18º Grau Maçónico
Não precisam de ler tudo de uma vez. O importante e ler, compreender e aprender…
Boa parte texto foi retirado de uma obra que a Madras acaba de publicar e editada por mim: A História da Rosa-Cruz, Os Invisíveis de Tobias Churton, o mesmo autor do Beijo da Morte – A Verdadeira História do Evangelho de Judas, Madras Editora, muito bom…Não se esqueça que os críticos esperam, ou desejam, que este assunto morra, mas nós não.
Temos uma colecção de livros, Mestres do Esoterismo Ocidental, editados por mim, na Madras, que são sensacionais e os recomendo, são eles: Emmanuel Swedenborg; G.R.S. Mead; Helena Blavatsky; Jacob Boehme; John Dee; Paracelso; Robert Fludd e Rudolf Steiner.
18º Grau Maçónico “Rosa-Cruz”
Um sobrevivente do peculiar interesse do período na mitologia rosa-cruz está familiarizado com a Maçonaria no mundo inteiro. É o famoso Rosa-Cruz – ou 18º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Supostamente, o conteúdo do ritual tem muito poucos elementos “Rosa-Cruzes” óbvios – nenhuma referência a Christian Rosenkreuz ou à Casa do Espírito Santo, ou até à fraternidade R. C. Comentaristas maçónicos académicos acostumaram-se a concluir que as palavras Rose (“Rosa”) e Croix (“Cruz”) são puramente acidentais e não há como inferir nenhuma influência rosa-cruz. Esta crítica não faz sentido dentro do contexto real da Maçonaria da metade do século XVIII, em que os mitos logo perderam a sua especificidade, sendo reduzidos a lições morais e éticas.
As lições morais da Rosa-Cruz permanecem as virtudes cristãs da Fé, Esperança e Amor – aprendidas por meio de uma jornada simbólica empreendida pelo “cavaleiro Maçom” em potencial a um local no Oriente, onde um mistério alquímico da primeira ordem é representado – a saber, a crucificação de Cristo em Jerusalém: “A Pedra Cúbica que emana sangue e água”, como o ritual vividamente declara.
É bem possível que o escritor do ritual estivesse ciente do simples misticismo cristão dos textos pós-Fama de Andreae, embora o sabor do ritual sugira com mais força sensibilidades mais católicas que espirituais protestantes. O ritual não está preocupado com a mitologia de Christian Rosenkreuz, apenas com o potencial iconográfico da rosa e da cruz. Esta imagem é combinada com a do pelicano alimentando as suas crias com o próprio sangue, um claro símbolo de Cristo e o Seu amor salvador.
O ritual foi provavelmente criado como uma maneira poderosamente conveniente de afirmar a identidade cristã dentro da Maçonaria (que estava sob ameaça), embora retenha uma atmosfera de sugestivo mistério maçónico. Que melhor fonte para o tema cristão num cenário esotérico simpatizante à “casa oculta” ou Loja ideal da Maçonaria do que um Rosacrucianismo de fervor cristão, celestial e fragrantemente místico em espírito. No clímax do rito, por exemplo, o futuro “aprimorado” cavaleiro Maçom encontra uma escada (associada com Jacó e Beth-el, o lugar de Deus) que conduz a um altar adornado com rosas.
As palavras Rosa-Cruz sugerem um Cristianismo místico e mágico do século XVIII e continuam a fazê-lo: algo indefinível e além da razão. A Maçonaria prefere inferência e alusão a qualquer implicação de especificidade confessional e dogma metafísico: universalismo, simbolismo é tudo. Afinal, a Maçonaria seria definida como “um sistema peculiar de moralidade dissimulado em alegoria e ilustrado por símbolos”. Em muitos aspectos, esta última declaração de William Preston (Illustrations of Masonry, 1772) [“Ilustrações da Maçonaria”]; também pode ser aplicada a aspectos de Neorrosacrucianismo.
A composição original do grau do “Soberano Príncipe Rosa-Cruz [“Rosa-Cruz”], Cavaleiro do Pelicano e da Águia”, há muito foi atribuída a Jean-Baptiste Willermoz (1730-1824). De acordo com A. C. F. Jackson (Rose Croix, A History of the Ancient & Accepted Rite for England and Wales, Lewis Masonic, 1980) [“Rosa-Cruz, Uma História do Rito Antigo e Aceito na Inglaterra e no País de Gales”], o título apareceu pela primeira vez em 1761, como uma deferência aos detentores do grau do Cavaleiro da Águia.
