Cavaleiro Rosa Cruz – Grau 18 (II)
Em oposição ao antropomorfismo das Escrituras judaicas, os judeus de Alexandria procuraram purificar a ideia de Deus de toda sua associação com o humano. Pela exclusão de todas as paixões humanas, ela foi sublimada em algo despido de todos os atributos e transcendental. O mero Ser, o Bem, em por si mesmo o Absoluto do Platonismo substituiu a Divindade personalizada do Velho Testamento. Por elevar-se além de toda existência criada, o espírito, libertando-se do sensível, alcança a intuição intelectual desse Ser Absoluto, de quem não pode predizer nada a não ser sua existência, descartando assim todas as outras definições porque não condizentes com a excelsa natureza da Suprema Essência.
Assim Filo estabelece uma distinção entre aqueles que são Filhos de Deus no sentido correcto, elevados, por meio da contemplação, ao Ser mais alto ou que dele alcançaram o conhecimento, e aqueles outros que conhecem Deus pela revelação de Seus actos, […] aqueles que simplesmente se atêm ao Logos, a quem consideram como o Deus Supremo. Estes são filhos da Palavra, não do Verdadeiro Ser.
Diz Pitágoras que “Deus nem é objecto de sentido nem sujeito a paixões, mas invisível, somente inteligível e supremamente inteligente. Em Seu corpo Ele é como a luz e em Sua alma Ele se assemelha à verdade. Ele é o espírito universal que pervade e se difunde por toda a natureza. Todos os seres vivos recebem Dele sua vida. Só há um Deus, que não está, como muitos imaginam, sentado sobre o mundo, além da orbe do Universo, mas que é tudo em tudo e que vê todos os seres que habitam em sua imensidão, o único Princípio, a Luz dos Céus, o Pai de tudo. Ele cria tudo, Ele ordena e dispõe tudo, Ele é a Razão, a Vida e o Movimento de tudo que existe”.
“Eu sou a Luz do mundo; aquele que me seguir não caminhará na escuridão, mas terá a luz da vida.” Assim falou o Fundador da Religião Cristã, tal como João, o Apóstolo, reportou.
Deus, dizem as escritas sagradas dos judeus, apareceu a Moisés numa chama, no meio da sarça e esta não se consumia. Ele desceu sobre o Monte Sinai como a fumaça de uma fornalha; Ele apareceu de dia, ante as crianças de Israel, como um pilar de nuvens, e, à noite, como um pilar de fogo, para dar-lhes luz. “Invocai o nome de vossos deuses,” disse o Profeta Elias aos sacerdotes de Baal, “e eu invocarei o nome de Adonai; e àquele que responder pelo fogo, deixai-o ser Deus.”
De acordo com a Cabala, como de acordo com as doutrinas de Zoroastro, tudo que existe emanou de uma fonte de luz infinita. Antes de todas as coisas, existia o Ser Primitivo, o Ancião de Dias [1], o Antigo Rei de Luz, um título ainda mais notável porque é dado frequentemente ao Criador no Zend-Avesta, no código dos sabeus [2] e aparece nas escrituras judaicas.
O mundo era Sua Revelação, o Deus revelado, e subsistia somente Nele.
[…] O Universo era seu esplendor sagrado, seu manto. Ele era para ser adorado em silêncio e a perfeição consistia em aproximar-se o mais possível Dele.
Antes da criação dos mundos, a Luz Primitiva enchia todos os espaços, de modo que não havia um vazio. Quando o Ser Supremo que existia nessa luz resolveu demonstrar Sua perfeição ou manifestá-la em palavras, encerrou-se em Si mesmo, formou a seu redor um vácuo e lançou um raio de luz, sua primeira emanação – a causa e o princípio de tudo que existe –, unindo os poderes de conceber e gerar, que tudo permeiam e sem os quais nada pode subsistir nem por um instante.
O homem caiu, seduzido por maus espíritos mais longínquos do grande Rei da Luz […] sempre em guerra com as inteligências puras, como os Amshaspands [3] dos persas, guardiães tutelares do homem.
No início, tudo era uníssona harmonia, luz divina e pureza. Então o Criador tomou dos sete reis os princípios do Bem e da Luz e dividiu-os entre os quatro mundos dos espíritos, dando aos três primeiros a Inteligência Pura, unida no amor e na harmonia, mas ao quarto apenas alguns débeis brilhos de luz. O conflito entre os espíritos envoltos em trevas, em vão e por muito buscando a Luz Divina, chegará a termo quando O Eterno vier resgatá-los, livrando-os do invólucro grosseiro de matéria que os aprisiona, intensificando o raio de luz, ou natureza espiritual, que tiverem preservado. Aí será restabelecida em todo o Universo aquela primitiva Harmonia que foi sua bênção.
