A Maçonaria estava mesmo preparada para o Século XXI?
Resumo
Este artigo investiga a capacidade da Maçonaria de preservar a sua identidade tradicional e, simultaneamente, responder aos desafios da sociedade contemporânea. Parte-se do problema de saber em que medida uma instituição fundada sobre princípios de sociabilidade, aperfeiçoamento moral, fraternidade, racionalidade e formação do indivíduo permanece socialmente relevante diante das transformações características do século XXI.
Introdução
A Maçonaria estava, de facto, preparada para o século XXI?
A pergunta, embora aparentemente simples, conduz a um problema mais amplo: o que acontece com uma instituição fundada em princípios de fraternidade, sociabilidade, aperfeiçoamento moral e racionalidade quando as formas de convivência social se transformam profundamente?
A sociedade contemporânea caracteriza-se por mudanças aceleradas nas relações humanas, na comunicação, na tecnologia, no trabalho e nas formas de participação social. As transformações produzidas pela digitalização, pelas redes sociais e pela circulação instantânea de informações modificaram os modos pelos quais os indivíduos constroem vínculos, participam da vida pública e estabelecem as suas identidades.
Nesse cenário, instituições baseadas em formas relativamente estáveis de sociabilidade, como a Maçonaria, enfrentam um problema particularmente relevante: como preservar uma tradição sem transformá-la em imobilismo? A questão não consiste simplesmente em saber se a Maçonaria deve modernizar os seus rituais, os seus símbolos ou as suas estruturas. O problema é mais profundo. Trata-se de verificar se os valores que historicamente justificaram a sua existência ainda podem desempenhar alguma função social numa realidade marcada pelo individualismo, pela fragmentação e pela crescente virtualização das relações.
É justamente nesse ponto que a Maçonaria pode ser analisada sob uma perspectiva contemporânea: as lojas ainda conseguem funcionar como espaços de formação, diálogo, sociabilidade e construção de responsabilidade colectiva?
Diante disso, o objectivo geral deste artigo é analisar a capacidade da Maçonaria de preservar a sua tradição e, simultaneamente, responder às transformações sociais do século XXI. A hipótese sustentada é a de que a permanência da Maçonaria no século XXI não depende da ruptura com a sua tradição, mas da capacidade de atribuir significado contemporâneo aos seus princípios e transformá-los em práticas concretas de sociabilidade, formação moral e responsabilidade social.
Mas, afinal, o que é Maçonaria?
Para tratarmos do tema proposto, precisamos, primeiramente, tentar definir o que é a Maçonaria, até porque existem muitas lendas, mitos e romantismos envolvendo essa sociedade iniciática.
Entre as diversas denominações atribuídas à Ordem, destaca-se a expressão Arte Real. A palavra “arte” deriva do latim ars, artis, termo relacionado às ideias de habilidade, técnica e ofício. A expressão Arte Real possui antiga tradição no vocabulário maçónico, estando presente já nas Constituições de Anderson, de 1723, em contexto relacionado à Maçonaria, à geometria e à arte de construir. Uma das canções contidas naquela edição emprega expressamente “Royal Art” ao tratar dos segredos da Arte preservados pelos maçons, demonstrando a antiguidade da denominação na tradição maçónica.
Quanto à expressão Arte Real, Joaquim Gervásio de Figueiredo, ao apresentar diferentes explicações para a sua origem, relacionando-a ao rei Salomão, a Carlos II da Inglaterra e a Frederico II da Prússia, entende que ela representa:
Uma das antigas definições da Franco-Maçonaria, por se exercer ali a arte superior: a de conhecer e realizar o EU. Alguns têm remontado a origem dessa denominação ao facto de se basearem os seus símbolos em actos do rei Salomão; outros a têm atribuído á circunstancia de haver sido ela patrocinada por Carlos II, no século XVII, que dela se serviu para reconquistar o trono da Inglaterra, e outros ainda, à sus reorganização e protecção, no século XVIII por parte de Frederico II, rei da Prússia(…) A prática do processo iniciático tem sido denominada Arte Real, sem dúvida porque esta arte faz do Iniciado um Rei, um Mestre (Senhor) (…).
