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Comentários sobre a iniciação

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✍️ Desconhecido 📅 07/02/2026 👁️ 0 Leituras

iniciação

Jesus, um iniciado

Numa quarentena de mística peregrinação
Suportando o calor, a fome, a sede, o frio;
O Mestre trabalhou a mente e o coração,
Até o seu ego ficar completamente vazio;

Para o deserto da Judeia Jesus foi levado,
Para ali reencontrar o íntimo do seu “Eu,
Pois o seu espírito precisava ser preparado,
Para cumprir a missão que Deus lhe deu.

Desta forma ele cumpriu antiga tradição,
Que se aplica a todo aquele que é ungido,
E precisa receber adequada preparação.

Naqueles quarenta dias de dura provação,
Vencendo as provas a que foi submetido,
Jesus foi preparado. Essa foi sua iniciação.

A iniciação operativa

Toda iniciação carrega em si mesma um elemento de cultura social onde a mística se alia à tradição para criar um ambiente de subtileza, no qual o iniciado possa vivenciar uma experiência espiritual. Nesta experiência ele transcende a condição de profano e alcança uma melhor compreensão dos segredos da natureza e da sua própria condição como ser humano.

Por isso, todo iniciado é um neófito, ou recipiendário, no sentido de que ele é um novato naquela experiência e um receptáculo do conhecimento que lhe vai ser repassado.

Neófito é a palavra grega que indica algo que foi plantado há pouco (neo; novo + phitós; planta); na mística própria das sociedades iniciáticas, trata-se de uma semente que é plantada na sua alma e deverá, a partir do momento da sua iniciação, começar a sua marcha em busca da iluminação, à semelhança da semente que é lançada ao solo, e depois de um período de incubação, inicia uma ascensão em direcção ao sol.

O termo aprendiz, que usualmente se aplica ao Maçom iniciante, é uma tradição derivada das antigas sociedades corporativas. Nelas, o noviço que era admitido para a aprendizagem da profissão patrocinada por aquela corporação na qual se iniciava, era submetido a um ritual de iniciação. Esta tradição era aplicada especialmente entre os construtores de obras públicas e civis, como tais eram os pedreiros e arquitectos, classes profissionais que desde as mais remotas manifestações de civilização já possuíam organizações corporativas para organizar o exercício da profissão e defender os seus mercados.

A Maçonaria emprestou dos profissionais de construção a sua liturgia, símbolos e boa parte da doutrina. E isso por razões óbvias. Afinal, o ofício de construtor foi, entre todas as profissões que a civilização desenvolveu a que mais se identificou com a mística própria das sociedades iniciáticas.

Isto deu-se por dois bons motivos: um de ordem cultural, outro de carácter espiritual. Em termos culturais, é própria das sociedades corporativas a manutenção de um ambiente de segredo em relação aos seus elementos de interesse profissional. Interessa aos membros destes colegiados a preservação dos seus mercados, os segredos da sua profissão e a manutenção “entre pares” das suas próprias conquistas tecnológicas. Estas, se vulgarizadas, perdem valor e geram, inclusive, o perigo de uma má utilização. Desta forma se constroem os muros corporativos, quase sempre protegidos por uma linguagem própria, só inteligível aos próprios iniciados.

O objectivo espiritual está no facto de as edificações humanas estarem profundamente ligadas a um simbolismo de carácter místico, já que as obras mais importantes eram sempre destinadas principalmente a prover moradas para os deuses e para o invólucro carnal do homem depois da sua morte. Assim, a arquitectura propriamente dita, desenvolveu-se a partir de um ideal místico que tinha por meta honrar os deuses e proteger o espírito no mundo do além.

Observa-se, nas sociedades humanas, desde a mais remota antiguidade, que o ser humano gosta de construir sumptuosas moradias, não só para o seu corpo em vida, como também para o seu cadáver. É próprio de todas as civilizações erguer para os seus mortos cidades com edifícios tão elaborados na sua arquitectura, quanto para os vivos. Aliás, das edificações humanas, são os cemitérios que sobrevivem por mais tempo e geralmente são através deles que vida das antigas civilizações podem ser recenseadas.