Nas palavras de Marcion [4], o gnóstico, “a alma do verdadeiro cristão, adoptada como uma criança pelo Ser Supremo, para quem há muito tem sido estranha, recebe Dele o espírito e a vida divina. Ela é conduzida e confirmada, por esta oferenda, em uma vida pura e sacra, como a de Deus; e se como tal cumpre sua caminhada terrena, em caridade, castidade e santidade, irá, um dia, ser separada do envelope material, tal como o grão maduro é separado da casca e como o passarinho se escapa de seu ovo. Como os anjos, ela compartilhará na protecção do Pai Perfeito e Bom, revestida em um corpo etéreo e feita como os anjos nos Céus.”
Vede, pois, meu Irmão, qual é o significado da “Luz” Maçónica. É por isto que o Oriente da Loja, onde a letra inicial do nome da Divindade pende sobre o Mestre, é o lugar da Luz. Luz, em contraste com trevas, é o Bem, em contraste com o Mal; Luz que é o verdadeiro conhecimento da Divindade, o Deus Eterno, pelo qual Maçons de todas as épocas têm buscado.
A Maçonaria continua sua caminhada para a Luz que brilha à distância, a Luz do dia em que o Mal, sobrepujado e vencido, desaparecerá para sempre, quando então a Vida e a Luz serão a lei única do Universo e sua eterna Harmonia.
O Grau de Rosa Cruz ensina três coisas: a unidade, imutabilidade e bondade de Deus; a imortalidade da alma; e a derrota final e a extinção do mal, das injustiças e das aflições por um Redentor ou Messias, ainda por vir – se é que ainda não chegou.
Ele substitui os três pilares do velho Templo por três que já vos foram explicados: Fé (em Deus, na humanidade e em vós mesmos), Esperança (na vitória sobre o mal, no progresso da Humanidade e em uma vida futura), e Caridade (o auxílio a quem dele necessita e a tolerância para com os erros e as faltas dos outros).
Ser confiante, esperançoso, ser indulgente – estes, nesta época de egoísmo, de pessimismo quanto à natureza humana, de opiniões ríspidas e amargas, são as mais importantes das Virtudes Maçónicas e as verdadeiras colunas de apoio de cada Templo Maçónico. Na verdade, eles são os velhos pilares do Templo, só que sob nomes diferentes. Porque só é sábio aquele que julga os outros com espírito caridoso; só é forte aquele que é esperançoso; e não há beleza maior do que a firmeza da fé em Deus, nos outros e em si próprio.
A segunda Câmara, revestida de luto, com as colunas do Templo partidas e derrubadas e os Irmãos em dor profunda, representa o mundo sob a tirania do Príncipe do Mal, onde a virtude é perseguida e o vício premiado; onde os correctos carecem de pão e os maus vivem em ostentação, vestidos de púrpura e do linho mais fino; onde a ignorância insolente ordena e o conhecimento e a inteligência jazem oprimidos; onde reis e sacerdotes tripudiam sobre os direitos e amordaçam a consciência; onde a liberdade se esconde e a subserviência e a bajulação dominam; onde o clamor de viúvas e órfãos, famintos e enregelados em casebres miseráveis, sobem aos céus; onde homens, querendo sustentar mulher e filho, imploram por trabalho quando agiotas e capitalistas insensíveis fecham os moinhos; onde a lei pune a mulher violentada por roubar pão e o estuprador não recebe punição; onde o sucesso de um partido político justifica o assassinato e a violência, enquanto a roubalheira fica impune; onde aquele que fica rico explorando os pobres recebem honras e títulos e são enterrados com fausto e pompa.
A segunda Câmara, revestida de luto, representa este mundo onde, desde sua génese, as guerras nunca cessaram nem deixaram os homens de torturar e matar seus irmãos; onde a ambição, a avareza, a inveja, o ódio e os exércitos de Arimã e Tífon tornam um pandemónio. Representa, enfim, este mundo afundado no pecado, infectado pela grosseria, afogado em sofrimento e miséria. Se alguém vir nela também a dor do Maçom pela morte de Hiram, ou do judeu pela queda de Jerusalém, ou do Templário pela extinção de sua Ordem e pela morte de DeMolay, ou a agonia e a dor do mundo pela morte do Redentor, tem o direito de como tal interpretá-la.
