Como encontrar os nossos “cantinhos de tempo”?
“Com organização e tempo, acha-se o segredo de fazer tudo e bem-feito”
Pitágoras
(atribuído a)
Embora em qualquer publicação as necessidades e visões pessoais, não devam ser ressaltadas, início este texto unilateralmente.
Era neófito quando, numa solenidade, conversando com Irmãos mais experientes, fui surpreendido num diálogo:
- “Qual tua profissão?”
- Médico!
- “Lamento dizer, mas médico não se adapta à Maçonaria! Não tem tempo!”
Obviamente, não tinha como contestar a experiência!
E a “falta de tempo” – ou oportunidade – para contestá-lo, acompanha-me até hoje; há praticamente 30 anos essa frase vem motivando-me!
Existem inúmeros cursos, de complexidade variada, sobre ‘gestão do tempo’, mas não é esta a questão.
Conhecemos bem uma das principais teorias que aborda as interacções entre necessidades e motivações do ser humano, estabelecendo uma hierarquia através da conhecida “Pirâmide de Maslow” [1]. Embora, saibamos que duas delas têm base mais ampla (fisiológica e segurança), outras três somadas (social, auto-estima e auto-realização), têm um importante papel nas nossas vidas, leigas e/ou maçónicas; mas esta, também não é a questão!
Paralelamente, lembramos que nos habituamos a usar, até como justificativa para os nossos interesses e motivações, a teoria das múltiplas inteligências de Howard Gardner [2]. E cada um pode valorizar e usar aquela que melhor se adaptar aos seus interesses; recordo duas relacionadas ao tema em discussão: Interpessoal (relação entre pessoas) e Intrapessoal (conhecimento de si mesmo) [3]; mas esta, ainda não é a questão!
Por não ser a questão, propositalmente, não darei foco a esses brilhantes e tradicionais conceitos.
A visão será muito pessoal e, até por isto, obviamente, o maior escopo é gerar discussão, sem qualquer intenção de ser exemplo, aconselhamento ou crítica.
Destarte, recordo e reafirmo o reconhecimento dos interesses, das dificuldades e motivações individuais em quaisquer processos onde estejamos envolvidos.
Lembro-me de um predilecto e preocupado Irmão, num tempo remoto, especialmente quando exercia a venerabilidade.
Conhecia bem meus comprometimentos profissionais directos ou indirectos, com a família e, ainda, com a Maçonaria; questionava-me, com frequência, como conseguia tempo para imaginar, planear, programar e concretizar tantas tarefas; foi quando surgiu esta expressão: “busco priorizar as minhas actividades dentro de cantinhos de tempo”; claro: uns maiores e outros menores…
Confesso que não sei a origem; se li em algum lugar e se devo reconhecer algum direito autoral; assim sendo, já deixo as minhas escusas se aqui não cito qualquer referência.
Entendo que tudo pode ser metodicamente organizado, mas priorizar determinadas tarefas, sejam quais sejam, é uma questão simples de querer fazê-las (ou não!), de estar motivado (ou não!) ou convencido (ou não!) da sua importância para aquele momento ou situação; dentro, óbvio, da assertiva de que cada indivíduo funciona de maneira única, frase ouvida e gravada em conversa sobre o tema.
Quando temos apreço, valorizamos ou priorizamos, não tanto a tarefa, mas especialmente, a quem nos solicitou ou a atribuiu, na minha crença, passa a ser prioridade máxima e isto permanece como uma meta latente martelando a minha mente. Escrevo a tarefa num postite mental e afixo, retirando-o somente quando a concluo!
Psicopatologicamente, alguns poderiam colocar outros “apelidos” a este comportamento; só não me recomendem tratamento; gosto de “sofrer” desta enfermidade.
Pensando desta forma, qualquer “cantinho de tempo” será utilizado para cumpri-la com a presteza, qualidade e confiabilidade que a minha capacidade cognitiva permita; não importa o tempo! Importa o compromisso!
Quantos “cantinhos de tempo” perdemos inutilmente durante os nossos dias, as nossas semanas, os nossos meses e os nossos anos? Especialmente, no uso das mídias electrónicas actuais? Não seria, pois, apenas uma questão básica de priorização?
Aqui, faço um “coffee break” para perguntar: procrastinar é uma forma de consumir tempo inutilmente?
Alguém já me disse isso: “inúteis são as coisas que considero para serem procrastinadas”. Perfeito! Programe a procrastinação conforme o seu interesse e esqueça conceitos como fraternidade, alteridade ou empatia em qualquer dos seus componentes – afectivo, cognitivo ou emocional.
Por que tanta dificuldade em usar o vocábulo “não” ou algum eufemismo de significado igual?
Aceito, sem qualquer modificação de parâmetros vegetativos regulados por meu sistema nervoso autónomo, quando me dizem não ter tempo para algum tipo de tarefa; ou mesmo ainda, quando o assunto, apesar de conscientizado, é ignorado e o esquecimento seja o medicamento prescrito.
Perdoem-me, mas é tão somente entender a importância de quem nos fez o pedido, substituir algum “cantinho de tempo” a ser futuramente perdido em alguma inutilidade, priorizando, não protelando ou procrastinando, dedicando-se a realizar o “fardo”, participando e prestigiando o amigo ou irmão; mesmo que, apenas “quando possível”.
