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A iniciação iluminada

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✍️ Desconhecido 📅 22/01/2026 👁️ 0 Leituras

esquadro, compasso, iniciação

Ver numa pedra bruta apenas as rugosidades externas sem visualizar a beleza interna da pedra polida é limitação daquele que ainda não se iniciou na Maçonaria. É de conhecimento geral que mesmo aquele que passou pela cerimónia de iniciação e apenas enxerga as imperfeições do homem, ainda permanece ligado a vícios humanos e escravo do vil sistema humano materialista. Continua carente da iniciação iluminada pelo filosofar maçónico.

No mais absoluto sigilo, o processo começa com a proposta de iniciação de um cidadão de valor por iniciativa de um mestre Maçom. Efectuam-se investigações. Só pessoa de destacadas características é desejada e introduzida na ordem maçónica. O intento é melhorar o que já é bom. Passa então por uma cerimónia especial determinada a testar o seu valor. Considera-se que o indivíduo é cortado de uma hipotética pedreira, a sociedade. E mesmo com as suas qualidades e erudição reconhecidas, em presença da filosofia maçónica, por obvio, ele ainda apresenta uma forma tosca de construção interna, que apresenta imperfeições. Isso porque lhe falta liberdade devida ao seu condicionamento social. A busca de independência implica livrar-se de crenças surreais que outras pessoas, ao longo da vida, o fizeram acreditar. Urge tomar conta dos seus próprios pensamentos, livres da imposição social e dos exageros do politicamente correcto.

A caminhada para a iluminação, segundo modelo de vetustas escolas herméticas, se dá em cegueira profunda, total inexistência de Luz. Em termos maçónicos é a representação de condição do homem em estado bruto dentro da erudição filosófica, intelectual e espiritual. A obstrução da visão do iniciando representam os primeiros passos em total dependência, ignorância e castrado de iniciativa. É similar à vida de cidadão algemado pelos poderes humanos que limitam a sua evolução. A falta de Luz demonstra onde e como o sistema humano o submete aos poderes que lhe tomam os metais, posses, roupa e força vital. Para demonstrar o seu lastimável destino, um laço no pescoço, à semelhança de um enforcado, o provoca a pensar a sua existência à semelhança de um condenado a viver como animal sem inteligência e sabedoria, para o qual a vida apenas passa vazia e sem gosto. A sua total dependência dos outros o incentiva a sorver com ansiedade goles de liberdade para tomar conta da sua vida em sentido lato e sem ser conduzido por terceiros. Para demonstrar a sua miserabilidade, o homem não iniciado anda calçado apenas com ordinário e rústico chinelo. Não significa humildade, pois é retrato lastimável do homem dentro do sistema: homem explorando homem em seu próprio prejuízo!

Faz o seu testamento. Depois de armado e municiado para se libertar, entende que o beneficiário é ele mesmo. Como já morreu para o mundo, ele jaz sepulto na caverna que representa a sua consciência. Naquele local lúgubre responde perguntas que o levam a pensar a respeito da vida que teve até ali. Na solidão da sepultura o homem de sensibilidade desperta para princípios de vida com elevado significado existencial. Com a sua morte simbólica rompe definitivamente com a materialidade herdada e que o aprisionavam ao sistema humano de coisas. Prepara-se para reviver na cerimónia de iniciação para uma nova oportunidade de vida. O renascimento exemplificado na Páscoa, no Natal e nos solstícios solares o ajudarão a entender e organizar a sua vida. É o ponto de entrada para uma fantástica jornada em busca da liberdade. Utilizará da sabedoria de vetustas civilizações que ficaram no anonimato para se protegerem de perseguição e proibição. O iniciado usa de todas as culturas, a sua Arte Real, para racionalmente louvar a Criação, obra do Grande Arquitecto do Universo.

É jornada nova! É renascimento que ele escolheu racionalmente quando e onde. Nasceu dentro de si mesmo a partir da sua livre iniciativa e capacidade de pensar e sentir. É a resposta corajosa ao que vê pelas ruas da cidade onde a maioria não está satisfeita com o lugar e o tempo em que vive. Onde os insatisfeitos mais activos mudam de emprego, família, cidade e país em busca de felicidade para, em curto espaço de tempo, ficar irrequieto novamente e iniciar nova jornada ao léu. É insensatez! Acontece que estes não têm tempo para pensar nos temas certos. Sem concentração e meditação, os andarilhos não encontram respostas para as suas angústias. Permanecem infelizes! E a resposta está tão perto! Bastaria olhar para dentro de si mesmo. Modificar-se. Evoluir! Libertar-se! Ser feliz e contagiar a Humanidade em ser feliz também.

Para entender o mapa da caminhada efectuam-se viagens simbólicas. É submetido compulsoriamente às provas que envolvem os quatro elementos da Natureza: terra, água, ar e fogo.