Em 1766, um francês de origem crioula chamado Estienne Morin (falecido em 1771) completou uma série de Constituições, consideradas actualmente pelo Rito Antigo e Aceito da Maçonaria como importantes documentos de fundação. Estas Constituições datavam de 1762, um ano depois que Morin recebeu uma patente da Grande Loja de França, nomeando-o como “Inspector-geral”. Morin considerou a indicação como uma missão para difundir a Maçonaria através do Atlântico de uma forma que servia aos seus interesses. De facto, ele tornar-se-ia “Inspector-geral” da sua própria constituição maçónica. Morin chegou às Índias Ocidentais em 1763, mas não se sabe se ele completara um Ritual Rosa-Cruz naquela época. O que ele provavelmente tinha era uma lista de cerca de 25 graus obtidos de Jean-Baptiste Willermoz, o arquivista chefe da Maçonaria, em Lyon.
Como veremos, no tempo devido, Willermoz passou bastante tempo em Lyon examinando, meticulosamente, os rituais de toda a Europa, buscando pela doutrina essencial que unificaria o todo. Em 1761, Willermoz e o seu grupo formaram um novo rito de 25 graus. A maioria deles era apenas de nomes e ainda precisavam ser elaborados.
Nesste meio-tempo, Willermoz também se correspondia com um certo Meunier de Précourt, mestre de uma Loja em Metz, que sabia um pouco sobre um grau Rosa-Cruz que estava sendo trabalhado em algum lugar da Alemanha. Em 1762, De Précourt aguçou mais o apetite de Willermoz com promessas de “mil segredos maravilhosos” disponíveis na Alemanha, inclusive uma Ordem do Templo.
Willermoz completou o Ritual Rosa-Cruz em 1765. Se provinha ou não da Alemanha, não se sabe. Estranhamente, em 1765, surgiu um livro, Les Plus Secrets Mystères [“Os Mistérios Mais Secretos”] com cerimónias que incluíam o grau dos “Cavaleiros da Espada e da Rose-Croix”. O grau não tinha semelhança com o de Willermoz. Talvez houvesse um pouco de concorrência com a proto-Gold-und Rosenkreuzers, oferecendo mais do que devoto simbolismo maçónico.
O Rosa-Cruz era popular e, por volta de 1768, existiu uma instituição em Paris que se denominava o “Primeiro Capítulo Soberano Rosa-Cruz”, cujos estatutos e regulamentos foram emitidos em 1769. Esta iniciativa expandiu-se à Grã-Bretanha, onde foi acolhida pelos poucos que tiveram acesso ao seu trabalho como o grau ne plus ultra – a mais alta forma de Maçonaria, pois “não há nada mais além”. A partir de 1775, o grau Rosa-Cruz era trabalhado nos “Acampamentos” dos Cavaleiros Templários Maçónicos britânicos.
Dois anos antes de a instituição parisiense ser estabelecida, o vice de Morin, Francken, fundou a Loja de Perfeição e Conselho dos Príncipes de Jerusalém em Albany, Nova York. Uma “Loja de Perfeição” foi aberta em Charleston em 1783, a origem do actual “Supremo Conselho, Jurisdição Maçónica do Sul” (Estados Unidos).
Muito importante para a Maçonaria, o grau Rosa-Cruz transforma a lenda do assassinato de Hiram Abiff por pedreiros invejosos, ao insistir que o evento crítico da Maçonaria ocorreu quando o “Mestre morto” (não Hiram Abiff mas Cristo, “a pedra fundamental que os edificadores rejeitaram”) convidou o pedreiro para “morrer n’Ele” e renascer no Espírito. Por esta razão, o Cavaleiro Maçom da Rosa-Cruz é “aprimorado” no clímax do grau. A substância dessa mensagem é bastante clara na Fama Fraternitatis, na qual os Irmãos descobrem as seguintes palavras na cripta oculta de Christian Rosenkreuz: “Nascemos de Deus, morremos em Jesus e viveremos de novo pelo Espírito Santo.” Esta é, no Rito Antigo e Aceito, “a perfeição da Maçonaria”.
