Freemason

As potências maçônicas e os ritos praticados

✍️ Desconhecido 📅 14/05/2026 👁️ 2 Leituras

esquadro, compasso, potências, ritos

Compreender a história e a importância das potências maçónicas passa, de forma indissociável, pelo estudo dos ritos praticados pela Maçonaria, posto que a Arte Real somente se realiza pelo trabalho dos obreiros mediante a riqueza de cada rito praticado pelo Maçons.

1 – Definição, historicismo e evolução dos ritos praticados na Maçonaria

Na definição mais ampla do vocábulo, segundo o dicionário Mercury Jr. da Língua Portuguesa, rito significa “cerimónia própria de qualquer culto; sistema de organizações maçónicas”. Em suma, trata-se da sequência normatizada e organizada pela qual determinados eventos ou actos se realizam. A traçar um paralelo com o mundo do direito, na definição contida no Dicionário Compacto do Direito, rito refere-se ao “conjunto das formas mediante as quais deve ser praticado um acto jurídico”. Ao que interessa no bojo do trabalho, Fernando Moretti na sua obra intitulada Os Ritos Secretos da Maçonaria, ensina que “ritos são procedimentos e métodos usados para organizar as cerimónias e transmitir os ensinamentos – algo assim como levar a Luz Maçónica ao profano”.

Bem posta, inicialmente, a definição que se tem por rito, seja no mundo profano, mas, principalmente, no meio Maçónico, passa-se a entrar na história dos ritos, abordando-se cada um dos principais praticados no mundo, relatando-se a particularidade de cada um deles.

1.1 – O Rito Escocês Antigo e Aceito

O REAA tem origem na França no ano de 1758, e tem como base a Lenda de Hiram (que é a origem de toda a Maçonaria simbólica) e, também, o Rito de Heredom. Trata-se de um dos ritos mais praticados pela Maçonaria Universal, e tem como uma das suas características ser teísta, ou seja, lastreia-se numa doutrina que admite na existência de um Deus pessoal e vivo.

O REAA – que também é conhecido, simplesmente, como Rito Escocês -, possui 33 Graus, sendo os primeiros três simbólicos (Aprendiz, Companheiro e Mestre), onze Graus filosóficos, quatro Graus de Capítulos, doze Graus de Areópagos e três Graus Administrativos, sendo o 33º conhecido como Soberano Grande Inspector-geral.

1.2 – O Rito de York

O Rito de York – também conhecido como Rito do Real Arco -, surgiu no ano 1799, por criação de Thomas Smith Webb. Embora criado por este nos Estados Unidos, caracteriza-se o rito por ser muito identificado com a Inglaterra. Uma das suas fortes características neste ponto é a de que os praticantes desse rito não se postam como obreiros de uma Loja de São João, eis que professam como seu padroeiro São Jorge, que é, por sua vez, padroeiro da Inglaterra.

Os praticantes do Rito de York têm uma profusão maior nos países de língua inglesa, como os EUA, Inglaterra e Canadá, e, ainda, países da Oceânia e da América Latina. A sua divisão, em Graus, dá-se da seguinte forma: os três dos Graus Simbólicos (Aprendiz, Companheiro e Mestre), mais quatro dos Graus Capitulares; três dos Graus Crípticos e três das Ordens da Cavalaria.

1.3 – O Rito Moderno ou Francês

O Rito Moderno foi criado no ano de 1761, embora alguns historiadores acreditam que o seu surgimento se deu apenas no ano de 1786. Controvérsias cronológicas à parte, facto incontestável é que o Rito Moderno nasceu na França, tendo sido proclamada pelo Grande Oriente daquele País no ano de 1773.

Este rito leva o adjectivo de Moderno para se diferenciar do adjectivo Antigo que nomina o Rito Escocês Antigo e Aceito. Pela mesma razão, o chamado Rito Francês leva esta denominação para se antepor ao Rito Escocês. É como se o Rito Moderno e o REAA fossem absolutamente antagónicos. Este rito caracteriza-se, fundamentalmente, por ser adogmático, ou seja, prima pela adopção da livre expressão de convicção dos seus membros, não se colocando em posição deísta ou teísta, por exemplo.

Uma curiosidade histórica que se destaca em relação ao Rito Moderno é que nasceu dele – perante o Grande Oriente da França – a adopção da palavra semestral como instrumento de comprovação da Regularidade Maçónica, sinal que passou a ser adoptados pelos demais ritos e potências maçónicas até os dias actuais.

