Freemason

A iniciação simbólica do candidato a Aprendiz Maçom (II)

✍️ Desconhecido 📅 18/06/2022 👁️ 6 Leituras

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A preparação

Antes de ser admitido no Templo, é necessário que seja feito um preparo físico correspondente ao preparo moral que o candidato fez na câmara de reflexões: os olhos devem ser vendados, coloca-se-lhe uma corda no pescoço e descobre-se o lado esquerdo do seu peito, o joelho direito e o pé esquerdo.

Que significa esta preparação?

A venda que lhe cobre os olhos não é simplesmente o símbolo do estado de ignorância ou cegueira, da sua incapacidade para perceber a verdadeira Luz. Como preparação para ser admitido no Templo, é evidente a necessidade de uma constituição da obscuridade da câmara de reflexões, uma cegueira voluntária, um isolamento das influências do mundo exterior e da luz ilusória dos sentidos como meio para chegar à percepção espiritual da Verdade.

O cordão que lhe cinge o colo, lembra-nos o dos frades, assim como o cordão umbilical que une o feto à mãe no período da sua vida intra-uterina. Além de indicar o estado de escravidão as suas paixões, erros e preconceitos, em que o homem se encontra nas trevas do mundo profano, o jugo da fatalidade que pesa sobre ele, mostra o seu desejo, vontade e capacidade de libertar-se deste jugo e desta escravidão, aceitando voluntariamente as provas da vida e cooperando com a sua disciplina. desta forma, os próprios obstáculos, dificuldades e contrariedades, convertem-se em graus e meios de progresso.

Finalmente, o triângulo da nudez, que constitui o terceiro elemento desta simbólica preparação, é um novo despojo voluntário de tudo o que não é estritamente necessário e constituiria um obstáculo ao progresso posterior – o despojo de todo convencionalismo que impede a sincera manifestação dos seus sentimentos e das suas aspirações mais profundas (nudez do peito esquerdo); do orgulho intelectual, que impede o reconhecimento da Verdade (nudez do joelho direito); da insensibilidade moral, que impede a prática da Virtude (nudez do pé esquerdo).

A perfeita sinceridade das aspirações é, pois a primeira condição de todo progresso; mas faz-se necessário com ela um bem compreendido espírito de humildade (que não deve confundir-se com um falso desprezo de si mesmo, nem com a ignorância das divinas possibilidades que se encontram em nós mesmos), dado que o nosso progresso deve desenvolver-se num plano superior à ilusão da personalidade. Com a primeira destas duas qualidades abrimos o nosso coração, e com a segunda a nossa inteligência ao sentimento e à percepção daquela Realidade que Jesus chamou o Reino dos Céus, meta de toda iniciação.

Enquanto a nudez do pé esquerdo – o instrumento do caminhar que abre a nossa marcha para a frente – indica a faculdade do discernimento que devemos usar em cada passo do nosso caminho e que nos permite reconhecer a verdadeira natureza dos obstáculos e provas do caminho, nos quais podemos tropeçar.

Com este preparo, o candidato encontra-se em condições de bater à porta do Templo, de pedir, buscar e encontrar a Luz da Verdade.

A porta do templo

A porta tem sido desde as mais antigas épocas, o símbolo natural de toda passagem ou entrada, e em particular, de toda iniciação. Além disso, a porta já é por si mesma um Templo (um Templo rudimentar) e o ternário das suas duas colunas com a arquitrave, constitui o elemento fundamental de toda construção arquitectónica. Assim pois, o momento de franquear a Porta do Templo depois de dupla preparação moral e física de que acabamos de falar, é um dos mais importantes da cerimónia de iniciação.

O candidato é introduzido, depois de três fortes golpes, golpes desordenados que revelam uma mão todavia inexperta ou profana. Por esta razão, os seus golpes produzem alarme no interior do Templo, alarma que se repete por três vezes, como eco dos mesmos. Isto relaciona-se com as palavras evangélicas: buscai e encontrareis (a Verdade), pedi e vos será dada (a luz), batei e vos será aberta (a Porta do Templo).