Os maçons, em geral, têm relutado em acomodar as plenas implicações dessa compreensão. Freemasonry – The Reality, Tobias Churton, Lewis Masonic, 2007).
Martines de Pasqually (1709? ou 1726/1727-1774)
A maior influência na vida do ritualista maçónico Willermoz, sem dúvida, foi a mente extraordinária de “Don Martines Pasqually”, como ele próprio assinava (o seu verdadeiro nome era e continua a ser uma questão duvidosa). Contudo, o sistema de crença de Pasqually, embora possa ser classificado como “paramaçónico”, não pode ser chamado “rosa-cruz”. Entretanto, o seu pensamento era, em certos aspectos, inconcebível sem que a mitologia e a tradição rosa-cruz existissem antes e na sua época, enquanto que ele próprio continuaria a influenciar o que, posteriormente, passou sob o nome e descrição de “rosa-cruz”. Por esta razão, Pasqually não pode ser ignorado.
A sua fama reside principalmente por ter fundado uma Ordem dos Élus Coëns [“Sacerdotes Eleitos”], em 1765, ano em que Willermoz completou o seu ritual Rose-Croix, cuja confluência de datas atesta a notável quantidade de actividade concertante paramaçónica existente nesse período.
Os Eleitos Coëns não foram a primeira incursão criativa de Pasqually no ritual teosófico. Em 1754, ele fundou um Chapitre des Juges Écossais (“Capítulo de Juízes Escoceses”) em Montpellier, a cidade que Haslmayr tentou alcançar antes de ser condenado às galés em 1612, quando estava em busca de um irmão rosa-cruz. A palavra “Escocês” refere-se à crença nos círculos maçónicos franceses de que a autêntica Maçonaria vinha da Escócia, pois as Lojas estabeleceram-se em França sob a égide de jacobitas exilados (partidários da dinastia Stuart na Grã-Bretanha).
Entre 1762 e 1772, Pasqually estava baseado em Bourdeaux, onde Morin também viveu até à sua partida para as Índias Ocidentais em 1763. Em 1765, Pasqually formou um “Templo Coën”, chamado Les Élus Écossais [“Os Eleitos Escoceses”], que, no ano seguinte, tornou-se a Ordre des Chevaliers Maçons Élus Coëns de l’Univers, a Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Sacerdotes do Universo. Pasqually estava “pensando grande”.
A garantia para esta grandiosa criação era uma tradução feita por Pasqually de uma “constituição e patente”, que, segundo ele, fora concedida a seu pai, em 20 de Maio de 1738, por “Charles Stuard [sic], Rei da Escócia, Irlanda e Inglaterra, Grão-Mestre de todas as Lojas sobre a superfície da Terra”. Este documento pode ou não ter sido apócrifo. O uso do nome Charles Stuart era, certamente, uma referência a Bonnie Prince Charlie, que, posteriormente, apareceria na história contada pelo barão alemão Von Hund, que vocês conhecerão logo abaixo, sobre como ele obteve um rito templário da mesma origem real. É facto bastante comprovado que os jacobitas exilados usaram a Maçonaria como um sistema de apoio, mas não se sabe se o pretendente ao trono britânico estava envolvido.
A data de 1738 é interessante, pois foi neste ano que a Grande Loja dos Maçons Livres e Aceitos de Londres produziu o seu novo livro de Constituições. É possível que houvesse aqui uma tentativa de os maçons “escoceses” (ou melhor franceses) de “ordens superiores” superarem o ás de Londres com um apelo à autoridade ausente e superior. A cavalaria maçónica era melhor quando concedida por um rei, naturalmente. Seria preciso apenas combinar a Escócia com as lendas recém-cunhadas dos “templários exilados” para lançar uma nova estrutura mitológica. Esta estrutura estava, inevitavelmente, amarrada à mística da Rosa-Cruz e persiste até os dias de hoje.
Pasqually aparentemente servira num regimento escocês na Espanha (tinha descendência hispano-judaica) e foi entre os militares que ganhou os seus primeiros recrutas, que, por acaso, eram católicos romanos (outro soco no olho da Maçonaria “Regular”). Foi através da Loja militar Josué que Louis-Claude de Saint-Martin conheceu o notável Pasqually (Saint-Martin fora designado à Foix Infanterie).