1.4 – O Rito Escocês Rectificado

O RER foi idealizado por Jean Baptiste Willermoz, no século XVIII e, apesar da expressão Escocês Rectificado, tal não significa que a sua existência veio a “rectificar” o REAA – na verdade a designação serve para ilustrar que o RER tem o seu nascedouro no Rito da Estrita Observância Templária. O RER, embora também seja chamado de Rito de Willermoz, a sua criação teve a participação e/ou a influência de, ao menos, dois personagens relevantes para o rito: Martinez de Pasqually e Louis-Claude de Saint Martin.

O Rito Escocês Rectificado caracteriza-se por praticar os seus trabalhos muito voltado ao esoterismo e ao estudo da Cabala. É um rito predominantemente teísta (ou seja, que crê na existência de um ou mais deuses), e tem como curiosidade o facto de que os seus candidatos não são iniciados, como na maioria dos demais ritos, mas, sim, recepcionados. O RER tem adeptos em países predominantemente europeus, como a França, Suíça, Bélgica e Itália, mas também é praticado nos EUA e, inclusive, no Brasil.

1.5 – O Rito Schröder

Como o próprio nome já sugere, o Rito Schröder foi criado na Alemanha, na cidade de Hamburgo, no ano de 1801, por Friedrich Ludwig Schröder. É um rito que tem por base o livro “Three Distinct Knocks”, que em tradução livre significa algo como “três batidas distintas”, e se refere a uma obra inglesa, de autoria de Samuel Pritchard (embora alguns historiadores controvertam essa informação, alegando ser de autoria desconhecida a referida obra). Three Distinct Knocks, segundo a compreensão do próprio Schröder, se traduzia no mais antigo ritual inglês, do Rito de York, que com o passar dos anos foi adaptado à Maçonaria alemã.

Este rito caracteriza-se por sua simplicidade, tanto que ele adopta, tão-somente, os três graus simbólicos da Maçonaria Pura (Aprendiz, Companheiro e Mestre), não se adoptando, assim, os graus filosóficos. Esta simplicidade evidencia-se, sobretudo, no acto da iniciação do neófito, que, ao invés de proferir um juramento, dele exige-se, apenas, a chamada palavra de honra.

1.6 – O Rito Brasileiro

A génese do Rito Brasileiro é incerta quanto a data da sua origem (alguns criadores referem 1848, outros 1878). Consenso, no entanto, é que o seu nascedouro se deu encabeçado por José Firmo Xavier que, junto com mais de 800 irmãos da Grande Loja Provincial de Pernambuco, criou o que se denominou à época como Constituição Especial do Rito Brasileiro.

O Rito Brasileiro, inicialmente, teve uma vida curta, eis que professava algumas premissas extremamente rígidas que se viam como incompatíveis com a Arte Real, como, por exemplo, a admissão, tão-somente, de brasileiros natos. No ano de 1914, no Grão-Mestrado de Lauro Sodré, da Potência do Grande Oriente do Brasil (GOB), é que o rito foi regularizado, porém, novamente descontinuado na década de 1940.

Em 1968, já no Grão-Mestrado de Álvaro Palmeira, é que o rito foi oficialmente regularizado, sendo até hoje praticado nos moldes daquela época.

Este rito caracteriza-se pela existência dos três graus simbólicos e os trinta graus filosóficos. Ainda, é reconhecido por ser um rito teísta, que trabalha a figura do Maçom em diversos aspectos: moral, científico, artístico, político, cívico, entre outros.

1.7 – O Rito Adonhiramita

Adonhiramita é uma palavra que se origina na fusão dos vocábulos Adonai (que significa Senhor) e Hiram, um arquitecto da cidade de Tiro, que é citado na Bíblia, no Primeiro Livro de Reis, com descrição precisa no Capítulo 7, Versículos 13-14, assim relatando:

mandou também o rei Salomão que de Tiro viesse Hirão, filho duma mulher viúva da tribo de Neftali e cujo pai era de Tiro, que trabalhava em bronze, e era cheio de sabedoria, de inteligência e de ciência para fazer todo o género de obras de bronze. Tendo-se, pois, Hirão apresentado ao rei Salomão, fez todas as suas obras. A junção destas palavras forma o vocábulo Adonhiram, que, por sua vez, nomina o Rito ora em estudo.

