A solidão da Geração Z
Um artigo recente do Financial Times, da autoria de John Burn-Murdoch, analisou alguns números deprimentes do American Time Use Survey. De acordo com os dados, “num dia normal de 2023, um em cada dez jovens americanos com idades compreendidas entre os 23 e os 29 anos não passou um único minuto a interagir cara a cara com outra pessoa”.
Não se trata de um erro tipográfico. Nem de um erro de arredondamento. É zero. Ou seja, nem uma única pessoa.
E isto vai ter um impacto na Maçonaria no futuro.
Do artigo “Para algumas pessoas, os confinamentos da pandemia nunca terminaram” (“Pandemic lockdowns never ended for some people”):
“Muitos adolescentes e jovens adultos têm hoje vidas socialmente tão ricas como há uma década, enquanto outros ficaram completamente isolados. Em 2019, o quartil de jovens com maior interacção social costumava passar 87% do seu dia com outras pessoas, fossem elas familiares, amigos, colegas de trabalho ou outros. Durante a pandemia, esse valor desceu para 78%, mas recuperou para 83%. O segmento mais isolado costumava passar cerca de um terço do seu dia na companhia de outras pessoas, mas esse valor desceu agora para praticamente zero.”
Mas as pessoas na parte inferior da escala nunca recuperaram. Antes da Covid, o segmento mais isolado de jovens adultos costumava passar um terço do seu dia na companhia de outras pessoas. Mas esse valor caiu para zero durante o confinamento da pandemia.
E permaneceu assim.
Hoje em dia, os americanos passam cada vez mais tempo a olhar para ecrãs. O tempo diário que os americanos passam no computador e nas redes sociais aumentou de 25 minutos em 2015 para 37 minutos em 2025. E os adolescentes? Estão a passar, em média, cerca de 90 minutos por dia. E mais de um terço das pessoas empregadas continuava a realizar pelo menos parte do seu trabalho a partir de casa em 2025.
“Quer estejamos a falar da longa sombra dos confinamentos pandémicos, do ambiente digital cada vez mais cativante ou da pressão académica crescente, as forças que desfavorecem a socialização tiveram efeitos radicalmente diferentes em diferentes jovens.
“Os dados do Reino Unido retratam um quadro semelhante do que talvez tenhamos de começar a chamar de desigualdade social. Um relatório a ser publicado em breve pelo Institute for Public Policy Research revela que, embora o jovem britânico médio tenha cerca de cinco amigos íntimos — o mesmo número que em 2015 —, a percentagem daqueles que não têm um único amigo íntimo disparou de um em cada 100 em 2015 para um em cada 20 actualmente.”
[trecho omitido]
“Os números apontam para uma coincidência corrosiva de mudanças sociais lentas e rápidas. Desde o aumento do teletrabalho até às caixas automáticas e à substituição das compras em lojas físicas pelo comércio electrónico, a tecnologia tem vindo a corroer progressivamente o número de encontros interpessoais casuais que, normalmente, proporcionariam até à pessoa mais reservada um nível básico de contacto humano.
“Ao mesmo tempo, a proliferação de meios digitais hiper-envolventes e ilimitados tornou o lazer solitário a norma, enquanto a socialização presencial se tornou relativamente mais exigente — especialmente para quem tem uma natureza mais ansiosa ou introvertida. Enquanto as inovações mecânicas que poupam trabalho libertaram mais tempo para a socialização, as inovações digitais tiveram frequentemente o efeito oposto.
“Acrescente-se a estas lentas mudanças de fundo que desfavorecem a socialização o choque da era pandémica, com a perturbação dos hábitos e a solidão imposta a muitos jovens, e parte deste grupo é empurrada para um equilíbrio novo e prejudicial, do qual tem dificuldade em escapar.
“Os laços sociais são extremamente importantes para a saúde e a longevidade, e a crescente co-ocorrência de isolamento social e económico torna o problema do aumento do desemprego juvenil mais difícil de resolver.”
Nada disto deveria surpreender quem tem estado atento. A COVID manteve toda uma geração de jovens em casa precisamente nos anos em que a maioria de nós aprendeu a navegar no mundo real com pessoas reais. Alguns nunca voltaram a sair completamente.
Como maçons, isto toca-nos de perto. Um dos pontos fortes discretos da nossa Ordem sempre foi o facto de tirar as pessoas do isolamento e levá-las para uma sala com um grupo, esperemos, diversificado de outras pessoas — de forma deliberada. A Loja é um dos últimos locais (juntamente com as igrejas) onde adultos de todas as esferas da vida ainda se reúnem regularmente em pessoa, olham-se nos olhos, apertam as mãos e conversam sobre algo mais substantivo do que as últimas notícias alimentadas por algoritmos. Num mundo em que um número crescente de jovens adultos passa dias e semanas inteiros sem esse contacto humano básico, o simples acto de nos reunirmos num santuário, longe das discussões do mundo exterior, continua a ser mais importante do que, por vezes, nos lembramos.
Vale a pena pensar nisso da próxima vez que se sentir tentado a faltar a uma reunião regular.
O que isto significa para nós é que precisamos de nos dirigir activamente a estes homens e à sociedade em geral com a mensagem de que a Maçonaria os pode ajudar. Somos MAIS necessários agora do que em qualquer outro momento do século passado.
Actualmente, menos de metade das crianças americanas com menos de 18 anos vive num lar tradicional com dois pais em primeiro casamento. Mais de um terço vive com um progenitor solteiro — geralmente uma mãe solteira — sem qualquer pai ou parceiro masculino a viver na casa, de QUALQUER tipo, para ajudar a criar e educar as crianças e para ser uma influência masculina ou um modelo a seguir para elas. Têm menos amigos de carne e osso e ainda menos irmãos e irmãs, porque muitos adultos decidiram que um filho — ou nenhum — é suficiente.
Todos estes dados demográficos afectam-nos profundamente enquanto maçons. Há menos rapazes que têm um pai ou avô para lhes transmitir tradições familiares como a Maçonaria. Hoje em dia, um jovem tem 40 vezes mais probabilidades de acabar na prisão do que de aderir a uma organização fraternal.
Um amigo meu, Dave Hosler, disse uma vez que, de todos os milagres atribuídos a Jesus Cristo, o maior foi o facto de, aos 33 anos, Ele ter doze amigos bons e próximos. Ou, pelo menos, onze. Há muita verdade nisso.
Numa loja, tornamo-nos irmãos. Os irmãos não são apenas amigos. Os irmãos vivem segundo um código. Ajudam-se uns aos outros, orientam-se mutuamente, permanecem ao lado uns dos outros e apoiam-se mutuamente. É por isso que o que assumimos no altar não é meramente um juramento ou uma promessa — é uma obrigação. Liga-nos ao dever e à integridade, mesmo a estranhos do outro lado do mundo. Esta é a maior genialidade da nossa fraternidade. Se vive uma existência isolada, quase sem família, sem amigos, com poucos ou nenhuns colegas de trabalho, talvez numa cidade longe de onde cresceu, na loja tem uma família alargada que é verdadeiramente global. Onde quer que vá no mundo, encontrará um irmão Maçom. E está ligado a uma herança familiar que remonta a 300 anos.
Vamos divulgar essa mensagem agora. Há toda uma geração de homens por aí que precisa desesperadamente de a ouvir.
Christopher Hodapp
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex-Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
