As raízes da espiritualidade maçónica
A espiritualidade é uma dimensão do ser que se cultiva como um ser vivo, que precisa de tempo para crescer e florescer, cuja primeira semente é a iniciação no primeiro grau de todos os ritos, quaisquer que sejam, desde os antigos egípcios. Desde a origem da Maçonaria, esse “crescimento” natural que se realiza por si mesmo é acompanhado, no imaginário dos maçons, pela “crença” prévia num Grande Arquitecto do Universo, que se tornou mesmo “regularmente” em certas Ordens e Ritos uma condição necessária para se ser iniciado(a).
O pastor James Anderson começa assim, em 1723, o seu Livro das Constituições:
“Adão, o nosso primeiro progenitor, criado à imagem de Deus, o Grande Arquitecto do Universo, devia ter as Ciências Liberais, particularmente a Geometria, escritas no seu coração; pois encontramos os seus princípios no coração dos seus descendentes.”
Além disso, os maçons que cultivam em si mesmos a sua semente de espiritualidade voltam regularmente ao primeiro parágrafo dessas Constituições e se comprometem a não ser “nem ateus estúpidos nem libertinos irreligiosos”:
“No que diz respeito a Deus e à religião, um Maçom é obrigado, pela sua posição, a obedecer à lei moral; e se compreender bem a arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso.”
Os trabalhos dos maçons são assim determinados desde 1723 pelas palavras “nunca (nem) ateu estúpido” e “nem libertino irreligioso”, uma dupla negação e um duplo paradoxo onde cada um pode projectar as suas próprias convicções e crenças sem receio de entrar em conflito com as dos seus irmãos e irmãs na Maçonaria ou de se desviar do caminho. Ao mesmo tempo que estimulam a imaginação através de paradoxos, estas negações recentram as reflexões e a busca dos maçons num fundo espiritual e num espaço secreto e sagrado a construir em si mesmo, sem pressa, mediador entre o homem e a divindade. “Apresse-se lentamente e sem perder a coragem, volte vinte vezes ao seu ofício”, escreve Nicolas Boileau na sua “Arte Poética”, onde acrescenta, o que não deixa de ter “sal” na Maçonaria: “Seja antes Maçom, se esse é o seu talento”.
Tudo está dito nestas palavras, mas tudo resta por fazer… A elevação espiritual não se decreta e não resulta de um título recebido à nascença ou conferido por uma autoridade superior, mas adquire-se através de um trabalho “regular”, apoiado tanto por cada Maçom e Maçona no seu íntimo como pelos seus irmãos e irmãs na Loja. Cada um deve decidir afastar-se das ideias gerais, onde tudo e o seu contrário podem ser ditos e até “preditos” por outros, para se voltar para si mesmo e arriscar-se a enfrentar zonas de sombra e questões sem resposta.
Cada Maçom e Maçona tende assim a substituir progressivamente nos seus trabalhos as reflexões de ordem geral por assuntos em que o uso do pronome “eu” está associado a verbos conjugados que o envolvem pessoalmente, começando pelas palavras “Quem sou eu?”.
Tudo começa durante a Iniciação ao primeiro grau e a cena do espelho, em que o iniciado projecta a sua imagem, quando o “eu” mudo, ainda “proibido” sob o impacto das emoções sentidas durante a cerimónia, percebe esse ser exterior a si mesmo e a si mesma que o(a) constitui e, paradoxalmente, permanece muito longe da dimensão interior à qual ele(a) aspira doravante. É ao aprender a fazer coexistir essas duas dimensões, exterior e interior, em si mesmo e durante os trabalhos colectivos na Loja, que se revela o material universal pelo qual se elabora a iniciação maçónica: a linguagem e as suas analogias de sentido que se cruzam cada vez mais frequentemente e intensamente nas palavras escritas e nas placas de oradores com títulos diversos.