O Rito Adonhiramita foi compilado em 1767, na França, pelo Barão de Tschoudy, e o seu livro-base que serve, inclusive, para a prática do Rito no Brasil (como no caso do GOB), é o Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite (traduzido para o português como Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita). O rito caracteriza-se por ser teísta, cristão, bíblico-salomónico e templário, e, ainda, possuí carácter elevadamente espiritualizado e esotérico.

Importa destacar que o Rito Adonhiramita se rege, actualmente, pelos três graus simbólicos já referidos outrora (Aprendiz, Companheiro e Mestre) e mais trinta filosóficos.

Na vertente histórica, o Rito Adonhiramita tem especial destaque na Maçonaria Brasileira, em particular por ocasião da fundação do Grande Oriente do Brasil, cuja fusão das Lojas Reunião, Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói, que praticavam o Rito Adonhiramita, criaram a Potência Maçónica mais longeva do País.

2 – As Potências Maçónicas – suas origens e desenvolvimento ao longo do tempo

A primeira parte do presente estudo dedicou-se à ousada pretensão de, em breves linhas, traçar um panorama da história e das características dos principais ritos praticados no mundo e, em particular, no Brasil. Contudo, a existência dos ritos, como referido no início do trabalho, é indissociável à existência de Potências Maçónicas Regulares que permitam que os trabalhos dos obreiros, sejam de que rito forem, possam ser realizados. Assim, entra-se na segunda parte do trabalho, dedicado ao estudo das Potências Maçónicas.

2.1 – Conceito de Potência Maçónica

Uma definição perfeita de Potência Maçónica pode ser extraída da obra Introdução à Maçonaria, de autoria de António Arnaut, que, no ponto, ensina que

a Maçonaria não é uma Igreja, e, por isso, não existe um poder central único e uma autoridade supranacional. As lojas ou oficinas formam grupos que se administram a si mesmos, constituindo, em cada país, uma federação dirigida por um Grande Oriente ou Grande Loja, as chamadas “potências” ou “obediências”, inteiramente independentes, embora, eventualmente, ligadas por tratados.

Extrai-se, pois, da lição de António Arnaut, que a Maçonaria Universal não se sujeita a um Poder Central (a exemplo da Santa Sé, no Vaticano, em relação à Igreja Católica Apostólica Romana), tampouco à uma autoridade global representativa de todos os Maçons (igualmente a exemplo do Sumo Pontífice). Existem, assim, representações ou jurisdições regionais, submetidas à regência de um Grão-Mestre que representa aquela Potência, dos quais os Maçons daquela prestam a sua mais leal obediência e sujeição. Mas, ainda assim, mesmo havendo pluralidade de Potências Maçónicas, todas elas são independentes e concretizam as suas relações de fraternidade por meio dos Landmarks, em especial o 14º, que garante o direito de todo e qualquer Maçom regular de visitar outra Loja Maçónica.

2.2 – Bases históricas da Maçonaria

Para bem compreender o historicismo das Potências Maçónicas, importante destacar, primeiramente, que a Maçonaria, em síntese, divide-se em três grandes períodos históricos da sua existência: a Maçonaria Primitiva, a Operativa e a Especulativa.

Em breves palavras, a Maçonaria Primitiva é aquela em que se assentam as bases mais fundamentais da história humana e social, com a sedimentação do conhecimento que atravessam os séculos, e que remanescem até os dias actuais. Já a Maçonaria Operativa se caracteriza por ser aquela em que emana a história dos construtores catedrais, castelos e demais edifícios – os obreiros que, efectivamente, operavam no uso das ferramentas de construção dessas obras. E a Maçonaria Especulativa é a que nasce com o surgimento da Grande Loja de Londres, em 1717, e que está presente até hoje, e se caracteriza pela sua organização em Lojas, que se sujeitam à uma Potência ou Obediência, em que os seus integrantes (Maçons) trabalham dentro dos Templos.

Feita esta distinção que se entende salutar fazê-la, passa-se ao estudo efectivo das Potências Maçónicas.

2.3 – As Potências Maçónicas no mundo – o surgimento da Grande Loja de Londres

Como dito anteriormente, a transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa tem como marco temporal bem delineado o surgimento da Grande Loja de Londres, em 1717.

Historicamente, ainda no Século XVII, quando existente a Maçonaria Operativa, grupos de obreiros chamados Maçons Aceitos reuniam-se em espécies de confrarias, chamadas de Aceitação, com uma devida organização que compreendia, entre outros, o pagamento de uma jóia para serem aceitos nesses grupos. Esta é uma forma rudimentar das Lojas Maçónicas que hoje se conhece.

