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As Três Paixões do Ser

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✍️ Desconhecido 📅 21/03/2026 👁️ 0 Leituras

pergaminho, As Três Paixões do Ser

A intersecção entre a psicanálise lacaniana e a filosofia maçónica oferece um campo fértil para compreender a construção do sujeito. Se por um lado a Maçonaria propõe o desbaste da “pedra bruta”, por outro, a psicanálise nos revela que esse trabalho incide sobre as Três Paixões do Ser: o Amor, o Ódio e a Ignorância. Essas paixões não são meros sentimentos, mas bússolas que orientam a relação do iniciado com a Verdade, com seus pares e consigo mesmo.

A Ignorância: O Véu que Precede a Luz

Na psicanálise, a ignorância é uma paixão activa — é o “não querer saber” sobre o próprio desejo e sobre a falta que nos constitui. Na Maçonaria, essa paixão é simbolizada pelo estado de trevas em que o profano se encontra antes da iniciação, assim como também o não querer saber, ler, estudar e compreender os princípios maçónicos.

  • O Conflito: O desejo de manter-se na ignorância é uma defesa contra a angústia. O indivíduo prefere as certezas do mundo profano ao abismo de questionar quem ele realmente é.
  • A Transmutação: O rito maçónico “força”, auxilia o rompimento com essa paixão. Ao retirar a venda, o iniciado é convocado ao “saber”, não como acúmulo de informações, mas como a coragem de encarar a própria incompletude. O combate à ignorância é, portanto, o primeiro passo para o polimento da pedra.

O Amor: A Fraternidade e o Espelho

Lacan define o amor como “dar o que não se tem”. É uma tentativa de fazer do “dois”, “um”. Na Maçonaria, essa paixão se manifesta na Fraternidade.

  • O Risco Narcísico: O amor entre irmãos corre o risco de ser puramente imaginário — um espelhamento onde só aceito o outro se ele for igual a mim. É o amor que busca a completude no grupo, escondendo ou revelando a si as fissuras individuais.
  • A Construção Simbólica: O verdadeiro amor maçónico, no entanto, deve evoluir para o campo do Simbólico. É o reconhecimento de que, embora sejamos diferentes e “faltantes”, estamos unidos por um ideal que nos ultrapassa. É o amor que sustenta a “egrégora”, (ou união harmoniosa entre irmãos com comum escopo),  sem apagar a singularidade valorosa de cada obreiro.

O Ódio: O Cinzel e a Alteridade

O ódio surge quando o “outro” denuncia nossa própria falta ou exibe um “gozo” que nos parece insuportável. Na caminhada maçónica, o ódio é a aresta da pedra bruta que fere a harmonia do templo.

  • A Projecção: Frequentemente, o ódio ao irmão ou ao diferente é a projecção daquilo que o sujeito rejeita em si mesmo. É a paixão que busca destruir o que desestabiliza a imagem idealizada do “Eu”.
  • O Trabalho do Cinzel: A Maçonaria ensina a dominar (vencer ou controlar com equilíbrio do discernimento e razão) as paixões. Lidar com o ódio não significa eliminá-lo — tarefa impossível para o humano — mas sim transformá-lo em reconhecimento da alteridade. O “cinzel” da razão e da tolerância deve actuar justamente onde o ódio tenta erguer muros, transformando-os em colunas de sustentação.

O Equilíbrio das Paixões pelo Esquadro e Compasso

A jornada do maçom, assim como o processo analítico, é um percurso de rectificação dessas paixões.

  1. Transforma-se a Ignorância em busca incessante pela Verdade.
  2. Refina-se o Amor para que ele seja união, não fusão cega.
  3. Educa-se o Ódio para que a agressividade se torne força de construção e defesa da justiça.

Ao equilibrar o esquadro (a razão/lei) e o compasso (a sensibilidade/desejo), o iniciado deixa de ser escravo das paixões para se tornar o arquitecto de sua própria história, compreendendo que o templo mais difícil de erguer e cuidar zelosamente é aquele construído dentro de sua própria subjectividade.

Entre o esquadro que limita e o compasso que amplia

(Alexandre L. Fortes)

 Entre o esquadro recto e o compasso que amplia,
O obreiro talha o ser na oficina, de noite e de dia.
Três paixões o habitam, num nó de estranha lida,
Marcando os relevos e as sombras da vida.
Em seu cinzelar fraternal, denodado afã
Em três intersecções à filosofia de Lacan

A Ignorância é a venda, o breu do não-saber,
A vontade activa de nunca se ver.
É o refúgio do ego na sombra do véu,
Negando o abismo que existe sob o céu.
Mas no silêncio do seu eu, a terra o convida:
Vencer o deserto e encarar a ferida.

O Amor é o espelho, a busca da união,
Dar o que não se tem na palma da mão.
Promete a inteireza, a paz do igual,
Mas corre o perigo de ser narcisista e fatal.
Que a Coluna de Harmonia não seja fusão,
Mas o encontro de faltas que faz a canção.

O Ódio é a rudeza, aspereza, a aresta que fere,
Onde o gozo do outro a mim se interfere.
É o muro erguido contra o que é diferente,
O medo do eu que se torna serpente.
Mas, domado no nível, ele vira firmeza:
A força que ergue a justiça e a beleza.

Pela régua do tempo e o prumo do ser,
É preciso perder para enfim renascer.
Ignorância em luz, Amor em alteridade,
Ódio em limite e ética da verdade.
Na pedra, esquadrejada e polida, o segredo se encerra:
O céu se constrói com as colunas, virtudes da terra.

Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI

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