Desde o início, duas vias se oferecem aos maçons para trabalhar esse material, seja multiplicando o sentido das palavras e das ideias veiculadas pela linguagem, seja “reduzindo-as”, como cultivando um “banzaï” interior, ao essencial, para recentrá-las na razão de ser da iniciação: a elevação espiritual do sujeito pensante e falante, através da activação do “eu” central e das suas potencialidades reconhecidas e restauradas. Por um lado, o crescimento exponencial das palavras e a proliferação de ideias em longos discursos, semelhantes ao crescimento desenfreado da folhagem das árvores; por outro, o seu corte regular através da limitação dos escritos e das palavras a temas de reflexão aparentemente redutores, mas que aproximam o sujeito pensado do eu, sujeito pensante e actuante. De um lado, temas de reflexão e conhecimentos gerais, múltiplos e variados; do outro, temas restritivos com predominância simbólica, regularmente retrabalhados.
Estas duas vias dão origem a duas culturas maçónicas que, sem se oporem radicalmente, permanecem rivais e canalizam de forma diferente o ardor e a energia dos maçons no trabalho.
“Uma delas preocupa-se com os homens e a sociedade, o que conduz ao que chamamos de Ordem da sociedade, de essência filantrópica e progressista. A outra é de natureza espiritual e busca a Iniciação. Falamos então de uma Ordem Iniciática e Tradicional. Todas as maçonarias existentes participam, em maior ou menor grau, tanto da Ordem da sociedade quanto da Ordem Iniciática.”
(Claude Guérillot,
Le Rite de Perfection)
No Templo, a Lua que preside à coluna norte é o astro da espiritualidade que apenas aspira a se revelar na consciência, mas que deve ser merecida e só é percebida pelos Maçons e Maçonas que escutam o seu coração. Esta escuta era aprendida e praticada como uma arte de viver pelos antigos egípcios e traduzia-se na linguagem pela palavra (sḏm, sedjem), o verbo de audição mais usado na língua egípcia antiga, que podia significar, dependendo do contexto, ouvir, escutar ou obedecer. Pois a escuta permite ao homem entrar em contacto com o mundo que o rodeia e com o seu próprio mundo interior, muito além dos limites fisiológicos do órgão auditivo. Os antigos egípcios atribuíam um papel importante à audição na construção das relações humanas. Ouvir era um dos fundamentos da educação egípcia e da literatura destinada aos escribas e à elite, e a sociedade egípcia parece não ter tido outro objectivo senão produzir “sḏmỉ”, ouvintes.
“Como substantivo, sḏm também pode designar o servo. O título sḏm-ʿš (sedjemach) significa literalmente “aquele que ouve o chamado” e aquele que responde ao chamado, que obedece. Em alguns casos, sḏm pode assumir um último significado, que é o de julgar”.
(Sibylle Emerit,
L’ouïe, de la voix, et des sons)
O julgamento surge como o resultado de uma escuta selectiva que leva a uma escolha; o juiz no antigo egípto é chamado de sḏmỉ, “aquele que escuta”. Esta imbricação de significados mostra que a escuta e a obediência eram percebidas pelos antigos egípcios como valores essenciais a serem adquiridos pelos jovens escribas durante a sua aprendizagem. Hoje em dia, entre os maçons, os Companheiros do Ofício e os Rosacruzes, aprende-se igualmente a ouvir o outro e a ouvir-se a si mesmo, para melhor se conhecer, reconhecer e amar.
A Lua é a passagem do ciclo ao ritmo, das séries de fenómenos cíclicos omnipresentes no universo e em si mesmo, à sua reprodução ritmada e modulada como para os reviver, para lhes dar sentido e até mesmo fazê-los falar. O ritmo é a sobrevivência dos ciclos, assim como a música é uma composição de ciclos de notas e acordes revividos por ritmos variados. A Lua é a arte de os ouvir desde o nascimento, como tudo o que ressoa em si mesmo a todos os níveis, todos os fenómenos físicos e pensamentos que nele ocorrem em ritmo e tendem naturalmente a entrar em ressonância uns com os outros.
Na Língua dos Pássaros, a Lua é a arte de ressoar ao raciocinar, ressoar do cérebro direito ao raciocinar do cérebro esquerdo, e assim cruzar os pensamentos que eles geram no centro do cérebro e revigorar a consciência. Os Aprendizes na coluna norte aprendem em silêncio a “ressonar” palavras que se cruzam no Templo, enquanto raciocinam por analogia para integrar o sentido dessas palavras e fazer emergir novos significados. Eles aprendem a desencadear regularmente, durante esses cruzamentos, faíscas de consciência que iluminam a sua mente e o seu coração, que as absorve como uma esponja e se enche de amor à medida que isso acontece.