Entre 1766 e 1767, muitos foram admitidos na ordem de Pasqually, incluindo Willermoz. É estranho que os três mais fecundos colaboradores da Maçonaria Teosófica radical com nuances rosa-cruz todos se conheceram: Pasqually, Willermoz e Saint-Martin. A sua influência agregadora tem sido imensa, em certos círculos continentais.
Pasqually usou a Maçonaria como estrutura, mas principalmente por uma questão de conveniência histórica. Embora fosse em parte um judeu convertido, Pasqually era genuinamente cristão, mas, até onde se saiba, pertencia a um ramo do Cristianismo que se pensava estar extinto: o Cristianismo Judaico. O conhecimento dessa tradição especial chegou a Pasqually, disse ele, por sucessão. Ele obteve este conhecimento do pai.
Pasqually promoveu o seu próprio sistema teosófico, que gozou de imensa influência. Willermoz, por exemplo, chegou a considerá-lo a essência da Maçonaria e Saint-Martin – que tinha muitas ideias próprias – submeteu-se à fonte peculiar de inspiração espiritual de Pasqually. A ideia de uma transmissão secreta de conhecimento elevado harmonizava-se com a mitologia do Rosacrucianismo, como também o seu foco em Cristo.
No final do século, a crença seria de que, seja o que inspirara o sábio Christian Rosenkreuz, também inspirara a teosofia de Pasqually e Saint-Martin; as obras de cada um deles – junto com as de Jacob Böehme – podiam ser lidas in tandem, e como reforços mútuos a uma poderosa força da Maçonaria teosófica e oculta. Cada vez mais curioso, talvez fosse o comentário de Andreae.
Pasqually afirmou que o seu ensinamento vinha directamente da Sabedoria Celestial e, com tal autoridade, escreveu Treatise on Reintegration [“Tratado da Reintegração”]. Pasqually declarou que, embora o homem tenha sido criado à semelhança de Deus, ele agora estava num estado de “ruptura” com Deus, um estado de “privação”, de separação de Deus. Pasqually afirmava que, no entanto, isso não era o fim da questão. O Homem ainda podia, quando reconciliado, retornar ao seu estado original. Este retorno envolvia uma gnose judaico-cristã, sobre a qual disse: “Devo relembrar aos homens, companheiros, do seu primeiro estado maçónico, que é dizer espiritualmente homem ou alma, de forma a fazê-los ver verdadeiramente que são na verdade homem-deus, sendo criados à imagem e semelhança desse Todo-Poderoso Ser” (carta a Willermoz, 13 de Agosto de 1768). Alguns leitores podem considerar essa promessa um tanto pobre de veemência. Como se conseguia ficar tão inspirado com a ideia de serem reconciliadas com Deus? Não é isto o que os evangélicos pregam?
Bem, não exactamente. O homem do século XVIII vivia num universo mental muito diferente do nosso. Podemos imaginar, por exemplo, que republicanos e democratas americanos hoje se sentissem um tanto estranhos, talvez até um pouco desconfortáveis, se tivessem de passar algumas horas ouvindo os discursos de Benjamin Franklin. Ele poderia parecer muito diferente ao vivo do que tinham imaginado. As suas suposições, linguagem e clímax da conversa seriam muito estranhos ao ouvido moderno.
Em suma, a opinião amplamente arraigada do homem do século XVIII era, em geral, de que o Homem era um ser caído. O relacionamento principal com o seu criador era tenso e difícil; o que o tornava fundamentalmente inseguro se as asas da salvação parecessem débeis. Os protestantes eram encorajados a ter um relacionamento pessoal com o seu salvador, mas o pensamento da época poderia tornar isso difícil. Aos católicos, ensinava-se que era bem mais fácil desagradar ao seu criador do que ganhar ou estar receptivo às graças que poderiam salvar-lhes a alma. De qualquer forma, o homem estava muito longe do que Deus queria que ele fosse. Havia um abismo entre o que o homem era e como deveria ser. Pecado e inferno eram próximos e a ignorância não era desculpa.
Hoje em dia, a maioria das pessoas herdou um conceito “naturalista” do ser humano. Elas são capazes de se ver até bastante superiores, em alguns aspectos, com o resto do mundo natural, mas ainda parte fundamental dele. Outros acreditam que não vivemos à altura do nosso lugar na ordem natural e somos, desse modo, como um déficit ecológico global. Estes são extremos e a maioria das pessoas encontra-se no meio-termo. Pensamos ser mais ou menos o que estamos destinados a ser; podíamos ser melhores e provavelmente deveríamos. Mas somos seres humanos no sentido orgânico pleno do termo; o nosso corpo e alma (se acreditarmos neles) estão bem amarrados.