A terceira câmara representa as consequências do pecado e do vício, o inferno que se instala no coração humano pelas paixões desenfreadas. Se alguém vir nisso o Hades dos gregos, a Gehenna dos hebreus, o Tártaro dos romanos ou o inferno dos cristãos, ou somente as agonias do remorso e o aguilhão da consciência, tem o direito de como tal interpretá-la.
A quarta câmara representa o Universo livre do domínio insolente e da tirania dos Princípios do mal. Nela brilha a verdadeira Luz que emana da Entidade Suprema, onde não mais se eternizarão o pecado e as ofensas, a dor e o sofrimento, o remorso e a miséria; onde os grandes desígnios da Infinita e Eterna Sabedoria se realizarão; e todas as criaturas de Deus – percebendo que o mal aparentemente tão poderoso, o sofrimento individual e as ofensas não são mais do que gotas insignificantes frente ao grande rio da bondade infinita – saberão quão vasto é o poder da Divindade e quão infinita é Sua bondade. Se alguém vir nisso os mistérios peculiares de qualquer fé ou credo ou uma alusão a algo que tenha ocorrido, tem o direito de como tal interpretar.
Que cada um de nós interprete os símbolos como lhe aprouver.
Para todos nós eles representam os princípios fundamentais da Maçonaria, suas três maiores virtudes – Fé, Esperança e Caridade – , o amor fraternal e a benevolência universal. Não trabalhamos senão em prol disto. Estes símbolos não necessitam de nenhuma outra interpretação.
As obrigações de nossos antigos Irmãos Rosa Cruzes eram cultivar a amizade, uma disposição alegre, a caridade, a paz, a liberalidade, a temperança e a castidade; e escrupulosamente evitar as impurezas, a soberba, o ódio, a ira e todas as formas de vício. Do mesmo modo que Moisés e Salomão, eles buscaram sua filosofia da velha teologia dos egípcios, adoptando seus hieróglifos e as cifras dos hebreus. Por suas regras principais, deviam praticar a medicina caridosamente, promover a causa das virtudes, desenvolver a ciência e induzir aos homens a viver como nos tempos primitivos.
Onde este Grau teve sua origem não é importante inquirir, nem em que diferentes Ritos , países e épocas foi praticado [4]. Ele tem grande antiguidade. Suas cerimónias diferem tanto quanto variam latitudes e longitudes. Se fôssemos examinar todas as diferentes cerimónias, seus emblemas e suas fórmulas, veríamos que tudo que pertence aos elementos primitivos e essenciais da Ordem foi respeitado em cada santuário. Todos praticam a virtude para que ela dê frutos. Todos trabalham, como nós, para que os vícios sejam extirpados pela purificação do homem, pelo desenvolvimento das artes e das ciências e pela redenção da humanidade.
Nenhum [desses Ritos] admite acesso a seu alto saber filosófico e às ciências misteriosas senão aqueles que tenham sido purificados no altar dos Graus Simbólicos. Que importância podem ter as diferenças de opinião sobre a antiguidade e a genealogia do Grau e as suas variedades quanto à prática, cerimonial, liturgia e a cor particular de cada tribo de Israel, se todos reverenciam o Sagrado Arco dos Graus Simbólicos, fonte primeira e inalterável da Maçonaria? Que importância podem ter as diferenças de opinião quando todos reverenciamos nossos princípios e eles nos acompanham nos grandes propósitos de nossa organização?
Se, onde quer que seja, Irmãos de um credo religioso particular tenham sido excluídos deste Grau, isto apenas evidencia como é grave a falta de entendimento dos propósitos e planos da Maçonaria. Porque sempre que se fecha a porta de um Grau a alguém que acredita em um Deus único e na imortalidade da alma por detalhes de sua fé, este Grau deixa de ser um Grau Maçónico. […]
Atentai, meu Irmão, para nossa explicação sobre os símbolos deste Grau. E então acrescentai as interpretações que julgardes adequadas. A Cruz tem sido um símbolo sagrado desde a mais remota antiguidade. […] Mas seu significado peculiar neste Grau é dado pelos antigos egípcios. Toth ou Ptá é representado nos antigos monumentos carregando em suas mãos a cruz ansata, ou ankh, uma letra tau com um anel sobre ela. Assim ele é visto nos tabletes de Shufu [5] e Nob Shufu, construtores da maior das pirâmides. Era um hieróglifo para vida e, com um triângulo, significava o poder de dar a vida. Para nós, então, é o símbolo da vida, daquela vida que emana da divindade, da vida eterna pela qual esperamos, confiantes na divina bondade de Deus.