(FIGUEIREDO, 2016, p.51)
No seu “Breviário Maçónico”, Rizzardo da Camino (2014) apresenta uma definição de Maçonaria muito conhecida: “Uma instituição que tem por objectivo tornar feliz a humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade e pelo respeito à autoridade e à religião.”
Por sua vez, José Castellani define a Ordem como uma “Instituição educativa, filantrópica e filosófica que tem por objectivos os aperfeiçoamentos morais, sociais e intelectuais do Homem” (CASTELLANI, 2007, p. 2).
Segundo a Constituição do Grande Oriente do Brasil,
“A Maçonaria é uma instituição essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica, progressista e evolucionista, cujos fins supremos são: Liberdade, Igualdade e Fraternidade”
(Grande Oriente do Brasil, 2024, art. 1º).
Por fim, Kennyo Ismail (2021) afirma que o conceito mais comumente utilizado é aquele que define a Maçonaria como sendo “um belo sistema de moralidade, velado em alegorias e ilustrado por símbolos” [1].
As diferentes definições parecem convergir para um elemento comum: pressupõe um processo de formação e aperfeiçoamento dos maçons, através de símbolos, alegorias e rituais que funcionariam como instrumentos de reflexão destinados a provocar no iniciado um trabalho contínuo sobre si mesmo, buscando o seu auto-aperfeiçoamento moral e intelectual.
A ideia de Arte Real ganha, assim, especial significado, no sentido de que a construção deixa de representar apenas o antigo ofício dos construtores e passa a simbolizar também a edificação do próprio indivíduo. Nessa perspectiva, os ensinamentos maçónicos alcançam a sua plena significação quando ultrapassam o plano simbólico e encontram correspondência no mundo exterior, real.
Dessa forma, podemos inferir que a Maçonaria se apresenta como uma espécie de escola de formação moral, que se utiliza de lendas, mitos e símbolos como instrumentos para a transmissão dos seus ensinamentos. O seu principal objectivo seria promover o aperfeiçoamento moral de seus membros, estimulando-os a colocar em prática a doutrina assimilada no âmbito maçónico e, por meio das suas acções, contribuírem para a construção de uma sociedade melhor. Trata-se, em última análise, do ideal maçónico de “tornar feliz a humanidade”.
Os Desafios da modernidade
Estabelecidas as principais definições que orientam a compreensão da Maçonaria, passa-se à análise da sua actuação diante dos desafios da actualidade.
Desta forma, cumpri salientar que se a Maçonaria nasceu e se desenvolveu em determinadas condições históricas, a transformação dessas condições inevitavelmente produz consequências para a instituição. É nesse ponto que a contribuição de Zygmunt Bauman se torna especialmente relevante, sobretudo a partir do conceito de modernidade líquida. Para o sociólogo, a modernidade contemporânea caracteriza-se pela perda progressiva da estabilidade de estruturas que anteriormente conferiam maior previsibilidade à vida social. Ao analisar esse processo ele observa:
Os tempos modernos encontraram os sólidos pré-modernos em estado avançado de desintegração; e um dos motivos mais fortes por trás da urgência em derretê-los era o desejo de, por uma vez, descobrir ou inventar sólidos de solidez duradoura, solidez em que se pudesse confiar e que tornaria o mundo previsível e, portanto, administrável (BAUMAN, 2001, p. 10).
Assim, na passagem podemos evidenciar uma transformação que ultrapassa a simples mudança de costumes. Trata-se da progressiva dissolução de referências e estruturas anteriormente capazes de organizar a experiência social. Na modernidade líquida, relações, instituições e projectos tornam-se mais flexíveis e menos duradouros. Esta característica produz uma tensão particularmente relevante para a Maçonaria. A instituição trabalha com conceitos como permanência, compromisso, fraternidade, disciplina, ritual e pertencimento. A modernidade líquida, por outro lado, favorece formas de vínculo mais flexíveis, transitórias e individualizadas.