Isso era apenas um sonho para a maioria, no século XVIII. Quando encontraram algo parecido nos mares do sul, imediatamente pensaram no Éden, e no estado anterior ao pecado original. Para eles, o homem como criatura orgânica finita não era o que Deus tinha verdadeiramente pretendido. Rousseau poderia objectar, mas não era bom sonhando com a bucólica arcádia, cantando as virtudes da vida campestre, enquanto a peste grassava e a morte rondava na esquina. Corrupção e morte não foram removidas da vista. Corrupção e morte, decadência, a condição lamentável e desprezível do homem era visível a todos que não tinham condições de retratar a paisagem campestre da sua terra à maneira dos poetas gregos. A vida era pútrida e fétida, e todos os seres, não importa a aparência, cedo ou tarde sucumbiriam a esse estado. A queda do homem era facto e os indícios estavam por toda a parte.
Como poderia ele ser salvo? Seria possível confiar apenas na Igreja, ou havia uma consciência maior, uma centelha de luz divina, que exigia a própria vontade e concentração? Como salvar a pérola da imagem de Deus no homem do lodo que o cercava?
Pasqually oferecia um caminho que afirmava ter sempre existido mas que, agora estava disponível, sob nova forma mais adequada à época. No sistema de Pasqually, havia quatro classes de graus, além dos graus do ofício. A terceira era a Classe do Templo com os graus: Grande Arquitecto, Cavaleiro do Oriente (ou Grande-Eleito de Zorobabel), Comandante do Oriente (ou Aprendiz Réau-Croix). Este último abria os portões à Quarta classe: o grau de Réau-Croix, que era uma classe em si. Havia sete graus porque havia sete dons do espírito.
Avançando através dos sete graus, o Sacerdote-Eleito estaria apto a entrar num culto cerimonial, uma teurgia que envolvia invocações mágico-espirituais, activando energias divinas. Havia também uma liturgia para invocar “seres espirituais e inteligentes” (anjos).
É preciso lembrar que, para Pasqually, a palavra mason [“maçom”] era sinónima de “homem”. Todos os homens estão envolvidos na obra da construção, ou são “trabalhadores da vinha”. Ser homem é ter potencial criativo. A arquitectura é apenas um aspecto disso e não se devia tomar o símbolo literal ou especificamente demais, como é comum no oficio.
O primeiro Homem foi o Rei-Sacerdote do Universo. Daí, tornou-se pessoal, preocupado apenas consigo mesmo. A reconciliação pode torná-lo de novo um ser universal. O sistema de Pasqually era basicamente uma ordem religiosa, observada com preces e restrita às almas que não esteja em desacordo com a “verdadeira Igreja”. O seu sistema oferecia uma experiência de reconciliação com Deus e consciência de um ser superior, não meramente a teologia ou a sua promessa ocasional. O seu objectivo era expandir a alma e a mente.
Pasqually escreveu que a Teurgia era “uma cerimónia e uma regra de vida que permite a invocação do Eterno em santidade”.
Era possível que coisas estranhas acontecessem nas câmaras onde o ritual teúrgico se desenrolava. Manifestações curiosas de actividade aparentemente sobrenatural que ocorriam na câmara de operação chamavam-se “passes” ou “glifos divinos”. Estes não deveriam causar distracção aos operadores, mas, dizia Pasqually, deveriam ser considerados sinais de que a “reconciliação” avançava. O “passe”, portanto, era uma manifestação do que Pasqually estava apto a chamar La Chose [“a Coisa”], que nada mais era que a Sabedoria personificada – a divina Sofia.
De acordo com o especialista em Martinismo Robert Amadou, “a Coisa não é a pessoa de Jesus Cristo (…), a Coisa é a presença de Jesus Cristo”, exactamente como o Shekinah (ou glória) era a presença de Deus no Templo.
Pasqually oferecia um culto de expiação, purificação, reconciliação e santificação. Como tal, era uma espécie de resposta católica ao Rosacrucianismo protestante, ou até uma versão deste. De qualquer forma, as correntes agora, graças a Pasqually, estavam entrelaçadas. Como diz Saint-Martin: “Este homem extraordinário é o único que não consegui entender”.