Ao ser recebido no Templo, com os olhos vendados, somente sente sobre o seu peito nu, a ponta de uma arma cortante. Isto serve unicamente para fazê-lo entender que ainda que não veja, pode sentir, e o sentimento da Verdade será o Guia que o conduzirá no seu progresso e nos seus esforços para a Luz.

O Guia interior, que conduz individualmente a todo o se que se torna receptivo à sua influência no Caminho da Verdade e da Vida, acha-se materializado exteriormente pelo Experto (ou seja quem for, que por tê-lo já percorrido, conhece bem o Caminho e pode assim servir de guia ao inexperiente), sem o qual seria impossível ao candidato preencher devidamente as condições que lhe são pedidas para a sua admissão.

É o guia quem responde por ele à pergunta: “Quem é o temerário que se atreve a perturbar os nossos pacíficos trabalhos e tenta forçar a Porta do Templo?, dizendo que “É um profano desejoso de conhecer a Luz Verdadeira da Maçonaria o que solicita humildemente por ter nascido livre e de bons costumes”.

Do significado iniciático desta dupla condição, já tratamos por ocasião do despojo dos metais. Este requisito é de fundamental importância uma vez que, em virtude do mesmo abre-se-lhe a primeira porta do Templo, assim como as três portas simbólicas, representadas pelas três Luzes, depois de cada uma das viagens.

A ponta da espada, apoiada sobre o coração, é o símbolo da Verdade, através da sua intuição que ocorre ou se manifesta directamente no íntimo do nosso ser, ao entrarmos no Templo, isto é, num particular estado de devoção receptiva, tendo-nos isolado das influências exteriores e fechado os nossos olhos à vista profana e à consideração ordinária, puramente objectiva das coisas.

Ainda que não vejamos, sentimos; ainda que não saibamos explicar a nós mesmos o por que e a razão dos acontecimentos, percebemos intuitivamente alguma coisa que reconhecermos directamente como Verdade e que se manifesta na nossa consciência pela forma repentina e violenta da qual a espada apoiada sobre o nosso peito constitui símbolo muito expressivo.

Interrogatório do candidato

O interrogatório a que se submete o candidato no seu primeiro ingresso no Templo, é de certa maneira a continuação e a expressão das suas meditações na câmara de reflexões.

As perguntas que lhe são feitas, versam inicialmente sobre as suas próprias respostas às perguntas do testamento, pedindo-se-lhe os necessários esclarecimentos sobre os conceitos ali expressos a respeito de como entenda a sua relação e portanto os seus deveres, “para com Deus, para si mesmo e para com a humanidade”.

Uma vez esclarecido este ponto, e como necessária consequência da compreensão desta relação e destes deveres (cujo reconhecimento faz o Maçom, enquanto põe o homem em harmonia com o Princípio Construtivo ou Lei Evolutiva do Universo), pode-se-lhe que expresse as suas ideias sobre o vício e a virtude.

Um claro discernimento entre o vício e a virtude é o que torna operativo o reconhecimento dos deveres e conduz o homem a progredir sobre o caminho da Liberdade. O vício é, pois, como o diz a própria etimologia da palavra, um “vínculo, laço ou liame”, uma corrente que escraviza o homem e impede ou dificulta o seu progresso, reduzindo ou atrofiando os seus esforços para a expressão das suas possibilidades mais elevadas.

O homem escravo do vício nunca poderá ser um verdadeiro Maçom, uma vez que lhe falta o requisito essencial, com o qual pode tornar-se virtuoso: ser livre e de bons costumes.

Assim como na ideia do vício está implícita a ideia de escravidão, sujeição, passividade e debilidade, sendo o inferior aquele que domina e limita o superior, assim na ideia de virtude está implícita a ideia de “força” que faz do humanus (o filho de Humus ou Bhumi, a terra), um vir ou vira, isto é, um “herói”, um Hércules, no sentido moral e etimológico do homem que por meio dos seus “esforços pessoais” ou fadigas, domina e supera as suas próprias debilidades.