Essa tensão também pode ser compreendida a partir da individualização característica da contemporaneidade. Bauman afirma que uma das transformações fundamentais consiste na “desregulamentação e a privatização das tarefas e deveres modernizantes” (BAUMAN, 2001, p. 37). Nesse processo, responsabilidades que anteriormente eram percebidas como colectivas passam progressivamente a ser atribuídas aos indivíduos.
Surge, então, uma questão fundamental: como uma instituição fundada sobre vínculos duradouros pode permanecer relevante numa sociedade na qual os indivíduos encontram cada vez mais dificuldade para estabelecer vínculos duradouros?
Essa pergunta permite reinterpretar uma série de problemas enfrentados pela Maçonaria contemporânea.
A diminuição do interesse por instituições tradicionais, a dificuldade de atrair novas gerações e a concorrência de novas formas de sociabilidade não devem ser analisadas simplesmente como perda de valores. Podem representar, também, uma transformação estrutural na maneira pela qual os indivíduos se relacionam com instituições.
Nesse cenário, simplesmente afirmar que o maçom contemporâneo deve preservar a tradição talvez seja insuficiente. É necessário perguntar qual tradição deve ser preservada e para qual finalidade.
Preservar o sentido do ritual não significa necessariamente preservar todas as formas históricas de organização da instituição. Preservar a fraternidade não significa impedir novas formas de interacção. Preservar a busca pelo conhecimento não significa ignorar as transformações produzidas pela tecnologia.
A questão central passa a ser a capacidade de distinguir essência e forma.
Também é pertinente recorrer a Jürgen Habermas. A sua reflexão sobre a esfera pública permite compreender a importância histórica dos espaços de reunião e debate nos quais indivíduos se encontram para discutir questões de interesse comum. Ao analisar a formação da esfera pública burguesa, Habermas afirma:
A esfera pública burguesa pode ser entendida inicialmente como a esfera das pessoas privadas reunidas num público; elas reivindicam esta esfera pública regulamentada pela autoridade, mas directamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela as leis gerais da troca na esfera fundamentalmente privada, mas publicamente relevante, as leis do intercâmbio de mercadorias e do trabalho social
(HABERMAS, 1984, p. 42).
Na realidade, a definição de Habermas permite compreender a esfera pública como uma forma histórica de sociabilidade na qual indivíduos privados se reúnem para discutir questões que ultrapassam a sua experiência individual. Não se pretende, evidentemente, afirmar que uma loja maçónica seja simplesmente uma esfera pública no sentido habermasiano. A aproximação deve ser feita com cautela, considerando as diferenças históricas, institucionais e conceituais entre os fenómenos.
O que interessa é perceber que a reunião presencial de indivíduos em torno de ideias, valores e problemas comuns possui uma dimensão social que ultrapassa a experiência individual.
Essa perspectiva apresenta uma aproximação particularmente interessante com a história da Maçonaria. As lojas constituíram historicamente espaços de reunião, comunicação e sociabilidade. A própria historiografia maçónica reconhece a sua relação com outras formas de sociabilidade intelectual existentes na Europa moderna.
Nesse sentido, a Maçonaria pode ser compreendida não apenas como uma instituição voltada à transmissão de símbolos e rituais, mas também como um espaço no qual indivíduos podem desenvolver a capacidade de ouvir, argumentar, reflectir e participar de uma experiência colectiva. Este aspecto torna-se ainda mais relevante no século XXI.
As redes digitais ampliaram extraordinariamente a possibilidade de comunicação, mas também produziram ambientes marcados pela fragmentação, pela formação de grupos fechados e pela circulação acelerada de informações. Nesse contexto, uma instituição que proporciona encontro presencial, escuta, disciplina do diálogo, convivência entre pessoas diferentes e reflexão colectiva pode possuir uma função social renovada.
A questão é saber se a Maçonaria está efectivamente utilizando esse potencial. Se a loja se limitar ao cumprimento mecânico de formalidades, a sua função social tende a diminuir. Se, entretanto, conseguir transformar seus encontros em espaços de formação, reflexão, diálogo e construção de responsabilidade, poderá recuperar uma dimensão da sua vocação histórica.
O século XXI apresenta ainda um desafio que não existia nas mesmas proporções quando a Maçonaria consolidou as suas estruturas modernas: a transformação tecnológica da comunicação.