O que Andreae teria pensado sobre ele daria um interessante estudo.
Barão Karl Gotthelf von Hund (1722-1776)
O barão Von Hund afirmava ter sido iniciado numa linhagem única da Maçonaria, estimulado por Charles Edward, pretendente Stuart ao trono britânico. Certamente, era de interesse dos jacobitas fazer oposição à Maçonaria anti Stuart, dominada pelos liberais hanoverianos da Grande Loja de Londres e imaginar um ramo superior do ofício.
A mitologia envolvida para estabelecer este pretexto provinha de duas fontes principais. A primeira, a crença do Maçom jacobita, Andrew Michael “Chevalier” Ramsay, emitida pela primeira vez em 1736, de que a Maçonaria renascera na Europa por ordens cavaleirescas durante o período das cruzadas e, depois, o persistente mito das origens patriarcais antediluvianas da Maçonaria, aliado à dinâmica “rosa-cruz” dos mistérios sagrados, trazidos do Oriente pelos cavaleiros-peregrinos. Deste modo, pensava-se que a “Maçonaria” pura desempenhava um papel na restauração da unidade primitiva da humanidade. Esta ideia elevada tinha ressonância com a noção de reconciliação e restauração da perfeição adâmica do homem, preconizada por Pasqually.
Em sintonia com a natureza exaltada da missão maçónica “superior”, Von Hund criou o Rito da “Estrita Observância”. A virtude da Estrita Observância era a de ser a continuação de uma ordem secreta de cavaleiros templários, que, por alguma razão, sobrevivera à supressão papal em 13 de Abril de 1312.
É provável que a Escócia tenha oferecido abrigo aos cavaleiros sobreviventes, e os seus segredos estavam agora astuciosamente guardados em Lojas maçónicas e alimentados pelas virtudes cavalheirescas dos aristocratas e monarcas escoceses. Deste modo, a Grande Loja de Londres – e a Maçonaria exportada dali para a Alemanha e para França – não tinha os verdadeiros segredos. Havia uma mistura intrigante entre a necessidade de segredos com as fantasias sobreviventes da fraternidade oculta rosa-cruz, dando à Estrita Observância e semelhantes ordens posteriores à sua peculiar matriz de “Maçonaria Cavalheiresca” com pitadas de devoção mística cristã “rose-croix” mais profunda e gnóstica. Era uma bebida rica e inebriante, servida como antídoto aos rigores bastante tediosos da chamada Era da Razão.
Com sempre se observou, uma falsa ideia é um facto real. Para o crente, acreditar na mentira pode não torná-la real. A crença num vínculo com os antigos templários criou o facto dos novos templários. As suas crenças tornaram-se uma força motivadora de facto que não pode ser descartada, simplesmente por causa de uma divergência de perspectiva histórica. Existem muitos que gostam de se considerar templários maçónicos no conhecimento de que representam algo como um ressurgimento em vez de uma continuidade de uma ordem desaparecida. Como observou o historiador maçónico francês Pierre Mollier, o neotemplarismo atrai os homens que se sentem como estranhos num mundo que se tornou profano demais.
Em 1774, a Estrita Observância foi estabelecida na “província” neotemplária da “Borgonha”, ou seja, em Estrasburgo, depois, em Lyon (“Auvergne”) e em Montpellier (“Septimania”). Trabalhavam-se dois graus além dos três graus do ofício de Aprendiz Aceito, Companheiro e Mestre Maçom. O primeiro era de Noviço, o segundo Cavaleiro Templário, no qual era revelado o segredo de que a Maçonaria era, na realidade, uma sobrevivência da Ordem do Templo, convocada a uma missão secreta pela qual os seus membros há muito sofreram.
Na Alemanha, a Loja regular de Braunschweig, Zu den drei Weltkugeln [“Aos Três Globos”], adoptou a Estrita Observância e, posteriormente, tornar-se-ia um centro nervoso dos Gold und Rosenkreuzers. O duque Fernando de Braunschweig tornou-se “Magnus” da ordem de Von Hund. É interessante ver que os descendentes das antigas famílias solidárias ao movimento do século XVII tornaram-se patronos dos novos movimentos templários, Rosa-Cruzes e maçónicos (o landgrave de Hesse-Kassel também estava envolvido).