Estabelecer o domínio do superior sobre o inferior, do espiritual sobre o material, do Ideal sobre as imperfeições manifestas, heis aqui o programa de todo verdadeiro Maçom, de todo iniciado na Verdade e na Virtude. Por esta razão, uma clara definição deste ponto é preliminarmente necessária para a efectivação de todo o progresso posterior.

As viagens

Toda possibilidade de progresso, tanto interior como exterior, baseia-se no reconhecimento de um caminho como algo que está diante de nós, e no discernimento de uma determinada direcção, rumo a uma meta que percebemos com maior ou menor clareza.

Os nossos pés físicos, assim como os nossos pensamentos, que de uma maneira análoga, passo a passo, parecem dirigir-se em certo sentido, marcham precisamente de forma espontânea e automática, naquela exacta direcção na qual se fixa o nosso olhar, ou melhor, a nossa visão interior.

Se o nosso olhar e a nossa visão se fixam em algum obstáculo, dificuldade, contrariedade e condição indesejável, no temor ou pressentimento de algo desagradável, não devemos pois, estranhar se formos dar directa e precisamente nesse obstáculo, ou, no objecto dos nossos temores.

Além disso, uma percepção ou visão obscura e indefinida e dificulta a nossa marcha e faz ao nossos passos incertos e vacilantes, pelo que tropeçamos continuamente com os obstáculos que aparecem no caminho, enquanto que ao divisarmos adiante de nós perfeitamente a nossa senda, com toda clareza e discernimento, a nossa marcha é fácil, rápida, directa e segura, e superarmos facilmente todos os obstáculos que possamos encontrar.

O mesmo sucede com a nossa marcha intelectual em direcção à Verdade e com a marcha moral rumo a um ideal de perfeição, que se revela sempre com maior clareza conforme avançamos na senda que deve conduzir-nos à sua realização. A esta mesma Lei obedecem os nossos esforços dirigidos para um particular objectivo, para o qual tendem e no qual se concentram os nossos desejos e aspirações: a marcha é mais fácil, rápida e directa conforme aprendemos a concentrar nesse objecto as melhores energias do nosso pensamento e, sobretudo, a contemplá-lo, vê-lo e discerni-lo com perfeita clareza.

A concentração das nossas energias interiores em direcção a uma meta determinada é, em todo o caso, a base indispensável de todo esforço que possamos fazer e de todo passo que possamos dar nessa direcção.

A cerimónia de recepção do candidato no primeiro grau, consiste essencialmente de três viagens que sintetizam admiravelmente todo o seu progresso maçónico nos três graus. Cada viagem representa assim um novo estado, um período diferente e uma nova etapa do seu progresso.

A primeira viagem

A primeira viagem apresenta-se cheia de dificuldades, de ardis e perigos, e completa-se no meio dos ruídos mais fortes e variados, que representam o desencadeamento das tempestades e dos ventos, símbolos das falsas crenças, opiniões e correntes contrárias do mundo, como as que temos que enfrentar. É a prova do ar das antigas iniciações, como é demonstrado pela purificação pelo ar que coroa esta viagem.

A direcção desta viagem, como das sucessivas, é aquela que é indicada silenciosamente pelo guia invisível que o conduz, e que ele tem de seguir com docilidade e confiança. Esta docilidade (palavra derivada de docere, “ensinar”, que por sua vez tem evidente analogia com ducere, “conduzir”), é a que o faz receptivo e o coloca em condições de aprender. No que diz respeito ao guia, representa, como já dissemos, o sentido íntimo, do justo, do bom e do verdadeiro, pois é o guia invisível e silencioso de todo homem, o único que pode realmente conduzir-nos pelo caminho do progresso.

Esta direcção é de Ocidente a Oriente pelo lado do Norte. O que significam estes pontos cardeais?

