A Cabala na História
A Cabala Mística, contida nos seus livros de base, o Sepher Yetzirah e o Sepher Ha Zohar, é habitualmente referida como o lado oculto e místico da doutrina judaica, o que nos parece uma interpretação bastante equivocada. Neste estudo não discutiremos, assim, a essência da Cabala Mística, mas apenas a sua ligação com outra Cabala, a Judaica, iniciando com alguns comentários acerca do fenómeno do misticismo.
Em um sentido mais amplo, pode o misticismo ser entendido como uma tendência natural e irresistível do ser humano à sublimação de muitos das seus actos, uma tendência tão poderosa que nem mesmo pessoas do mais alto grau de cultura conseguem vencê-la.
E suficiente que seja anteposta a qualquer um apenas algum facto, ou factor, carregado de forte emotividade, como uma suposta epifania, um teor impressionante de um livro, uma teoria mais tendenciosa, ou até mesmo uma irresistível ânsia por dinheiro ou posição social, para que a actividade intelectual, por assim dizer, se embote e deixe de comandar os processos e actos racionais.
Podemos, ainda, traduzir o misticismo como um envolvimento total e uma identificação pessoal incondicional com algum modelo emotivo ideal que se apresente como capaz de satisfazer expectativas ou anseios pessoais frustrados, ou mesmo esperanças compensatórias de males sofridos. Este modelo ideal pessoal tanto pode ser antropomórfico como um simples estado de alma sublimado para além dos nossos sentidos corporais comuns.
Misticismo, assim, é na realidade, uma alienação mental em que a racionalidade se deixa dominar completamente pela emoção, a tal ponto que vai sendo substituída gradativamente por um estado de fantasia pura, ilógica e irreal. Pode-se chegar a ele, quer pela emotividade, como já nos referimos, quer também pela racionalidade.
A fé, que é o mais frequente caminho a levar ao misticismo, é um produto da pura emotividade, que nos leva a aceitar um modelo idealizado sem nenhum questionamento. Cremos e aceitamos. E uma vez entrado nesse compartimento estanque que é a fé o progresso, em qualquer sentido, fica totalmente frustrado. Exclusivamente passarão a ser consideradas, daí em diante, adições informativas que possam vir a confirmar ou intensificar essa mesma fé. Factos outros que possam eventualmente contradizê-la serão sempre rejeitados de plano como inconvenientes. A fé, como a emotividade de que se origina, é ilógica por natureza.
Pode-se, ainda, chegar ao misticismo encontrando um modelo através de processos mentais especulativos. E um caminho difícil e tortuoso através do livre pensamento, mas que, ironicamente, pode levar ao mesmo misticismo ilógico tanto quanto a emotividade. Um panteísta, por exemplo, pode, através da sua busca da verdade, chegar a um ser essência universal, origem e princípio do cosmo, e se identificar com ele de uma forma mística. A sua busca mental pode cessar aí. A sua verdade pessoal foi achada, mas foi cercada pela protecção ilógica da Fé.
A tendência ao misticismo a que no início nos referimos, quer se parta de um arcabouço de fé pré-estabelecido e irracional, quer da construção pela racionalidade, pode-nos levar a aceitar coisas, teorias, ou situações absolutamente fantasiosas, como se verdades evidentes fossem.
Um livro sobre Cabala Mística pode envolver o leitor a uma tal situação de emotividade, por vir de encontro aos seus anseios mais íntimos, que o seu conteúdo passará a ser aceito como verdade insofismável, embora um mínimo de racionalidade pudesse evidenciar tratar-se de matéria puramente fantasiosa.
Fez-se necessária esta introdução prévia sobre a natureza do misticismo neste breve estudo sobre a história da Cabala, porque esta está habitualmente cercada de tantas afirmações sem base lógica ou de situações tão completamente irreais, que a sua aceitação somente poderá ser explicada através do misticismo.
Há tantos e tão volumosos livros escritos sobre a Cabala, ou sobre os poderes ocultos a ela ligados, que parece inverosímil até que tenham sido compostos por pessoas de boa-fé. Lemos, por exemplo, que a Cabala teria sido ditada pelo Anjo Metraton a Adão, antes de ele ser expulso do Paraíso, e que essa revelação secreta teria chegado até nós ou por tradição oral, ou remetida de livro a livro cabalístico, como se realidade histórica fosse. Mas tanto Adão, como o Éden, como o Anjo Metraton, não passam de mitos fantásticos da criação.
Alhures lê-se que Deus teria ditado a Moisés, no Monte Sinai, uma série de instruções secretas sobre o conhecimento de Deus para que ele a mantivesse secreta e como tradição oral entre os eleitos do seu povo.
Mas, historiadores e comentadores sérios desse trecho bíblico, concordam em que Moisés provavelmente se teria valido de alguma actividade vulcânica de algum monte da região do Sinai para encenar uma situação para impressionar o povo descrente que conduzia e que queria tomar adepto e defensor de um Monoteísmo Novo.
Tentaremos situar as origens da Cabala no contexto histórico ocidental, pensando escoimá-la de tantos acréscimos, às vezes quase infantis, que somente a deturpam. Porém, parece, à primeira vista, evidente que a Cabala Judaica, ou o Misticismo Judaico, nada têm a ver com a Cabala Mística referida no Zefer-Ha-Zohar. Esta última é que se teria enredado ao judaísmo, numa agregação até prejudicial à pureza do seu monoteísmo.
A evolução da tradição judaica pode até ser acompanhada passo a passo através de eventos literários correlatos desde o segundo milénio a.C. até final da Idade Média, numa sequência sem interrupções ou intervalos, porém sempre ligada exclusivamente a interpretações orais, por vezes mesmo secreta, da Tora Escrita, ou Mosaica.
Assim, doravante encaminharemos as nossas considerações em primeiro lugar para a trajectória histórica da Mística Judaica, e a seguir, em torno da origem possível da Cabala Mística não judaica, que tanto tem sido objecto de pensadores maçons e de muitos outros escritores a partir do século XII em diante.
Quando Moisés, com toda pompa, apresentou ao seu povo recém regresso do Egipto as Tábuas da Lei, hipoteticamente gravadas por Deus em duas lousas de pedra, como manda a tradição, estava, na realidade, dando início à longa jornada de um povo heróico em busca da afirmação de um monoteísmo puro e novo. Parece não ter havido nada escrito anteriormente sobre essa revelação, tanto quanto nos é dado conhecer historicamente.
Moisés era um homem de visão, um líder, e ao descer do Sinai, já devia ter concebido e delineado uma estratégia para convencer o seu povo de que aquela era a verdade suprema vinda directamente de Javeh, de que aquela era a lei a que deveriam obedecer cegamente para o resto dos seus dias, e para o resto dos dias de todas as gerações hebraicas vindouras.
Sabemos pela Bíblia que, imediatamente após os eventos do Sinai, o povo hebreu foi conduzido ao Oásis de Kadesh, onde Moisés se apressou a reunir os anciãos para complementar e estudar a lei dada por Deus e dar-lhe as necessárias interpretações. Algumas destas resoluções e interpretações devem, possivelmente, ter sido mantidas secretas como ocorre ainda hoje, quando muitas resoluções de mandatários nacionais ou religiosos não chegam ao conhecimento do grande público, permanecendo como tradição oral transmitida entre os chefes e os seus conselheiros.
No mesmo Oásis de Kadesh, foi provavelmente iniciada a redacção dos livros de Pentateuco, ou alguns deles, e criou-se uma tradição oral das interpretações da Lei Mosaica para orientação do povo, tradição que os anciãos mantiveram sempre acesa daí por diante. Esta tradição oral, ou Cabala Judaica, como a poderemos chamar, sempre existiu acompanhando a religião hebraica como um complemento interpretativo oficial da lei escrita, a Torá, e nada mais.
Neste procedimento inicial, Moisés foi fortemente motivado pela necessidade de definir e firmar o conceito de um Deus Único, criador universal, protector do povo escolhido, na mente desse povo nómade semi-analfabeto.
A partir daí, os hebreus vaguearam pelo deserto, lutaram, cresceram, foram vencidos e algumas vezes venceram até que, no ano de 595 a.C., Nabucodonosor os derrotou totalmente, destruiu o seu templo sagrado e a sua capital, e levou cerca de 80% da sua população para um desterro em Babilónia. Somente restaram no país os 20% mais pobres e incultos.
Na Babilónia, por necessidade de preservação da nacionalidade, o judaísmo se consolidou e floresceu como nunca tinha acontecido nos séculos anteriores em terras de Judá. Nos cinquenta anos aproximados do cativeiro, organizaram-se escolas bíblicas e a própria Bíblia foi reescrita para a sua forma actual e, evidentemente, a tradição oral da Torá foi revivida e confirmada a interpretação emanada das reuniões do oásis de Kadesh. Facto importante também é o abandono do idioma hebraico antigo como língua oficial, sendo substituído pelo aramaico falado pelos babilónicos.
Voltando à sua terra natal, com permissão real de Ciro, o seu primeiro trabalho foi a reconstrução do templo e das muralhas de Jerusalém, a sua capital política e religiosa. Mas a reconstrução material não trouxe consigo a indispensável reconstrução moral e religiosa, bem como não produziu a tão necessária consciência de nacionalidade.
Esdras, com permissão especial do rei Ciro, veio de Babilónia com a incumbência de decidir sobre essa reorganização, trazendo consigo a “Lei”, como nos relata a Bíblia. Não se sabe ao certo que “Lei” era essa, mas pode-se presumir que se tratava de uma redacção revista dos cinco livros legais básicos do judaísmo, o Pentateuco.
Naturalmente, trouxe consigo também os anciãos, os sábios e os escribas que haviam trabalhado incansavelmente na elaboração dos textos legais durante o cativeiro. E com a Torá Escrita veio, sem dúvida, a Torá Oral.
Uma das primeiras medidas de Esdras foi constituir uma Grande Assembleia composta exclusivamente por escribas, leigos não sacerdotes, a quem incumbiu da missão especial de reinterpretar a Torá Escrita para melhor definir o seu sentido disciplinar. Voltando de Babilónia com um numeroso grupo de escribas, tantos que lhe foi possível formar uma grande assembleia, é-nos lícito supor que, mesmo antes do cativeiro, já havia uma actividade cultural interpretativa da Bíblia. A partir da Grande Assembleia, passaram os escribas a ser os intérpretes oficiais da Lei, assumindo uma posição que anteriormente pertencia exclusivamente à classe sacerdotal dos levitas. Ou já haveria antes do cativeiro um grupo de sábios não sacerdotes intérpretes da Lei? Não o sabemos.
Assim, a Cabala Judaica atravessou os tempos conturbados que antecederam ao cativeiro de Babilónia, foi revivida durante a Diáspora e serviu de bálsamo vivificador da fé num Deus Único, fé que renasceu mais forte.
A Grande Assembleia de Esdras trouxe uma nova fase à Torá Oral, que continuou o seu desenvolvimento até cerca do 2º século antes da nossa era, provocando o início da fase rabínica do judaísmo. Nesta época, surgiram e começaram a se definir três facções religiosas conhecidas como os Essénios, os Saduceus e os Fariseus. Os Essénios pregavam uma vida ascética e condenavam os ofícios e sacrifícios do Templo do qual se afastaram. Os Saduceus eram os mais nobres e abastados e defendiam uma estrita observância da Torá Escrita que, segundo eles, devia ser interpretada literalmente. Ambos eram fundamentalistas e condenavam qualquer especulação filosófica em torno de temas bíblicos.
Já os Fariseus introduziram no Judaísmo a crença na imortalidade da alma, usufruíram grande prestígio entre o povo mais simples e saíram vitoriosos na sua luta contra os Saduceus e Essénios pela hegemonia dentro da comunidade judaica.