A internet e as redes sociais alteraram a velocidade de circulação das informações e modificaram os próprios modos de construção das relações sociais. A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a esse processo.
No entanto, a questão não é simplesmente saber se a Maçonaria utilizará ferramentas digitais. O problema mais importante é saber qual será a sua contribuição humana numa sociedade progressivamente mediada pela tecnologia.
Se máquinas podem produzir textos, imagens, informações e respostas em velocidade crescente, o diferencial de uma instituição como a Maçonaria não estará necessariamente na quantidade de informação que consegue transmitir. Estará na capacidade de formar indivíduos capazes de julgar, interpretar, dialogar e agir eticamente.
Nesse sentido, o simbolismo maçónico pode adquirir nova actualidade. A ideia de sair das trevas para a luz pode ser reinterpretada como metáfora da passagem da ignorância para o conhecimento crítico.
O papel da Maçonaria
Nesse diapasão, convém salientar que alguns autores maçons brasileiros já demonstravam preocupação com o tema há algum tempo, como é o caso de Rizzardo da Camino, que assim escreveu:
O que o futuro nos espera? Certamente, progresso científico, o qual arrasta consigo todas as demais coisas, e aqui colocaremos a Maçonaria(…) Para a Maçonaria, a parcela mais importante das suas actividades será no campo social e familiar. A tradição sofrerá riscos sérios e caberá a cada maçom, isolada ou colectivamente, manter “freios” impostos pela tradição. (CAMINO, 2005, p. 16)
Da mesma forma, Matheus Riccely Sena (2025), na sua obra “Além do Esquadro e do Compasso – Vivências e estudos na Maçonaria”, ao tratar do impacto da Maçonaria na sociedade actual, destaca que “o papel do maçom não é apenas sobreviver às tempestades do tempo, mas também trazer a luz da fraternidade e solidariedade, guiando a humanidade em futuro mais harmonioso”.
Em outro trecho, o autor assim arremata:
Enfim, o que podemos concluir é que a maçonaria tem se adaptado, mesmo que de forma lenta, às mudanças do mundo, sempre respeitando as suas tradições. Cabe á nós maçons da actualidade, transmitir esses valores tradicionais às novas gerações, tentando dessa forma, proporcionar a liderança necessária para enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais turbulento (…) É por meio da acção colectiva e do amor fraternal que os maçons poderão seguir numa caminhada para tornar mais feliz a humanidade(…).
(SENA, 2025, p. 143-144).
Nesse contexto, podemos inferir que a Maçonaria ensina a seus membros a importância da sua doutrina, de seus princípios e das suas tradições, mas seus ensinamentos deveriam encontrar aplicação concreta, de modo que os maçons possam actuar como verdadeiros construtores sociais, contribuindo para uma sociedade mais justa e fraterna.
Mas não podemos deixar de indagar: esse objectivo de fazer do maçom uma pessoa melhor, capaz de contribuir para fazer do mundo um lugar melhor e, assim, “tornar feliz a humanidade”, não seria um tanto utópico? Especialmente para os mais pragmáticos, não seria extremamente difícil de se alcançar?
Talvez!
Contudo, as opiniões anteriormente apresentadas parecem convergir para um ponto: a transformação idealizada pela Maçonaria não deveria ocorrer somente no interior de seus Templos ou apenas dentro de cada maçom, mas teria de alcançar também o mundo ao redor dele, ainda que começando pelas pessoas de seu convívio mais próximo. Uma semente que germinasse já poderia ser considerada um começo, como o grão de mostarda, pequeno entre os grãos, mas capaz de dar origem a uma árvore frondosa.
Não há dúvidas, porém, de que tentar mudar o mundo por meio do homem constitui tarefa hercúlea. A sociedade contemporânea vive um paradoxo no qual avanços científicos e tecnológicos convivem com desigualdade, intolerância, violência, individualismo e perda de referências morais.
Parece que estamos passando pelo que, na tradição hindu, se denomina Kali Yuga, correspondente à última das quatro grandes eras do ciclo cósmico, caracterizada pelo progressivo enfraquecimento do dharma [2], pela desordem e pela degeneração dos valores morais. Independentemente de se adoptar essa concepção em sentido religioso ou cosmológico, ela permite reflectir sobre períodos nos quais a humanidade se distancia de determinados princípios éticos e espirituais.