Aqui abrangemos uma das fases mais profundas e instrutivas do segredo maçónico: da mística doutrina que se esconde e se revela no seu simbolismo.

Do ocidente ao oriente

O Ocidente é o lado ou aspecto do mundo aonde o Sol se põe, isto é, onde a luz que o ilumina declina, se oculta e se torna invisível ainda que faça entrever a sua presença, no último resplandecer do ocaso, antes de deixar o mundo submergido nas escuras trevas da noite. É portanto, uma imagem muito expressiva do mundo sensível, da realidade visível que constitui o aspecto material, fenómeno ou objectivo do Universo, no qual a verdadeira luz que o ilumina, a Essência ou Realidade invisível que o suporta, ocultou-se na aparência, sob o velame comparativamente ilusório da sua realidade exterior.

O Real não é o que aparece, senão o que se esconde e revela atrás da aparência. Reconhecer essa Realidade constitui a substância de toda a iniciação, que consiste essencialmente em ingressar na sua percepção intuitiva, em adquirir consciência da mesma com um progressivo e sempre mais perfeito discernimento entre o que é e o que parece. É a Doutrina Iniciática de todos os tempos: a Realidade se oculta na aparência, na qual se acha, como Isis, velada e revelada, desvelando-se unicamente para o iniciado que tenha chegado individualmente, pelos seus próprios esforços, ao estado de consciência em que se torna manifesta a sua natureza essencial.

Quanto à Essência ou Realidade íntima, Imanente e Transcendente, é a que se acha representada simbolicamente pelo lado oposto, o Oriente, o aspecto do mundo de onde nos vem, nasce e emana a Luz. Onde a realidade aparece e brilha pelo seu próprio resplendor, esclarecendo e fazendo fugir as trevas da noite.

Partindo do Ocidente, ou do conhecimento objectivo da realidade exterior, o homem encaminha-se pela fria escuridão do Setentrião – a razão pura – em busca daquela Realidade que constitui a essência mais permanente e profunda do Universo, e que não pode ser encontrada senão caminhando para o Oriente, dos efeitos às Causas, desde os fenómenos aos números, Leis e Princípios que os regem.

Esta busca numa obscuridade inicial, que irá depois esclarecendo-se conforme avança no caminho, está representada pela região fria e tenebrosa do Norte, que deve ser atravessada com passo firme e perseverante, sem deixar que ela assuste ou desvie, pelas dificuldades e obstáculos que se encontram no caminho que conduz “da Ilusão” à Realidade”.

Do oriente ao ocidente

No curso desta primeira viagem, não pode o candidato deter-se no Oriente pois deve retornar imediatamente ao Ocidente, passando, desta vez, pelo caminho mais luminoso e agradável do Meio-dia. Isto quer dizer que uma vez atingida a primeira percepção, ocorrido o primeiro vislumbre da Realidade profunda das coisas, não deve o candidato nela deter-se, mas deve prosseguir o seu caminho, voltando outra vez ao Ocidente da aparência sensível, mas com a consciência iluminada pelo reflexo desta aquisição, estado que simboliza o Meio-dia.

Ou seja, uma vez atingido o conhecimento rudimentar das causas que regem os efeitos do mundo visível, e das Leis e Princípios que governam o mundo, deve completar o esforço indutivo, que o fez chegar a este conhecimento, com um análogo esforço dedutivo, no qual encontra a oportunidade e lhe é imposta a necessidade de uma aplicação fecunda e construtiva dos conhecimentos adquiridos.

Como a dedução não é geralmente mais difícil que a indução, o caminho de regresso não está menos semeado de obstáculos e dificuldades. Entretanto, a certeza já adquirida na sua passagem pelo Oriente, permite-lhe enfrentar com mais serenidade as crenças, opiniões e preconceitos do mundo, que já não tem poder para fazê-lo desviar-se do seu caminho. Esta é a purificação pelo ar que deve sofrer ao chegar ao término desta primeira viagem, próximo ao altar do 2° Vigilante.

Também simboliza esta viagem as provas da vida que temos de enfrentar constantemente nos seus primeiros esforços desde o material até o Ideal, dominando os seus instintos, paixões e desejos, assim como as circunstâncias contrárias que o confrontam, por meio do discernimento da realidade profunda da vida e do íntimo propósito de todas as suas experiências, buscando a Verdade e servindo-se da mesma como remédio para todos os seus males, conforme ensina Pitágoras nos seus Versos Áureos:

Mas existe uma estirpe divina entre os mortais, Da qual se chegares a ser partícipe, Conhecerás as coisas que te ensino, E servindo-lhe delas  como remédio, Do muitos males, farás livre tua alma!”

A segunda viagem

A segunda viagem diferencia-se da primeira pela sua maior facilidade: desapareceram os obstáculos, e os ruídos violentos deixaram o seu lugar ao tinido argênteo das espadas que os presentes fazem entrechocar.

Esta maior facilidade é consequência directa dos esforços feitos na primeira viagem. À medida em que aprendemos a superar os obstáculos que se encontram no nosso caminho, estes progressivamente desaparecem, pois já não tem razão de existir, uma vez desenvolvida em nós a capacidade de superá-los, com as qualidades que nos faltavam.

O choque das espadas é o emblema das lutas que travam ao redor do candidato, assim como da luta individual que ele deve empreender com as suas próprias paixões, pensamentos, hábitos e tendências negativas: todo pensamento deve ser rectificado, todo erro resolvido e convertido em Verdade. Indica sobretudo a negação do erro (ainda que tenha a força da aparente evidência exterior), na luz da Superior Realidade, da qual tem-se percebido os primeiros vislumbres.

A segunda viagem pretende relacionar-se com esta hora de incessante transmutação, com esta progressiva catarse da palavra inferior, que requer uma constante atenção e vigilância, que representa simbolicamente a prova da água, isto é, aquela espécie de baptismo filosófico que consiste em limpar ou libertar a alma dos seus erros, vícios e imperfeições que constituem a raiz ou causa interior de todo mal ou dificuldade exterior.

A primeira viagem representa os primeiros esforços na busca da luz ou da Verdade, os primeiros passos desde as sobras da Ilusão em direcção à Realidade íntima e profunda que é a Essência, a Substância e a Base imanente de tudo. Também representa, no seu regresso, o esforço individual que cada um deve fazer para caminhar e processar a sua vida em harmonia com os seus Ideais e com as suas aspirações mais elevadas, deixando de seguir passivamente a rotina dos seus hábitos, instintos e tendências negativas.

Como complemento destes primeiros esforços, a segunda viagem indica a perseverança nesta obra metódica de purificação da alma, que a fará digna de receber ou abrir-se às suas mais elevadas possibilidades, o baptismo da água, ou seja a negação do negativo (sendo a água o elemento negativo por excelência) que deve preceder ao baptismo do fogo, ou do espírito, ou seja à afirmação do positivo que levará consigo um perfeito estabelecimento da Verdade.

A purificação pela água, com a qual é concluída esta segunda viagem é essencialmente uma purificação da imaginação e da mente, dos seus erros e dos seus defeitos, constituindo uma fase importante daquela Grande Obra de redenção e regeneração individual que a iniciação Maçónica nos mostra com o seu particular simbolismo.

A terceira viagem

Representando a segunda viagem principalmente a virtude negativa, que consiste em purificar a alma das suas paixões, erros e defeitos, mais do que um objectivo para cada um, constitui a necessária preparação para a etapa sucessiva que nos indica a terceira viagem.

Esta completa-se com uma facilidade ainda maior que as precedentes, tendo desaparecido por completo os obstáculos e ruídos. Somente são ouvidos os acordes de uma música cadenciada e profunda que parece sair do próprio silêncio.

