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A Loja: Um pedaço de História

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✍️ Desconhecido 📅 12/02/2026 👁️ 0 Leituras

história, loja

A evolução da Loja maçónica constitui uma das mais notáveis transformações institucionais da história da sociabilidade humana. Originária das corporações operativas de pedreiros medievais, a sua trajectória revela a passagem de uma guilda de ofício para uma fraternidade filosófica universal.

O conteúdo é extenso com literatura espalhada por obras com edições variadas ao redor do mundo, as vezes alteradas, o que dificulta o alinhamento histórico: porém é assunto empolgante e fascinante. Os primeiros registros a respeito da existência da ordem não aparecem em textos maçons, mas sim em textos de terceiros.

Mas por que tão poucos registros anteriores aos anos 1200?

É pertinente para compreender por que quase nada foi “publicado” sobre a Maçonaria no século XIII (anos 1200) pois:

  1. Naquela época, a publicação de livros, no sentido moderno, ainda não existia, pois o contexto histórico e tecnológico impunha uma série de dificuldades estruturais, tanto materiais quanto intelectuais e institucionais.
  2. Ausência da imprensa, pois por volta de 1200, a Europa vivia a Baixa Idade Média, um período ainda pré-tipográfico — a imprensa de tipos móveis só seria inventada por Johannes Gutenberg por volta de 1450. Logo, tudo o que existia até então eram manuscritos copiados à mão, em latim ou vernáculo primitivo. Cada exemplar era copiado manualmente, geralmente em mosteiros, por monges copistas.
    1. Um texto médio podia levar meses ou anos para ser transcrito.
    2. Erros de cópia eram frequentes, e o custo de cada volume era altíssimo.
  3. Havia escassez e alto custo dos materiais, pois o pergaminho era caro e difícil de produzir. O papel ainda era raro na Europa Ocidental, só se difundindo no século XIV. Tinta, penas e encadernação exigiam habilidade artesanal.
  4. Baixo índice de alfabetização, onde a leitura e a escrita eram reservadas ao clero e a poucos eruditos. A grande maioria dos pedreiros e construtores (maçons operativos) eram analfabetos, transmitindo conhecimento oralmente ou por símbolos e traçados.
  5. Havia o sigilo profissional, pois as guildas e confrarias de pedreiros guardavam os seus segredos de ofício, assim as “Old Charges” (Antigas Obrigações) só começaram a ser redigidas e copiadas no século XIV–XV, em inglês e latim, para uso interno, não como “divulgação” pública.
  6. Existia controle eclesiástico e censura, pois a Igreja controlava a produção e circulação do saber onde qualquer escrito fora da ortodoxia podia ser proibido ou destruído e isso inibia registros sobre sociedades de ofício autónomas.

Por tudo isso, nos anos 1200 não existiam livros maçónicos propriamente ditos — apenas manuscritos esparsos, listas de regras e tradições transmitidas oralmente nas Lojas operativas.

Os primeiros fragmentos de evidências documentais de pedreiros organizados aparecem no Domesday Book (1086) onde havia registro censitário mencionando construtores organizados; também nas cartas do mosteiro St. Gallen onde havia registros administrativos contratuais de mão de obra e as suas oficinas; e nos Fabric Rolls ingleses de grandes obras públicas onde registraram mestres, companheiros e oficinas (hutae).  Estes vestígios indicam a prática e a hierarquia na arte de construir, sugerindo a existência de regras ou associações anteriores ainda não descobertas.

O autor Filardo (2022) diz-nos que:

Tudo começou em Londres, Inglaterra, no ano de 1356, uma data muito importante, e começou como o resultado de uma boa e antiga grande disputa acontecendo em Londres entre os canteiros, os homens que cortavam a pedra, e os pedreiros assentadores e alinhadores, os homens que realmente construíam as paredes. Os detalhes exactos da disputa não são conhecidos, mas, como resultado dela, 12 mestres pedreiros qualificados, com alguns homens famosos entre eles, foram diante do prefeito e vereadores em Guildhall, em Londres, e, com a permissão oficial, elaboraram um simples código de regras da actividade

Os primeiros registros dos manuscritos da tradição maçónica foram organizados no que se conhece como Old Charges – que são as convenções organizacionais internas das guildas maçónica. São datados de aproximadamente de 1390, como os estatutos de Bolonha, o Poema Regius e o Cooke Manuscript. Estes textos continham preceitos morais e regras de conduta para os mestres e companheiros da arte de construir, além de uma narrativa lendária sobre a origem do ofício (CHASSAGNARD, 1248 a 1730).