Corrupção, violência, degradação ambiental, intolerância, desinformação, individualismo, polarização e outras manifestações de enfraquecimento dos valores colectivos, como as famigeradas apostas esportivas (bets) [3], revelam uma sociedade que, em muitos aspectos, parece enfrentar uma crise dos valores.
Entretanto, reconhecer os problemas do presente não significa concluir que tudo está perdido. Ao contrário, é justamente em períodos de crise que princípios e valores podem adquirir maior importância.
Nesse ponto, cabe questionar qual é o papel da Maçonaria no mundo contemporâneo. Se ela tem como finalidade o aperfeiçoamento do indivíduo, a busca pelo conhecimento e a prática da fraternidade, seus ensinamentos podem permanecer restritos aos seus Templos? A Ordem deveria contentar-se em ser apenas guardiã de tradições antigas? Ser uma instituição voltada apenas à filantropia, ao estudo filosófico e ritualístico ou, ainda, um “clube do bolinha”, no qual se fazem negócios e há muito bate-papo regado a ágapes nababescos e dionisíacos? Ou deveria também estimular o engajamento cívico, a cidadania e o combate às desigualdades, às intolerâncias, às tiranias e aos vícios?
Embora vivamos num mundo cada vez mais individualista e fragmentado, a Maçonaria permanece capaz de reunir homens em torno de valores e princípios que podem inspirar acções para além de seus Templos.
Sobre o tema, mais uma vez utilizaremos as lições de Matheus Riccely, que assim afirma:
Pensar na Maçonaria dentro dessas modernidades, avanços tecnológicos, é um exercício de imaginação que exige cautela, afinal, a nossa instituição é conhecida por sua capacidade de preservar tradições enquanto se adapta às transformações sociais, políticas e culturais do mundo. Embora muito de seus princípios permaneçam inalterados, como o zelo pela tradição e a manutenção de uma essência filosófica iniciática, há sem dúvida, a necessidade de se ajustar às realidades de um mundo em constante mudança (…) Assim o papel da maçonaria na sociedade actual vai além das fronteiras da loja e se estende a todos os aspectos da vida social, cultural e espiritual.
(SENA, 2025, p. 140)
Adaptar-se à contemporaneidade não significa necessariamente modificar os fundamentos, símbolos ou princípios tradicionais da Maçonaria. A intolerância, a desigualdade, a ignorância, o fanatismo e as diferentes formas de tirania não desapareceram; apresentam-se hoje em contextos sociais, políticos e tecnológicos distintos. Mais do que substituir antigos princípios por novos, parece necessário conferir-lhes aplicação diante das circunstâncias do presente.
Os avanços tecnológicos também impõem novos desafios. Numa sociedade marcada pelas redes sociais, pela inteligência artificial e pela disseminação de conteúdos falsos ou manipulados, valores como a busca pelo conhecimento e pela verdade, o exercício da razão, a tolerância e o respeito às diferenças adquirem renovada importância. Nesse cenário, talvez um dos papéis da Maçonaria no século XXI seja estimular nos seus membros uma postura crítica, responsável e consciente diante das informações e discursos aos quais estão submetidos.
Assim, a actualidade da Maçonaria talvez não dependa do abandono das suas tradições, mas da capacidade de transformar a sua doutrina em atitudes compatíveis com os desafios do presente, contribuindo para o aperfeiçoamento do indivíduo e, por meio dele, da sociedade.
Considerações finais
Concluímos que o objectivo precípuo da Maçonaria talvez seja lapidar e aperfeiçoar o seu iniciado, para que se torne um ser humano melhor, capaz de impactar o meio em que vive através das suas atitudes e de seu exemplo.
O verdadeiro desafio do maçom do século XXI talvez esteja no entendimento de que preservar a tradição não significa permanecer imune às transformações, avanços e evoluções da sociedade, mas conferir aos princípios maçónicos significado diante das questões de cada época.