Tendo o iniciado dominado e purificado a parte negativa da sua natureza, que é a causa dos ruídos e das dificuldades externas, é natural que estas tenham completamente desaparecido. Agora deve familiarizar-se com a energia positiva do fogo, isto é, com o Potencial Infinito do Espírito que se encontra em si mesmo, cuja mais perfeita manifestação se tornou possível pela precedente purificação.

Esta descida do espírito, que constitui a prova e a purificação pelo fogo, elimina, por meio de uma plena consciência da Verdade, todo resíduo de impureza, todo traço dos erros e ilusões que precedentemente dominaram a alma. Quando a Luz da Verdade aparece em toda a sua plenitude, toda a treva, todo o erro, toda a dúvida e imperfeição, automaticamente desaparecem.

O iniciado prepara-se e aprende, por intermédio desta terceira viagem, a caminhar no fogo, isto é, no mais profundo e subtil elemento das coisas, do qual todas nascem e no qual se dissolvem, onde cessa por exemplo o poder da ilusão e a Realidade manifestar-se como realmente é.

Esse mesmo fogo representa, por um lado, a essência espiritual ou Princípio Universal do Ser, com a qual estabelece contacto através do discernimento da Verdade, e por outro lado, também representa a energia primordial, que constitui o Poder da Suprema Essência. Esta Divina Energia acha-se representada, no simbolismo helénico, por Prosérpina, a Rainha da Hades, filha de Deméter – a qualidade produtora da Essência Primordial – que se encontra nos “infernos”, ou seja, mas profundezas místicas das coisas.

Tendo realizado nas profundezas do seu próprio ser, este íntimo contacto com a essência fundamental que é ao mesmo tempo Verdade, Poder e Virtude, o iniciado anda agora com passo firme e seguro, sem que nada tenha o poder de modificar a sua atitude ou fazê-lo desviar-se. Esta serenidade imperturbável, que tem em si mesma a sua razão de ser e a sua raiz, e na qual a alma descansa para sempre ao abrigo de todas as influências, tempestades e lutas exteriores, permanecendo absolutamente firme nos seus esforços e nos seus propósitos, torna patente que a prova simbolizada pela terceira viagem foi superada. O iniciado leva agora, aceso dentro de si mesmo, algo que é como uma chama que nunca se apaga: aquele entusiasmo veemente e persistente que brota da própria raiz do ser e é a base de toda a realização exterior.

Com esse fogo, cuja essência é Amor infinito, livre de todo desejo, impulso ou motivo pessoal, tem o iniciado o poder de executar em torno dele os milagres e as coisas mais inesperadas, sendo, como Fé Iluminada e sincera, uma Força Ilimitada por ter franqueado e possuir o poder de superar os limites da Ilusão.

O cálice misterioso

O iniciado que afrontou as provas simbolizadas pelas três viagens e sofreu a tríplice purificação dos elementos, libertou-se de todas as escórias da sua natureza inferior e tem agora o dever e o privilégio de manifestar o mais alto e divino do seu ser.

Este dever e este privilégio, que já fazem dele potencialmente um Maçom, devem ser selados com uma primeira obrigação (o reconhecimento dos deveres) que precede ao juramento propriamente dito, e consiste em lhe dar de beber um cálice de água que de doce se transforma em amarga.

Nesta tríplice obrigação, que pode considerar-se como uma confirmação do testamento, aprende e reconhece as condições nas quais será recebido Maçom: o segredo sobre o que há de mais sagrado; a solidariedade e devoção para com os seus irmãos; e a fidelidade à Ordem, com observância das suas Regras e Leis tradicionais.

O cálice da amargura descreve-nos de forma eficaz, as desilusões que encontra quem desce das regiões puramente ideais, do Oriente simbólico, para enfrentar as realidades materiais. A doçura inefável dos sublimes conhecimentos adquiridos e dos planos ou programas de actividade que foram formulados na mente, não podem transformar-se na amargura que nasce quando tudo parece ir contra os nossos projectos e as nossas aspirações.