Destarte, o ofício do construtor sempre teve um carácter corporativo e sacro. Em praticamente todas as antigas civilizações havia um intenso apelo místico nas técnicas de construção desenvolvidas pelos arquitectos desses povos. Nas ruínas dos monumentos que eles construíram para os seus deuses e reis (ambos sócios da mesma concepção), ainda hoje é possível aquilatar o quanto essas construções e a arte dos profissionais que as construíram estavam impregnadas do espírito que as inspirou.

Há, nestas construções, uma aura de misticismo que se confunde com as técnicas profissionais nelas empregadas. Principalmente nos sumptuosos templos religiosos da antiguidade, quanto nas igrejas e mesquitas do período medieval, aflora uma atmosfera de sacrossanto labor iniciático, que se nota na subtileza estrutural do conjunto, todo ele representando um formidável alfabeto de símbolos, que na verdade é um sistema de linguagem que tem muito a dizer aos iniciados.

O segredo iniciático

É certo que uma boa parte do simbolismo maçónico é proveniente de antigas tradições como os pitagóricos, os quais forneceram as bases do conhecimento arcano utilizado pelos profissionais dos antigos Collegia Fabrorum romanos. Destes, os pedreiros medievais, construtores das igrejas góticas, obtiveram os seus conhecimentos. Deriva deste facto a tradição que consagrou a antiga Maçonaria, chamada operativa, como sendo a Arte Real, pois esta era uma manufactura que integrava o espírito religioso, feito para ligar o homem com a divindade, com o espírito da ciência, feito para o homem desenvolver na terra, a obra do Criador.

Assim, as sociedades que congregavam os antigos construtores, fossem arquitectos ou pedreiros, eram iniciáticas. Elas possuíam um segredo iniciático, que eram as técnicas da profissão e praticavam uma cultura iniciática, que era a transmissão dos conhecimentos da profissão de forma ritual e sistemática. E para a admissão de novos membros era sempre praticada um ritual de iniciação.

Isto implicava num sistema de salvaguardas corporativas só encontráveis nas sociedades iniciáticas de carácter religioso. Destarte, somente certos membros de reconhecida competência e reputação podiam ser admitidos como “iniciados” na antiga Maçonaria operativa, sendo estes chamados de “pedreiros livres” (free-stone masons), e os outros, simples trabalhadores de construção, eram os rough masons (pedreiros rudes).

Assim, somente os free-stone masons detinham um “segredo” que era comunicado por iniciação aos seus aprendizes. Este segredo era principalmente a ciência contida na arte de desenhar e construir as estruturas dos edifícios, arte essa que envolvia não só o conhecimento da geometria e da astrologia, principalmente, mas também a técnica da construção, o plano geral da obra, o conhecimento da resistência dos materiais, a arte de combiná-los, etc… Sem um conhecimento dessa ordem jamais se poderiam construir edifícios com tanta beleza e resistência como as igrejas medievais, cuja estrutura resistiu ao tempo e a destruição das guerras e das intempéries naturais.

A iniciação maçónica

A Maçonaria é hoje uma tradição que integra elementos de esoterismo e corporativismo. Por isso conserva a iniciação como o mais significativo dos seus rituais. Assim, os iniciados devem ser submetidos a provas simbólicas onde a sua disposição e o seu carácter, juntamente com as suas condições pessoais de saúde, fortuna e relacionamentos são provadas e comprovadas através de uma pesquisa realizada antes da sua aprovação como membro da Irmandade. E depois confirmada por um inquérito feito em Loja, na presença dos seus futuros Irmãos. Este inquérito indaga a respeito das suas crenças, da sua filosofia de vida, das suas esperanças e das suas ideias a respeito da Ordem na qual pretende entrar, e da sua disposição em cumprir os estatutos e regulamentos aos quais estará sujeito depois da sua iniciação.

Esta é a parte exotérica da iniciação, posta no ritual por força do carácter social e filosófico que a Maçonaria assumiu depois da sua institucionalização como associação de pessoas com um propósito e uma finalidade definida, como manda a legislação pátria que comanda as actividades desse tipo de sociedades nos países onde ela actua.