Em 1717, existiam quatro Lojas que se reuniam em tabernas e cervejarias, quando a fusão dessas deu a origem à Grande Loja de Londres, no dia 24 de Junho de 1717, no qual foi nomeado como Grão-Mestre Anthony Sayer, recebendo o título de Grão-Mestre dos Maçons. Junto a ele, foram nomeados como Grandes Vigilantes, Capitão Joseph Elliot e Mr. Jacob Lamball.

A criação da Grande Loja de Londres, em 1717, foi o marco historicamente relevante que ultrapassou fronteiras em todo o mundo, aos efeitos de propagar e organizar a Maçonaria Especulativa do modo hoje conhecida.

2.4 – As Potências Maçónicas no Brasil

No início do Século XIX, ainda sob a égide do Brasil Colónia, surgiram no país as primeiras Lojas Maçónicas de que se tem conhecimento. As primeiras que se têm notícia datam do ano de 1800, e se chamavam As Efemérides e União, subordinadas ao Grande Oriente da França, e que operavam sob o Rito Adonhiramita.

Em 1802, Maçons portugueses fundaram em Salvador a Loja Virtude e Razão, que adoptou o Rito Moderno, mas que não se sujeitava a nenhuma obediência maçónica. A profusão de diversas Lojas Maçónicas que se submetiam à Potências estrangeiras (ou não se sujeitavam a qualquer Obediência Maçónica), exigia que alguma organização nacional fosse criada para organizar a Maçonaria Brasileira.

Assim, em 17 de Junho de 1822 (poucos meses antes da Proclamação da Independência do Brasil), o desmembramento da loja maçónica Comércio e Artes, que, por sua vez, gerou a criação de outras três (Comércio e Artes na Idade de Ouro, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói), dando surgimento ao Grande Oriente Brasileiro, que hoje se conhece como o Grande Oriente do Brasil, que é a instituição privada que há mais tempo está em funcionamento ininterrupto no país, sendo, também, a primeira Potência nacional reconhecida pela Grande Loja Unida da Inglaterra e pelo Grande Oriente da França.

Por ocasião da fundação do GOB, foi proclamado como primeiro Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada e Silva, pelo que foi acompanhado, na organização da Potência, pelo Grande Orador Padre Januário da Cunha Barbosa, e pelo 1º Grande Vigilante Joaquim Gonçalves Ledo. Os trabalhos do GOB principiaram na adopção do Rito Adonhiramita.

Sob os auspícios do GOB, Dom Pedro I foi iniciado, em 2 de Agosto de 1822, na Loja Comércio e Artes, tendo recebido o nome simbólico de Guatimosim. Logo após a Proclamação da Independência pelo Imperador, este foi, em 4 de Outubro daquele ano, nomeado Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, condição que não perdurou por muito tempo, pois, logo após, o Imperador e Grão-Mestre Dom Pedro I ordenou a suspensão dos trabalhos do GOB.

No curso do Século XIX e princípio do Século XX, foram sendo criadas outras Potências Maçónicas, também denominadas Grandes Orientes – como, por exemplo, o Grande Oriente do Passeio, com sede no Rio de Janeiro, e outras denominações, como o Grande Oriente do Estado de Minas Gerais. Ocorre que a divergência entre grupos de Maçons, pontualmente no tocante à prática de ritos, ensejou a ocorrência de uma grande cisão, em 1927, no qual, da dissidência de Maçons do GOB, foram criadas as Grandes Lojas de alguns Estados da Federação.

A última cisão histórica ocorrida no âmbito do GOB se deu no ano de 1973, ocasião em que desta outra dissidência foram formados os Grandes Orientes Independentes Estaduais Reunidos. Em arremate, no panorama que restou desenhado em relação às Potências Maçónicas no Brasil, bem observa o estudo de Nicola Aslan, que

(…) além do Grande Oriente do Brasil, que deixou de ser a maior Potência do Mundo Latino, existem, neste país, as Grandes Lojas Estaduais, os Grandes Orientes Estaduais Independentes, formando o Colégio de Grão-Mestre de Maçonaria Brasileira (…)

Nikola Tesla Fábio Vieira Gonçalves

Nikola é Aprendiz Maçom na ARLS Templo de Noûs, Oriente de Porto Alegre, Federada ao Grande Oriente do Brasil – Jurisdicionada ao GOB – Rio Grande do Sul.

Fonte

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo