A fraternidade maçónica
Definimos sempre um ser, uma coisa, uma acção ou um sentimento por referência a outro ser, outra coisa, outra acção ou outro sentimento. E procedemos ou por analogia ou por oposição. Antes de vos falar da Fraternidade Maçónica Universal, proponho que trabalhemos no sentido de uma definição da Fraternidade, fazendo a distinção entre:
Amizade
Juntar-se com um objectivo comum.
Quando falamos de amizade, lembramo-nos rapidamente das belíssimas páginas que MONTAIGNE escreveu, inspirado pela profunda amizade que o ligava a Etienne de la BOETIE. Esta amizade estava mais próxima daquilo que é – ou deveria ser – a FRATERNIDADE dos maçons do que das amizades comuns de hoje.
Hoje em dia, a amizade é mais superficial e mais fortuita. Cria-se por oportunidade, por interesse talvez; o tempo pode esbater-se ou fazê-la desaparecer… É prática, ligeira, muitas vezes mundana, por vezes sincera e sólida… Em suma, quase não se compromete e o coração dá-se ainda menos. A amizade pode desiludir, isto é, se tiver a esperança de ser retribuída. E aí, realmente, que desilusões
Não vamos pintar um quadro pessimista da amizade – afinal, é uma coisa doce – vamos apenas sublinhar a sua fragilidade, a sua instabilidade… e a amargura que por vezes deixa atrás de si…
Caridade
A caridade é um conceito infinitamente cativante… que pode, no entanto, tornar-se rapidamente odioso, dependendo de certas motivações. A Caridade é certamente cativante quando é um simples e maravilhoso dom de si: quando, espontaneamente, testemunha a sua Fé, num Deus ou no Homem. Sim, a Caridade é cativante quando, no meio do arame farpado da vida moderna, o Homem renuncia ao seu egoísmo e faz um grande buraco para ser sempre bom, apesar de tudo: para ser útil a quem precisa, a todos os que precisam.
É esta ligação moral – muitas vezes de origem cristã – à noção de Dever que distingue esta caridade – que, no entanto, é tão afectuosa – da Fraternidade.
Também dissemos: por vezes detestável em função de certas motivações.
Há uma Caridade que não é necessariamente um acto puro, um acto que não se inscreve no âmbito dessas “razões do coração” de que fala PASCAL, e a benevolência para com o próximo nem sempre é altruísta. Por vezes, procuramos o nosso semelhante… mas sobretudo a nossa própria recompensa!
A odiosidade reside então numa espécie de contabilidade dos actos generosos.
Há pouco mencionámos o extraordinário acto de Fé que a Caridade pode ser: recordemos agora a salutar reviravolta no Cristianismo causada pela Reforma, que justamente criticou esta contabilidade com Deus dos actos generosos. – Eu fiz isto, por isso, Senhor, deves-me isto.
É aqui que esta chamada Caridade, que visa um salário, se torna rapidamente odiosa.
Do mesmo modo, quando se dirige a estes e nunca àqueles, actua em tais circunstâncias e não em tais outras, com um limite mais ou menos apertado. Encontra então razões más e não boas… para justificar estas discriminações.
Mas, pelo menos, a Caridade alegre, a verdadeira Caridade, mesmo que decorra de uma obrigação moral ou espiritual, está inquestionavelmente imbuída de Fraternidade.
Solidariedade
A solidariedade, por outro lado, é um facto social, não é um facto moral. É um sentimento multidimensional que nos liga ao Homem, ao Cosmos, à Cidade, e também ao Criador, a quem chamamos o Grande Arquitecto do Universo.
“A alma é a filha da cidade“, dizia o filósofo. Imaginemos por um segundo que a cidade é destruída: o que é que restaria da nossa alma, e durante quanto tempo? Como é que as nossas faculdades se exprimiriam, o nosso potencial seria revelado? Como é que o nosso espírito poderia florescer? O que é que aconteceria às gerações seguintes?
Devemos a nós próprios – e aos nossos semelhantes em particular – ser o que somos e valer o que valemos.
Mas se a fraternidade inclui a solidariedade, a solidariedade não implica necessariamente a fraternidade.
Fraternidade
Vejamos então: o que é a fraternidade, a fraternidade de facto?
Na Antiguidade, a fraternidade era considerada o mais nobre e elevado dos sentimentos. Mesmo antes da Sabedoria. Ao contrário do amor, dos afectos ou das obrigações morais, a fraternidade é estabelecida por uma decisão da vontade pessoal. Ao contrário do amor, dos afectos ou das obrigações morais, a fraternidade é estabelecida por uma decisão da vontade pessoal. Mais uma vez, ao contrário do amor, dos afectos ou das obrigações morais, a fraternidade não inclui nenhuma paixão, nenhum sentimento de posse ou de domínio.
A Fraternidade é um sopro feliz que tanto agita o coração como a Razão! Um “sopro” livre de qualquer outra noção de bem e de mal; de direito e de dever; de contabilidade, de vingança; de humores inconstantes…
Fraternidade,
- é quando o Ego pensa no Outro,
- quando este eu já não pensa eu, mas o Outro,
- quando pensar em si significa primeiro pensar no Outro.
E é por isso: tudo começa e continua com o Outro.
O homem social só é feliz quando pode ser livremente, plenamente, igualmente um homem entre outros homens, um homem com outros homens.
Esta é a FRATERNIDADE HUMANA: e foi sem dúvida para a encontrar mais rapidamente, construindo-a a partir do zero, com as suas próprias mãos e o seu próprio coração, que os leigos quiseram um dia tornar-se maçons!…
A irmandade maçónica universal
O “SER” é sempre mais do que o “SABER” e o “AGIR” é sempre mais do que o “PENSAR”…
Assim, a Fraternidade Maçónica, tal como a vemos na Grande Loja de França, é uma forma não só de demonstrar a nossa fé na humanidade, mas também de a pôr em prática e de a tornar realidade.
A Fraternidade Maçónica já não é um sentimento, uma atitude ou mesmo um reflexo; é uma acção permanente, na sequência de uma escolha feita de uma vez por todas.
… E escolher amar não é, afinal, a mais bela das escolhas?
É claro que, no mundo secular, há impulsos de fraternidade muito reais e sinceros – várias religiões, em particular, dão exemplos magníficos – mas, infelizmente! Muitos desses impulsos parecem esbarrar numa parede. Ah, nem sempre um muro de egoísmo ou de indiferença, mas um muro que não foi equilibrado pela mais perfeita harmonia… Feita por homens, instituições ou circunstâncias?
A grande ambiguidade é que a Fraternidade secular, excepto talvez em certos casos particulares de vida comunitária, não vai até ao fim de si mesma, não sabe rejeitar a estreiteza doutrinal e contenta-se muitas vezes com uma vida lado a lado, uma fraternidade de esfregar os ombros.
O maçon, por outro lado, compreende que a verdadeira alegria fraterna não é viver lado a lado, mas viver com os outros, viver em conjunto; ser ele próprio, é claro, mas viver com os outros em mente, construir a sua vida em torno da vida dos outros, procurar a sua verdade encontrando a dos outros…
Mas será que pensar nos outros significa esquecermo-nos de nós próprios?
Não tenhamos medo de o dizer: “esquecer-se de si próprio” não seria maçónico. e depois, não :
- se não tiveres primeiro voltado para dentro de ti,
- se não tivermos: olhado para nós próprios, “apreciado” a nós próprios no verdadeiro sentido da palavra e, em última análise, dominado a nós próprios, como poderemos então abordar os outros?
A Fraternidade Maçónica pressupõe, portanto, que tenhamos estabelecido ou procuremos estabelecer :
- paz e equilíbrio,
- autogoverno.
Esta era já uma das grandes expectativas de SÓCRATES: que o outro fosse como ele no governo de si próprio. E é nisto que o Outro é igual ao Eu.
E é isto que torna a Fraternidade Maçónica tão original, uma Fraternidade regenerada, revigorada e re-espiritualizada:
- não só para conhecer, mas também para ter a certeza – sem quaisquer segundas intenções – do seu ambiente,
- saber que existem outros Irmãos, não só à vossa volta, mas em todo o mundo: que têm a sua própria existência, que caminham livremente, que se esforçam com alegria, que constroem pacientemente na mesma direcção, para o mesmo Templo.
Então tudo é possível. É possível acreditar e confiar, é possível empreender e alargar, é possível ser-se a si próprio… e amar os outros, ao mesmo tempo, é possível dizer tudo e ouvir tudo…
A Fraternidade Maçónica é um pacto contra o egoísmo, a indiferença e a incompreensão; é um pacto de fé e de esperança já na terra: em si mesmo e nos outros, na humanidade inteira, na paz e na vida.
De facto, a Fraternidade Maçónica: o Homem, seu irmão, na sua personalidade, na sua igualdade e é querer, ele próprio, viver com ele como tal.
Somos os nossos próprios heróis, “os nossos heróis mútuos”, porque acreditamos em nós próprios e a nossa Fraternidade é testemunha disso.
Foi ALAIN que fez com que o seu “Misantropo” dissesse algures:
“Não é que eu despreze os homens, mas sim que os procuro e quase nunca os encontro…”
Aqui, na Maçonaria, os Homens encontraram os Homens. Não é que eles sejam todos iguais. Procurar o seu semelhante não significa que o Outro seja igual a si próprio! Pelo contrário, como escreveu Paul Valéry: “Somos enriquecidos pelas nossas diferenças mútuas”, mas cada um é ele próprio, expresso, realizado ou em vias de realização.
Sim, é na Maçonaria que os homens se tornaram Homens e, na Luz, encontraram outros Homens. É aí, nessa consciência, que reside o fundamento da solidariedade que une os Maçons, solidariedade essa, parte integrante e cimento da Fraternidade Maçónica.
Como podemos sentir-nos mais realizados, pelo menos nesta terra, do que através da fraternidade calorosa exemplificada pelos Maçons?
Os homens estão lá, por sua própria vontade, procurando juntos a Luz e avançando no caminho da Iniciação.
Pela primeira vez, estes homens são verdadeiramente livres com outros homens livres. Podem falar: são escutados. Podem falar: não serão julgados, condenados, ofendidos ou humilhados. O reflexo será o de querer compreendê-los. Tudo porque decidiram, de uma vez por todas, amarem-se como irmãos e irmãs. E é no uso que fizerem deste amor e desta liberdade que mostrarão que são verdadeiramente Maçons.
É a semelhança das nossas aspirações e dos nossos costumes que constitui o nosso laço, simultaneamente o mais doce e o mais indestrutível. Nada nos pode oferecer maior segurança.
Por outras palavras, a verdadeira atitude fraterna não consiste em sermos nós próprios, com toda a simplicidade, com outros homens, que se tornaram maçons, e que também não querem mais do que ser eles próprios, com toda a simplicidade?
Um dos grandes prazeres do maçon é precisamente o sabor desta fraternidade fundamental, cuja raridade ele sabe exprimir e fazer sobressair. É como uma canção que escolheu voluntariamente a sua própria música e corre em notas alegres em direcção à grande Luz.
A imagem da Fraternidade Maçónica que acabamos de esboçar é uma representação ideal, demasiado cheia de ilusões? Como podemos falar de “ilusões” quando nós, maçons, temos o coração cheio de esperança porque acreditamos na perfectibilidade do homem?
A Maçonaria não tem o privilégio da fraternidade, nem a Grande Loja dos Ritos Maçónicos. Há obras e sociedades, laicas e religiosas, de excepcional comunhão e devoção. Mas nós damos um dos mais calorosos exemplos que muitos nos invejam… sem o compreenderem.
Não queremos desperdiçar nada na vida, nem para nós nem para os outros: queremos viver a vida em pleno. Em paz connosco próprios, alegres com os outros. É por isso que nos amamos uns aos outros.
Repitamos: a nossa Fraternidade “maçónica” não é apenas uma atitude, de felicidade na vida; é sobretudo uma vontade: de felicidade na acção…
É por isso que a Fraternidade é a pedra angular da nossa vida maçónica e, portanto, do nosso Templo.
“Meus amigos, só há amigos”, dizia o filósofo…
Porque somos maçons, dizemos:
“MEUS IRMÃOS, SÓ HÁ IRMÃOS”… para todos aqueles que realmente o desejarem.
Cristian Belloc
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
