Assiduidade maçónica
Há um ponto nevrálgico da vivência maçónica nos dias actuais: as distracções fáceis da mente que surgem em abundância no mundo profano e muitas vezes desviam o Irmão da trilha do aperfeiçoamento, da disciplina e da presença na Loja.
A mente humana, pela sua natureza, busca o conforto, o prazer imediato e a distracção leve. Vivemos numa era em que o tempo parece escasso, mas paradoxalmente se esvai em redes sociais, conteúdos superficiais, agendas sobrecarregadas e compromissos que alimentam mais o ego do que a alma. A frequência assídua à Loja Maçónica exige, ao contrário disso, esforço, renúncia, foco e sentido. Não é, portanto, apenas uma questão de disponibilidade externa, mas de governo interno da vontade sobre os impulsos da mente dispersa.
Ser assíduo não é simplesmente cumprir um dever. É afirmar, com cada presença, que o Templo tem mais valor que o sofá, que a palavra do Venerável é mais preciosa que o ruído do noticiário, e que o silêncio ritual é mais enriquecedor que o barulho incessante do mundo digital. Vencer essas distracções exige a firmeza de um verdadeiro Iniciado, que conhece o valor da sua presença e compreende que o tempo na Loja não é gasto, mas consagrado.
O Santo dos Santos
Há um fogo que não se vê, mas que ilumina os passos do verdadeiro Iniciado. Não crepita nos altares de pedra, nem consome lenha ou azeite — é o fogo subtil que arde no coração do Maçom. Ele nasce do encontro entre o desejo sincero de aprimoramento e a consciência de que há uma Obra a ser construída, não com mãos, mas com alma. Este fogo interior é o que sustenta a motivação profunda que leva o Irmão a deixar o mundo profano e adentrar, com reverência, o Templo da sua Loja.
Enquanto o mundo oferece distracções, ruído e velocidade, o Maçom, movido por esse fogo íntimo, escolhe o caminho da presença. A presença não apenas física, mas consciente e participativa. É essa chama, invisível aos olhos, que transforma a frequência em devoção, o rito em vivência, e a Loja em espaço sagrado de transformação. Onde arde esse fogo, ali o Templo vive — mesmo que silencioso, mesmo que oculto. Quando ele se apaga, resta apenas a formalidade, e o espírito se esvai. Por isso, cultivar esse fogo no altar interno é dever sagrado de cada Irmão que deseja, verdadeiramente, ser parte da Grande Obra.
A comparação entre o altar interno do Maçom e o Sanctum Sanctorum da Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC) é rica em simbolismo e profundidade espiritual. Ambas as tradições, embora com métodos e ênfases diferentes, reconhecem um espaço sagrado interior, íntimo, onde o ser humano se conecta com o divino, com a verdade e consigo mesmo.
- Na Maçonaria, o altar interno simboliza o centro sagrado do ser, onde arde o fogo da motivação, da consciência e da busca pela Luz. É ali que o Maçom renova, silenciosamente, os seus votos de superação, fraternidade e serviço. Este altar, invisível, mas real, não se limita ao espaço físico da Loja: ele é transportado no coração do Irmão, acompanhando-o na sua jornada de autoconhecimento e transformação.
- Na tradição da AMORC, o Sanctum Sanctorum é compreendido como o espaço mais sagrado do Templo — não apenas o físico, mas sobretudo o Sanctum interior, o “Templo do Coração”. É nele que o estudante rosa-cruz se recolhe para meditar, orar, ouvir a voz do Eu Superior e sintonizar-se com as leis universais. É um lugar de silêncio e Luz, onde se busca harmonia com o Cósmico.
Ambos os conceitos apontam para uma mesma verdade: há um santuário no nosso interior que precisa ser respeitado, visitado e mantido puro. Seja chamado de altar maçónico ou Sanctum rosa-cruz, trata-se do mesmo espaço simbólico de recolhimento, iluminação e alinhamento espiritual. Quando o Maçom acende o fogo no seu altar interno, assim como o rosa-cruz entra no seu Sanctum, ambos estão praticando o mais elevado dos rituais: o reencontro com a essência do Ser.
Escolha: Comparecer vs. Não comparecer
A motivação interna é o verdadeiro motor da acção, que transforma o dever em vontade, o compromisso em prazer e o comparecer em desejo de estar presente.