Alguém mais reactivo, diria que todos sempre têm justificativas plausíveis, mas distante ser falta de carinho e/ou desconsideração; isto não poderia qualificar nossas relações. Muito bem!
Igualmente, é comum ouvir que nem todos conseguem dizer não e acabam com mais tarefas do que conseguem realizar.
Mas o que aprendemos na instituição?
Não é mais correcto, empático e fraterno dizer apenas que no momento não posso assumir determinado compromisso? E se possível e adequado, até dizer o motivo? Não estamos entre irmãos?
Por vezes, a sua resposta não é um “Não” para sempre, mas um “Não por agora”. Dizer não a uma coisa significa dizer sim a outra. Aumentamos nossa vida subtraindo [6].
“A única prudência na vida é a concentração; o único mal é a dissipação”
Ralph Waldo Emerson
(Citado em [6])
Afinal o que estamos fazendo aqui?
E esta pergunta não é só para a Maçonaria; é para o tipo vida que escolhemos viver; ou seja, em qualquer actividade a que nos dedicamos: família, profissão, lazer, organizações de qualquer natureza e etc.; relativo ao onde, voluntariamente, decidimos estar ou participar; ou ainda mesmo, actividades dentro destas actividades que decidimos “não dizer não”, porém, deixando alguém curtir a ansiedade de antecipação.
Priorizar neste contexto de múltiplas tarefas, sabemos, é muito difícil; por vezes, acabamos optando por compromissos nas relações sociais em detrimento de outras querências mais próximas, como nossa família; pensamos: “eles entenderão”! Será? Acompanha outro questionamento: não estamos demonstrando mais amor ou afecto com os outros do que com os nossos próximos?
Não há como comparar!
Não há como priorizar nada além de nossas prioridades!
Especialmente família e profissão; a instituição ensina isto!
Por isso, o assunto aqui é “cantinho de tempo”!
É substituir uma acção “inútil” por uma útil! Ou talvez seja menos invasivo falar “uma acção que pode ser protelada, por uma que não deve ser”; aí, é só estabelecermos prioridades!
Não estamos constantemente perturbando filhos e netos por acessos compulsivos à instrumentos de mídias electrónicas? Alertando para a “psicose induzida por IA” – para não citar programas específicos.
Pode até não ser importante para nós, mas, seguramente, o é para alguém; principalmente, para quem pediu; e sempre podemos usar da prerrogativa de dizer não! Com carinho; mas dizer não!
“A minha agenda é muito menos sobre o que eu quero fazer e muito mais sobre quem eu quero me tornar”
Hybel
Citado em [6]
Aceitar e esquecer são formas evolutivas de magoarmos qualquer relacionamento.
Podemos até dedicar-nos a realizar cursos de gestão de tempo, mas antes devemos priorizar as pessoas e as instituições nas suas necessidades, tendo o prazer e orgulho de ter sido convocado a participar, de estar junto, de trocar ideias, de crescer em conjunto.
Será tão complicado? Para isto, é necessário dedicarmos tanto tempo para aprender a administrá-lo?
A reacção automática é a tendência de reagir de modo mecânico a uma situação; enquanto, reacção controlada é aquela que exige uma análise minuciosa das informações – pensar e reflectir criticamente [3] [5].
Qual delas é usada de forma costumeira nas nossas relações pessoais ou de mídias electrónicas? E na relação com o tempo?
Não é mais fácil usar atalhos mentais e rapidamente convencer-nos de que deixamos de fazer o que, aparentemente, julgamos não nos interessar alegando “falta de tempo”?
Sim, temos muitas coisas a fazer! Tempo é recurso cada vez mais escasso.
A maioria das pessoas que conhecemos alegam “sofrer” de uma enfermidade cada vez mais presente na vida moderna: a “falta de tempo” – ou, este é nosso autodiagnóstico.
Mas seria incorrecto dizer que quanto mais deixamos de fazer, menos tempo temos para fazer? O tempo não para e se o ocuparmos, não sobrará tempo! Até o “ócio não criativo” consome o tempo.
Então o problema não é o tempo; talvez mesmo, o tempo nunca tenha sido o vilão — e sim a forma como decidimos preenchê-lo; ou ainda: não é o tempo que nos limita, mas nossas escolhas sobre como vivê-lo. Enquanto não findamos o que nos foi solicitado ou mesmo, idealizado, ficará ocupando e atrapalhando algum espaço de tempo para a consecução de outra tarefa.
Outro dia ouvi que há que se ter mais tolerância; “ainda mais morando no Brasil, com nosso jeitinho brasileiro…”. Tem uma brincadeira por aí que diz: “é até difícil encontrar figurinha nesta situação”.
E a discussão pode continuar, pois aqui não é para resolver; é para provocar!
Walter Roque Teixeira – CIM 184.372 – ARBLS Palmeira da Paz nº. 2121 – Oriente de Blumenau – GOB/SC – GOB
Referências
[1] Maslow, Abraham – “Necessidades Humanas” – Escola Superior do Ministério Público da União;
[2] Gardner, Howard – “Inteligências múltiplas: A Teoria na Prática”. Editorial Penso Editora Ltda., Português, 1995.
[3] 9 tipos de inteligência de Gardner (explicadas).
[4] Vieira, Amanda – O ChatGPT e outras Ias vão destruir a nossa capacidade de pensar?
[5] Teixeira, Walter Roque – A Maçonaria que conheço tem TDAH?
[6] Brett e Kate McKay – Programe o seu tempo.