Com o declínio das corporações medievais, também impulsionado pelo avanço das técnicas construtivas renascentistas e a introdução de novos materiais e métodos construtivos, ocorreu a dissolução gradual das guildas de ofício, assim as antigas lodges começaram a se transformar em espaços de convívio intelectual. Nos séculos XVII e XVIII, surge a transição para as Lojas especulativas, nas quais homens instruídos — não necessariamente ligados ao ofício de pedreiro — passam a ser aceitos por seus valores éticos e filosóficos. Assim, JUK (2018) diz-nos que os anos de 1600 foram de transição para a Maçonaria moderna e que o escocês de nome John Boswel foi o primeiro iniciado como “Maçom aceito” na Loja Capela de Maria, em Edimburgo na Escócia. Como explica Stevenson (2010):

“As primeiras Lojas escocesas passaram a ser frequentadas por não-pedreiros.”

Em 1717, ocorre um passo decisivo para a Maçonaria, com a união de quatro Lojas londrinas, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra, marco fundador da Maçonaria moderna. Esta nova estrutura administrativa permitiu a uniformização de práticas, símbolos e cerimónias. (MACKEY, 1922)

Em 1723, James Anderson publica as Constituições dos Maçons Livres, documento basilar que reúne a história lendária, os encargos morais e os regulamentos das Lojas. Anderson (1723) afirma:

“Um Maçom é obrigado a obedecer à Lei Moral e nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso. …”

Em 1730 a obra Masonry Dissected de Samuel Prichard, traz a público pela primeira vez a descrição dos rituais maçónicos demonstrando os três graus simbólicos de Aprendiz, Companheiro e Mestre. Embora considerada uma divulgação indevida, a sua publicação ainda influencia muitas pesquisas as maçónicas.

Masonry Dissected é reconhecida como famosa delatora com exposição dos rituais do século XVIII, tendo assim provocado preocupações institucionais profundas quanto à preservação da regularidade e da autenticidade do trabalho maçónico.

Diversos historiadores apontam que a ampla circulação dessas exposições contribuiu para a proliferação de Lojas clandestinas e práticas não reconhecidas, dificultando a identificação de maçons regulares (Gould, 1887). Neste contexto, registra-se que “O clandestinismo tornou-se tão disseminado que a Grande Loja, em legítima defesa, decidiu realizar mudanças no trabalho esotérico.”

Estas modificações nos rituais, foram concebidas como mecanismo de protecção institucional, e acabaram por gerar divergências internas profundas, especialmente entre a Grande Loja de Londres (os chamados Modernos) e irmãos (antigos) moradores de terras longínquas, e que desconheciam essas novas modificações nos costumes, passaram a ter dificuldades em serem reconhecidos ao chegarem em ambientes modernos.

Em 1751 surgiu uma Loja denominada Loja dos Antigos a qual se declarava opositora a “moderna” Grande Loja da Unida da Inglaterra (UGLE, 2025). Laurence Dermott, principal líder intelectual dos Antigos, sustentava que os Modernos haviam introduzido inovações indevidas nos costumes e cerimónias (Dermott, 1756). Conforme registrado, “Dermott e os seus membros sempre afirmaram que, enquanto a Grande Loja Premier havia feito inovações, a sua Grande Loja dos Antigos era o único corpo legítimo praticando a Maçonaria antiga.”

Em 1756 Laurence Dermott, secretário da Loja dos antigos, em meio a cenário de conflito, insegurança identitária e disputa por legitimidade, publica a obra Ahiman Rezon, (Auxílio aos Irmãos) como livro constitucional dos Antigos.