A motivação é o centro invisível da escolha. Pode-se entendê-la como a força íntima que move o Maçom a superar o cansaço, o comodismo, os compromissos profanos e as distracções do mundo para estar na Loja — com o coração disposto e o espírito atento.
Esta motivação pode nascer, por exemplo, da sede de conhecimento, ou o desejo genuíno de aprender, de compreender os mistérios, de se tornar um homem melhor. Por sua vez, a busca por um sentido de vida, pode tornar a Loja como um espaço onde a vida ganha profundidade. Muitos irmãos sentem que ali encontram sentido para a sua existência, valores que não se diluem no mundo profano. Se o Maçom quiser atender ao chamado do seu coração, algo mais subtil e espiritual, como uma centelha que arde no peito, pode impulsioná-lo a estar junto aos seus irmãos e a crescer com eles, porque o desejo de pertencimento é uma coisa que todos buscam, independente de quaisquer outros motivos. A Loja, quando vivida com sinceridade, se torna uma verdadeira família de almas afins.
Desta maneira, o Maçom pode exercitar a sua gratidão e comprometimento com a Ordem, na medida em que se sente grato pelo que recebeu na Maçonaria e retribui com a sua presença, ajudando a sustentar e a engrandecer a Obra. Para alguns, a Maçonaria é mais que um caminho: é missão de vida. E a motivação vem da consciência dessa missão, e disso, pode advir a alegria de servir e compartilhar, sentir-se útil, ajudar os outros, participar de algo maior do que si mesmo, e tudo isso dá alegria real ao espírito.
Pode-se dizer, então, que a motivação é o fogo no altar interno do Maçom. Sem ela, o Templo externo pode até estar cheio, mas vazio de sentido. Com ela, mesmo um pequeno grupo reunido se transforma em verdadeira Oficina de Luz.
Desta forma, pode-se enumerar os motivos pelos quais levaria um Maçom frequentar assiduamente a sua Loja:
- Fortalecimento da Egrégora — A presença constante contribui para manter viva e vigorosa a energia espiritual e fraterna que se forma nos trabalhos da Loja, sustentando o ambiente propício ao aprimoramento pessoal e colectivo;
- Aprimoramento pessoal e espiritual — A frequência assídua permite ao Maçom absorver gradualmente os ensinamentos simbólicos, filosóficos e éticos da Ordem, elevando o seu entendimento e desenvolvendo virtudes;
- Cultivo da fraternidade — Estar presente é construir laços sólidos com os Irmãos, nutrindo a confiança, a amizade e o espírito de solidariedade que são alicerces da Maçonaria;
- Exercício da disciplina e do comprometimento — A assiduidade demonstra zelo, responsabilidade e respeito pela Instituição e pelos Irmãos, sendo também uma forma de treinar a vontade e a firmeza de carácter;
- Cumprimento do juramento — Ao tornar-se Maçom, o Irmão compromete-se a participar dos trabalhos da Loja, sendo a frequência uma expressão concreta desse compromisso moral e iniciático;
- Contribuição para o bom funcionamento da Loja — A presença activa garante a continuidade dos trabalhos, enriquece os debates e fortalece a estrutura administrativa e ritualística da Oficina;
- Vivência do rito e interiorização dos mistérios — Cada sessão ritualística é uma oportunidade única de vivenciar os símbolos e ensinamentos do rito, o que só se alcança plenamente com a prática e a repetição ao longo do tempo.
Assim, com a consciência plena sobre as suas motivações, o que falta ao Maçom não assíduo? É necessário escolher. De posse das suas motivações e no uso pleno da razão, ele poderia simplesmente seguir o seu caminho, construindo a sua vida em paz, sem continuar amarrado a compromissos para os quais não mais está disposto a cumprir dentro da Ordem.
Portanto, buscar as suas razões pessoais e pesá-las, tal como a pena de Ma’at, a deusa da verdade na Mitologia Egípcia, na balança do coração, é uma tarefa primeira que pode levar a pessoa a escolhas justas e acertadas, equilibradas e sábias e, não menos importante, definitivas para a sua vida.
Giovanni Angius, MI – 33º REAA – ARLS Orvalho do Hermon nº 21 – Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo – Brasil