Não há dúvida que é o carácter esotérico que envolve a iniciação maçónica o elemento impressionador do espírito do iniciado, pois nele se manteve o simbolismo dos antigos cerimoniais que celebravam os chamados Mistérios. É neste sentido que o neófito é submetido a uma “morte ritual”, representada pela sua imersão na “câmara das reflexões”, onde ele encontra todos os símbolos dessa passagem pelo mundo dos mortos, experiência que ele terá que enfrentar para renascer, glorioso, para a luz que a Maçonaria lhe irá conferir.

Isto porque, como diz Mircea Eliade, todas as provas iniciáticas, de uma maneira geral, resumem um processo escatológico que simboliza a morte e o renascimento do homem, seja em que sistema de crenças for. Mesmo o cristianismo, cuja doutrina condena abertamente todas as formulações rituais dos povos antigos, por considerá-las pagãs, não deixou de incorporar diversos elementos de magia ritual, como o partilhar da hóstia, os ritos da Paixão e Morte de Jesus, a Missa do Galo, etc. E neste particular, também é interessante notar que alguns evangelhos gnósticos mostram um Jesus místico, praticando rituais de iniciação com os seus discípulos. Nesse sentido, até a morte de Lázaro, descrito no Evangelho de São João como um dos seus mais impressionantes milagres, teria sido, na verdade, um ritual para demonstrar aos seus discípulos o poder da sua doutrina de regeneração.

Seja qual for a crença que uma pessoa professe, o que não se pode é ignorar o carácter arquetípico existente nos seus rituais de iniciação. Esta característica é observada por James Frazer na sua obra clássica “O Ramo de Ouro”, quando ele associa os ritos de iniciação praticados pelos povos antigos com os ciclos de produção da natureza, e daí a derivação que se faz, em termos simbólicos, para uma imitação anímica desses processos. Frazer mostra que os mitos da criação, em todas as lendas antigas que versam sobre esse tema, têm uma mesma estrutura arquetípica. Daí ele conclui que todas as sociedades desenvolveram alguma noção psíquica desse processo e acabaram criando alegorias, mitos, lendas e rituais que se destinam, de alguma forma, a imitá-los. Explica-se, dessa maneira, que a grande maioria das sociedades antigas tenha desenvolvido uma mitologia escatológica que utiliza a figura de um deus, ou um herói morto, que é regenerado por processos miraculosos, semelhante ao que a terra faz com a semente que nela é lançada.

Este tema esteve presente em todas as antigas iniciações, desde os Mistérios de Ísis e Osíris, praticados pelos egípcios, quanto nos Mistérios Eleusinos dos gregos. E aparece, como vimos, também na doutrina do cristianismo, nos chamados Mistérios Cristãos, que se refere à Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

A iniciação representa, portanto, uma participação simbólica do neófito nesse processo regenerativo que a divindade, através da natureza, ensina ao homem. Ao praticar o ritual de iniciação, o homem, por imitação, penetra no âmago desse processo. Algo semelhante pensavam obter os alquimistas ao tentar, nos seus laboratórios, penetrar na “alma” da natureza para descobrir como ela trabalhava para produzir os metais. Com este conhecimento eles poderiam recombinar os seus átomos e modificar suas estruturas, transformando metais comuns em metais preciosos. Embora os alquimistas nunca se tenham constituído numa sociedade iniciática, pois eles eram, na sua maioria, pesquisadores solitários, sua arte, hermética por excelência, era iniciática. E o princípio que os impulsionava nas suas pesquisas era exactamente a noção de que a vida e a morte, seja do universo físico, ou do universo espiritual, estão sujeitas a esse processo escatológico que está no cerne de toda doutrina iniciática.

Iniciação – reintegração ao “Princípio”

Este é, em síntese, o conteúdo esotérico da iniciação que se pratica na Maçonaria. E para o neófito que se inicia nos mistérios maçónicos, além do sentido escatológico da consumação de um processo de morte e ressurreição, há o sentido moral que se lhe inculca, de estar “levantando templos à virtude e cavando masmorras ao vício”, expressão essa que indica o sentido moral que a prática da Maçonaria deverá assumir para o iniciando.