A sua vitória foi completa com a queda de Jerusalém perante os soldados de Tito em 70 d.C., pois a partir daí, o judaísmo rabínico de que eram defensores, dominou totalmente.
Com a destruição do Tempo no ano 70 d.C., parecia que o judaísmo como nação estava totalmente destruído e dissolvido. Porém, a esperança num Messias ainda frutificava e, no início do segundo século d.C., uma nova rebelião chefiada por Bar Koshiba deu novo alento a esse Messianismo. Bar Koshiba contou, entre os seus colaboradores, com grande incentivador, o rabi Akiba Ben Joseph, um sábio eminente, que mantinha uma escola rabínica de doutores da Lei.
Quando Bar Koshiba foi derrotado e a última fortaleza de Betar caiu em poder dos romanos, Akiba foi morto e torturado. Simón Bem Jochai, um dos seus melhores discípulos, se refugiou com os seus alunos numa caverna, onde continuou os seus ensinamentos. Consta que ele, com medo de ser interrompida a tradição, revelou toda a sabedoria da Torá Oral aos seus discípulos.
Cerca do final do segundo século, da nossa era, o extraordinário intelectual lehyda Ben Nassi compilou a Mischná, aproveitando um conjunto de tradições antigas e pequenos escritos esparsos. Esta compilação é considerada pelos judeus como a mais antiga obra escrita sobre a interpretação bíblica.
Esta Mischná, acrescida e complementada pela Guemará, veio a constituir duas obras interpretativas mais completas, o Talmud de Babilónia e o Talmud de Jerusalém. O primeiro foi produzido cerca do sexto e o segundo cerca do quarto século da nossa era.
Como vimos, transparece claramente na história judaica uma Cabala como que emergindo desse emaranhado de interpretações da lei básica do judaísmo, a Torá. Mas toda essa série de transmissões orais não passa de interpretações práticas da aplicação do Pentateuco à vida diária dos judeus e nada mais.
Já a Cabala Mística, na sua forma expositiva tradicional, traduz a crença básica de que toda a matéria existente, nas suas mais diversificadas formas, emanou de um Ser Supremo que existia antes do Não Ser, ou antes do Tempo e do Espaço, e que essa emanação se deu através de diversas etapas. Ainda mais que existem conhecimentos ocultos ou cabalísticos, somente do conhecimento de alguns iluminados, que podem levar ao conhecimento desse mesmo Deus.
Esta concepção se cada perfeitamente com o Panteísmo ou até se assemelha às concepções filosóficas orientais, mas não se enquadra com o Judaísmo e o seu Monoteísmo Puro, com a crença num Deus que age e cria pessoalmente através de actos de vontade.
Tanto é verdade que a Cabala Judaica nada tem a ver com a Cabala Mística que Maimonides, em fins do século XII, no seu livro “Os 613 Mandamentos”, reafirma e analisa pormenorizadamente todos os mandamentos positivos e negativos da Torá escrita, e reconfirma a Torá Oral judaica como um conjunto de interpretações de aplicação dos mandamentos bíblicos, sem nenhuma referência a outros mandamentos ou conhecimentos ocultos.
E, ainda mais, já no século XVII, a comunidade judaica de Amsterdão expulsou solenemente da sua congregação o filósofo Baruch Spinoza, acusado unicamente de tentar perverter o judaísmo tradicional, introduzindo nas suas sinagogas o ensino do panteísmo, julgado totalmente contrário ao Teísmo que surge da Bíblia como doutrina básica.
Portanto, devemos procurar a Cabala Mística e as suas raízes à margem da tradição oral judaica ou Cabala Judaica.
No século II a.C., a cultura helénica começou a dilatar a sua influência para a Ásia Menor e foi, provavelmente, ela que fez nascer a crença na imortalidade da alma entre os judeus, principalmente entre a facção dos Fariseus, pois até este momento, a sobrevivência da alma não era sequer questionada entre os hebreus, pois a Bíblia não se referia e ela.
A nova filosofia grega introduziu este elemento novo no pensamento religioso e deve ter produzido, entre outras alterações culturais, a modificação da crença judaica na imortalidade do homem, e o aparecimento dos primeiros sinais da Cabala Mística não judaica.