Para tanto, o obreiro precisa reflectir sobre que maçom ele é de verdade; o que veio buscar na Maçonaria? Que maçom se tornou desde a sua iniciação? Como está contribuindo para o meio em que vive? Mais do que respostas prontas, essas perguntas permitem confrontar aquilo que se aprende com aquilo que efectivamente se pratica.
Uma instituição que ensina fraternidade precisa produzir fraternidade; que ensina conhecimento precisa produzir homens capazes de pensar; que ensina liberdade precisa formar indivíduos responsáveis e, por fim, uma instituição que ensina aperfeiçoamento precisa demonstrá-lo na vida quotidiana.
Não se trata de atribuir à Maçonaria a pretensão de solucionar os problemas da sociedade, mas de reconhecer que a transformação colectiva também passa pelas atitudes individuais. Se cada maçom transportar para a sua vida quotidiana os princípios e ensinamentos que vivencia em Loja, ultrapassando os limites do Templo, já haverá uma forma concreta de actuação no mundo contemporâneo.
Todavia, é preciso despertar e ter coragem para sair da caverna [4]. A ignorância nunca será uma bênção, mas uma prisão que impede o maçom de ver, entender e compreender o verdadeiro “segredo maçónico”.
Bruno César Miranda
| Bruno César Miranda é advogado, mestre maçom na Loja Estrela do Ivituruy, nº: 351 do oriente de Serro/MG, filiada á GLMMG e membro da Loja de Perfeição Mestre Hiram no oriente de Curvelo, onde cursa o 14º grau do REAA. Pós-graduando no curso Maçonologia: História e filosofia da faculdade Uninter. E-mail:brcesarm@yahoo.com.br. |
Notas
[1] Segundo o autor, essa seria uma simplificação de um conceito clássico de Maçonaria apresentado por William Preston (ISMAIL, 2021, p. 13)
[2] Dharma é um conceito fundamental das tradições indianas, relacionado à ordem, ao dever, à conduta correcta e aos princípios que orientam a existência humana (CARVALHO, 2020).
[3] Segundo dados divulgados pelo Comité Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas do Banco Central, as plataformas de apostas movimentaram aproximadamente R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix em 2025, enquanto a perda líquida das famílias brasileiras com as apostas foi estimada em R$ 62,5 bilhões, equivalente a cerca de 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das famílias. No mesmo período, dados do Ministério da Fazenda apontaram aproximadamente 25 milhões de participantes (COMSEFAZ; CICEF. Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros. 3. ed. Brasília, DF, 2026).
[4] A Alegoria da Caverna, apresentada por Platão no Livro VII de A República, descreve indivíduos que, confinados desde a infância numa caverna, percebem apenas sombras projectadas numa parede e as tomam como realidade. A libertação de um dos prisioneiros e a sua saída para o exterior simbolizam o processo de superação das aparências e de busca pelo conhecimento e pela verdade.
Referências bibliográficas
- BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
- CAMINO, Rizzardo da. A Maçonaria e o Terceiro Milénio. São Paulo: Madras, 2005.
- CAMINO, Rizzardo da. Breviário maçónico. ed. São Paulo: Madras, 2014.
- CARVALHO, Romero Bittencourt e. Dharma e Libertação: correlações entre o conceito de Dharma na Teologia Vaiṣṇava Gauḍīya e Libertação na Teologia Latino-americana. 2020. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2020. Disponível em: PDF da dissertação na Biblioteca da PUC Minas. Acesso em: 1 Set. 2026.
- CASTELLANI, José. A acção secreta da Maçonaria na política mundial. 2. ed. São Paulo: Landmark, 2007.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Constituição do Grande Oriente do Brasil: promulgada em 17 de Março de 2007, actualizada até a Emenda Constitucional nº 44, de 23 de Março de 2024. Brasília, DF: Grande Oriente do Brasil, 2024.
- FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016.
- ISMAIL, Kennyo. Ordem Sobre o Caos. Brasília: Ed No Esquadro, 2021.
- HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Tradução de Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984
- SENA, Matheus Ricelly Pinto. Além do Esquadro e Compasso. Vivencias e estudos na maçonaria. Pau dos Ferros, 2025.