Em 1775, Braunschweig foi o local escolhido pela Ordem da Estrita Observância para reunir 26 nobres alemães a fim de discutir os seus negócios e futuro; de Estrita Observância tinha bem pouco. Um ano após o congresso, os membros dirigentes da ordem viajaram até Wiesbaden, a convite do barão Von Gugomos, que se dizia emissário dos “Verdadeiros Superiores” da ordem. O seu quartel-general era no Oriente, em Chipre (famosa na história como fortaleza dos Cavaleiros Hospitalários de São João). Ele esperava tomar o controle da ordem e, depois que as perguntas se aprofundaram, declarou que retornaria a Chipre para obter valiosos textos secretos para demonstrar a “genuína” linhagem da ordem e o seu propósito elevado. Gugomos foi exposto; os seus títulos e patentes eram falsificados. Não foi a última vez na história que falsificações levariam a uma quebra de confiança na ordem.
Após os conventos maçónicos de Lyon (1778) e Wilhelmsbad (1782), a Ordem da Estrita Observância morreu, mas as suas ideias seriam substancialmente ressuscitadas quase de imediato. A Estrita Observância transformou-se no Régime Écossais Rectifié de Willermoz: o Rito Escocês Rectificado, mais conhecido e reverenciado actualmente nos círculos maçónicos devotos pelo acrónimo de C. B. C. S.: Chevaliers Bienfaisants de la Cité Sainte, os Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa.
O que Willermoz fez com a ideia da Ordem do Templo deve-se muito à força transcendental da mente de Pasqually. O que Willermoz fez mostrou ter um significado bem mais abrangente com um impacto directo no mundo do Neorrosacrucianismo.
No Rito Escocês Rectificado de Willermoz, o que importa não é o cavaleiro templário como tal, mas uma ordem trans-histórica, cuja existência remonta, supostamente, ao início dos tempos. A verdadeira “Ordem do Templo” denotava algo bem maior do que a ordem particular da cavalaria sagrada dos séculos XII e XIII. A verdadeira ordem espiritual do Templo do Universo poderia continuar, pois não dependia dos acidentes da história ou de vastas propriedades pelo continente (ou aprovação do papa ou o que seja).
Deste modo, qualquer coisa de natureza secreta e mística associada com os templários era simplesmente uma manifestação do contacto entre membros dessa ordem (nem todos precisavam saber isso) e que, depois, seria chamada “a Grande Fraternidade Branca” (em que “branca” refere-se a “magia branca”, suprarrealidades sagradas, santas, divinas, perfeitamente espirituais e orientadas pela luz). Portanto, a afirmação em defesa das realidades da história, de que os templários não tinham vínculos históricos com a “Grande Obra” da redenção da humanidade, podia ser rebatida com a acusação de que tal conhecimento não era para todos nem tampouco discernível à inteligência de todos: apenas aos que receberam o conhecimento revelado pela autêntica iniciação. Este discurso manifestamente oculto não se sustentaria no tribunal, mas esses julgamentos seriam raros. Em certo sentido, estava dizendo, para usar uma expressão vulgar à Era da Razão, “como ela poderia se safar”.
A concepção de uma ordem trans-histórica pode ser descrita como o conceito fundamental do Neorrosacrucianismo e a sua criação representava um desenvolvimento simbólico na história dos Invisíveis. Não eram mais os discípulos “Rosa-Cruzes” que eram invisíveis, mas os seus mestres – o que não quer dizer os próprios adeptos experientes não poderiam, como a ocasião exigia, vestir o véu secreto da invisibilidade!
De acordo com a teoria superior do Neorrosacrucianismo, toda iniciação “verdadeira” provém da ordem transcendente. Portanto, qualquer ordem iniciática aprovada podia ser declarada apenas uma manifestação terrestre da ordem divina acima do espaço e do tempo. Assim que se admite essa concepção, estabelece-se o fundamento lógico por meio do qual uma ordem pode afirmar estar em “sucessão espiritual” com a Ordem Rosa-cruz, a Ordem do Templo, Jesus Cristo, os essénios, João Batista, Pitágoras, os antigos egípcios, os cátaros, os gnósticos, Apolónio de Tiana, Simão, o Mago, os maniqueístas – e por aí vai: aí está a boa-fé alojada sobre um nível inacessível (racionalmente inegável). Contra a corrosão da Era da Razão, uma dupla ou tripla demão de tinta.