O seu desenvolvimento parece ter ocorrido paralelamente ao judaísmo, enredando-se a ele a tal ponto de prejudicar a pureza central da sua doutrina monoteísta.
Nos séculos que se seguiram, desde o século II a.C. até o século XII d.C., a Cabala Mística teve um desenvolvimento paralelo à Cabala Judaica, sendo, inclusive, adoptada por muitos judeus, na certa ávidos de uma evolução filosófica do judaísmo, proibido pelos ditames bíblicos. Quando o Sepher Ha Zohar teve origem, provavelmente escrito por Moses Bem Shem Tov (ou Moses de Leon), aos poucos a Cabala Mística foi tomando um caminho próprio, desligando-se nos séculos seguintes definitivamente do Judaísmo.
Antes de ser escrito o Zohar, houve um movimento de aglutinação das concepções cabalísticas não bíblicas e antes de Moses de Leon, o rabino Nahamanides escreveu diversos tratados cabalísticos que devem ser considerados os predecessores do Zohar.
A convivência entre o judaísmo talmúdico e as suas interpretações práticas da Torá, ou seja, a Torá Oral e o Cabalismo Místico, a partir dos séculos XII até o século XV, se deve a uma fraqueza geral do judaísmo provocada por massacres e perseguições de que foi alvo por parte da classe religiosa dominante. Esta fraqueza não foi saudável para o teísmo bíblico, e dessa mescla que levou para dentro do judaísmo heresias não aceitáveis, restam resquícios até hoje, quando muitos místicos falam ainda de Cabala Mística como se se tratasse de uma concepção idêntica à Cabala Judaica.
Também desta época data uma excrescência ocorrida noutro grande sistema religioso, o Islamismo. Por volta do século XII, alguns escritores islâmicos esboçaram um movimento de introdução do misticismo no sistema religioso islâmico, mas esse movimento foi de curta duração, em parte porque a doutrina explicitada no Corão é simples e rudimentar, não dando margem a muitas interpretações teológicas ou pensamentos místicos.
Quanto à Cabala Mística, toda a sua exposição doutrinária está basicamente considerada nas duas obras fundamentais: “Sepher Yezirah” e “Sepher Ha Zohar”.
A Sepher Yezirah é uma composição literária que transmite uma ideia bastante simples. As suas quatro primeiras Sefirot se referem à teoria pré-científica de que toda a matéria se compõe de quatro elementos básicos: o ar, a água, a terra e o fogo, teoria que só recentemente foi desmentida pela ciência. As seis restantes são: para a direita, para a esquerda, para trás, para frente, para cima e para baixo ou, como querem alguns, os quatro pontos cardeais e os dois pólos terrestres.
Os comentários adicionais que o livro traz a essas dez sefirot, inclusive quanto à origem do alfabeto hebraico, nos parecem apenas meras fantasias que nada têm a ver com teorias metafísicas ou filosóficas.
Quanto à Sepher Ha Zohar, ou Zohar simplesmente como é mais conhecido, escrito no século XIII, provavelmente por Moses de Leon, contém um misto de teorias cosmogónicas mal definidas e fantasiosas sobre a origem do Universo, e procura englobar a maior parte dos conhecimentos dos povos antigos sobre esse assunto. Mas o que muito obviamente ressalta do seu conteúdo é uma concepção panteísta a respeito da natureza do Universo.
Que a Cabala Mística tenha tido a sua origem nos antigos povos Caldeus, ou que tenha sido ditada no Monte Sinai, ou por ocasião da expulsão de Adão do Éden, ou mesmo concebida por algum outro povo da antiga Mesopotâmia, parece-nos uma afirmação sem fundamento histórico.
A primeira manifestação da teoria panteísta de que se tem notícia historicamente se deu na antiga Grécia, cerca do século IV a.C. e, portanto, qualquer concepção panteísta dela derivada não pode ser anterior a esse século.