O conhecimento material horizontal e a consciência espiritual vertical concentram-se assim no seu coração, tal como acontecia com os antigos egípcios, para quem um ser inteligente era “desprendido do coração” e a sua alegria era chamada e escrita como “dilatação do coração”. A inteligência do coração é o sal da vida que permite compreender a vida em geral e a vida espiritual em particular, para compreender e amar ao mesmo tempo, pois a inteligência por si só só compreende a superfície do mundo enquanto o coração não penetra a casca dos seres e das coisas para os compreender por dentro.
A cruz simboliza este cruzamento regular entre o eixo do conhecimento horizontal e a consciência vertical no coração dos seres espirituais no Ocidente, e cabe a cada um construir a sua própria cruz. A mensagem do simbolismo iniciático em acção é: construa você mesmo a sua cruz da vida! Coloque no eixo horizontal os seus conhecimentos em todas as áreas que se acumulam em si desde que nasceu, desde o seu primeiro suspiro. Todos os conhecimentos são importantes, sejam eles adquiridos brincando como as crianças ou mais tarde estudando. Tudo é fonte de conhecimento quando se ama a vida, uma vida plena e ávida pelos benefícios distribuídos em abundância pela vida e pela Natureza.
E quanto mais amamos a nossa vida, mais estimulamos e fazemos crescer o eixo vertical da cruz, onde o conhecimento assume outra dimensão, a da consciência. Não há nada mais difícil de definir do que essa transformação em si mesmo de uma centelha de conhecimento num clarão de luz que ilumina a consciência, que dá ao corpo uma nova força, à mente a inteligência e à alma a leveza. Estas centelhas de conhecimento e esses flashes de consciência iluminam ao mesmo tempo o coração, a mente e a alma, e os inundam com suas virtudes. Virtudes sob a forma de pensamentos teológicos, de medicina natural para nos sentirmos bem em nós mesmos de forma integral, e até mesmo para nos sentirmos melhor do que bem quando descobrimos a nossa dupla natureza terrestre e cósmica, pois o homem e a mulher são o universo em miniatura, microcosmo no macrocosmo. Todas as virtudes dos minerais, das plantas, de tudo o que vibra na Natureza, são positivas assim que recolhemos essas virtudes como bens preciosos.
Toda a vida adquire assim, pouco a pouco, o sentido de uma obra alquímica, de um Opus que testemunha uma passagem a realizar em si mesmo da vida para uma sobrevida, e isto mesmo na vida dos seres espirituais realizados. Ao lado deles, a vida espiritual segue seu curso com toda a serenidade, seguindo as regras da Natureza e do cosmos, ciclos regulares de trabalho e oração que desencadeiam a elevação da alma na dimensão cósmica do ser. Mas antes de chegar a esse ponto, convém não acelerar indevidamente o tempo e, pelo contrário, aprender a retê-lo, a conter em si mesmo essa tentação de acelerá-lo, para deixar que a Obra interior de transmutação alquímica se realize por si mesma, sem querer explicitamente e sem expressá-la por palavras, nomes ou conceitos quaisquer. Pois, para os alquimistas, essas palavras e nomes são combustível que aumenta o poder do seu fogo, a ponto de queimar e destruir a obra já realizada. Conter a aceleração do tempo como o poder do fogo é, portanto, toda uma arte, a arte de queimar-se interiormente sem se consumir inteiramente, a arte de pensar Deus, e não pensar em Deus, sem o nomear.
Hoje, este conhecimento e essa consciência não têm boa reputação, pois exigem um mínimo de esforço intelectual e devem ser merecidos. Destinam-se a homens e mulheres que procuram a ideia por trás do símbolo, que não têm medo do espírito por trás da letra, ao contrário daqueles, cada vez mais numerosos, que se servem das obras dos pensadores e artistas para as transformar em espelhos planos e reflectir-se neles sem ousar ultrapassar os seus limites. No entanto, o pensamento está sempre em movimento, mesmo durante o sono, pronto para conhecer e viver esses grandes saltos e mudanças espirituais. E como poderia ser diferente, uma vez que tudo está sempre em movimento em si mesmo e no universo, e que uma espiritualidade plena é o objectivo final de uma existência realizada?
Patrick Carré
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:
- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