Então, não devemos estranhar-se num momento de debilidade, a alma cede momentaneamente sob o peso envolvente dessa aparência e brota do fundo do coração o grito: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice!”.

Mas o cálice não pode ser afastado, já que deve ser servido até a última gota. O contacto com a realidade externa não pode ser evitado, e neste contacto deve demonstrar-se praticamente o valor das suas aquisições ideais e a sua confiança na Verdade na qual se estabeleceu. A realidade exterior deve ser transmutada pela simples influência silenciosa da sua consciência íntima, fixada na visão de uma Realidade de ordem superior ou transcendente.

Em outras palavras, o iniciado que foi purificado pelos três elementos, deve ter sido convertido e deverá agir como um verdadeiro filósofo. Deve portanto, com a sua atitude interior, ser a pedra filosofal que tudo transmuta pela simples influência da sua própria presença. Assim, pois, longe de evitar e afastar de si a poção amarga que lhe é oferecida pela ignorância dos homens, deve levá-la aos seus lábios serenamente, como se fora a mais doce e agradável das bebidas. É, quando, então, cumpre-se o milagre: a amargura converte-se em doçura, e a visão espiritual triunfa sobre as sombras da ilusão que se desvanecem.

O sangue

Antes de selar definitivamente, por meio de um solene juramento, a admissão do recipiendário na Ordem, costuma-se submetê-lo a algumas outras provas que possam demonstrar a sua força de ânimo, e a sua rectidão e firmeza de propósitos.

Uma destas provas é a do derramamento de sangue. É dito ao recipiendário que, como a Sociedade da qual anseia tomar parte poder-lhe-á pedir que verta o seu sangue até a última gota, para a defesa dessa Causa Sagrada ou da vida dos seus irmãos, deve dar prova de estar disposto a fazê-lo, firmando com o seu próprio sangue, o seu juramento.

Este argumento do sangue, lembra-nos muitas antigas tradições que davam um singular valor à assinatura com o mesmo, de modo que o pacto assim firmado, não pode ser interrompido nem com a morte. Entre outros, citamos o Fausto, de Goethe, onde Mefistófeles, pede a Fausto selar com o seu sangue o trágico pacto pelo qual se obriga a servi-lo, em troca da sua alma. E tendo-lhe este pergunto por que razão dito pacto deveria assim ser firmado, responde-lhe Mefistófeles enigmaticamente que o sangue é um fogo de virtude singular.

Com efeito, o sangue é a expressão orgânica mais directa da vida individual, ou do Ego pessoal e portanto do que um em nós existe da mais próprio e genuíno. A permanência da vida no organismo está caracterizada pelo estado de fluidez do sangue, que circula e anima todas as partes do corpo, cessando a vida quando o sangue deixa de circular, bem como, quando coagula.

O facto de “estar disposto a firmar com sangue” o juramento maçónico, significa pois, que ele deve estar disposto a aderir com todo o seu ser, e de forma permanente e inviolável, aos Princípios e Ideais da Ordem, fazendo dos mesmos, carne da sua carne, sangue e vida da sua vida.

Assim pois, a qualidade de Maçom, que é conferida simbolicamente com a iniciação, e que individualmente é adquirida realizando ou tornando efectiva dita iniciação, deve considerar-se como permanente e indelével. A sua transitoriedade não provaria senão o facto de que nunca teria sido efectiva. Por outras palavras, não pode alguém “ser e deixar de ser” Maçom à vontade, senão que, uma vez que se tenha tornado verdadeiramente como tal, sê-lo-á para sempre. Aquele que acredita que pode deixar de considerar-se Maçom é porque nunca o tinha sido, no sentido iniciático da palavra, apesar de que possa ter tido o desejo de sê-lo e tenha-se-lhe outorgado externamente tal título, dando-se-lhe assim a oportunidade (nada mais ou nada menos que a oportunidade) de se converter em verdadeiro Maçom.

Maxell Egens

(Continua na Parte III)

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