O surgimento tardio entre os hebreus da crença da imortalidade da alma, ocorrida quase certamente nos dois séculos anteriores à nossa era entre os fariseus, se deve então, certamente, à influência helenística que então se espalhava pela Ásia Menor. Possivelmente essa crença tenha a sua origem no panteísmo grego concebido nos séculos anteriores.
Esta mesma influência helenística, provavelmente, lançou raízes muito profundas entre os seguidores da doutrina cristã durante os primeiros séculos da sua propagação, justamente quando se plasmavam os seus princípios fundamentais, que seriam condensados e amalgamados no século IV por Agostinho.
Sabe-se que nestes primeiros séculos do Cristianismo surgiram inúmeras seitas para-cristãs, mesclando conceitos judaicos, relativos à vida após a morte com a descrença crescente no messianismo terreno e fantasias ligadas a anjos e demónios que estariam continuamente influenciando a vida terrena.
É muito provável que a Cabala Mística se tenha firmado nesse terreno fértil da evolução filosófica ainda sem conceitos muito definidos e deitado as suas raízes independentemente dos conceitos básicos tradicionais judaicos, mas fora da Cristandade que conseguiu afastar-se dessas concepções pseudo-místicas através da vigilância do seu poder central e da acção dos seus Padres.
É natural aceitar que daí surgiram e se conservaram até aos nossos dias grupos isolados e secretos, muito poucos naturalmente, mas que conseguiram manter e preservar os seus conceitos sobre anjos e demónios em segredo, até por medo de serem condenados e excomungados. A primeira manifestação mais evidente se deu no século XII, quando Nahamanides compilou as crenças cabalísticas num manuscrito que deu origem em seguida ao Sepher Ha Zohar, de Moses Bem Shem Tov, ou Moses de Leon.
O mesmo ocorreu com a sacralização das letras do alfabeto quadrático judaico, que parece seguir uma lógica aparentemente evidente. Se o nome de Javeh é sagrado, as letras em que é escrito são sagradas e, se essas quatro letras são sagradas, todo o alfabeto deve, evidentemente, ser sagrado. Em torno dessa lógica ou teoria, se criou uma série de afirmações sobre a origem divina das letras judaicas.
Ocorre, porém, que o Pentateuco foi escrito em hebraico antigo, idioma vigente entre os judeus até o cativeiro, quando foi substituído pelo aramaico falado pelos babilónios. No retorno do cativeiro, os hebreus não voltaram a falar o idioma anterior e o hebraico antigo, com o alfabeto quadrático criado pelos sacerdotes, passou a se constituir apenas num idioma sacerdotal.
O hebraico antigo era simplesmente um dialecto fenício, o cananeu, que utilizava o alfabeto fenício e que era falado e escrito na Terra Prometida mesmo antes de os hebreus lá chegarem. Desta forma, a inspiração e origem divina do alfabeto hebraico quadrático, como querem os manuais da Cabala, não deve passar de pura fantasia.
Com base nestes raciocínios, parece definitivamente afastada qualquer hipótese de a Cabala Mística ter ligações com qualquer dos grandes grupos religiosos do ocidente, o sistema judaico-cristão e o islamismo, não se tratando de mais do que especulação sobre um tema muito fértil e do agrado de qualquer pessoa com tendências místico-religiosas e que cada geração mais vai enriquecendo com elementos novos, tornando-se cada vez mais inverosímil.
Não se quer, aqui, desmerecer a Cabala Mística como instrumento de enriquecimento do espírito através, ou dos Três Pilares e a Descida da Força, ou dos Três Triângulos Místicos, ou da Árvore da Vida e os Trinta e Dois Caminhos, mas, simplesmente, que deve ser encarada como um produto do saber humano, sem qualquer possível origem divina ou inspirada.
E mais, que não é de origem judaica, mas apenas que cresceu ao lado do Judaísmo que, em certas épocas, tendeu à especulação filosófica, aliás, proibida aos seus adeptos. Segundo os textos bíblicos, Deus não pode ser conhecido, ele deve apenas ser obedecido.
Ambrósio Peters
Referências bibliográficas
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