Esta obra, uma oposição directa a Maçonaria moderna (Loja dos modernos iniciada 1717). Ahiman Rezon teve como finalidade explícita definir normas, costumes e princípios, baseados na preservação daquilo que os seus autores consideravam a verdadeira tradição maçónica (Dermott, 1756)..  Esta obra é um embate directo à James Anderson e a Constituições dos Maçons Livres de 1723. Ahiman Rezon, busca resgatar tradições operativas esquecidas pelos “Modernos” mesmo que essas não apareçam explicitamente nas constituições. Dermott (1756) justifica:

“Para preservar os antigos costumes da Maçonaria de inovações e corrupções.”

Assim, embora o Ahiman Rezon não seja apresentado como resposta directa e exclusiva a Masonry Dissected, a historiografia reconhece que ambos se inserem no mesmo processo histórico de reacção institucional às exposições públicas e às consequentes revisões rituais (Mackey, 1873).

Em 27 de Dezembro de 1813, ocorreu a Consolidação da Maçonaria Regular, quando as duas Grandes Lojas inglesas — os “Antigos” (Antients) e os “Modernos” (Moderns) — uniram-se para formar a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE). Este Acto de União padronizou os rituais, regulamentos e paramentos, e declarou oficialmente que a “Antiga Maçonaria Pura” compreende três graus (Aprendiz, Companheiro e Mestre) e o Arco Real como ordem complementar. Tal definição tornou-se o modelo de regularidade maçónica adoptado internacionalmente. (UGLE, 2025).

No século XIX, a Maçonaria consolidou a sua estrutura filosófica e jurídica com a formulação dos Landmarks, princípios imutáveis que definem a essência da Ordem desde a sua origem. O termo, que também foi mencionado nas Constituições da Grande Loja Unida da Inglaterra, refere-se aos “marcos antigos que não podem ser alterados”. O estudioso Albert G. Mackey, em A Text Book of Masonic Jurisprudence (1872), sistematizou 25 Landmarks, afirmando que trata:

“daqueles antigos usos e costumes da Ordem, existentes desde tempos imemoriais e inalteráveis.”

Entre eles, incluem-se:

  • *Crença no Grande Arquitecto do Universo,
  • *Lenda do Mestre Hiram,
  • *Divisão em três graus simbólicos,
  • *Governo da Loja por um Venerável Mestre,
  • *Sigilo maçónico,
  • *Modos de reconhecimento entre sinais, toques e palavras,
  • *Proibição de debates políticos e religiosos.

E outros mais….

Estes princípios tornaram-se o eixo moral e jurídico da Maçonaria mundial, servindo de referência para a regularidade das Potências e garantindo a identidade simbólica da Arte Real. Como escreveu Mackey (1872): “Sem a preservação dos seus antigos Marcos, a Maçonaria deixaria de ser Maçonaria.”

Assim, a evolução da Loja maçónica reflecte uma continuidade espiritual: das antigas oficinas de construtores às modernas Lojas filosóficas. A pedra bruta, antes símbolo de trabalho material, torna-se metáfora da construção interior do ser humano — um templo erguido na consciência, edificado sobre princípios universais e imutáveis.

Porém, para finalizar, com bastante cautela, trago as palavras de Filardo (2022) quando ele se refere a documentos antigos dos anos 1700:

“…Mas, lamento dizer-lhes, Irmãos, que nós, enquanto cientistas em Maçonaria, não ousamos confiar neles, porque eles foram escritos em violação a um juramento. Para colocar de forma mais simples, quanto mais eles nos contam, menos eles são confiáveis, a menos que, por algum acaso ou por algum milagre, possamos provar, como precisamos fazer, que esses documentos foram efectivamente usados numa Loja; caso contrário eles são inúteis. Neste caso, por um acaso muito feliz, temos a prova e ela é uma bela história….”

MÜLLER, M. C. – A. M. (2026)

Referencial teórico

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