A Rainha Santa Isabel e as Festas do Espírito Santo
Refere a tradição erudita que a aragonesa Isabel e el-rei Dinis, seu marido, foram os autores da Festa do Espírito Santo, com o seu império, criado em benefício dos indigentes, cuja solenidade foi extensiva a outros lugares mais populosos do país.
A Rainha Santa Isabel, viveu entre 1282 e 1325 casou por procuração em Barcelona e celebrou a boda ao passar a fronteira portuguesa em Trancoso e foi beatificada em 1626, já no reinado de D. Afonso V.
Surpreendida à porta do Paço: «São rosas, senhor» e do regaço caem-lhe “rosas”, segundo Lima de Freitas, trata-se de uma lenda alquímica, onde “o alimento grosseiro se transforma em alimento subtil”.
D. Diniz não lhe era inteiramente devotado e visitava as damas nobres num Mosteiro, ao ter conhecimento a rainha ter-lhe-á dito «Ide vê-las, senhor?», uma corruptela que deu Odivelas.
No dizer de D. Fernando Correia de Lacerda (bispo do Porto): «Foi ali, nas íngremes ladeiras de Colares, que o sonho de Isabel de Aragão se consubstancia no pão e na carne, desfeitos que foram os caminhos gastos da Vila de Alenquer, onde ela sempre o sonhara».
A Rainha Santa, estimulou dentro do projeto nacional, uma geografia sagrada, através da sua Vila de Alenquer, estabelecendo ali lugar de oficialização do Culto do Divino Espírito Santo:
«Detiveram-se os reis alguns dias na corte de Leiria, e passaram à de Alenquer, e como Deus fala aos seus servos em sonhos, uma noite em que o sono não fugia dos olhos da Rainha Santa, sonhou que seria obra muito agradável ao Senhor, fazer naquela Vila uma Igreja dedicada ao Espírito Santo…mandou chamar os juízes daquele povo e ordenou que mandassem abrir os alicerces naquele sítio».
A Rainha Santa introduziu um cerimonial, conhecido por “Impérios ou Bodos”, onde se elege um homem “O Imperador do Espírito Santo”, que na festa de Pentecostes institui um “tipo de bodo”, sempre com abundância de pão, bolos, carne e outras iguarias, para os mais desfavorecidos.
Seria talvez uma forma de cristianizar antigos ritos pagãos ou perfilhar alguma mística literária dos espirituais que terá levado a Rainha Santa a proceder à introdução do culto do Espírito Santo.
No lugar de Penedo, pequeno povoado do concelho de Sintra, ainda hoje aos corações atentos, ressoa o eco de um cerimonial que há muito de extinguiu da maior parte dos locais deste Portugal – as populares Festas do Espírito Santo que integravam o ritual profano da coroação de um imperador, seguida da distribuição de um bodo aos pobres.
O sentimento religioso da população portuguesa em geral, manifestava-se em públicas solenidades devotas de grande sentimento, como sejam as festas do Divino Espírito Santo, comemorativa da Terceira Pessoa Divina que, em figura de pomba onde a sua brancura era a Pomba do Espírito Santo que baixava, sobre Cristo batizado por João (Mateus, III,16) ou como línguas de fogo, sobre as cabeças dos Apóstolos (Atos, V, 14).
Desde recuados tempos aproveitaram os portugueses essas ocasiões para expandir a sua contida alegria, esquecendo o quotidiano mesquinho e impiedoso, introduzindo em tais cerimónias, jogos, danças profanas e até libertinas, talvez filiações em credos pagãos.
Estes abusos foram refreados, em carta de D. Manuel, assinada em 24 de junho de 1519, onde nos festejos de Santa Isabel se proibiam «jogos e festas que convidavam ao desacato», sob pena de multa e o estabelecimento de severas disposições repressivas ditadas pela edilidade.
A festa chamada do Espírito Santo que teve o seu início em Alenquer e generalizou-se por todo o Portugal, penetrando nas ilhas com os primeiros povoadores, existem antigos registos da constituição do imperador, que andava na procissão e condecorava com sua presença as mesas e as festas, fazendo a alegria do povo.
O prior de Alenquer, Paulo Carneiro da Veiga, confirmou nas suas Memórias Paroquiais (vol.2, n°. 46 de 1758, pag. 320), a mulher do Lavrador «Fundou também por revelação divina o Templo dado ao Divino Espírito Santo pelos anos de 1323…».
O Culto do Divino Espírito Santo, quase desaparecido no continente permanece vivo nos Açores e Terras de Imigração (Brasil, Estados Unidos da América e Canadá).
No Brasil em cada região, as Festas do Espírito Santo, têm as suas particularidades, em Paraty estas são realizadas desde o século XVIII e apresentam elementos bem distintos: bandeiras, danças e shows com artistas da atualidade, a par das novenas, missas e entrega de lembranças, finalizando os Festejos com uma grande procissão pelas ruas da cidade.
O imperador era inicialmente um adulto, como constata D. Fernando Correa de Lacerda, em: História da Vida, Morte, Milagres, Canonização e Transladação de Santa Isabel, Sexta Rainha de Portugal, Lisboa 1680. Atualmente é uma criança que trajando as vestes e insígnias episcopais (misturava-se com o povo, visitava as paróquias como se fora um prelado da diocese e deitava bênção, governando o clero até ao dia seguinte).
Era uma folia, de que o povo ria e que depois veio a ser proibida através de diversos concílios.
Menciona-se, dentro deste espírito, a afamada Festa dos Tabuleiro de Tomar, onde transparece o simbolismo dos impérios nas três coroas de prata (do imperador e dos dois reis), as quais em bandejas cobertas por panos vermelhos adamascados são conduzidas pelas ruas, no Domingo de Páscoa (Cortejo das Coroas), anunciando a Festa dos Tabuleiros (candidata a “Património Cultural Imaterial da Humanidade” e que se realiza de 4 em 4 anos).
Também Torres Vedras, que foi casa de várias rainhas, incluindo Isabel de Aragão, foi dotado de antiquíssimo hospital de invocação do Espírito Santo.
As festas da Senhora da Catela, regiam-se por alvará régio, no século XVI de D. Manuel I. – Vejamos o Diário de Notícias de 6 de junho de 1873:
«a festa ocorrida neste ano, revelou insólitos preconceitos contra aquele uso tradicional…. Considera-o fruto da limitada instrução popular, conquanto julgue muito difícil desenraizar da alma das populações, o que os séculos haviam perpetrado».
António Diniz Flores, M∴ M∴ – R∴ L∴ Conde de Paraty, nº 155 (GLLP / GLRP)
