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Chegam os primeiros Mestres maçons formados com Inteligência Artificial

✍️ Desconhecido 📅 28/08/2026 👁️ 5 Leituras

humano - inteligência artificial

Após pouco mais de três anos e meio desde a estreia pública da Inteligência Artificial  (IA), estamos a assistir à chegada ao grau de Mestre dos primeiros maçons cuja carreira decorreu inteiramente com uma IA ao seu lado.

Na verdade, para estes novos Mestres, a Inteligência Artificial não representa uma ruptura com a tradição, mas sim um ambiente sociológico normal no qual podem submeter a análise as instruções que recebem e tornar-se menos dependentes do prestígio dos nomes e mais respeitadores da solidez dos argumentos. Uma contingência que se revela especialmente transcendental na Maçonaria, que é um fenómeno com uma mistura muito rica de alegoria, simbolismo, tradição e especulação.

Por exemplo, ao longo dos três séculos de existência da Maçonaria, têm circulado falsas narrativas históricas que pretendem associar a Maçonaria aos construtores das pirâmides, aos templários, aos mistérios do Egipto, às escolas pitagóricas ou a inúmeras figuras célebres da Bíblia e fora dela. Agora, o novo Maçom, com a Inteligência Artificial à disposição, pode questionar a validade dessas narrativas, comparar versões, averiguar que evidências existem a esse respeito e descobrir quem apresenta provas, quem propõe uma interpretação e quem repete algo que não corresponde à realidade histórica.

Para ser justo, é preciso reconhecer que a IA os ajudou a expressar melhor o que pensam e até lhes mostrou que ainda não tinham reflectido suficientemente sobre um assunto, apontou contradições, recomendou esclarecimentos e sugeriu nuances. Uma das contribuições mais interessantes desta tecnologia é que os obrigou a formular melhores perguntas, porque não é a mesma coisa perguntar qual é o significado de um símbolo do que perguntar quando surgiu, em que Rito é utilizado, o que dizem os documentos mais antigos ou como foi interpretado por um determinado autor ou corrente maçónica. Também não é a mesma coisa perguntar se uma figura foi Maçom do que solicitar as provas da sua Iniciação, a Loja a que pertenceu ou a fonte contemporânea que o confirma.

Assim sendo, numa crítica construtiva, podemos perguntar-nos o que significa agora trabalhar maçonicamente. Porque se uma inteligência artificial consegue redigir uma Prancha, explicar um símbolo, resumir um livro, comparar rituais e localizar em segundos uma referência histórica que antes exigia horas ou dias de pesquisa, nenhuma dessas actividades, considerada isoladamente ou em conjunto, pode continuar a definir o que entendemos por trabalho maçónico.

Talvez a Inteligência Artificial nos esteja a obrigar a reconhecer que o trabalho maçónico começa realmente depois de recebermos a informação. Começa quando o Maçom a compara com a sua própria consciência, a submete a julgamento, a confronta fraternalmente com os outros e permite que aquilo que compreendeu altere de alguma forma a sua maneira de pensar, de conviver ou de agir.

Uma máquina pode ajudar-nos a escrever uma magnífica “Prancha” sobre a tolerância, mas não pode praticar a tolerância por nós. Pode explicar-nos durante horas o simbolismo da Pedra Bruta, mas não pode alisar as nossas arestas. Pode descrever na perfeição o que significa a fraternidade, mas não pode reconciliar-nos com um Irmão de quem estamos afastados. E pode produzir um texto impecável para uma Reunião, mas não pode vivê-la.

Isto introduz, além disso, uma mudança num aspecto muito humano dentro da própria Maçonaria, que é o prestígio do conhecimento. Durante muito tempo, quem possuía uma boa biblioteca, se lembrava de muitos autores, conhecia melhor os Rituais ou estava há décadas na Ordem, dispunha de um capital intelectual difícil de alcançar para um recém-iniciado. Hoje, grande parte desta informação está disponível em segundos, e isso desloca o valor da posse do conhecimento para a capacidade de o compreender, questionar, relacionar e transformá-lo em critério próprio.

Talvez por isso o Maçom do futuro não seja necessariamente mais valioso por saber mais coisas, mas por saber discernir melhor. O prestígio poderá passar daquele que acumula respostas para aquele que formula melhores perguntas, daquele que cita mais autores para aquele que sabe distinguir uma fonte sólida, e daquele que apresenta a “Prancha” mais erudita para aquele que consegue transformar o conhecimento em reflexão partilhada e, acima de tudo, em conduta.

Mas talvez a mudança mais profunda consista no surgimento de um novo tipo de actor maçónico, habituado a não aceitar uma resposta sem voltar a perguntar. E isso não tem por que empobrecer a Maçonaria, porque um mito ou uma alegoria podem conter um ensinamento profundo sem que tenhamos de os apresentar como um acontecimento real, e uma tradição pode ser muito bela e significativa sem que tenhamos de a transformar artificialmente em história.

E talvez seja aí que resida o verdadeiro desafio que a Inteligência Artificial nos coloca. Não nos perguntarmos se uma máquina consegue elaborar uma Prancha Maçónica, porque é evidente que consegue, mas sim o que fazemos com essa Prancha depois de a lermos. Porque se trabalhar maçonicamente consistir apenas em recolher informação, redigir e expô-la na Loja, a inteligência artificial pode realizar uma grande parte desse trabalho, e muitas vezes melhor do que nós. Mas se consistir em transformar conhecimento em consciência, consciência em diálogo e diálogo numa forma diferente de nos relacionarmos connosco próprios, com os nossos Irmãos e com a sociedade, então a ferramenta terá mudado, mas o trabalho continuará a ser profundamente humano.

E aqui surge o extraordinário paradoxo de que, quanto mais tecnológica se torna a sociedade, mais valor pode adquirir aquilo que a Maçonaria conserva de profundamente humano.

Iván Herrera Michel

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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