Logicamente, seria apenas uma questão de tempo se começar a acreditar que os “Superiores Incógnitos” habitassem no espaço exterior. Quanto mais esquisito se fosse, mais esquisitos seriam seus Chefes Secretos. Contudo, embora algumas ordens se divertissem com as fantasias de ficção científica, a maioria preferiu a interpretação estritamente “espiritual”.
Ordens aprovadas podem afirmar terem entrado em contacto com habitantes angélicos da “Casa Invisível”. O facto de a manifestação terrestre do sagrado Santuário ser imperfeita não é importante ao argumento. Os Mestres conhecem bem as fraquezas da humanidade, pois vieram para corrigi-las.
A Casa “Invisível” tem, certamente, “Guardiões Invisíveis”, “Superiores Incógnitos”, “Chefes Secretos”, cujo trabalho é de tamanha abrangência multidimensional de complexidade extraordinária a ponto de, sinceramente, estar além do entendimento da pobre humanidade ignorante. Nós, pobres almas não regeneradas que somos, coitados que mal conseguimos ficar em pé numa postura que relembre o homo sapiens, só podemos vislumbrar, ter flashes da Grande Obra em andamento, a Grande Missão da alquimia cósmica da qual somos – se tivermos sorte – meramente os instrumentos temporais, a serem descartados após o uso, em bênção ou esquecimento, dependendo da nossa conformação, ou não, aos ditames dos mestres.
Deste modo, também é uma certeza lógica o facto de a seguinte passagem do recém-descoberto Evangelho de Judas ser empregada (se já não é) como exemplo da “Casa Invisível”, vislumbrada por membros privilegiados do movimento gnóstico dos séculos II e III, e que os “ortodoxos” não conseguiam, ou conseguem, ver:
“Nenhuma pessoa de nascimento mortal é merecedora de entrar na casa que viste, pois aquele lugar está reservado para o sagrado. Nem o sol nem a lua lá regerão, nem o dia, mas o sagrado habitará para sempre lá, no reino eterno com os anjos sagrados.”
A própria concepção apareceria (trans-historicamente?) na obra bastante influente de Karl von Eckartshausen, Die Wolke über dem Heiligthum,1802 [“A Nuvem sobre o Santuário”], sobre uma Igreja transcendente de adeptos espirituais que guiam a evolução espiritual da humanidade. É a este organismo que Aleister Crowley buscou acesso definitivo quando se uniu à Ordem Hermética do Amanhecer Dourado, em 1898, e é desse suposto organismo que muitos hierofantes dos mistérios neo-rosa-cruzes reivindicam a sua autoridade, uma suposta autoridade não de “meras patentes de papel”, mas do contacto directo com os anjos. Deste modo, o Anjo Mágico de John Dee sempre será de mais interesse a essas pessoas do que os textos devocionais de Johann Valentin Andreae. Vale notar, a esse respeito, que uma das mais recentes reimpressões da obra de Eckartshausen foi feita pela Rozenkruis Pers, editora da ordem rosa-cruz holandesa, o Lectorium Rosicrucianum.
A teoria de Willermoz e Pasqually corrobora a maioria das ordens neo-rosa-cruzes e as suas ramificações e quase sempre o que derruba tais ordens é a descoberta de serem falsas as supostas ligações com os Superiores Incógnitos. Assim, quando Aleister Crowley, por exemplo, sugeriu as próprias propostas de fundar uma ordem de magia branca, depois de 1900 (quando a Ordem do Amanhecer Dourado se fragmentou), ele o fez não com base no facto de que o líder do Amanhecer não tivesse contacto algum com os “Chefes Secretos” da ordem (isto é, que eles não existiam), mas sim que o então líder da ordem, Samuel Mathers, “fracassara” nesses contactos e não mais servia aos seus propósitos. Com Mathers fora, Crowley achou que tinha garantido o próprio contacto com um “Chefe Secreto”, conforme o próprio relato, em Abril de 1904. Eu particularmente gosto muito do estudo, rituais e cerimónias da O.T.O. .
Com a chegada da ordem trans-histórica (vinculada a vários outras linhagens gnósticas, herméticas, bíblicas e cabalísticas), surgiu o Ser Adepto trans-histórico…
Wagner Veneziani Costa
