crítica filosófica. In: Anais do XI Congresso Internacional Interdisciplinar em Sociais e Humanidades: Diversidade e Resistência na Ciência: diálogos e desafios interdisciplinares sobre crises sistémicas. Marabá (PA): Unifesspa, 2022. DOI: 10.29327/1199745.11-10.
- TURIN, Rodrigo. País do futuro? Conflitos de tempos e historicidade no Brasil contemporâneo. Estudos Avançados, v. 36, n. 105, p. 85-104, 2022.