São apresentados os seus deveres básicos: absoluto silêncio e fidelidade; vencer paixões prejudiciais; praticar a solidariedade, socorrendo outros ao encaminhá-los a praticarem o bem; é-lhe exigida a crença num Princípio Criador, baseado no conceito de Grande Arquitecto do Universo; sujeitar-se às leis.

A Luz

Depois disto é-lhe simbolicamente revelada a Luz. Luz que ilumina o interior do templo sagrado que é o próprio corpo do iniciado.

No dia da iniciação o Maçom inicia uma jornada que dura o resto da sua vida. E não vai longe! Ao menos não em termos de deslocamento. O seu destino é ao interior de si mesmo. Bem perto, mas tão longe! Para ver a Luz é necessário desobstruir a entrada da caverna da sua consciência, arrancar as lascas das rugosidades externas e internas da simbólica pedra que ele é. Deixar a Luz entrar na pedra. Ele viaja ao interior de si mesmo. Passa a destruir e a reconstruir a si próprio por utilizar-se das ferramentas que estão espalhadas pelas oficinas maçónicas.

A Maçonaria propicia as ferramentas, o iniciado a matéria-prima: a pedra. Ele é a pedra. E somente ele a pode trabalhar. No Universo apenas ele mesmo tem o poder e a capacidade de modificá-la. Nem mesmo o Grande Arquitecto do Universo interfere, pois dotou a criatura com a capacidade do livre-arbítrio, portanto, nunca cobrará se ele foi ou não bem comportado durante o privilégio de usufruir da vida. Afasta o medo do castigo eterno. Afasta a falsidade da barganha com o Supremo Arquitecto com vistas a obter prazeres eternos. Significa liberdade! E responsabilidade! O pensamento expresso no conceito de Grande Arquitecto do Universo para o Maçom não é crença, o que implicaria em dúvida; o Maçom tem certeza da manifestação do Criador através das suas obras. O iniciado sente-se privilegiado por merecer essa experiência de vida. A pedra burilada por quem tem o interesse maior resulta num ser humano que sabe equilibrar amor, vontade e intelecto. Constitui o centro do grande tema da Ordem Maçónica.

A Liberdade

A grande provocação da cerimónia de iniciação aponta para a liberdade. Durante o início da jornada existe a figura do condutor. Quando revelada a Luz, o iniciado deixa de ser conduzido e daí em diante passa a tomar conta dos seus próprios passos, do seu carácter, da sua consciência, da sua vida, e em todos os aspectos que o levam a evoluir. Está focado essencialmente na destruição interior dos embustes nos quais foi condicionado a acreditar. Trabalha agora na edificação de valores virtuosos que revelam potências nunca antes percebidas porque estavam imersas na hipocrisia do mundo de ilusão criado por religiões, escolas, amigos, governos, usos e outras influências. Andar e pensar com liberdade implica em duvidar de velhos hábitos e costumes. Faz do questionamento geral uma Arte Real, praticada no ócio criativo. Aprende a desfrutar da vida de forma comedida e tranquila, aproveita desse paraíso de delícias, chamado Terra, de forma respeitosa e tranquila.

Desbastar a pedra bruta é tarefa individual que os maçons perseguem em sentido moral, ético e mais acentuado na dimensão da elevação espiritual com aprimoramento de carácter e consciência. A Luz do livre pensamento passa a brilhar dentro do templo que a pedra representa. As lascas, o cascalho, que caem neste trabalho são os defeitos e imperfeições como preconceitos, ignorância, fanatismo, orgulho, e outros. Assim, mesmo que viva entre as trevas do mundo idealizado pelo homem material, ele aprende a conviver com elas sem se contaminar com as impurezas que vigoram fora do templo, fora de si mesmo. O seu templo interno permanece imaculado. Depois de disciplinada e diligente actividade no desbaste da pedra bruta o iniciado encontra dentro de si o espírito, o transcendental, a assinatura indelével do Grande Arquitecto do Universo, origem da Luz que guarda e guia os iniciados pelos caminhos dos augustos mistérios das antigas escolas iniciáticas.

Charles Evaldo Boller

Bibliografia

  • CLIFFORD, Anthony; A Arte de Questionar, a Filosofia do Dia-a-dia, ISBN 978-85-395-0588-3, 1a edição, Editora Fundamento, 320 páginas, São Paulo, 2014;
  • Paraná, Grande Loja do; Ritual do Grau 1, Aprendiz Maçom, Rito Escocês Antigo e Aceite, 3a edição, Grande Loja do Paraná, 98 páginas, Curitiba, 2001;
  • ZIJDERVELD, Anton; BERGER, Peter; Em Favor da Dúvida, Como Ter Convicções sem se Tornar Fanático, In Prise of Doubt, traduzido por YAMAGAMI, Cristina; ISBN 978-0-06-177817-9, 1a edição, Elsevier Editora Limitada, 172 páginas, São Paulo, 2012;

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