Destarte, as provas simbólicas aos quais ele será submetido em Loja consistem principalmente em “viagens” de integração junto aos quatro elementos da natureza (água, terra, fogo e água). Tudo isto são reminiscências de antigos rituais. Estas viagens, que são “ritos de purificação”, constituem parte indispensável em todas as iniciações, sendo encontrada até mesmo na história do povo de Israel, quando se iniciou na religião de Moisés.

Em seguida são-lhes informadas algumas obrigações e posturas que ele deverá assumir como Maçom e indagado se ele tem disposição e condições para honrar essas obrigações. Só após cumpridas toda essa liturgia poderá o iniciando fazer o seu juramento como Maçom, cumprindo assim a tradição de toda sociedade iniciática, que é compartilhamento de um “segredo” ritual que dali para a frente lhe será comunicado aos poucos. Por isso é que, antes de neófito receber a “Luz” da iniciação, ele deve ser conservado vendado e no escuro, pois até então ele ainda é um profano.

Cumprida todas estas etapas, o iniciando torna-se de facto um iniciado, recebendo, em presença dos Irmãos, a “Luz” da Maçonaria, após o que ele é revestido com o avental do Aprendiz e está em condições de receber as suas primeiras instruções.

Eis assim, cumprida a tradição iniciática, que na Maçonaria ainda encontra, nos diversos ritos e liturgias que eles desenvolvem, o ideal destas antigas manifestações do espírito humano. Eles representam, como diz Van Gennep, a “porta de ingresso” do neófito, na sua passagem do mundo profano para o mundo sagrado, a sua reintegração ao “Princípio”, de onde provieram todas as coisas.

Daí em diante, cada elevação de grau implicará num “rito de passagem”, na qual o iniciado subirá uma “escada” que lhe permitirá penetrar na esfera mais subtil do conhecimento universal.

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] É o que ocorre com a linguagem médica, por exemplo, cuja popularização poderia implicar em auto-medicação, Ou da linguagem técnica aplicada em física atómica, cuja popularização poderia levar um leigo a produzir uma bomba atómica. Assim, a linguagem especifica da profissão é uma forma de protecção, não só do grupo que a desenvolve, como da própria sociedade a que ela serve.

[2] Ver, a este respeito René Guenón – Apercur su L’ Iniciation – Paris 1918

[3] Jean Palou – Maçonaria Simbólica e Iniciática – São Paulo, 1978

[4] Mircea Elíade – Iniciaciones Místicas – Ed. Taurus, Madrid, 1958

[5] Os Evangelhos Gnósticos – Ed. Mercuryo – Organizado por Maria Helena Trica.

[6] George James Frazer, O Ramo de Ouro, Zahar Editores, São Paulo, 1986.

[7] Sobre os Mistérios Eleusinos e os Mistérios Egípcios e sua conexão com a Maçonaria, veja-se a nossa obra “Tesouro Arcano”, publicado pela Ed. Madras, 2013.

[8] “Templos à virtude e masmorras ao vício”. Esta expressão significa que o ensinamento maçónico deverá proporcionar ao iniciado uma ferramenta para que ele aprimore o seu carácter, adquirindo as virtudes estimadas pela doutrina maçónica e eliminando os vícios que porventura tiver.

[9] Veja-se a nossa obra “O Tesouro Arcano”, citada. Nesta obra defendemos a ideia de que a jornada do povo de Israel pelo deserto, após o êxodo do Egipto, foi na verdade uma jornada iniciática. Neste sentido, a passagem pelo Mar Vermelho(água), o sol do deserto (fogo) que, os ventos do deserto (ar), as areias do deserto (terra), são elementos do ritual de iniciação ao qual os israelitas foram submetidos para serem admitidos na nova religião.

[10] Vann Gennep – Ritos de Passagem, Ed. Vozes, Petrópolis, 1974.

[11] Por isso, na Maçonaria este sistema de conhecimento é apelidado de “Escada de Jacob”.

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