A Rosa era antigamente consagrada a Aurora e ao Sol. É um símbolo do nascer do dia, da ressurreição da Luz e da renovação da vida. […] A Cruz e a Rosa, juntas, hieroglificamente devem ser interpretadas como a Aurora da Vida Eterna, aquela por quem todas as nações têm ansiado através, esperando a vinda de um Redentor.
O Pelicano alimentando a prole é um emblema da benéfica abundância da Natureza, do Redentor do homem decaído, bem como da humanidade e caridade que devem distinguir um Cavaleiro deste Grau.
A Águia é o símbolo vivo do deus egípcio Menthra, a quem o faraó Sesóstris-Ramsés unificou com Amón-Rá, o deus de Tebas e do Egipto Superior, representativo do Sol – Rá significa Sol ou Rei.
O Compasso encimado por uma Coroa significa que, não obstante altas posições alcançadas na Maçonaria por um Cavaleiro Rosa Cruz, suas acções devem ser governadas invariavelmente pela equidade e imparcialidade.
O significado da cruz ansata no Grau 18 é dado pelos antigos egípcios. O deus Toth ou Ptá é representado carregando a cruz ansata, ou ankh, uma letra tau com um anel sobre ela. Era um hieróglifo para vida e, com um triângulo, significava o poder de dar a vida.
Muitos são os significados que são atribuídos à expressão INRI, inscrita na cruz ansata sobre o assento do Mestre. O iniciado cristão vê com reverência as iniciais da inscrição sobre a cruz em que Cristo sofreu – Iesus Nazarenus Rex Iudeorum. Para os sábios da antiguidade, ela estava ligada a um dos maiores segredos da Natureza, o da regeneração universal, interpretando-a como Igne Natura Renovatur Integra (a Natureza inteira é renovada pelo fogo). Já para os Maçons herméticos e os alquimistas era o aforisma Igne Nitrum Roris Inventur. […]
As quatro letras são as iniciais das palavras hebraicas que representam os quatro elementos: Iammim, o mar o a água; Nour, o fogo; Rouach, o ar; e Iebeschah, a terra seca. Como nós o interpretamos, não tenho necessidade de relembrar-vos.
A Cruz em X era o sinal da Sabedoria Criativa ou Logos, o Filho de Deus. […]
Constantemente vemos o Tau e o Resh unidos em um monograma, o T sob o P (r). Essas duas letras, em samaritano antigo, tal como encontramos em Ariús, significam 400 e 200, respectivamente, totalizando 600. Este era também o bastão de Osíris e seu monograma foi adoptado pelos cristãos como um sinal. Na medalha de Constantino, P (rô) + X (chi), está a inscrição In Hoc Signo Victor Eris. [6] […]
Entrastes aqui em meio a sombras, vestido de mágoa. Lamentai connosco a triste condição da raça humana, neste vale de lágrimas; as calamidades que afectam os homens e a agonia das nações, a escuridão que envolve a alma confusa, oprimida pela dúvida e pela ansiedade!
Albert Pike
Tradução livre de J. W. Kreuzer Bach
Notas
[1] Ancião de Dias, Segundo a Wikipédia, é um nome para Deus em aramaico (Atik Yomin), registrado na Bíblia Septuaginta grega como Palaios Hemeron e, na Vulgata, Antiquus Dierum. Encontramo-lo no Velho Testamento em Daniel 7:9, 13 e 22.
[2] Segundo a Jewish Encyclopedia, os sabeus eram habitantes do antigo reino de Sabá, que ficava no sudeste da Arábia, mencionados diversas vezes na Bíblia como povo rico e de intensa actividade como comerciantes.
[3] Amshaspands, na mitologia persa, eram os sete seres divinos que pertenciam à corte de Ahura Mazda, o deus supremo. Não eram exactamente deuses, mas comparáveis aos arcanjos, que lutavam pela verdade e justiça,, em oposição aos Devas, criaturas do Mal e seus eternos oponentes.
[4] Questão de opinião, da qual humildemente discordamos…
[5] Shufu é como Pike grafa o nome de Quéops, o construtor da Grande Pirâmide de Gizé. Nob Shufu é outro nome que aparece também nas pedras da pirâmide.
[6] A maior parte das fontes registra In Hoc Signo Vinces, por este símbolo vencerás, como no símbolo dos Cavaleiros Templários, último Grau do Rito de York, O monograma de Cristo, com as letras gregas R (rô) e C (chi), como figuravam na bandeira de Constantino, o Grande. Simbolizava tanto o Redentor como a Cristandade em geral.
